domingo, fevereiro 12, 2012

#6 - O artista (The artist), de Michel Hazanavicius

Eu conheci gente que não via filme em preto e branco. Juro que é verdade. E conheci também, acreditem, gente que não via filme em outra língua que não fosse o inglês. No entanto, O artista, um filme mudo e em preto e branco, que faz alusão a estética da década de 20, era de ouro de Hollywood, vem agradando multidões ao redor do mundo. A celeuma não é somente positiva. Há também relatos de gente que pede o dinheiro de volta quando descobre, já dentro da sala de projeção, que se trata de um filme em preto e branco e mudo. Aquelas pessoas que conheci, provavelmente, também pediriam seus niqueis de volta.

Porém, uma coisa me chama a atenção: numa era em que a mentalidade do fast food inunda todos os setores sociais, incluindo o entretenimento e sua indústria cinematográfica, é de se espantar que O artista seja o queridinho de tanta gente. Ao redor do mundo, ele vai acumulando prêmios e mais prêmios. É o grande favorito para levar aquela estatueta estadunidense. Melhor Filme - uma produção francesa. Estranho, né? Nem é. É mero saudosismo de uma época em que Hollywood ainda era inventiva. Uma época onde era preciso, pelas limitações técnicas, ser criativo. O artista é um cafuné na cabecinha dos membros da Academia.

Criativo foi também o diretor Michel Hazanavicius, que percebeu o mote da escassez de ousadia hollywoodiana e arriscou o traseiro lançando um filme assim. Ousado é fazer com que a massa acredite estar vivenciando uma experiência cinematográfica diferente. Ora bolas, O artista é cinema na sua mais pura condição. Não deveria causar estranheza nenhuma assistir a uma película muda e em preto e branco. E não há nada de transgressor no sentido estético: muitos cineastas continuam fotografando suas histórias em preto e branco. Centenas de roteiristas continuam dando mais valor à ação do que ao diálogo. A transgressão é apenas comercial.

Vamos falar sobre o filme? É a história de um ator do cinema mudo que se vê à beira da miséria quando o cinema falado se torna uma realidade - argumento que Cantando na chuva, lé em 1952, já havia trabalhado de forma extraordinária. Desacreditado, ele busca um lugar ao sol, ajudado por uma moça que passa de figurante à estrela da companhia. Jean Dujardin está ótimo como o protagonista, com uma perfeita pantomima dos atores da época. A sorridente e espevitada Bérénice Bejo também dá conta do recado, facilitando a empatia do público com sua personagem, exatamente como as estrelas de Hollywood faziam à época.

Um filme simpático, com um desfecho bacana. Só isso.

2 comentários:

Kamila disse...

Poxa, pelo seu texto, pensava que você tinha achado um filme sensacional. Essa frase final foi um tanto anticlimática! rsrsrs

Eu quero muito assistir "O Artista". Espero que estreie logo na minha cidade.

Beijos!

Rafael Carvalho disse...

O filme é mesmo uma delícia, Dudu. O melhor é como o Hazanavicius utiliza tão inteligentemente os recursos do cinema daquela época pra compor o longa. E tudo é muito adorável, bem filmado, bem produzido e atuado, nostalgico, saudosista. A cena do pesadelo sonoro é genial.