terça-feira, julho 31, 2012

#20 - Na estrada (On the road), de Walter Salles


Walter Salles se tornou um diretor internacional. Tem orçamento farto, elenco de famosos, equipamento de primeira etc. Que o sujeito domina a arte cinematográfica, não restava dúvida. Porém, confesso, tinha uma certa curiosidade para ver como o brasileiro lidaria com o star system - o de verdade, à vera, pois Água Negra não conta - hollywoodiano, filmando um clássico da literatura estadunidense. Sua adaptação para On the road, o romance beat que influenciou boa parte da cultura dos Estados Unidos na década de 60 e 70 (apesar de ter sido lançado em 1957) tem erros e acertos. Mais acertos, diga-se de passagem.

Pouca gente sabe, mas Jack Kerouac não era um narcótico niilista e insano. Ok, escrevia sob efeito de substâncias psicotrópicas, mas era um rapaz tímido e introvertido. Portanto, seu livro é muito mais sobre uma narrativa caótica do que sobre uma vida caótica - levando-se em conta que On the road é quase que uma biografia do autor, com passagens e fatos que marcaram sua própria vida. Ou seja, Na estrada não é um road movie a 100 quilômetros por hora. E, nisso, Salles tira uma nota 10 com louvor.

Além disso, fotografia, direção de arte, montagem e, principalmente, trilha sonora, são espetaculares. A caracterização de Sal Paradise, pelo jovem Sam Riley, é esplêndida. Já os outros atores não rendem tanto assim. E aí, talvez, tenha faltado pulso de Salles para lidar com um elenco pouco acostumado a ser dirigido por alguém que consegue extrair mais conteúdo dramático do gesto do que simplesmente da imagem. Por isso, Kristen Stewart e Viggo Mortensen, icônicos, que interpretam dois personagens fundamentais à trama, fazem um trabalho pífio e comprometedor.

Apesar disso, é um bom filme. Imperdível para quem conhece autor e obra. Inspirador para quem não os conhece.

terça-feira, julho 10, 2012

#19 - God bless America, de Bobcat Goldthwait

Filmes catárticos costumam fazer sucesso com um determinado segmento social. A saber, daqueles que gostariam de cometer certas atrocidades, mas que são instantaneamente bloqueados pela condição moral e ética que lhes é peculiar - e que têm em seus aguçados sensos cívicos os culpados por esse sentimento nada nobre, uma vez que os mesmos deixam transbordar a incompatibilidade social com seu meio, selvagem, próximo à barbárie. Ou seja, porra, a gente faz tudo certo e aí vem um escroto que não tá nem aí para o bom convívio e estraga tudo. 

Quem nunca quis zunir um daqueles celulares que tocam funk no ônibus? Ou quebrar a perna de quem para na vaga de deficiente físico sem o ser? Ou de defecar na porta do vizinho que faz obra domingo de manhã? Joel Murray, personagem principal de God bless America, vai um pouco mais longe: ele mata quem é escroto. Tudo começa quando ele percebe como as pessoas ao seu redor são estúpidas, indelicadas e mal educadas. Sem emprego, sem mulher e sem o carinho da filha adolescente, ele vai percebendo como a sociedade estadunidense é oca - o que é aplicável à sociedade contemporânea como um todo. Em meio a reality shows, propagandas mentirosas e bizarrices internéticas, ele decide fazer justiça com as próprias mãos. Une-se a ele uma adolescente problemática, porém bastante entusiasmada, que o ajuda na função de eliminar a escrotidão das ruas dos Estados Unidos.

O filme começa com bastante violência. É intenso, forte e até ofensivo, sem perder o tom de comédia. O sarcasmo está nos diálogos e na forma como a dupla elimina os escrotos. É catártico, divertido, inusitado. Porém, lá pelos minutos finais, a maionese dá uma desandada. O que era para ser uma brincadeira, acaba ganhando um contorno dramático estranho. A segunda metade do filme é enfadonha. E o desfecho é patético!

O roteiro de God bless America começa a 220 km por hora, avançando sinal e barbarizando pardais eletrônicos. No entanto, acaba a 60 km por hora, respeitando toda as leis de trânsito. Se o intuito era a catarse pelo viés do exagero, isso é um erro crasso.

Pelo menos os 30 minutos iniciais de projeção são bem bacanas, o que faz valer o confere.

sábado, julho 07, 2012

#18 - My kid could paint that, de Amir Bar-Lev

O momento de assistir a My kid could paint that, documentário sobre uma menina estadunidense de 4 anos que pinta quadros abstratos avaliados em mais de 10 mil dólares, não podia ser mais propício. Semana passada, o site do jornal inglês The Guardian publicou uma matéria sobre um menino indiano de apenas 5 anos que pinta quadros - abstratos, logicamente - e vem sendo chamado de Garoto Picasso. Obviamente, a história gerou desconfiança no meio artístico. Alguns comparam o talento do menino com o artista que é mais combatido pelo esquadrão de pessoas que adoram emitir a frase que dá título ao documentário:  Jackson Pollock.

