terça-feira, setembro 27, 2011

#47 - Incêndios (Incendies), de Denis Villeneuve


O cinema pode proporcionar experiências dolorosas de vez em quando - aliás, catárticas é um adjetivo melhor, no caso. Incêndios é um filme complexo, cheio de lirismo e violência, que aborda temas familiares, religiosos e políticos com uma pujança fora de série.

O roteiro conta a história de dois irmãos gêmeos que, ao comparecer à leitura do testamento da mãe, ganham missões distintas, nas quais terão que esmiuçar um passado até então obscuro. Ficam sabendo que têm um pai ainda vivo, ao contrário do que imaginavam, e um irmão. Para que a mãe descanse em paz, eles terão que viajar até o Oriente Médio, encontrá-los e entregar uma carta a cada um. Durante o processo de descoberta, entram em contato com lugares e pessoas que testemunharam a vida de sua mãe.

Duas narrativas correm em paralelo. À medida que os irmãos gêmeos avançam em suas respectivas investigações, o espectador também se torna testemunha do que aconteceu a Nawal Marwan, uma cristã que se envolveu com um muçulmano e que, por isso, foi execrada de sua pequena aldeia, rejeitada pela própria família.

Incêndios é uma adaptação de peça homônima, de um autor libanês radicado no Canadá - assim como a protagonista, uma árabe que vive em solo canadense. O país em que a trama é ambientada, da mesma forma que acontece na peça, é fictício. As bandeiras que tremulam nos cenários de destruição são irreconhecíveis; as cidades citadas não existem (ou existem apenas em países nos quais não houve conflitos da natureza que é mostrada). No entanto, é possível notar as semelhanças históricas com o sangrento processo de disputa política no Líbano, onde milícias de direita cristãs entraram em conflito com o crescente número de palestinos refugiados naquele país.

Tudo em Incêndios é impressionante. A direção de atores é impecável, a montagem é sublime, a direção de arte é perfeita, a trilha sonora é pontual e a fotografia é cuidadosa. O elenco é bárbaro, com um trabalho irretocável de Lubna Azabal, a protagonista. É um filme forte, cujo desfecho é capaz de tirar o fôlego pelo conjunto da obra, e não somente pelas reviravoltas.

Permitam-me o palavrão: puta que pariu, que filmaço!

#46 - Afterschool, de Antonio Campos


A facilidade em fazer pequenos vídeos com dispositivos digitais, somada à internet em banda larga, cunhou uma nova forma de expressão. Afinal, até pouco tempo, os números eram impressionantes: mais de 80% do conteúdo virtual é vídeo, e não texto. Afterschool, uma produção pra lá de independente, explora de maneira bastante interessante essa nova relação do sujeito com o vídeo. Porém, o filme não é bom. Não que seja ruim - longe disso. Estranho, né?

A história se passa em um colégio interno estadunidense, cheio de si mesmo, com códigos de honra e alunos promissores. O protagonista é Rob, um jovem de 17 anos que passa muito tempo na internet vendo pequenos vídeos - de pornografia a brigas entre colegas. Até que um dia, acidentalmente, filma a morte de duas colegas, irmãs gêmeas, as mais bonitas e populares da escola. Está dado o ensejo para um ensaio sobre a relação entre real e virtual, o computador como suporte e o papel do indivíduo nisso tudo.

Emulando os vídeos caseiros publicados na internet, Afterschool tem enquadramentos estranhos, distâncias focais mal calculadas e áudios desnivelados. Apesar da proposta ser bastante interessante, e de certa forma colocar em xeque o ajuizamento de valor que a sociedade faz da documentação visual da vida, tautológica até mesmo no campo do entretenimento, o roteiro não se sustenta. Muitas vezes, se arrasta. Ou seja, podia ser um pouco melhor.

Há um punhado de cenas fortes e sequências perturbadoras. Pontos positivos. A morbidez do voyeurismo fetichista também está lá. Ponto positivo também. Pela linguagem, é uma experiência válida. Difícil, mas válida para quem se interessa, justamente, por essa nova linguagem audiovisual.

Interessante: o jovem diretor, autor e editor do filme, Antonio Campos, é filho do jornalista Lucas Mendes. O rapaz é metade italiano, metade brasileiro, apesar de ter nascido em Nova York.

sexta-feira, setembro 23, 2011

#45 - Missão madrinha de casamento (Bridesmaid), de Paul Feig


Hoje entra em cartaz um filme que vem sendo comparado com Se beber, não case. Missão madrinha de casamento passa longe, muito longe... Eis aí, abaixo, a crítica que eu fiz para o Jormal do Brasil.

