terça-feira, março 27, 2012

#11 - Tomboy, de Céline Sciamma

Em tempos de Bolsonaro incitando o ódio - o que é bem diferente de exercer a liberdade de expressão - aos homossexuais, foi uma pena que Tomboy tenha passado despercebido no circuito. Escrito e dirigido por Céline Sciamma, o filme é um registro sincero, doído e emotivo não somente sobre a orientação sexual, mas também sobre o surgimento do desejo e as demandas psicológicas que vêm de carona.

O filme conta a história de Laure, uma menina de 10 anos, primogênita em uma família de classe média francesa, que muda de cidade durante as férias. No novo prédio, ela conhece garotos e garotas da sua idade, e se apresenta a eles como Michael, um menino. Com uma vizinha, ela acaba estabelecendo laços mais estreitos, e precisa se desdobrar para que a irmã mais nova não conte sobre sua dupla identidade para os pais - e que ninguém no prédio descubra o seu segredo.

O tema é complexo e dá margens ao exagero. No entanto, Sciamma dá leveza ao seu filme, dirigindo com segurança seus atores mirins e deixando com que o argumento flua sem didatismo ou panfletismo. É, no fim das contas, simplesmente uma história sobre amor e amizade. Simples assim.

domingo, março 18, 2012

#10 - A lady e o lobo - o bicho tá solto (Alpha and Omega), de Anthony Bell e Ben Gluck


É difícil acreditar que o estúdio Crest, responsável pela animação A lady e o lobo - o bicho tá solto, acreditou que seus personagens fossem gerar alguma empatia com o público infantil. Ora, qualquer criança sabe que lobos têm mais apelo como vilões. Aqui, eles são as vítimas. E o espectador, também: vitimado pela monotonia.

O roteiro, bastante fraco, conta a história do amor impossível entre Kate, uma loba treinada para ser a alfa de sua alcateia (e aí fica difícil compreender porque os sujeitos que deram o título em português a chamaram de Lady), e Humphrey, um ômega, ou seja, mero coadjuvante do bando. Certo dia, os dois são alvejados por humanos e levados para fora da reserva em que moram. Precisam, juntos, achar uma maneira de voltar para casa.

Tecnicamente, o filme não traz qualquer novidade estética. É mais do mesmo. Também não capricha na caracterização dos personagens. Não há elemento algum que se destaque e faça com que A lady e o lobo - o bicho tá solto seja uma boa opção para as férias da criançada.

Poderia pesar positivamente o fato de ser o último filme do mestre Dennis Hopper, que empresta a sua voz a um dos líderes da alcateia. Porém, isso pouco adianta, uma vez que quem leva crianças ao cinema tem que optar por assistir a uma cópia dublada.

#9 - A tentação (The ledge), de Matthew Chapman


O diretor Matthew Chapman, que também assina o roteiro de A tentação (por sinal, péssima tradução para o título original, The ledge, que quer dizer “peitoril”), encampou uma cruzada para promover seu filme. Criou um website onde é possível entrar em contato com os atores e promover debates acerca do ponto focal do argumento, o ateísmo.

O bom roteiro conta a história de Gavin (Charlie Hunnam), um homem que está prestes a cometer suicídio se jogando do alto de um prédio. O detetive Hollis (Terrence Howard, em atuação primorosa como coadjuvante) é recrutado para tentar demovê-lo da ideia. Durante o diálogo, os dois passam a se conhecer melhor e até mesmo a dividir seus problemas. Gavin conta o se que passou até que chegasse ao ponto de colocar a própria vida em xeque, enquanto Hollis precisa atender o celular, interrompendo as negociações para resolver uma questão familiar espinhosa.

A trama gira em torno da relação entre Gavin, ateu, com o novo casal de vizinhos, evangélicos. Os diálogos entre os personagens são, na verdade, embates ideológicos. A atuação de Hunnam, abaixo do resto do elenco, enfraquece um pouco as sequências argumentativas cujo discurso precisa ser mais contundente. Patrick Wilson, no papel do antagonista, um religioso ortodoxo, o deixa no chinelo. Liv Tyler, sempre homogênea, cumpre bem seu papel de maria-coitada.