No filme de  Amir Bar-Lev, a personagem principal é a pequena Marla Olmstead. Apoiada pelos pais, que se mostram surpresos com o desenrolar da história, a miniartista ganha mostras individuais, vende seus trabalhos a colecionadores, dá entrevistas na TV e ainda arruma tempo para brincar com o irmão mais novo. O diretor, com uma câmera na mão, entra na intimidade da família Olmstead depois que uma reportagem do famoso programa 60 Minutes, equivalente a um Globo Repórter de lá, só que de cunho mais investigativo, capta uma imagem do pai de Marla, um ex-pintor fracassado, dando alguns "retoques" na tela da filha.

Especialistas entram em cena para mostrar a diferença entre um quadro de temática adulta e outro de temática infantil. A família se abate, e tenta provar aos curadores e investidores que a filha é realmente um gênio das tintas. Bar-Lev, com a sorte que todo o cinedocumentarista precisa, está sempre no lugar certo, na hora certa. Sem fazer um julgamento sobre o valor da obra de arte, o que caberia em seu argumento, ele apenas capta os fatos e escuta a todos que se propõem a falar: a jornalista que escreveu sobre Marla, o merchand da família, os colecionadores, os donos de galerias e os professores de História da Arte.

No entanto, ao final da projeção, o diretor deixa claro que o seu objetivo com o filme é fazer com que as pessoas pensem duas vezes antes de dizer que até uma criança faria uma obra de arte valorosa. Mostra que também é preciso repensar a arte enquanto produto mercantil, o que acaba esvaziando seu valor de fruição.

Eu vou um pouco mais longe no assunto, já que o blog é meu. rs! Na minha opinião, é preciso ter sensibilidade, dar tempo aos olhos quando se está diante de algo que é fruto de uma expressão individual, pois o valor que ela adquire quando atinge o espectador é incalculável. Crianças expõem seus sentimentos de uma forma completamente diferente. Digo isso porque tenho uma em casa.

Nas minhas passagens por museus, os mais famosos do mundo, visitados por milhões de turistas, vi incontáveis vezes pessoas tirando fotos de quadros belíssimos com a câmera do celular. Fotos que não deviam ter mais do que 3 megapixels de resolução. Paravam na frente da obra, tiravam a foto e cinco segundos depois já estavam diante do quadro ao lado. Ao invés de privilegiarem a memória física, aproveitando o momento de estar diante de uma verdadeira obra de arte, privilegiavam a memória digital. O registro que fica é só imagético, sem qualquer lastro de registro emocional.

E tudo isso para dizer que é esse tipo de gente - que guarda um Van Gogh, de pinceladas fortes, texturas intensas e cores vibrantes na memória de um celular barato - que diz que os quadros de Miró, por exemplo, até uma criança faria.

#17 - Valhalla Rising, de Nicolas Winding Refn

Depois de fazer barulho em festivais internacionais com o ótimo Bronson e levar para casa uma estatueta com o irretocável Drive, Nicolas Winding Refn colocou seu nome sob os holofotes. Dono de um estilo próprio, o diretor dinamarquês já tinha o domínio da técnica cinematográfica desde os seus primeiros trabalhos. O longa Valhalla Rising é de 2009, período entre os dois tais filmes supracitados que ganharam notoriedade internacional. No entanto, sabe-se lá por quê, é um filme que acabou subestimado, deixado de lado. E é, também, vejam só, o preferido do próprio Refn.

O roteiro é um primor! Com apenas 120 linhas de texto, ambientado no ano 1000, conta a história de um misterioso guerreiro que é feito prisioneiro por um grupo de pagãos - talvez os vikings, dado o título do filme (Valhalla era a cidade para onde os honrados guerreiros vikings iam após morrerem em combate) e algumas semelhanças entre o protagonista e Odin. Chamado de One Eye, uma vez que possui apenas o olho direito (de acordo com a mitologia nórdica, Odin se sacrifica furando seu próprio olho), o prisioneiro silencioso, que não emite uma palavra sequer, consegue escapar e acaba encontrando guerreiros cristãos. Convencido a embarcar com eles, parte rumo a uma dita terra santa, cheia de riquezas, onde precisará lutar em nome do deus cristão. Porém, o barco é encoberto por um inexplicável nevoeiro, e vai parar em um lugar bastante esquisito.

Esqueça tudo o que você já viu sobre filmes de duelos medievais. Valhalla Rising é absurdamente superior a tudo o que já foi filmado até hoje sobre o tema. Inclusive, mais violento também. Há cenas bastante intensas ao longo da projeção. A fotografia é maravilhosa, a trilha sonora é assustadora, a direção de atores é primorosa e o roteiro é absolutamente coeso. A história é dividida em seis capítulos, numa espécie de epopeia: Vingança, Guerreiro Silencioso, Homens de Deus, Terra Sagrada, Inferno e Sacrifício. De forma sutil, Refn demonstra como a religião é capaz de sobrepujar o instinto humano.