Não se deixe enganar: Missão madrinha de casamento é vendido como uma espécie de Se beber, não case de saias. A comparação a priori é até compreensível. O roteiro conta a história de uma moça prestes a contrair matrimônio que se vê ladeada por madrinhas bastante alvoroçadas. Duas delas, no entanto, acabam entrando em uma disputa particular pelo posto de melhor amiga da noiva.

O filme do diretor Paul Feig - um especialista em seriados para TV, como os badalados The Office e Bored to death - até começa com a rebeldia e o desacato que fizeram da franquia de Todd Phillips um sucesso de bilheteria. O elenco é bom e há situações constrangedoramente divertidas, como a série de discursos durante o jantar oficial de noivado. Kristen Wiig, a protagonista, e sua antagonista, Rose Byrne, roubam a cena com o embate pré-nupcial.

No entanto, o clima incorreto de Missão madrinha de casamento vai dando lugar ao drama simplório e previsível. O terço final do filme destoa do resto por deixar exposto um certo didatismo conservador. No fim, ou na hora de jogar o buquê, o moralismo sempre vence. Ainda assim, durantes os dois terços iniciais, pode render risadas a quem o matrimônio é mais interessante como um objeto de estudo antropológico do que como aspiração futura.

terça-feira, setembro 20, 2011

#44 - Blog, de Elena Trapé


Antes de conferir Blog, longa de estreia da diretora espanhola Elena Trapé, fui à caça de comentários sobre o dito cujo. A imprensa local malhou a obra, que tem uma proposta narrativa bastante diferente do convencional – daí, talves, o nariz torcido dos colegas ibéricos.

Ambientado em Barcelona, o roteiro conta a história de três amigas, beirando as 15 primaveras, que resolvem fundar uma sociedade secreta para moçoilas na flor da idade. Aos poucos, o grupo vai ganhando novas adeptas, a ponto de congregar uma classe inteira no colégio. O objetivo é experimentar, sem autorização ou julgamentos, uma experiência que elas consideram transformadora. O que é, não vou contar – mesmo sendo meio óbvio, né?

O interessante é que s narrativa é sempre em primeira pessoa. A câmera ora é de uma das meninas, que filma de uma excursão a um museu até a ida o banheiro, ora é feita pelas webcams, quando as protagonistas da trama expõem o que sentem. Daí, seria mais apropriado chamar o filme de Vlog, já que em momento algum há um blog na trama,

As atrizes, embora jovens, cumprem bem seus respectivos papéis. O tom naturalista favorece a direção de atores. É um filme sem excessos, sem cacoetes, sem melodrama e, mais importante, sem julgamentos moralistas - ainda que tenha aqueles irritantes corações feitos com as mãos.

Curti.

domingo, setembro 18, 2011

#43 - Day of the panther, de Brian Trenchard-Smith


O movimento conhecido como ozploitation, ou seja, o exploitation produzido "down under", na Austrália, foi pouco profícuo. Se limitou a um punhado de diretores e atores assinando produções que buscavam um lugar ao sol no mercado de home video. Tanto é que Brian Trenchard-Smith, que assina a direção desta pérola a ser resenhada por aqui, é um especialista em dirigir filmes para a TV, daqueles que ganham a grade da madrugada.

Pois bem, Day of the panther não foge à regra. É, essencialmente, um filme de porrada. Tão digno quanto um filme de Van Damme. A única diferença é o acabamento, até porque o baixinho belga tinha lá um grande estúdio injetando dinheiro. O protagonista, aqui, é bem mais canastrão que o grande dragão branco - ou seja, bem mais divertido. Edward John Stazak é uma grata enganação. Galã de cabelos repartidos ao meio, camisa polo para dentro da calça, óculos Ray Ban e um sorriso indelével. Na pele de John Blade, um agente especial treinado pelos melhores mestres de kung fu do mundo, sorri quando flerta com as gatinhas, sorri enquanto distribui sopapos, sorri quando é surpreendido, sorri quando vê que está encurralado. Sorri, na verdade, porque ninguém é páreo para ele.

