sexta-feira, abril 22, 2011

#27 - Rio, de Carlos Saldanha


E lá fomos nós, domingão, levar a pequena para mais uma sessão de cinema. A promessa era a de assistir a uma animação que tivesse o mesmo apelo dos trabalhos anteriores do diretor brasileiro Carlos Saldanha, responsável pelo sucesso da franquia A Era do Gelo (foi co-diretor do primeiro e dirigiu os dois seguintes). Dessa vez, ele criou uma história na qual duas raras araras azuis se perdem no Rio de Janeiro, em pleno Carnaval. Uma propaganda que foi bem recebida pelo governo do Estado, prestes a sediar duas importantes competições esportivas que alavancam o turismo: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Mas será que o filme dá mesmo esse empurrãozinho?

O roteiro mostra Blu, último macho da espécie, que vive em Minessota, Estados Unidos, viajando com sua dona para o Rio, ao encontro de Jade, última fêmea criada por um biólogo carioca. O cativeiro, guardado por um segurança mequetrefe, é arrombado. Os pássaros são capturados e levados para a favela. Agora, precisam da ajuda de outros pássaros para escapar do comércio ilegal de aves silvestres.

Minha filha adorou o filme! Tanto que tivemos que comprar dois mac lanches felizes para levar para a casa dois bonecos de plástico do filme - a saber, o casal protagonista. Porém, que os governantes pensem bem antes de indicar o filme a investidores ou aos membros dos respectivos comitês organizadores das supracitadas competições esportivas. Há macacos que roubam estrangeiros em pontos turísticos, um menor de idade que integra uma quadrilha e pilota motocicleta, estereotipagem da favela como um lugar assustador e até mesmo chacota com a polícia militar, que é incapaz de solucionar o furto das aves ou de tomar qualquer atitude que indique uma pista.

Outro ponto que pode ser um problema para os pequenos espectadores é o tempo de projeção, que tem mais de uma hora e meia. Pelos menos, Rio é dirigido por um brasileiro. Melhor ainda, um carioca. Por isso, nada de rumba, salsa, conga, maracas, mariachis etc.

quarta-feira, abril 20, 2011

#26 - A garota da capa vermelha (Red riding hood), de Catherine Hardwicke


Reza a lenda que a história de Chapeuzinho Vermelho tem duas versões. A primeira, de contornos mais bizarros e adultos, fala sobre um lobo, cheio de segundas intenções, que cozinha a vovó e a serve como prato principal num banquete, no qual a pobre jovem comete, inadvertidamente, o canibalismo. A outra, infantil, todo o mundo conhece: é uma parábola para as crianças obedecerem aos pais.

A adaptação cinematográfica do famoso Conto da Carochinha é um meio termo. Ou seja, é um filme adolescente que pega carona no sucesso de amores impossíveis entre humanos e seres mitológicos, como vampiros e lobisomens. Quem assina a direção é Catherine Hardwicke, a mesma por trás do sucesso Crepúsculo. Por isso, qualquer semelhança não é mera coincidência.

Aqui, sai o Lobo Mau, entra um lobisomem. Porque lobisomens estão na moda. Chapeuzinho Vermelho é uma bela jovem com casamento arranjado pelos pais. Porém, ela ama um lenhador. Quando o bichano malvado ataca sua irmã, a vila em que mora se vê ameaçada e começa uma caçada implacável, com a ajuda de um prepotente clérigo experiente no ofício de matar lobisomens.