Um filmaço! Para quem exige um pouco mais do que ação e aventura de filmes sobre civilizações antigas.

#16 - Um verão escaldante (Un été brûlant), de Philippe Garrel

Muita gente torce o nariz para os filmes de Philippe Garrel. São produções densas e lentas, sem fórmulas narrativas convencionais, atemporais, nas quais há um assunto que é desmembrado aos poucos. Ou seja, traduzindo - ou melhor, usando a linguagem burra - é filme cabeça. Quem tem paciência no olhar e dá tempo à imagem para que ela se desvele, acaba curtindo os filmes de Garrel. No entanto, desta vez ele deu uma escorregada. De leve, mas escorregou. Um verão escaldante, seu novo trabalho, tem o charme de seus longas anteriores, mas o tal assunto não é lá tão interessante.

Culpa do argumento, fraco e ordinário. O roteiro conta a história de um rapaz que sonha fazer carreira no cinema. Certo dia, é convidado a passar um tempo com a noiva na casa de um amigo em Roma - trata-se de um jovem e problemático pintor casado com uma veterana atriz de cinema. O casal recém-chegado acaba participando das discussões e infortúnios dos anfitriões, que estão em meio a uma crise matrimonial.

Pouca coisa realmente interessante acontece ao longo da projeção. E, por incrível que pareça, ainda mais quando o filme é de Philippe Garrel, a linguagem cinematográfica é minimamente explorada em sua totalidade criativa. Fica uma coisa meio rasa, desinteressante. Vale, sim, por Monica Bellucci, que sempre acumula predicados: atriz competente, beirando os 50 anos, ainda dona de uma beleza estonteante. Louis Garrel, figurinha fácil nos filmes do pai e nas produções independentes francesas mais atuais, pouco faz.

Está mais para verão nublado do que escaldante. Mas é um verão nublado francês. Então, até que vale a pena...

domingo, julho 01, 2012

#15 - Highwater, de Dana Brown

Dana Brown aprendeu as lições com o pai: como ficar de pé numa prancha e como fazer um filme de surfe bacana. Highwater é de 2009, mas nunca chegou a praias brasileiras. O filme mostra tudo o que se passa por trás da Tríplice Coroa havaiana - para quem não sabe, a maior honraria que um surfista pode receber após sagrar-se campeão em três das mais complicadas competições do circuito. Indo um pouco além das sessions, que todo o filme de surfe tem que ter, Dana mostra os bastidores, as histórias, as curiosidades e as peraltices dos homens que enfrentam as mais temidas ondas do mundo.

Você vai ver os craques do surfe falando sobre o estilo de vida que as ondas proporcionam. Mais ainda, sobre a qualidade de vida inigualável que o surfe proporciona. E vai amaldiçoar o seu trabalho burocrático com todas as forças. Vai lamentar estar envolvido na teia mercantilista, trabalhando para pagar as contas que o seu próprio desejo consumista emite - sempre com data de vencimento. E vai lamentar ficar diariamente preso no trânsito por malditas três horas - ou mais - dentro do carro que lhe consome o tal dinheiro que você ganha trabalhando, pois é preciso pagar combustível, seguro, manutenção e, se você for daqueles que ama um crediário, as parcelas a vencer.

Por isso, Highwater cumpre seu papel de filme de surfe com perfeição e maestria: mostra como levamos, conscientemente, uma vida covarde e monótona. Ou seja, um ótimo filme!

Perdi a conta...

Mas não perdi a vontade de escrever. Tem sido um ano cheio, com muita coisa acontecendo. E cadê o tempo para resenhar? Pior: cadê o tempo para ir ao cinema? Também parei de escrever para o Jornal do Brasil. Foram anos bacanas, principalmente porque eu tive o prazer de pegar a época do jornal impresso, na Revista Programa. Obrigado Racca, Julia, Ulisses, Marco Antonio...

Isso posto, a contagem vai ficar defasada mesmo. Pode ser que eu esqueça um filme ou outro - o negócio que vale é a retomada. Bora lá?

domingo, abril 22, 2012

#14 - Tiranossauro (Tyrannosaur), de Paddy Considine

No momento em que descobrimos por que o filme se chama Tiranossauro, já estamos fragilizados pela história que o diretor Paddy Considine escreveu. Ainda assim, é um choque, um soco no estômago. Taí um belo exemplar do cinema inglês, que sabe usar o clima sombrio e o cenário monocromático dos subúrbios menos favorecidos pela realeza.

O roteiro conta a história de um homem agressivo e em decadência - social e mental. Solitário, sem um sentido para continuar a viver, ele acaba conhecendo uma moça generosa, devota e cristã, que cuida de um brechó. Ao abrir a porta de seu estabelecimento, ela favorece um encontro que muda radicalmente a vida dos dois, transformando a maneira como encaram a vida e seus percalços.

