sexta-feira, novembro 25, 2011

#68 - A árvore da vida (The tree of life), de Terrence Malick

Sempre fui admirador do cinema de Terrence Malick. Depois de assistir a Além da Linha Vermelha na tela grande, saí da sala de projeção estupefato, emudecido, emocionado. Na mesma época, O resgate do soldado Ryan lotou o circuitão. Os dois filmes foram lançados simultaneamente e argumentavam sobre a mesma guerra. Enquanto o de Spielberg me deixou apenas um lastro de excitação, o de Malick me deixou pensativo. Essa é a chave para entender - e curtir - A árvore da vida.

Malick sempre trabalha suas narrativas de forma a dar destaque às imagens. Isso porque o argumento está sempre presente, em cada fotograma, em cada diálogo, em cada enquadramento. Logo, a narrativa é fragmentada. Mais importante do que entender é sentir. Dispensa, assim, a estrutura romanesca da tríade início-meio-fim. Oferece ao espectador um mergulho profundo em uma determinada questão existencial.

Aqui, essa questão nada mais é do que colocar em xeque, mediante a morte de uma pessoa próxima, a benevolência de um deus que regula de forma inexorável a vida dos seres humanos. O roteiro mostra uma família tipicamente estadunidense, temente a esse deus, em plena década de 60 (apogeu do american way of life), tentando lidar com a perda de um filho de 17 anos. A fatalidade ecoa e se faz sentir, acompanhando a família até os dias atuais. O filme se concentra no pai (Brad Pitt, um monstro) e no primogênito (quando adulto, interpretado por Sean Penn, outro monstro).

A linguagem cinematográfica é explorada ao extremo. Fotografia, direção de arte, enquadramentos e edição são de encher os olhos - e umedecê-los também. As imagens são belíssimas. Há uma luz quase sacra banhando os personagens, como se a divindade estivesse presente em cada cena, feito um personagem. Inclusive, o pé direito de todas as locações é enorme, em referência a arquitetura utilizada pela Igreja, criada para provocar um sentimento de pequenez nos fiéis.

Malick sabe como ninguém trabalhar com grandes egos - ops, quer dizer, com celebridades hollywoodianas. A direção de atores é fabulosa, com atuações irretocáveis da dupla Pitt e Penn. Outro destaque é o jovem Hunter McCracken, promissor, que faz o primogênito quando garoto. É impressionante ver a entrega do jovem ator ao personagem.

Na verdade, ao contrário do que muita gente tem dito por aí, A árvore da vida é um filme bem simples. Não tem nada de pretensioso ou intelectualóide. Versa sobre um tema universal que é comum a qualquer ser humano que já questionou, por exemplo, a sua própria existência. Ou que já tenha se intrigado com a extinção dos dinossauros (sacou?). Sua complexidade reside no fato de ser uma obra de arte. Por conseguinte, é necessário, sim, uma certa sensibilidade para aproveitá-lo em sua totalidade, sob pena de encarar a projeção como um mero sequenciamento de imagens aleatórias. Não precisa ser cinéfilo, não precisa ter lido os clássicos, não precisa de mestrado em filosofia. Porém, uma vez que a fruição e o ajuizamento de gosto operam numa esfera subjetiva, obra de arte é assim mesmo.

No meu ajuizamento, é um filme arrebatador!

5 comentários:

disse...

Olá! Adorei seu blog, muito criativo! Também tenho um blog e gostaria que vc desse uma olhada. O endereço é: http://www.criticaretro.blogspot.com/ Passe por lá! Lê ^_^

darrudapinto disse...

Muito bom esse filme mesmo né? Eu já assisti mas ainda não consegui escrever sobre ele no meu blog.

Parabéns pela resenha, você diz muito do que eu gostaria de falar sobre este filme.

É um filme para se assistido e depois passar algumas horas ou até mesmo dias meditando e/ou refletindo. São os questionamentos pós filmes que realmente valem a pena. Quem somos? De onde viemos e para onde vamos? Qual a nossa significãncia?

Abraços

Rafael Carvalho disse...

Apesar de também achar o filme bastante sensorial, acredito que existe uma lógica narrativa bastante coesa ali (ou pelo menos eu tenho a minha interpretação da obra). De qualquer forma, é louvável o trabalho de um diretor que nunca errou, aqui se superando com um filme de deixar qualquer um boquiaberto. Diante de tantas imagens grandiosas e potentes, há de se perguntar: o que somos nós diante de tanta imponência? O que nos forma como seres humanos?

Butterfly disse...

Ainda não conferi, mas amei a resenha. Sempre gostei do que me faz pensar e sentir. E aprendi a gostar do Pitt no filme 'encontro marcado', onde o seu personagem - e a atuação - me intrigou bastante.

Monica disse...

Palavras perfeitas, Dudu. Vi o filme da mesma forma.