Os problemas de A garota da capa vermelha se concentram no fraco e enfadonho roteiro. As sequências são atiradas na tela sem coesão alguma, com cenas mal desenvolvidas e um suspense (quem será o lobisomem?) muito pouco aproveitado. As atuações também não ajudam. O jovem casal (Amanda Seyfried e Shiloh Fernandez) mal fica junto, resumindo-se à juras de amor bem comportadas. Gary Oldman, para variar, é quem segura as pontas como Padre Solomon. A direção de arte até sabe tirar proveito da história, mas nada de tão deslumbrante como o trailer promove.

sábado, abril 16, 2011

#25 - Besouro verde (The Green Hornet), de Michel Gondry


Quando fiquei sabendo que Michel Gondry, um dos meus diretores preferidos, ia dirigir um filme de super-herói, fiquei apreensivo. Escrevo isso porque, na minha opinião, esta enxurrada de produções arquetípicas são, na maioria dos casos, um exercício cinematográfico preguiçoso, feito por quem anda com a criatividade esgotada. Gondry e criatividade esgotada não formam par.

Pior que Besouro Verde não parece um filme de Gondry - a não ser em fortuitos dois minutos de uma sequência com linguagem mais solta. De resto, é um filme de super-herói mesmo. Pelo menos, a carga cômica do roteiro é bem trabalhada. A dupla protagonista, formada por Seth Rogen e Jay Chou, está em sintonia e proporciona bons momentos. O fantástico Christoph Waltz, que brilhou em Bastardos Inglórios, novamente dá seu show à parte.

Levemos em conta que o Besouro Verde é um super-herói de raiz, que apareceu pela primeira vez como um programa de rádio, nos idos da década de 30. Bacaninha, Gondry.

#24 - Minhas mães e meus pais (The kids are all right), de Lisa Cholodenko


O bom de um filme quase independente, só com a pontinha do rabo preso à indústria cinematográfica, é que ele pode explorar temas complexos e polêmicos com certa leveza, levando a audiência a pensar um pouco mais sobre certos posicionamentos. Ainda que faça isso de forma indireta, vale a pena. Indicado ao Oscar de Melhor Filme, e claramente ali por conta do acréscimo de mais cinco filmes aos cinco convencionalmente indicado ao longo da existência da premiação, Minhas mães e meu pai tem um começo promissor.

Os primeiros trinta minutos de projeção são bastante simpáticos, colocando a questão da união homossexual em pauta sem exageros ou maneirismos. O roteiro conta a história de um casal de lésbicas que cria dois filhos, reproduzidos com a ajuda de um anônimo doador de esperma. Quando os jovens decidem procurar o dono dos espermatozóides que fecundaram os óvulos de suas duas mães, o então sujeito que esvaziou a bolsa escrotal entra na família, estabelecendo relações que geram conflitos em todos.

O elenco é o ponto alto do filme. O casal é interpretado por Julianne Moore e Annette Bening, ótimas, sem exageros. Mark Ruffalo, irrepreensível, é o pai. Nisso, a direção funciona perfeitamente. As cenas que envolvem certa tensão sexual são resolvidas de forma bastante simples.

O problema é que lá pelo terço final a maionese desanda. O que era uma comédia dramática simpática se torna um folhetim mexicano. Toda a simpatia com a qual o tema era levado até então some, e dá lugar a reviravoltas mal exploradas e resolvidas de forma preguiçosa. A cena final aposta num certo tipo de conservadorismo, deixando exposta a fragilidade do argumento.

sexta-feira, abril 15, 2011

#23 - Until the light takes us, de Aaron Aites e Audrey Ewell


A partir de hoje, vou colaborar também com o Cult Box, um coletivo cultural bem bacana do qual faz parte meu camarada Luciano Mattos. O pontapé inicial é um texto sobre o documentário Until the light takes us, que faz um apanhado geral do que foi o black metal norueguês, repleto de polêmicas. Assassinatos, suicídios, igrejas queimadas e muito mais. Está tudo lá.

Para ler, clique aqui!

#22 - Bebês (Babies), de Thomas Balmès


Quatro bebês, concebidos em quatro regiões completamente distintas, criados sob a influência de quatro culturas bastante singulares. O documentário Bebês acompanha um ano na vida de quatro recém-nascidos: da vinda à luz até os primeiros desajeitados passos.

