terça-feira, agosto 30, 2011

#32 - Melancolia (Melancholia), de Lars Von Trier


Se é pra recomeçar, que seja em grande estilo. Compartilho com vocês a resenha que escrevi para o Jornal do Brasil sobre o tão comentado filme do cineasta - que fique registrado, um dos mais geniais e provocadores do nosso tempo - que foi banido de Cannes. Ei-lo, abaixo.

Obviamente, um filme sobre o fim do mundo assinado por Lars Von Trier não poderia ser apenas sobre uma catástrofe natural. É, também, em sua essência, um ensaio sobre a catastrófica condição do ser humano em entender sua própria finitude.

Mais além, Melancolia foi o meteoro que pode ter causado uma catástrofe na carreira do diretor dinamarquês. Isso porque, polêmicas à parte, o filme é um espetáculo. Não fosse o título de persona non grata conquistado contra sua vontade, Von Trier teria provavelmente levado uma Palma de Ouro no Festival de Cannes.

O roteiro pode ser dividido em três partes. A primeira, evocando a montagem de Anticristo, seu trabalho anterior, traz um prólogo em câmera muito lenta, com fotografia de encher os olhos e trilha sonora a caráter, no qual detalhes do evento da extinção em massa são mostrados. Até mesmo a cartela com o título do filme segue a mesma linha.

Em seguida, conta-se a história de Justine (Kirsten Dunst, merecidamente premiada em Cannes como melhor atriz), uma jovem noiva que não parece contente em contrair matrimônio. A terceira parte foca em sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), apavorada com a aproximação do gigantesco planeta Melancolia. Em meio à ameaça de colisão com a Terra, as duas buscam resolver conflitos e entender suas escolhas.

A locação escolhida para ambientar a história - tanto a festa de casamento de Justine quanto os supostos últimos dias de Claire - é uma imponente e suntuosa mansão aos pés do oceano, com um enorme jardim de onde John (Kiefer Sutherland) pode observar a movimentação do planeta invasor. O cenário funciona como contraponto para os bem trabalhados e densos diálogos, o que remete ao clássico de Alain Resnais, O ano passado em Marienbad.

A câmera passeia livremente pelos convidados, como em Festa de família, do companheiro do manifesto Dogma de Von Trier, Thomas Vinterberg. Por mais que o clima, vez em quando, seja quebrado por um inesperado humor deslocado, amarelado, a tal melancolia está em cada detalhe da produção: trilha sonora, figurino, edição, interpretações etc.

Sem efeitos especiais mirabolantes, sem apelo melodramático, Von Trier dá cabo de seu filme de forma magistral, mostrando que é, ainda que odiado por muita gente, um dos grandes realizadores de nosso tempo. É um filme para ser visto nas salas de cinema. Não deixe para conferi-lo em DVD. Melancolia é uma experiência cinematográfica arrebatadora.

4 comentários:

renatocinema disse...

Estou angustiado...desesperado para assistir esse filme.

Mas, não estou conseguindo tempo.

Belo texto.

Kamila disse...

Esse filme ainda não estreou por aqui. Uma pena.... Continuo esperando, porque as opiniões sobre ele são divididas, mas, na maior parte do tempo, boas.

Beijos!

Vulgo Dudu disse...

Renato, vai ficar mais angustiado ainda quando sair da sala de projeção! rs... Mas um angustiado bom, sabe?

Kamila, acho que tem muita gente implicando com o filme por causa da celeuma em Cannes. O que é uma bobagem. Veja pra gente trocar figurinhas depois.

Bjs e abs!

Rafael Carvalho disse...

Acho que você foi no ponto logo no início: antes de filmar a catástrofe do mundo, Von Trier prefere filmar a catástrofe da vida humana quando se vê ameaçada. O filme é certeiro ao concentrar suas duas partes em duas irmãs que passarão por uma transformação comportamental em que o cineasta reafirma a capacidade do ser humano em se (des)apegar do mundo terreno. Além disso, filma com muita coerência narrativa as duas partes tão distintas. Eu que estava de mal dele depois do terrível Anticristo e de O Grande Chefe, fiz as pazes com ele através desse filmão.