domingo, novembro 27, 2011

#70 - A pele que habito (La piel que habito), de Pedro Almodóvar

Almodóvar, desde o começo da carreira, faz um tipo de cinema ímpar. Espécie de exploitation kitsch que, ao longo do tempo, foi se tornando um exploitation chic - acompanhando o amadurecimento do realizador. Muita gente andou dizendo que desta vez ele pegou pesado demais, que A pele que habito é grotesco e bizarro. Achei genial. O filme e a reação que ele provoca nas pessoas, a ponto de incomodar de verdade os espectadores mais desavisados. Mais uma vez, Almodóvar arranca lirismo e poesia de um argumento insólito.

O roteiro é baseado num romance. Conta a história de um médico que desenvolve uma pele artificial, resistente ao fogo. Acontece que, para dar liga à sua invenção, ele mantém encarcerada como cobaia uma jovem misteriosa. A partir daí, há uma série de reviravoltas, algumas bem inesperadas. O resultado é uma narrativa densa, tensa e completamente imprevisível. O espectador é obrigado a sair da zona de conforto. Na sessão em que eu fui, muita gente ficou estupefata, por mais que, em Almodóvar, ficar estupefato é um prazer inenarrável.

Como em toda produção do diretor espanhol, para variar, a estética salta aos olhos. Há certa beleza na instrumentação cirúrgica, nos curativos e na liturgia médica capturadas pela câmera. Antonio Bandeiras, o médico com pinta de cientista louco, tem aqui o melhor trabalho de sua carreira. A bela e encantadora Elena Anaya preenche a tela como a jovem enclausurada - mérito também ao diretor, que sabe trabalhar a beleza feminina como poucos.

Se A pele que habito é bizarrice, é o crème de la crème do gênero!

3 comentários:

Rac disse...

Belíssima crítica, Dudu Assino embaixo. O filme é genial. E ainda tem um quê de Cronemberg num filme Almodovariano roots. Obra prima.

Anônimo disse...

Antes eu achava Almodóvar um chato de galochas com seus filmes que mais pareciam um novelão. Até que assisti esse "A pele que habito" e o cara mudou a minha opinião.

Concordo com o comentário de que tem uma pitada de Cronenberg nesse filme.

renatocinema disse...

Estou muito querendo ver o filme. Gosto do bizarro e grotesco que o diretor, costuma, apresentar.

O diretor, até hoje, se me decepcionou quando foi para a literatura.

No cinema sempre aplaudi.

Abraços