Ponijao mora numa área desértica da Namíbia, na costa africana. Bayar vive no meio de um longínquo vale nas cordilheiras da Mongólia. Mari nasceu na claustrofóbica e iluminada Tóquio, capital japonesa. E Hattie, moradora de São Francisco, nos Estados Unidos, é criada por pais adeptos das terapias alternativas. Está montado um mosaico no qual, ao mesmo tempo em que as diferenças étnicas são exploradas, sublinha-se as semelhanças éticas. O conceito de família, não importa em que canto do planeta, é o mesmo.

O diretor Thomas Balmès consegue uma coletânea de imagens realmente preciosas. A singeleza com a qual o tema da maternidade é tratado proporcionar ao espectador ser exatamente um observador privilegiado. Não há diálogos. O único som que povoa o filme é o de crianças aprendendo a viver. E nisso, as quatro são idênticas: valorosos personagens de uma espontaneidade impressionante.

A câmera consegue planos maravilhosos, auxiliada por uma fotografia no capricho. A modesta trilha sonora pontua com perfeição o nível de fofura do documentário, sem deixar que ele caia no sentimentalismo barato.

Bom programa para quem está na dúvida sobre trazer um pequeno ao mundo.

PS: fique durante os créditos finais para ver como as crianças estão hoje em dia. Cada uma mais fofa do que a outra.

sábado, abril 09, 2011

#21 - Restrepo, de Tim Hetherington e Sebastian Junger


Dois jornalistas foram mandados para um dos lugares mais perigosos do planeta com o intuito de registrar com suas câmeras a rotina de soldados estadunidenses na guerra em terras afegãs. Foram parar em um vale chamado Korangal, onde quase 80% dos conflitos se deram. Durante cerca de um ano, comeram o que os soldados comiam, dormiram onde os soldados dormiam, viram o que os soldados viam. O resultado da expedição se transformou no documentário Restrepo, nome dado a um posto avançado no ponto mais alto do Vale Korangal, em homenagem ao homônimo médico do exército morto em combate.

O filme é dividido em dois cenários, ambos com os mesmos personagens. Um deles é o campo de batalha, onde o som de tiros e a gritaria é constante, levando os espectadores aficionados por ações táticas ao delírio. O outro é em estúdio, com os mesmos combatentes já em solo amigo, fazendo uma releitura de suas lembranças. Por isso, quando os produtores e a mídia em geral vendem Restrepo como um filme experimental, imprevisível em sua montagem, estão mentindo. E aí entra toda uma discussão do valor do cinedocumentário de fundo bélico.

Quando em 1922 Robert Flaherty filmou o simpático esquimó Nanook em seus afazeres domésticos, constituindo ali o primeiro documentário que se tem notícia, muita gente torceu o nariz questionando a veracidade da ação, em contraposição ao ficcional. Ora, se Flaherty pedia a Nanook para mostrar como ele fazia para pescar, qual seria a real validade daquela ação direcionada diante das câmeras? Em Restrepo, se o governo estadunidense liberou a filmagem no Afeganistão sob a condição de análise do material antes do mesmo entrar em cartaz, qual é o verdadeiro valor do que foi documentado?

Não há em Restrepo uma ponta qualquer de antibelicismo, estratégia que faz parte de uma pensada isenção que, aqui, mais funciona como propagranda militar. Por isso, não há também qualquer constrangimento em mostrar como os soldados estadunidenses tratam os afegãos: pessoas realmente estranhas, ultrapassadas e deslocadas da realidade. Também não parece haver em qualquer soldado alguma espécie de trauma ou conflito que realmente se sobreponha à barbárie de uma guerra. Há, nas entrevistas de estúdio, apenas um tom depressivo diante da morte de um ou outro colega.

A opção dos diretores em intercalar a ação propriamente dita com os depoimentos em estúdio também colabora para dissolver ainda mais o valor de documento. Diante de uma câmera estática, com um microfone de lapela e tempo para pensar no que dizer, e com a possibilidade do corte e do descarte de imagens, nenhum dos depoimento parece realmente contribuir valorosamente com o produto final. Nem com a intenção inicial de hiper-realismo.