A atuação do casal protagonista, Peter Mullan e Olivia Colman, é soberba! Apesar do argumento ser pesado e denso, o filme é conduzido com bastante sensibilidade. Culmina num final realmente chocante, mas que não abre mão de um certo lirismo.

Vale o confere!

#13 - A separação (Jodaeiye Nader az Simin), de Asghar Farhadi

Há um tempo o cinema iraniano deixou de ser matéria para fabricar o clichê do cinéfilo chato, intelectualóide e pedante. Outrora repleto de simbolismo e se apoiando em argumentos que apostavam no estranhamento do olhar ocidental, alguns diretores da terra dos tapetes mais famosos do mundo andaram mudando isso. Asghar Farhadi é um deles. Responsável pelo espetacular Procurando Elly, chamou a atenção dos principais festivais com mais um ótimo trabalho que dá frescor e autenticidade à produção cinematográfica do Irã, A separação.

Apostando numa narrativa contemporânea, com personagens plausíveis em cenários realistas, o roteiro conta a história de um casal à beira do divórcio. Com uma filha em idade escolar e um pai doente, Nader se vê obrigado a contratar uma acompanhante. Um incidente aparentemente simples acaba tomando proporções consideráveis, misturando religião, moral, valores e justiça.

A direção de Farhadi é fantástica. Prende o espectador do início ao fim, com uma simplicidade espantosamente natural. O elenco é de se tirar o chapéu, com atuações inspiradas e emocionantes. O último quadro do filme, uma obra-prima em tempo real, é dolorosamente lento e angustiante - de uma forma tão ordinária, que de certa forma faz referência a cineastas mais antigos, simbolistas, como Abbas Kiarostami e Jafar Panahi. A única deficiência do roteiro é tentar dar um desfecho verbal antes da tal cena final.

A partir de agora, você pode falar que gosta de cinema iraniano sem soar pedante.

#12 - A fantástica fábrica de chocolate (Willy Wonka & the Chocolate Factory), de Mel Stuart

Eu tenho feito uma coisa com a minha filha que tem dado certo - meu pai fez isso quando eu era criança e funcionou comigo também. Brinquedos, ela só ganha em datas comemorativas. Livros, quando quiser. Quantos quiser. A vontade que ela tem de aprender a ler já é enorme. Há um tempo, venho lendo histórias mais longas para ela, antes de dormir. Uma dessas foi A fantástica fábrica de Chocolate, de Roald Dahl, que, ao contrário do que muita gente pensa, é um livro para crianças, sem quaisquer referências diabólicas ou maquiavélicas.

Cada noite, um capítulo. E assim foram 25 noites, em torno de 150 páginas, com ela imaginando todas as coisas que eu lia. No primeiro capítulo, ela pedia para ver alguma figura. Não tinha. Eu dizia que ela teria que imaginar. E deu certo.

No entanto, faz parte do ritual, após a leitura imaginativa, contemplá-la com a versão cinematográfica do que foi ouvido sempre com atenção. Aqui, preferi a versão de 1971 a de Tim Burton, pois a avalanche estética do segundo passaria, ao meu ver, despercebida aos olhos de uma criança de quatro anos.

Foi muito gostoso ver o filme com ela. Lembrou de todas as passagens, reconheceu todas as crianças, elegeu a sua favorita - Violeta Chataclete, que mastiga o mesmo chiclete durante meses e que acaba virando uma amora gigante - e vibrou com o desfecho, quando Charlie passa a ser o herdeiro do Sr. Wonka.

A prova de que esse é um bom filme é o fato de ser atemporal. Belo trabalho de Gene Wilder, ótima trilha sonora, cenários estonteantes para a época e uma lição que é dada não didaticamente, e sim indiretamente, à medida em que as crianças, sem muitas explicações, vão sumindo do filme.

Nota: prefiro o do Tim Burton.

terça-feira, março 27, 2012

#11 - Tomboy, de Céline Sciamma

Em tempos de Bolsonaro incitando o ódio - o que é bem diferente de exercer a liberdade de expressão - aos homossexuais, foi uma pena que Tomboy tenha passado despercebido no circuito. Escrito e dirigido por Céline Sciamma, o filme é um registro sincero, doído e emotivo não somente sobre a orientação sexual, mas também sobre o surgimento do desejo e as demandas psicológicas que vêm de carona.

O filme conta a história de Laure, uma menina de 10 anos, primogênita em uma família de classe média francesa, que muda de cidade durante as férias. No novo prédio, ela conhece garotos e garotas da sua idade, e se apresenta a eles como Michael, um menino. Com uma vizinha, ela acaba estabelecendo laços mais estreitos, e precisa se desdobrar para que a irmã mais nova não conte sobre sua dupla identidade para os pais - e que ninguém no prédio descubra o seu segredo.