O roteiro é um lixo. Por isso, maravilhoso. O tal Blade vai atrás de um mafioso australiano acusado de estar envolvido no assassinato de sua parceira (de profissão, que fique claro). Tem explosões, perseguições, vinganças, brigas, drogas, mulheres de biquíni à beira da piscina, mais brigas, policiais atrapalhados, propinas, lavagem de dinheiro, capangas vestindo ternos impecáveis, uma cena de sexo entre o herói e a mocinha (a saber, é regra: apenas uma cena de sexo) etc.

Blade voltaria mais tarde em Strike of the panther! Segundo e último filme da série, último da carreira de Edward John Stazak, que só contabiliza mesmo duas produções no currículo. Dizem por aí que, agora, ele se apresenta com um grupo musical. Será que canta músicas de dor de cotovelo sorrindo?

quinta-feira, setembro 15, 2011

#42 - The Creeper, de Peter Carter


Taí o primeiro filme da minha caixa de 50 clássicos do cinema B - não confundir com a caixa dos 50 clássicos do cinema de horror, por mais que vários clássicos do primeiro sejam do gênero do segundo. Lançado em 1979, dois anos após ser produzido, The Creeper, também conhecido como Rituals, é uma pérola dos slasher movies (aqueles filmes no qual há um assassino que passa a faca em todo mundo) porque se consolidou, mesmo com o tempo, como um patinho feio no lago do terror, subvertendo algumas máximas que foram amplamente usadas por Jason, Myers, Leatherface e cia.

O roteiro conta a história de cinco médicos bem sucedidos que cumprem um ritual (daí o título alternativo, apesar de tresloucado) sagrado: uma vez por ano, vão até uma região remota nas montanhas canadenses para se isolar do mundo e pescar. Tudo vai bem na primeira noite. No entanto, ao amanhecer, os sapatos de quatro deles desaparecem misteriosamente. O que ficou calçado sai em busca de explicações. E não volta mais. É quando eles percebem que há alguém - ou alguma coisa - à espreita.

Os pontos interessantes na trama são vários. Em primeiro lugar, não há jovens fazendo sexo ou fumando maconha para serem punidos sumariamente. O grupo de cinco protagonistas são senhores de idade, pós-balzaquianos, com carreiras sólidas. Ou seja, nada de mulheres com peitinhos desnudos correndo esbaforidas. Depois, há um personagem abertamente homossexual, que em determinado momento, inclusive, fala de seu drama pessoal. Outro ponto interessante é que o assassino nunca aparece cumprindo seu ofício - há apenas uma câmera por trás do mato que enxerga as vítimas.

De resto, as atuações não são lá tão convincentes. Muita gritaria, histeria etc. Mas e daí, né? A cópia também é bem comprometida, com fotogramas arranhados e bem escurecidos. Mas e daí também, né? O roteiro é meio torto, com alguns buracos - sequer é explicado direito como o assassino planejou a coisa toda. Repito: mas e daí, né?

É um ícone, indiscutivelmente. Aos fãs do gênero, vale o confere!

terça-feira, setembro 13, 2011

#41 - Professora sem classe (Bad teacher), de Jake Kasdan


Cameron Diaz tem o que é preciso para representar com dignidade o antigo fetiche adolescente da professora insinuante. Em Professora sem classe, se falta talento à moça, sobra sensualidade para contar a história de uma docente, por mais inverossímil que possa parecer, que tem uma postura nada inspiradora. Abandonada pelo marido rico e com um punhado de contas a pagar, ela precisa rebolar - literalmente- não só para continuar empregada na escola, mas também para tentar conquistar outra fonte de renda.

O roteiro é fraco, mas as atuações (tirando a de Cameron Diaz) são ótimas. Justin Timberlake está irretocável como um professor rico, mas quadrado demais para os padrões da professora. As cenas com Lucy Punch, que interpreta a professora correta que tenta desmascarar a impostora, são bastante divertidas.

O clima escatológico e politicamente incorreto, outrora trunfo de anti-heróis masculinos, é abruptamente interrompido por um desfecho vergonhoso, que se rende ao dogmatismo e ao provincianismo típicos das comédias que desistem de chacoalhar a plateia até os últimos minutos. No fim das contas, é apenas mais uma comédia com Cameron Diaz. Podia ter sido um pouco mais que isso.