Por isso, Restrepo é um amontoado de imagens documentadas que não tem valor algum ao cinedocumentário. É apenas distração para um público que ainda precisa acreditar, para o bem dos congressistas estadunidenses, que é preciso caçar terroristas barbudos e procurar armas químicas para garantir a paz em seu longínquo país. É mais entretenimento do que documentário. É mais propaganda belicista do que cinedocumentário.

Só faltou, ao final da projeção, um telefone para o alistamento.

#20 - Bronson, de Nicolas Winding Refn


Muitos cinéfilos devem se lembrar do nome de Tom Hardy por sua participação em A Origem, produção de Christopher Nolan que concorreu ao Oscar de Melhor Filme. Ao mesmo tempo, em festivais ao redor da Europa, o diretor Nicolas Winding Refn começou a ganhar certa notoriedade. Isso fez com que muita gente buscasse a filmografia do sujeito. Foi então que a crítica internacional se deparou com Bronson, estrelado por um irreconhecível, visceral (odeio esse adjetivo, mas aqui ele cabe) e intenso Hardy.

O filme, de 2008, conta a história verídica de Michael Peterson, o preso mais famoso de toda a Inglaterra. Apelidado por si próprio de Charles Bronson, ganhou as manchetes inglesas por causa de seus incontroláveis e assustadores acessos de fúria. Era preciso um batalhão inteiro para contê-lo. Por isso, Bronson passou por diversos presídios, em celas solitárias, isolamentos e até jaulas. O material é tão violento, que o filme foi chamado por alguns de "Laranja Mecânica do século 21". Menos, né?

Entretanto, o roteiro de Bronson é realmente fantástico. Quem conta a história, intercalando momentos de lucidez com fantasias descabidas, é o próprio protagonista. Aceitando sua condição animalesca, narra com escárnio suas desventuras para uma plateia imaginária, em um suntuoso teatro. Transfigurado como um clown, arranca aplausos esfuziantes. E é aí que Hardy brilha.

O trabalho de caracterização do ator é realmente o ponto forte do filme. Tanto na pele de um criminoso brutal, quanto com a cara maquiada, Hardy dá um show à parte. Uma verdadeira aula de entrega ao personagem. Tão impressionante é sua atuação, que nem dá para acreditar que aquele personagem ordinário de A origem seja ele.

Bronson está muito longe de ter um décimo da genialidade da obra de Kubrick. Mas não deixa de ser um excelente filme!

#19 - Um parto de viagem (Due date), de Todd Phillips


Todd Phillips é um sujeito que tem bastante moral comigo. Dirige seus filmes com bastante firmeza e sabe tirar proveito do elenco, do roteiro e da montagem. Prova disso é que vai da comédia fácil (Se beber, não case) até o cinedocumentário mais contundente (Hated). Tudo o que ele faz tem aquela assinatura que confere à obra um diferencial.

Um parto de viagem tem o mesmo problema que a sua primeira comédia de sucesso aqui no circuitão brasileiro: o título. E aí não é culpa dele. Tem, também, o mesmo frescor que anda em falta nas produções do gênero. Conta a história de um homem de negócios que perde o voo de volta para casa, onde seu filho irá nascer. Tudo culpa de um ator iniciante que sonha com o estrelato hollywoodiano. A única maneira de chegar ao destino, comum a ambos, é ir de carro. Começa, então, uma viagem cheia de percalços.

Palmas para o elenco. Robert Downey Jr. e Zach Galifianakis estão simplesmente perfeitos. Palmas também para o buldogue francês que os acompanha durante boa parte do trajeto. No entanto, o que mais chama atenção são os diálogos inteligentes - um luxo à poucos roteiros hoje em dia. Nem mesmo no desfecho, que é um pouco emotivo demais para os padrões de Phillips, a peteca cai.

Vem aí Se beber, não case 2!