O tema é complexo e dá margens ao exagero. No entanto, Sciamma dá leveza ao seu filme, dirigindo com segurança seus atores mirins e deixando com que o argumento flua sem didatismo ou panfletismo. É, no fim das contas, simplesmente uma história sobre amor e amizade. Simples assim.

domingo, março 18, 2012

#10 - A lady e o lobo - o bicho tá solto (Alpha and Omega), de Anthony Bell e Ben Gluck


É difícil acreditar que o estúdio Crest, responsável pela animação A lady e o lobo - o bicho tá solto, acreditou que seus personagens fossem gerar alguma empatia com o público infantil. Ora, qualquer criança sabe que lobos têm mais apelo como vilões. Aqui, eles são as vítimas. E o espectador, também: vitimado pela monotonia.

O roteiro, bastante fraco, conta a história do amor impossível entre Kate, uma loba treinada para ser a alfa de sua alcateia (e aí fica difícil compreender porque os sujeitos que deram o título em português a chamaram de Lady), e Humphrey, um ômega, ou seja, mero coadjuvante do bando. Certo dia, os dois são alvejados por humanos e levados para fora da reserva em que moram. Precisam, juntos, achar uma maneira de voltar para casa.

Tecnicamente, o filme não traz qualquer novidade estética. É mais do mesmo. Também não capricha na caracterização dos personagens. Não há elemento algum que se destaque e faça com que A lady e o lobo - o bicho tá solto seja uma boa opção para as férias da criançada.

Poderia pesar positivamente o fato de ser o último filme do mestre Dennis Hopper, que empresta a sua voz a um dos líderes da alcateia. Porém, isso pouco adianta, uma vez que quem leva crianças ao cinema tem que optar por assistir a uma cópia dublada.

#9 - A tentação (The ledge), de Matthew Chapman


O diretor Matthew Chapman, que também assina o roteiro de A tentação (por sinal, péssima tradução para o título original, The ledge, que quer dizer “peitoril”), encampou uma cruzada para promover seu filme. Criou um website onde é possível entrar em contato com os atores e promover debates acerca do ponto focal do argumento, o ateísmo.

O bom roteiro conta a história de Gavin (Charlie Hunnam), um homem que está prestes a cometer suicídio se jogando do alto de um prédio. O detetive Hollis (Terrence Howard, em atuação primorosa como coadjuvante) é recrutado para tentar demovê-lo da ideia. Durante o diálogo, os dois passam a se conhecer melhor e até mesmo a dividir seus problemas. Gavin conta o se que passou até que chegasse ao ponto de colocar a própria vida em xeque, enquanto Hollis precisa atender o celular, interrompendo as negociações para resolver uma questão familiar espinhosa.

A trama gira em torno da relação entre Gavin, ateu, com o novo casal de vizinhos, evangélicos. Os diálogos entre os personagens são, na verdade, embates ideológicos. A atuação de Hunnam, abaixo do resto do elenco, enfraquece um pouco as sequências argumentativas cujo discurso precisa ser mais contundente. Patrick Wilson, no papel do antagonista, um religioso ortodoxo, o deixa no chinelo. Liv Tyler, sempre homogênea, cumpre bem seu papel de maria-coitada.

O filme tem um tom de suspense crescente bem arquitetado, principalmente nos minutos finais. O desfecho é bastante intenso e cumpre a promessa de deixar a questão dos limites da fé pairando no ar. A cena exatamente antes dos créditos finais é comovente sem ser piegas. Talvez se o protagonista, porta-voz do argumento, fosse um ator mais experiente, o filme tivesse vigor para se tornar um manifesto ateísta. Não tem força para isso, mas ainda assim é uma boa história, muito bem contada e fundamentada.

sábado, março 17, 2012

#8 - Habemus Papam, de Nanni Moretti


Há um bom tempo, Nanni Moretti abandonou a verborragia de seus trabalhos anteriores, como Caro diário e Aprile. Porém, sempre exercitando um cinema engajado, nunca perdeu a contundência do discurso - nem o bom humor com o qual, habitualmente, trata seus argumentos. Moretti exerce o ofício daqueles que cuidam do filme como um todo: escreve, produz, dirige e atua. Em Habemus Papam, mais uma vez, o cineasta italiano consegue realizar um drama humanista, sem deixar de lado seu posicionamento político. Façanha para poucos.

O roteiro conta a história de um clérigo recém-alçado a Papa. Após o conclave, prestes a fazer o discurso para milhares de fiéis na Praça de São Pedro, no Vaticano, é acometido por um surto de ansiedade. Acoado, o porta-voz da igreja resolve chamar o melhor psiquiatra da Itália - o próprio Moretti - para tentar reverter o quadro e, assim, apresentar o novo sumo pontífice ao mundo católico. Logo, a psicanálise precisa conviver com os dogmas religiosos, por mais antagônicos que sejam.