#40 - Hobo with a shotgun, de Jason Eisener


Há atores que deviam se dedicar ao exploitation - ou seja, a produções de baixo orçamento que não se levam a sério. Porque, à medida que envelhecem, suas poses e falas vão perdendo o efeito de canastrice que outrora produziam nas massas. Os exemplos estão aí.

Nicolas Cage retomou sua carreira com dignidade depois de ser dirigido por Herzog no remake de Bad Lieutenant. Coroou com espinhos cristãos sua ressurreição cinematográfica em Fúria sobre rodas, um filme B com requintes de cafajestagem. Agora, mais um tio iconoclástico resolveu que era hora de encarar os exploitations de frente, em grande estilo: ninguém menos que o replicante caroneiro dos infernos Rutger Hauer. É ele quem promove uma carnificina catártica em Hobo with a shotgun.

Visualizem, por um minuto, o título do filme transposto para a tela grande: o bom, velho e já rechonchudo Hauer é um “mendigo” de “rifle” em punho. Ele caça com afinco um inescrupuloso mafioso que mantém a população sob controle utilizando ameaças e violência extrema. São litros e mais litros de sangue na tela. Tripas e mais tripas dependuradas de corpos mutilados. E uma gritaria interminável! Tudo isso com efeitos toscos, diálogos sem pé nem cabeça, inserções cômicas gratuitas e atuações bastante duvidosas. Há, inclusive, um discurso do personagem de Hauer que lembra a célebre lição de moral que seu replicante dá no caçador de andróides. Ou seja, é diversão garantida!

Curioso mesmo é saber que o sujeito responsável pela filmagem é Karin Hussaim, a mente pérfida e doentia que assina um dos filmes mais chocantes de todos os tempos, Subconscious Cruelty.

Infelizmente, sabe-se lá quando Hobo with a shotgun vai ganhar algum pedaço do circuito. Graças aos deuses do bom cinema, existem torrents disponíveis, com legendas em português já disponibilizadas.

Fico só imaginando o Antônio Fagundes ou o Tarcísio Meira num exploitation... Seria muito mais digno.

sábado, setembro 10, 2011

#39 - Singularidades de uma rapariga loura, de Manoel de Oliveira


Um filme dirigido por um diretor português centenário, e adaptado da obra de um dos maiores autores de língua portuguesa de todos os tempos, é uma dos trabalhos mais interessantes dos últimos tempos, com um frescor que os anos são incapazes de mofar. Singularidades de uma rapariga loura, de Manoel de Oliveira, baseado em conto de Eça de Queiroz, é uma produção de 2009, mas só agora chega ao circuito brasileiro. Foi o primeiro filme que o cineasta assinou depois de ter completado 100 primaveras.

O roteiro conta a história de um sujeito chamado Macário, que narra à passageira ao seu lado no trem o seu calvário. Tudo por causa de um romance com uma rapariga de cabelos dourados que se punha a abanar-se com um leque na janela em frente à sacada de seu escritório. Sem dinheiro e sem a aprovação do tio, o jovem busca fazer um pé de meia.

A maneira como Manoel de Oliveira conduz seus filmes pode ser enfadonha para alguns desavisados. Porém, aos que gostam de preencher os olhos com os detalhes que fazem do cinema uma arte, o deleite está garantido. Oliveira mistura sem exageros ou maneirismos forçados o tom secular do conto com as corriqueirices da contemporaneidade. Por isso, há um estranhamento narrativo inicial que é rapidamente posto de lado.

A grande verdade é que a maioria das adaptações de clássicos da literatura para a tela grande malogra. Aqui no Brasil, há de se ter pena da alma do imortal Machado de Assis, que tem suas obras assassinadas e vilipendiadas por roteiros mal construídos e direções frouxas. No caso de Eça, houve um Manoel de Oliveira disposto a emprestar seu talento.

E que talento!

#38 - Potiche - Esposa Troféu (Potiche), de François Ozon


Vez em quando, diretores consagrados fazem o que costumo chamar de filme de férias. Mais ou menos assim: juntam um punhado de bons atores - na maioria das vezes, amigos pessoais - e resolvem relaxar as rédeas por detrás das câmeras, numa direção mais solta e menos comprometida com o perfeccionismo e o apuro que lhes concederam o status de grandes realizadores. Ainda assim, são produções muito acima da média.

