terça-feira, setembro 27, 2011

#47 - Incêndios (Incendies), de Denis Villeneuve


O cinema pode proporcionar experiências dolorosas de vez em quando - aliás, catárticas é um adjetivo melhor, no caso. Incêndios é um filme complexo, cheio de lirismo e violência, que aborda temas familiares, religiosos e políticos com uma pujança fora de série.

O roteiro conta a história de dois irmãos gêmeos que, ao comparecer à leitura do testamento da mãe, ganham missões distintas, nas quais terão que esmiuçar um passado até então obscuro. Ficam sabendo que têm um pai ainda vivo, ao contrário do que imaginavam, e um irmão. Para que a mãe descanse em paz, eles terão que viajar até o Oriente Médio, encontrá-los e entregar uma carta a cada um. Durante o processo de descoberta, entram em contato com lugares e pessoas que testemunharam a vida de sua mãe.

Duas narrativas correm em paralelo. À medida que os irmãos gêmeos avançam em suas respectivas investigações, o espectador também se torna testemunha do que aconteceu a Nawal Marwan, uma cristã que se envolveu com um muçulmano e que, por isso, foi execrada de sua pequena aldeia, rejeitada pela própria família.

Incêndios é uma adaptação de peça homônima, de um autor libanês radicado no Canadá - assim como a protagonista, uma árabe que vive em solo canadense. O país em que a trama é ambientada, da mesma forma que acontece na peça, é fictício. As bandeiras que tremulam nos cenários de destruição são irreconhecíveis; as cidades citadas não existem (ou existem apenas em países nos quais não houve conflitos da natureza que é mostrada). No entanto, é possível notar as semelhanças históricas com o sangrento processo de disputa política no Líbano, onde milícias de direita cristãs entraram em conflito com o crescente número de palestinos refugiados naquele país.

Tudo em Incêndios é impressionante. A direção de atores é impecável, a montagem é sublime, a direção de arte é perfeita, a trilha sonora é pontual e a fotografia é cuidadosa. O elenco é bárbaro, com um trabalho irretocável de Lubna Azabal, a protagonista. É um filme forte, cujo desfecho é capaz de tirar o fôlego pelo conjunto da obra, e não somente pelas reviravoltas.

Permitam-me o palavrão: puta que pariu, que filmaço!

4 comentários:

renatocinema disse...

Fiquei curioso. Uma amiga também disse muito bem do filme.

Vou ter que ver. URGENTE.

Rafael Carvalho disse...

Que empolgação, Dudu. Gosto do filme, mas não tanto assim. Acho engenhoso, mas me incomoda, por exemplo, as coincidências do final que parecem forçadas para que tudo se encaixe de forma cruel e arrebatadora. Mas nem por isso deixa de ser um ótimo trabalho de realização.

Kamila disse...

Grande texto! A Ana Maria Bahiana disse que este foi o melhor filme estrangeiro do ano passado e, pra falar a verdade, só leio excelentes opiniões sobre "Incêndios".

Beijos!

Butterfly disse...

Bom saber. Sempre descubro coisas boas aqui.

Bjo