O bacana de Habemus Papam é que Moretti tenta, além de apresentar o mundo à parte no qual vivem cardeais e arcebispos, humanizar a figura de um líder que representa a personificação de preceitos éticos e morais - alguém que, por obrigação laboral, não pode duvidar da existência de seu deus. Ao optar por esse tipo de abordagem, Moretti consegue dar uma leveza singular ao seu filme. Há sequências divertidíssimas - como o torneio de vôlei que promove entre os membros do conclave -, mas que não atropelam a dramaticidade e a singeleza com as quais o tema central, a saber, a crise existencial de um líder religioso, é tratado.

A parte técnica também impressiona. Habemus Papam é extremamente bem produzido, com fotografia caprichada, direção de arte redonda e figurino beirando a perfeição. As cores, predominantemente o branco e o vermelho, enchem os olhos. Outro destaque é a interpretação inspirada de Michel Piccoli como o Papa, emocionante e irretocável. De quebra, um desfecho espetacular que evoca um quadro sacro.

Excelente!

terça-feira, março 06, 2012

#7 - Os descendentes (The descendants), de Alexander Payne

George Clooney é um bom ator, Alexander Payne é um bom diretor e Os descendentes é um bom filme. Poderia ser excelente, mas é bom. Todo o drama que começa com um acidente e tem, durante toda a projeção, uma pessoa em coma, já coloca um pé no precipício do melodrama romanesco, cinema de autoajuda, meramente catártico. Não é o que acontece aqui - pelo menos a maior parte do tempo.E aí, o mérito é do bom roteiro, que ajuda a manter a história interessante, distante do clichê.

Acompanhamos a rotina estressante e melancólica de Matt King (Clooney em mais um bom trabalho), um sujeito que precisa criar as duas filhas e manter as coisas no eixo enquanto sua mulher permanece em coma após um acidente no mar do Havaí, onde a história é ambientada. De repente, sua primogênita deixa escapar um segredo familiar, que muda completamente o foco da vida de King. Ele passa, então, a acertar as contas com um passado desconhecido e com uma mulher que não pode ser confrontada.

Outra coisa que muda é o foco do roteiro. A história do acidente é rapidamente deixada de lado para que o espectador também descubra, paulatinamente, a verdade. O argumento é resolvido sem sobressaltos ou exageros dramáticos. Porém, vamos combinar: quando há uma pessoa em coma num filme, é impossível não haver um momento no qual os lenços de papel serão usados pelos mais sensíveis. E é isso que acontece nos minutos finais de projeção, fazendo com que Os descendentes seja apenas mais um bom filme. Mesmo que a trilha sonora, tipicamente havaiana, não favoreça as lágrimas.

domingo, fevereiro 12, 2012

#6 - O artista (The artist), de Michel Hazanavicius

Eu conheci gente que não via filme em preto e branco. Juro que é verdade. E conheci também, acreditem, gente que não via filme em outra língua que não fosse o inglês. No entanto, O artista, um filme mudo e em preto e branco, que faz alusão a estética da década de 20, era de ouro de Hollywood, vem agradando multidões ao redor do mundo. A celeuma não é somente positiva. Há também relatos de gente que pede o dinheiro de volta quando descobre, já dentro da sala de projeção, que se trata de um filme em preto e branco e mudo. Aquelas pessoas que conheci, provavelmente, também pediriam seus niqueis de volta.

Porém, uma coisa me chama a atenção: numa era em que a mentalidade do fast food inunda todos os setores sociais, incluindo o entretenimento e sua indústria cinematográfica, é de se espantar que O artista seja o queridinho de tanta gente. Ao redor do mundo, ele vai acumulando prêmios e mais prêmios. É o grande favorito para levar aquela estatueta estadunidense. Melhor Filme - uma produção francesa. Estranho, né? Nem é. É mero saudosismo de uma época em que Hollywood ainda era inventiva. Uma época onde era preciso, pelas limitações técnicas, ser criativo. O artista é um cafuné na cabecinha dos membros da Academia.

Criativo foi também o diretor Michel Hazanavicius, que percebeu o mote da escassez de ousadia hollywoodiana e arriscou o traseiro lançando um filme assim. Ousado é fazer com que a massa acredite estar vivenciando uma experiência cinematográfica diferente. Ora bolas, O artista é cinema na sua mais pura condição. Não deveria causar estranheza nenhuma assistir a uma película muda e em preto e branco. E não há nada de transgressor no sentido estético: muitos cineastas continuam fotografando suas histórias em preto e branco. Centenas de roteiristas continuam dando mais valor à ação do que ao diálogo. A transgressão é apenas comercial.

Vamos falar sobre o filme? É a história de um ator do cinema mudo que se vê à beira da miséria quando o cinema falado se torna uma realidade - argumento que Cantando na chuva, lé em 1952, já havia trabalhado de forma extraordinária. Desacreditado, ele busca um lugar ao sol, ajudado por uma moça que passa de figurante à estrela da companhia. Jean Dujardin está ótimo como o protagonista, com uma perfeita pantomima dos atores da época. A sorridente e espevitada Bérénice Bejo também dá conta do recado, facilitando a empatia do público com sua personagem, exatamente como as estrelas de Hollywood faziam à época.