Pois Potiche - Esposa troféu é o filme de férias de François Ozon, o cara cujo apelo estético rendeu respeito no métier cinematográfico. Para contar a história de uma dona de casa rica, que precisa assumir o controle da fábrica de guarda-chuvas da família diante de uma greve dos operários, Ozon tem ninguém menos que Catherine Deneuve e Gérard Depardieu no elenco.

Apesar do argumento simples, Ozon não abandona seu estilo cuidadoso de filmar. Monta uma comédia divertida, mas que é também um mero passatempo, longe do deleite visual de suas obras anteriores. O bacana mesmo de Potiche é ver Deneuve, a eterna bela da tarde, envelhecendo com charme e dignidade, preenchendo a tela com a postura de diva que lhe é nata. A direção de arte também cumpre sua tarefa de situar a ação na década de 70.

No fim das contas, é divertido como os filmes de férias dos grandes diretores devem ser.

sexta-feira, setembro 09, 2011

#37 - Riscado, de Gustavo Pizzi


Hoje é dia de estreias. Então, segue a resenha que escrevi para o Jornal do Brasil sobre o filme Riscado - produção nacional, independente, que trata da profissão audiovisual. Quem trabalha com isso, vai se identificar bastante.

Pode-se dizer que Riscado é uma espécie de metafilme. Nele, uma atriz interpreta uma atriz cercada de todas as incertezas e desconfianças comuns ao ofício da interpretação. O filme, que foi feito à base de muito esforço, é o retrato fiel do que é o fazer cinematográfico independente.

O roteiro acompanha a história de Bianca (Karine Teles, em atuação bastante convincente), uma jovem que empresta seu talento a telegramas animados e panfletagem nas ruas do Rio. Até o dia em que é selecionada para participar de uma produção internacional. Impressionado com o teste dela, o diretor do filme passa a apostar todas as fichas na história real de Bianca, adaptando todo o roteiro aos seus próprios percalços.

Ao longo da projeção, pipocam algumas situações que são típicas do métier artístico, numa hermeticidade que pode comprometer o bom humor diferenciado que o diretor Gustavo Pizzi propõe em diálogos pontuais. Há também um certo exagero nas rubricas naturalistas dos personagens, que agem como se a metalinguagem fosse um imperativo categórico ao filme.

No entanto, Riscado está bem acima da média das produções nacionais independentes. Tem um capricho estético notável, além de uma direção de atores eficiente e uma trilha sonora bem bacana - não à toa premiada em Gramado.

domingo, setembro 04, 2011

#36 - Carnival of souls, de Herk Harvey


Taí a primeira resenha da minha gloriosa caixa de 50 grandes filmes de horror da história do cinema - trazida, em par, com uma outra caixa contendo 50 famosos representantes dos filmes B. Tudo isso graças ao meu caríssimo e querido primo, Leo. Como eu procurei Carnival of souls por aí... Sempre malogrando. O esforço valeu a pena: trata-se de um dos grandes clássicos de terror!

Produzido em 1962, o roteiro conta a história de um grupo de mulheres que sofre um acidente automobilístico. O carro em que estão vai parar dentro de um rio. A polícia não consegue achar nem o veículo, nem os corpos. No entanto, sem qualquer explicação, uma das acidentadas, a organista Mary Henry, emerge das profundezas das águas turvas. Ela tenta retomar a vida, tocando órgão em uma igreja de outra cidade. No entanto, um parque de diversões abandonado começa a a instigá-la.

O bacana de Carnival of souls, além da história surpreendentemente bem amarrada, é a estética. O filme tem fortes referências ao expressionismo alemão, com maquiagem pesada e trilha sonora fúnebre - a mocinha ser uma organista é um artifício e tanto! A fotografia em preto e branco consegue tirar proveito das sombras, e há um punhado de enquadramentos muito bem pensados. A sequência final é particularmente espetacular.

Curiosidades interessantes: esse foi o único filme dirigido por Herk Harvey. A protagonista, Candace Hilligoss, ficou sem agente após o lançamento do filme, tamanho foi o descontentamento do sujeito com o que acabara de assistir. Mal sabia ele que Carnival of souls se tornaria um ícone do horror.

