sábado, abril 09, 2011

#21 - Restrepo, de Tim Hetherington e Sebastian Junger


Dois jornalistas foram mandados para um dos lugares mais perigosos do planeta com o intuito de registrar com suas câmeras a rotina de soldados estadunidenses na guerra em terras afegãs. Foram parar em um vale chamado Korangal, onde quase 80% dos conflitos se deram. Durante cerca de um ano, comeram o que os soldados comiam, dormiram onde os soldados dormiam, viram o que os soldados viam. O resultado da expedição se transformou no documentário Restrepo, nome dado a um posto avançado no ponto mais alto do Vale Korangal, em homenagem ao homônimo médico do exército morto em combate.

O filme é dividido em dois cenários, ambos com os mesmos personagens. Um deles é o campo de batalha, onde o som de tiros e a gritaria é constante, levando os espectadores aficionados por ações táticas ao delírio. O outro é em estúdio, com os mesmos combatentes já em solo amigo, fazendo uma releitura de suas lembranças. Por isso, quando os produtores e a mídia em geral vendem Restrepo como um filme experimental, imprevisível em sua montagem, estão mentindo. E aí entra toda uma discussão do valor do cinedocumentário de fundo bélico.

Quando em 1922 Robert Flaherty filmou o simpático esquimó Nanook em seus afazeres domésticos, constituindo ali o primeiro documentário que se tem notícia, muita gente torceu o nariz questionando a veracidade da ação, em contraposição ao ficcional. Ora, se Flaherty pedia a Nanook para mostrar como ele fazia para pescar, qual seria a real validade daquela ação direcionada diante das câmeras? Em Restrepo, se o governo estadunidense liberou a filmagem no Afeganistão sob a condição de análise do material antes do mesmo entrar em cartaz, qual é o verdadeiro valor do que foi documentado?

Não há em Restrepo uma ponta qualquer de antibelicismo, estratégia que faz parte de uma pensada isenção que, aqui, mais funciona como propagranda militar. Por isso, não há também qualquer constrangimento em mostrar como os soldados estadunidenses tratam os afegãos: pessoas realmente estranhas, ultrapassadas e deslocadas da realidade. Também não parece haver em qualquer soldado alguma espécie de trauma ou conflito que realmente se sobreponha à barbárie de uma guerra. Há, nas entrevistas de estúdio, apenas um tom depressivo diante da morte de um ou outro colega.

A opção dos diretores em intercalar a ação propriamente dita com os depoimentos em estúdio também colabora para dissolver ainda mais o valor de documento. Diante de uma câmera estática, com um microfone de lapela e tempo para pensar no que dizer, e com a possibilidade do corte e do descarte de imagens, nenhum dos depoimento parece realmente contribuir valorosamente com o produto final. Nem com a intenção inicial de hiper-realismo.

Por isso, Restrepo é um amontoado de imagens documentadas que não tem valor algum ao cinedocumentário. É apenas distração para um público que ainda precisa acreditar, para o bem dos congressistas estadunidenses, que é preciso caçar terroristas barbudos e procurar armas químicas para garantir a paz em seu longínquo país. É mais entretenimento do que documentário. É mais propaganda belicista do que cinedocumentário.

Só faltou, ao final da projeção, um telefone para o alistamento.

3 comentários:

Kamila disse...

Perdi as muitas chances de ver esse filme no NatGeo. Espero ainda ter uma oportunidade...

Rafael Carvalho disse...

Assim como a Kamila, perdi a oportunidade de ver esse filme no cinema. E estava bastante empolgado, mas seu texto me deixou um tanto indeciso, porque documentário sem valor documental não parece ajudar muito as coisas, né!

Butterfly disse...

E o tempo vai passando e novas descobertas vão chegando... é bom sair da ignorância.