Um filme simpático, com um desfecho bacana. Só isso.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

#5 - Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin), de Lynne Ramsay

Precisamos falar sobre esse filme. Até mesmo porque, logo após os créditos finais, não é incomum que o espectador fique mudo, sem palavras, estarrecido. Aconteceu comigo. Com um roteiro de tirar o fôlego, baseado num romance epistolar no qual uma mãe escreve para o pai de seu filho na tentativa de compreender um ato de barbárie do primogênito que geraram, Precisamos falar sobre o Kevin é um daqueles filmes que nos remove, à base de socos no estômago, da zona de conforto. E se por um lado o argumento é desconcertante, principalmente nos 15 minutos finais, a montagem é estonteante.

A narrativa começa no presente, com a mãe de Kevin sendo hostilizada pela vizinhança. Caindo aos pedaços, viciada em remédios e com sérios problemas de socialização, ela tenta retomar a rotina limpando a casa, vandalizada, e procurando um emprego. A ação parte do ponto em que seu filho, adolescente, já está preso por ter entrado no colégio e alvejado indiscriminadamente seus colegas. Através de voltas no tempo, de forma completamente aleatória, observamos todos os momentos que antecedem a tragédia: do casamento, passando pela depressão pós-parto, até os conflitos edipianos entre uma mãe insegura e um filho desafiador.

O mais interessante é que a direção de Lynne Ramsay faz com que a história, mesmo sendo retalhada, ganhe uma coesão assustadora. As cenas são meras sequências sem encadeamento temporal. Os diálogos não seguem o padrão pergunta-resposta-réplica. As palavras ficam soltas, e os termos mais importantes se sobressaem. O que precisa ser dito, economicamente é dito. Aí, entra a direção de atores, que arranca atuações inspiradas e dedicadas de todo o elenco. A caracterização de Tilda Swinton, apesar de sempre fazer o papel de moça em crise, beira a perfeição - era mesmo a escolha perfeita para a mãe. Os três atores que interpretam Kevin (bebê, criança e adolescente) estão absurdamente em harmonia dramática, tanto corporal quanto emocional.

A vontade que dá, ao término da projeção, é de comprar o livro - uma vez que o roteiro não segue a estrutura narrativa que o autor do original adotou. É provável que as letras causem maior impacto, principalmente na descrição do momento em que a mãe confronta o filho em uma visita à penitenciária (calma, nem é spoiler, já que o filme começa assim).

Um filmaço!

terça-feira, fevereiro 07, 2012

#4 - Der Golem, de Paul Wegener

Mais bacana do que assistir a um filme de 1920, é assisti-lo ao som de músicas do Frank Black, compostas especialmente para ele. Der Golem é um clássico que encantou plateias no mundo inteiro. Com essa nova trilha sonora, ganhou ares mais contemporâneos e demonstrou que a força de um bom filme está justamente em sua essência. Rock ao invés de música erudita. E Der Golem continua sendo uma história encantadora.

O roteiro, escrito pelo diretor, que também interpreta a figura mitológica, mostra um rabino que, observando os astros, prevê o perigo se aproximando. Pouco tempo depois, o rei ordena que os judeus sejam expulsos de sua terra. Para proteger seu povo, os rabinos criam um golem, uma criatura monstruosa, de força descomunal, que pode, quando mal manipulada, se virar contra seus próprios criadores. É o que acontece aqui...

O que define um clássico é justamente isso: sua incapacidade de ficar datado. Nem mesmo quando a trilha é composta mais de 90 anos depois, não perde sua capacidade de emocionar e entreter o espectador. Frank Black - ou Black Francis - o líder dos Pixies, cria composições que se encaixam perfeitamente às cenas.

Tem a ver com O artista, sabe? Essa coisa de filme preto e branco, mudo. Mas isso é papo para outra resenha. Em breve.

#3 - Histórias cruzadas (The help), de Tate Taylor

Ano novo, velho problema: a falta de tempo para atualizar isso aqui. Passou sexta-feira, nem postei aqui sobre uma das estreias que concorre a várias estatuetas do Oscar. Escrevi para o Jornal do Brasil sobre Histórias cruzadas. Segue, abaixo.

Ambientado no Mississipi dos anos 60, no auge das políticas de segragação racial - pouco antes da marcha organizada por Martin Luther King Jr. -, Histórias cruzadas funciona mais como mero entretenimento do que propriamente como registro de desdobramento histórico. Isso porque o roteiro é baseado em um romance ficcional, homônimo, escrito por Kathryn Stockett, autora que há muito tempo frequenta o topo das listas dos mais vendidos.

