sexta-feira, fevereiro 10, 2012

#5 - Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin), de Lynne Ramsay

Precisamos falar sobre esse filme. Até mesmo porque, logo após os créditos finais, não é incomum que o espectador fique mudo, sem palavras, estarrecido. Aconteceu comigo. Com um roteiro de tirar o fôlego, baseado num romance epistolar no qual uma mãe escreve para o pai de seu filho na tentativa de compreender um ato de barbárie do primogênito que geraram, Precisamos falar sobre o Kevin é um daqueles filmes que nos remove, à base de socos no estômago, da zona de conforto. E se por um lado o argumento é desconcertante, principalmente nos 15 minutos finais, a montagem é estonteante.

A narrativa começa no presente, com a mãe de Kevin sendo hostilizada pela vizinhança. Caindo aos pedaços, viciada em remédios e com sérios problemas de socialização, ela tenta retomar a rotina limpando a casa, vandalizada, e procurando um emprego. A ação parte do ponto em que seu filho, adolescente, já está preso por ter entrado no colégio e alvejado indiscriminadamente seus colegas. Através de voltas no tempo, de forma completamente aleatória, observamos todos os momentos que antecedem a tragédia: do casamento, passando pela depressão pós-parto, até os conflitos edipianos entre uma mãe insegura e um filho desafiador.

O mais interessante é que a direção de Lynne Ramsay faz com que a história, mesmo sendo retalhada, ganhe uma coesão assustadora. As cenas são meras sequências sem encadeamento temporal. Os diálogos não seguem o padrão pergunta-resposta-réplica. As palavras ficam soltas, e os termos mais importantes se sobressaem. O que precisa ser dito, economicamente é dito. Aí, entra a direção de atores, que arranca atuações inspiradas e dedicadas de todo o elenco. A caracterização de Tilda Swinton, apesar de sempre fazer o papel de moça em crise, beira a perfeição - era mesmo a escolha perfeita para a mãe. Os três atores que interpretam Kevin (bebê, criança e adolescente) estão absurdamente em harmonia dramática, tanto corporal quanto emocional.

A vontade que dá, ao término da projeção, é de comprar o livro - uma vez que o roteiro não segue a estrutura narrativa que o autor do original adotou. É provável que as letras causem maior impacto, principalmente na descrição do momento em que a mãe confronta o filho em uma visita à penitenciária (calma, nem é spoiler, já que o filme começa assim).

Um filmaço!

3 comentários:

renatocinema disse...

Amigo vou te falar: tinha lido bons comentários sobre esse filme. Mas, o seu texto foi mais rico para eu entender o quanto ele é obrigatório.

Maria disse...

Que bom ler isso. Eu tava meio pé atrás com esse filme, mesmo já sabendo que ia vê-lo (ainda não estreou aqui). Li o livro há um tempo atrás e não sei se gostei muito mas isso com certeza tem a ver com o fato de ser um livro epistolar, que eu acho um saco.

Mas quando vi que era a Tilda que faz a mãe do Kevin, já simpatizei mais. E agora eu tô curiosa.

Se você quiser, eu mando o livro pra você (endereço por DM, fazfavô).

Anônimo disse...

tenho evitado o soco no estômago! mas suas palavras me conveceram. vou assistir. bjs jovem