sábado, março 17, 2012

#8 - Habemus Papam, de Nanni Moretti


Há um bom tempo, Nanni Moretti abandonou a verborragia de seus trabalhos anteriores, como Caro diário e Aprile. Porém, sempre exercitando um cinema engajado, nunca perdeu a contundência do discurso - nem o bom humor com o qual, habitualmente, trata seus argumentos. Moretti exerce o ofício daqueles que cuidam do filme como um todo: escreve, produz, dirige e atua. Em Habemus Papam, mais uma vez, o cineasta italiano consegue realizar um drama humanista, sem deixar de lado seu posicionamento político. Façanha para poucos.

O roteiro conta a história de um clérigo recém-alçado a Papa. Após o conclave, prestes a fazer o discurso para milhares de fiéis na Praça de São Pedro, no Vaticano, é acometido por um surto de ansiedade. Acoado, o porta-voz da igreja resolve chamar o melhor psiquiatra da Itália - o próprio Moretti - para tentar reverter o quadro e, assim, apresentar o novo sumo pontífice ao mundo católico. Logo, a psicanálise precisa conviver com os dogmas religiosos, por mais antagônicos que sejam.

O bacana de Habemus Papam é que Moretti tenta, além de apresentar o mundo à parte no qual vivem cardeais e arcebispos, humanizar a figura de um líder que representa a personificação de preceitos éticos e morais - alguém que, por obrigação laboral, não pode duvidar da existência de seu deus. Ao optar por esse tipo de abordagem, Moretti consegue dar uma leveza singular ao seu filme. Há sequências divertidíssimas - como o torneio de vôlei que promove entre os membros do conclave -, mas que não atropelam a dramaticidade e a singeleza com as quais o tema central, a saber, a crise existencial de um líder religioso, é tratado.

A parte técnica também impressiona. Habemus Papam é extremamente bem produzido, com fotografia caprichada, direção de arte redonda e figurino beirando a perfeição. As cores, predominantemente o branco e o vermelho, enchem os olhos. Outro destaque é a interpretação inspirada de Michel Piccoli como o Papa, emocionante e irretocável. De quebra, um desfecho espetacular que evoca um quadro sacro.

Excelente!

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