domingo, abril 22, 2012

#14 - Tiranossauro (Tyrannosaur), de Paddy Considine

No momento em que descobrimos por que o filme se chama Tiranossauro, já estamos fragilizados pela história que o diretor Paddy Considine escreveu. Ainda assim, é um choque, um soco no estômago. Taí um belo exemplar do cinema inglês, que sabe usar o clima sombrio e o cenário monocromático dos subúrbios menos favorecidos pela realeza.

O roteiro conta a história de um homem agressivo e em decadência - social e mental. Solitário, sem um sentido para continuar a viver, ele acaba conhecendo uma moça generosa, devota e cristã, que cuida de um brechó. Ao abrir a porta de seu estabelecimento, ela favorece um encontro que muda radicalmente a vida dos dois, transformando a maneira como encaram a vida e seus percalços.

A atuação do casal protagonista, Peter Mullan e Olivia Colman, é soberba! Apesar do argumento ser pesado e denso, o filme é conduzido com bastante sensibilidade. Culmina num final realmente chocante, mas que não abre mão de um certo lirismo.

Vale o confere!

#13 - A separação (Jodaeiye Nader az Simin), de Asghar Farhadi

Há um tempo o cinema iraniano deixou de ser matéria para fabricar o clichê do cinéfilo chato, intelectualóide e pedante. Outrora repleto de simbolismo e se apoiando em argumentos que apostavam no estranhamento do olhar ocidental, alguns diretores da terra dos tapetes mais famosos do mundo andaram mudando isso. Asghar Farhadi é um deles. Responsável pelo espetacular Procurando Elly, chamou a atenção dos principais festivais com mais um ótimo trabalho que dá frescor e autenticidade à produção cinematográfica do Irã, A separação.

Apostando numa narrativa contemporânea, com personagens plausíveis em cenários realistas, o roteiro conta a história de um casal à beira do divórcio. Com uma filha em idade escolar e um pai doente, Nader se vê obrigado a contratar uma acompanhante. Um incidente aparentemente simples acaba tomando proporções consideráveis, misturando religião, moral, valores e justiça.

A direção de Farhadi é fantástica. Prende o espectador do início ao fim, com uma simplicidade espantosamente natural. O elenco é de se tirar o chapéu, com atuações inspiradas e emocionantes. O último quadro do filme, uma obra-prima em tempo real, é dolorosamente lento e angustiante - de uma forma tão ordinária, que de certa forma faz referência a cineastas mais antigos, simbolistas, como Abbas Kiarostami e Jafar Panahi. A única deficiência do roteiro é tentar dar um desfecho verbal antes da tal cena final.

A partir de agora, você pode falar que gosta de cinema iraniano sem soar pedante.

#12 - A fantástica fábrica de chocolate (Willy Wonka & the Chocolate Factory), de Mel Stuart

Eu tenho feito uma coisa com a minha filha que tem dado certo - meu pai fez isso quando eu era criança e funcionou comigo também. Brinquedos, ela só ganha em datas comemorativas. Livros, quando quiser. Quantos quiser. A vontade que ela tem de aprender a ler já é enorme. Há um tempo, venho lendo histórias mais longas para ela, antes de dormir. Uma dessas foi A fantástica fábrica de Chocolate, de Roald Dahl, que, ao contrário do que muita gente pensa, é um livro para crianças, sem quaisquer referências diabólicas ou maquiavélicas.

Cada noite, um capítulo. E assim foram 25 noites, em torno de 150 páginas, com ela imaginando todas as coisas que eu lia. No primeiro capítulo, ela pedia para ver alguma figura. Não tinha. Eu dizia que ela teria que imaginar. E deu certo.

No entanto, faz parte do ritual, após a leitura imaginativa, contemplá-la com a versão cinematográfica do que foi ouvido sempre com atenção. Aqui, preferi a versão de 1971 a de Tim Burton, pois a avalanche estética do segundo passaria, ao meu ver, despercebida aos olhos de uma criança de quatro anos.

Foi muito gostoso ver o filme com ela. Lembrou de todas as passagens, reconheceu todas as crianças, elegeu a sua favorita - Violeta Chataclete, que mastiga o mesmo chiclete durante meses e que acaba virando uma amora gigante - e vibrou com o desfecho, quando Charlie passa a ser o herdeiro do Sr. Wonka.

A prova de que esse é um bom filme é o fato de ser atemporal. Belo trabalho de Gene Wilder, ótima trilha sonora, cenários estonteantes para a época e uma lição que é dada não didaticamente, e sim indiretamente, à medida em que as crianças, sem muitas explicações, vão sumindo do filme.

Nota: prefiro o do Tim Burton.