domingo, maio 08, 2011

#31 - Como você sabe (How do you know), de James L. Brooks


Se você curte Os Simpsons, já deve ter visto o nome de James L. Brooks nos créditos do desenho animado. Pois bem, aqui ele assina a direção. Por isso, era de se esperar que a comédia romântica Como você sabe tivesse um pouco de tutano. Não tem. E não somente falta tutano, como o filme é um desperdício de talentos.

Já estou convencido que todo a comédia romântica é clichê. Se não for clichê, não é uma comédia romântica - como escreveu Álvaro de Campos (ou Fernando Pessoa), ao afirmar que toda a carta de amor é ridícula, que não seria uma carta de amor se não fosse ridícula. Acontece que, em Como você sabe, até o clichê é ridículo. O filme conta a história do encontro entre uma jogadora de softball que é cortada da seleção estadunidense e um executivo que recebe uma intimação judicial, acusado de fraude financeira. Os dois repassam as suas vidas diante dos problemas que enfrentam.

O elenco é verdadeiramente um desperdício de talentos: Reese Witherspoon faz par romântico com Paul Rudd (que está ameaçado de ficar estereotipado). Jack Nicholson e Owen Wilson completam o escrete. Em virtude das rubricas insossas de seus personagens, ninguém rende o que pode e não há qualquer química entre eles. A única coisa interessante de Como você sabe são alguns poucos diálogos, que fogem à regra das comédias românticas.

Entretanto, logo vem um desfecho absurdamente sem graça, numa cena patética, que acaba com qualquer esforço de empatia.

#30 - Homens e deuses (Des hommes et des dieux), de Xavier Beauvois


Na década de 90, um grupo de monges trapistas franceses foi executado sumariamente em uma cidadela argelina. Homens e deuses é a crônica de uma tragédia anunciada, que mostra como os clérigos tentaram resistir, sob pressão do governo argelino e das ordenações religiosas, usando a fé como suporte. O filme foi premiado em Cannes por sua sensibilidade em contar uma história de cunho político. Porém, foi sumariamente ignorado pelos membros da academia estadunidense.

Acompanhamos os dias que antecederam o dramático desfecho deste pequeno impasse criado pela situação da Argélia, colônia francesa durante muito tempo, palco de diversos conflitos envolvendo grupos de etnias diferentes. O diretor Xavier Beauvois monta seu filme de forma a dar tempo à introspecção monástica. Por isso, as cenas em que o impasse é amplificado acabam intercaladas com passagens nas quais os monges cantam e oram. Não há reviravoltas, nem sobrepassos. As mais de duas horas de projeção são usadas mais para montar as peças de um paradigma do que para contar necessariamente a história. Ou a História, já que se trata um fato que realmente aconteceu.

O elenco consegue dar conta do recado, dando veracidade aos seus personagens. A fotografia contribui para situar o espectador no momento histórico que é retratado. No fim das contas, Homens e deuses é um belo filme sobre um evento tenebroso na história de um país.

#29 - Cópia fiel (Copie conforme), de Abbas Kiarostami


Durante muito tempo, o cinema iraniano ficou restrito a um circuito hermético, no qual quem estava dentro era logo estereotipado pejorativamente como pseudo-intelectual. Os filmes quase sempre eram excessivamente silenciosos, emotivos e lentos. Excessivamente bonitos, também. Um dos maiores diretores daquele país, que contribuiu em muito para solidificar o cinema iraniano como uma corrente provida de substância própria, é Abbas Kiarostami. E aqui ele retorna com uma produção universal, global (no bom sentido), internacional.

Cópia fiel
é uma produção rodada na Itália, com um ator inglês, uma triz francesa, de um diretor iraniano e que trata de uma questão comum a todos os quatro hemisférios do planeta. O roteiro conta a história de um escritor que vai lançar seu livro sobre crítica de arte na Toscana. Lá, encontra uma mulher com quem tem um envolvimento.

E aí vem o bacana do filme. Contrariando a máxima iraniana, Kiarostami constrói uma narrativa que se debruça sobre os diálogos. Cópia fiel é verborrágico, e é preciso prestar bastante atenção no que dizem, em três idiomas diferentes, seus personagens. Aos poucos, de forma brilhante, a história entre o casal vai sendo desvelada. Arte e vida se misturam em diálogos fantásticos.

O casal é protagonizado por William Shimell, um dos barítonos mais respeitados da Inglaterra, e pela sempre belíssima e competente Juliette Binoche, que esbanja uma sensualidade sem antecedentes para os padrões pré-estabelecidos pela indústria cultural. É uma delícia ver o jogo cênico entre os dois.

Filmaço!

28 - Fúria sobre rodas (Angry drive), de Patrick Lussier


Fato: Nicolas Cage deveria pensar seriamente em se dedicar a essa nova onda de exploitations, que revisitam referencialmente os clássicos de décadas passadas. Quanto mais canastrão o personagem, melhor para ele. Já havia sido assim na adaptação que Werner Herzog fez da obra-prima de Abel Ferrara, Bad Lieutenant, na qual Cage protagoniza o policial viciado e inescrupuloso. Em Fúria sobre rodas, Cage tem a oportunidade de exercitar toda a sua picaretagem. E dá certo.

O roteiro segue a mesma fórmula dos carexploitations (sim, o termo existe e se refere aos exploitations de perseguições de carros). Um sujeito às do volante, a bordo de carrões envenenados, parte em busca de vingança. No caso, caça com voracidade os homens que mataram sua filha e sequestraram a sua neta para oferecê-la como oferenda em um ritual de magia negra. Diz aí se não é fantástico esse argumento?

A estética é propositalmente suja. A edição é propositalmente desleixada. Os diálogos são propositalmente forçados. Melhor ainda: o filme original, nos cinemas, foi exibido em 3D. Mais uma vez, nenhuma grande cena utilizando o recurso. Porém, algumas pequenas passagens são divertidas. Quem assina a direção é Patrick Lussier, um sujeito que, ao que tudo indica, deve se tornar referência em remakes de filmes de terror em 3D. Foi assim com Dia dos Namorados macabro, e deve ser assim com os já anunciados remakes de Hellraiser e Halloween 3.

Porém, voltando ao Cage, fica a dica para ele: dedique-se aos exploitations!