O filme tem um tom de suspense crescente bem arquitetado, principalmente nos minutos finais. O desfecho é bastante intenso e cumpre a promessa de deixar a questão dos limites da fé pairando no ar. A cena exatamente antes dos créditos finais é comovente sem ser piegas. Talvez se o protagonista, porta-voz do argumento, fosse um ator mais experiente, o filme tivesse vigor para se tornar um manifesto ateísta. Não tem força para isso, mas ainda assim é uma boa história, muito bem contada e fundamentada.

sábado, março 17, 2012

#8 - Habemus Papam, de Nanni Moretti


Há um bom tempo, Nanni Moretti abandonou a verborragia de seus trabalhos anteriores, como Caro diário e Aprile. Porém, sempre exercitando um cinema engajado, nunca perdeu a contundência do discurso - nem o bom humor com o qual, habitualmente, trata seus argumentos. Moretti exerce o ofício daqueles que cuidam do filme como um todo: escreve, produz, dirige e atua. Em Habemus Papam, mais uma vez, o cineasta italiano consegue realizar um drama humanista, sem deixar de lado seu posicionamento político. Façanha para poucos.

O roteiro conta a história de um clérigo recém-alçado a Papa. Após o conclave, prestes a fazer o discurso para milhares de fiéis na Praça de São Pedro, no Vaticano, é acometido por um surto de ansiedade. Acoado, o porta-voz da igreja resolve chamar o melhor psiquiatra da Itália - o próprio Moretti - para tentar reverter o quadro e, assim, apresentar o novo sumo pontífice ao mundo católico. Logo, a psicanálise precisa conviver com os dogmas religiosos, por mais antagônicos que sejam.

O bacana de Habemus Papam é que Moretti tenta, além de apresentar o mundo à parte no qual vivem cardeais e arcebispos, humanizar a figura de um líder que representa a personificação de preceitos éticos e morais - alguém que, por obrigação laboral, não pode duvidar da existência de seu deus. Ao optar por esse tipo de abordagem, Moretti consegue dar uma leveza singular ao seu filme. Há sequências divertidíssimas - como o torneio de vôlei que promove entre os membros do conclave -, mas que não atropelam a dramaticidade e a singeleza com as quais o tema central, a saber, a crise existencial de um líder religioso, é tratado.

A parte técnica também impressiona. Habemus Papam é extremamente bem produzido, com fotografia caprichada, direção de arte redonda e figurino beirando a perfeição. As cores, predominantemente o branco e o vermelho, enchem os olhos. Outro destaque é a interpretação inspirada de Michel Piccoli como o Papa, emocionante e irretocável. De quebra, um desfecho espetacular que evoca um quadro sacro.

Excelente!

terça-feira, março 06, 2012

#7 - Os descendentes (The descendants), de Alexander Payne

George Clooney é um bom ator, Alexander Payne é um bom diretor e Os descendentes é um bom filme. Poderia ser excelente, mas é bom. Todo o drama que começa com um acidente e tem, durante toda a projeção, uma pessoa em coma, já coloca um pé no precipício do melodrama romanesco, cinema de autoajuda, meramente catártico. Não é o que acontece aqui - pelo menos a maior parte do tempo.E aí, o mérito é do bom roteiro, que ajuda a manter a história interessante, distante do clichê.

Acompanhamos a rotina estressante e melancólica de Matt King (Clooney em mais um bom trabalho), um sujeito que precisa criar as duas filhas e manter as coisas no eixo enquanto sua mulher permanece em coma após um acidente no mar do Havaí, onde a história é ambientada. De repente, sua primogênita deixa escapar um segredo familiar, que muda completamente o foco da vida de King. Ele passa, então, a acertar as contas com um passado desconhecido e com uma mulher que não pode ser confrontada.

Outra coisa que muda é o foco do roteiro. A história do acidente é rapidamente deixada de lado para que o espectador também descubra, paulatinamente, a verdade. O argumento é resolvido sem sobressaltos ou exageros dramáticos. Porém, vamos combinar: quando há uma pessoa em coma num filme, é impossível não haver um momento no qual os lenços de papel serão usados pelos mais sensíveis. E é isso que acontece nos minutos finais de projeção, fazendo com que Os descendentes seja apenas mais um bom filme. Mesmo que a trilha sonora, tipicamente havaiana, não favoreça as lágrimas.