sábado, setembro 10, 2011

#39 - Singularidades de uma rapariga loura, de Manoel de Oliveira


Um filme dirigido por um diretor português centenário, e adaptado da obra de um dos maiores autores de língua portuguesa de todos os tempos, é uma dos trabalhos mais interessantes dos últimos tempos, com um frescor que os anos são incapazes de mofar. Singularidades de uma rapariga loura, de Manoel de Oliveira, baseado em conto de Eça de Queiroz, é uma produção de 2009, mas só agora chega ao circuito brasileiro. Foi o primeiro filme que o cineasta assinou depois de ter completado 100 primaveras.

O roteiro conta a história de um sujeito chamado Macário, que narra à passageira ao seu lado no trem o seu calvário. Tudo por causa de um romance com uma rapariga de cabelos dourados que se punha a abanar-se com um leque na janela em frente à sacada de seu escritório. Sem dinheiro e sem a aprovação do tio, o jovem busca fazer um pé de meia.

A maneira como Manoel de Oliveira conduz seus filmes pode ser enfadonha para alguns desavisados. Porém, aos que gostam de preencher os olhos com os detalhes que fazem do cinema uma arte, o deleite está garantido. Oliveira mistura sem exageros ou maneirismos forçados o tom secular do conto com as corriqueirices da contemporaneidade. Por isso, há um estranhamento narrativo inicial que é rapidamente posto de lado.

A grande verdade é que a maioria das adaptações de clássicos da literatura para a tela grande malogra. Aqui no Brasil, há de se ter pena da alma do imortal Machado de Assis, que tem suas obras assassinadas e vilipendiadas por roteiros mal construídos e direções frouxas. No caso de Eça, houve um Manoel de Oliveira disposto a emprestar seu talento.

E que talento!

3 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Parabéns pelo blog.
Cumprimentos cinéfilos.

O Falcão Maltês

Kamila disse...

Conheço pouco da filmografia do Manoel de Oliveira. Então, acho que assistir a este filme seria uma boa oportunidade pra entrar em contato com a obra dele.

Rafael Carvalho disse...

Incrível como esse filme tem todo um ritmo calmo, lento, mas é bastante objetivo e certeiro naquilo que quer demonstrar. É o tipo de segurança que um diretor possui pela força da maturidade e pelo domínio não só do fazer cinematográfico, mas pela coesão de seu próprio estilo pessoal, solidificado pelo tempo. Manoel de Oliveira é desses cineastas que envelheceu, mas que não perde o frescor nunca.