Rola por aí um remake, que leva o nome de Wes Craven como produtor. Não vi, mas ouvi gente boa que viu dizendo que é perda de tempo. Melhor ficar com o original, por mais difícil que seja encontrá-lo por aí.

sexta-feira, setembro 02, 2011

#35 - Cortina de Fumaça, de Rodrigo Mac Niven


O argumento do documentário Cortina de Fumaça, segundo os seus próprios realizadores, é contribuir para a discussão das políticas antidrogas no Brasil. Um roteiro corajoso, que dá uma baforada na discussão de uma das grandes questões globais: a declarada guerra aos entorpecentes e a busca desenfreada pelo ideal (ou utopia?) de constituir um mundo livre das drogas.

O Rock in Rio, nas últimas semanas, lançou uma campanha que tem ganhado destaque nas redes sociais. Um aplicativo para Facebook substitui a palavra drogas por algum outro substantivo, igualmente prazeroso, na famosa tríade que tem também o sexo e o rock’n’roll. Ainda que seja uma tentativa de resguardar o bom andamento do festival, jurídica e tecnicamente, trata-se de uma prova de que o assunto está na pauta do dia.

Para suscitar questões relevantes e levantar dados concretos, o diretor Rodrigo Mac Niven não poupou esforços e foi atrás do discurso autorizado de especialistas nos assuntos que dizem respeito ao uso e à circulação de entorpecentes. São ouvidos neurologistas, psiquiatras, advogados, historiadores e políticos, além de usuários. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o deputado federal Fernando Gabeira são apenas meros coadjuvantes diante dos excelentes personagens sobre os quais o documentário se apóia.

Bastante coisa interessante é dita ao longo da projeção. Há, por exemplo, um médico que afirma que o cérebro tem receptores preparados para o THC – o tetrahidrocanabinol, princípio ativo da maconha – e que, justamente por isso, a droga não destrói neurônios. Há também um estudioso que demonstra a relação histórica das proibições com estratos sociais minoritários. Enfim, é muito pano para manga.

O único problema de Cortina de Fumaça é estrutural: há uma falta de coesão que pode deixar alguns espectadores soterrados diante de tanta informação. O roteiro acaba se tornando multifocal. Nisso, a edição pouco ajuda, escorada na falta de capricho das imagens de apoio e no videografismo.

Nada disso, no entanto, apaga a contundência de Cortina de Fumaça, que se firma como um valoroso instrumento para dar corpo a uma discussão que precisa ser feita. É a prova, corajosa e ousada, de que o cine-documentário ainda pode ser um veículo eficaz para a mobilização.

quinta-feira, setembro 01, 2011

#34 - Quero matar meu chefe (Horrible bosses), de Seth Gorgon


Naqueles dias em que nada dá certo no trabalho, muitos assalariados ao redor do mundo têm a mesma vontade do trio protagonista de Quero matar meu chefe. A racionalidade os impede. Por isso, a premissa que envolve o roteiro dessa comédia serve de chamariz para um público que fez de outras produções do gênero um sucesso de bilheteria - como, por exemplo, a franquia Se beber, não case.

Porém, o filme dirigido por Seth Gordon (responsável pelo excelente documentário The King of Kong, sobre a disputa pelo título de melhor jogador do arcade homônimo) não leva o argumento às últimas consequências. E paga um preço caro pela falta de ousadia. Kurt Buckman (Jason Sudeikis), Dale Arbus (Charlie Day) e Nick Hendricks (Jason Bateman) são os amigos que sofrem nas mãos de seus chefesKurt Buckman (Jason Sudeikis), Dale Arbus (Charlie Day) e Nick Hendricks (Jason Bateman) são os amigos que sofrem nas mãos de seus chefes

Três amigos resolvem numa conversa de bar que a melhor maneira de continuar suas vidas é se livrando de seus respectivos superiores: um grosseirão que não promove seus funcionários, um fanfarrão que herda a chefia do pai e uma fogosa dentista adepta do assédio sexual.

Há bons momentos durante a projeção, mas graças aos coadjuvantes de luxo que Gordon tem ao seu dispor, os tais terríveis chefes Kevin Spacey, Collin Farrell e uma irreconhecível, mas ainda insinuante, Jennifer Aniston. São eles que roubam a cena. Os comediantes protagonistas, insossos e caricatos, pouco contribuem para as risadas. O desfecho é particularmente enfadonho e preguiçoso. Apesar disso, o longa fez relativo sucesso nos Estados Unidos. Prova disso é o anúncio de uma provável sequência.

(Publicada no Jornal do Brasil)