No sul estadunidense, lugar onde a tensão racial é, ainda hoje, amplificada, uma jovem caucasiana chamada Skeeter Phelan volta da faculdade decidida a ser uma escritora. Criada numa sociedade acostumada a ser servida e a ter suas crianças criadas por negros, ela desafia as convenções escrevendo um livro sobre o ponto de vista das serviçais. Duas delas, Aibileen e Minny, acabam se tornando as principais fontes de histórias, todas carregadas com tristeza, dor, provações e humilhações.

Histórias Cruzadas tem quatro chances de levar estatuetas: Melhor Filme, Melhor Atriz e duas indicações para Melhor Atriz Coadjuvante. De fato, Viola Davis está impecável no papel de Aibileen. Octavia Spencer também brilha, roubando a cena e valorizando seu papel coadjuvante. O problema é mesmo o roteiro. São quase duas horas e meia de projeção, com dezenas de paradas estratégicas para enfadonhas lições de vida. Por vezes, a direção opta por não desdobrar sequências mais fortes.

Uma vez que a formação da sociedade brasileira guarda algumas semelhanças com o modelo sulista estadunidense, com resquícios de subserviência racial, o paradigma apresentado em Histórias cruzadas não deve causar estranheza no público daqui. É um bom filme, que vale muito mais pelas inspiradas interpretações do que pelo assunto abordado.

#2 - Balada do amor e do ódio (Balada triste de trompeta), de Álex de la Iglesia

Álex de la Iglesia é fruto do underground espanhol. Como tal, sempre esteve metido em produções decomprometidas, de baixo orçamento, mas com uma dose extra de criatividade. Seu mais novo trabalho, Balada do Amor e do Ódio, talvez seja o ápice de sua capacidade inventiva, aliada a uma técnica bastante apurada. Sim, fazer filmes de baixo orçamento vale por um doutorado de cinematografia.

No entanto, é preciso deixar claro que, assim como os outros filmes do diretor, este aqui não é recomendado a qualquer um. É preciso ter familiariedade com o gênero. Balada do Amor e do Ódio é violento, intenso, asqueroso, sujo. É também lírico, poético e diferenciado. Um verdadeiro deleite visual.

O roteiro, muito bem planejado, começa em meio à guerra civil espanhola. Um circo é invadido por rebeldes e seus palhaços são forçados a lutar contra o regime totalitário do general Franco. Um deles é Santiago Segura, o eterno Torrente - cujos filmes já foram resenhados por aqui. Seu filho, testemunha ocular de tudo, cresce tentando seguir os passos do pai. Vai parar num circo onde se torna o palhaço triste, ou "escada" - a saber, o palhaço secundário, que sofre com as brincadeiras no picadeiro. Lá, se apaixona pela acrobata que é, justamente, amante do violento e dominador palhaço principal. Pronto, está dado o ensejo para um cruel e sangrento duelo.

Quem tem estômago vai adorar ver as cenas de crueldade que Álex de la Iglesia planejou. Sequências bem planejadas, planos bacanas e fotografia extremamente bem cuidada aumentam o tom farsesco dessa tragédia circense. Todaa carnificina apresentada, por incrível que pareça, é de encher os olhos.

E tem palhaçada? Tem, sim senhor. Ou não seria um filme de Álex de la Iglesia...

quinta-feira, janeiro 26, 2012

#1 - Um conto chinês (Un cuento chino), Sebastián Borensztein

Os brasileiros, mesmo os mais bairristas, aprenderam a apreciar o cinema argentino - muito bem feito, sempre nas cabeças mundo afora, inclusive em premiações. Criatividade, os caras têm de sobra. Um conto chinês é mais um exemplo de roteiro enxuto, coeso, criativo e cativante. Bom, né? Nem tanto. O problema todo é quando a mira enquadra, ao invés do público, a indústria. Lamentavelmente, o filme estrelado por Ricardo Darín - espécie de Tony Ramos argentino, tipo queridão da mídia e das massas - engendra uma armadilha para o espectador.

O começo é ótimo, e tudo vai bem até os derradeiros minutos finais. Uma vez que o roteiro propõe uma situação inusitada, beirando o absurdo, o desfecho é, obviamente, valorizado. Aqui, Darín interpreta um sujeito solitário que encontra um chinês perdido no meio da estrada. A incapacidade de comunicação entre os dois é o que torna o filme divertido.

Só não precisava, mesmo, era de um desfecho tão pobre e patético, digno das piores produções hollywoodianas - nas quais sobra dinheiro, mas falta criatividade. Aqui, faltou também uma certa dose de coragem e uma pitada de ousadia. Não dá para explicar o fato sem estragar o entretenimento alheio. Porém, dá para escrever o seguinte: acabar um filme, no qual a sequência da solução para o problema inicial é a mais aguardada, do jeito que o diretor acabou é uma afronta à inteligência da plateia.

Sebastián Borensztein colocou tudo a perder. E o seu Um conto chinês acabou se tornando mais um filme aí... Mediano, como tantos outros aí...