quinta-feira, março 31, 2011

#18 - Bruna Surfistinha, de Marcos Baldini


Faz tempo que a mídia anunciou pela primeira vez, com bastante estardalhaço, a adaptação para as telas de um dos livros de maior sucesso na lista dos mais vendidos por aqui no Brasil. O feito foi conquistado por Raquel Pacheco, vulgarmente conhecida por Bruna Surfistinha - a prostituta que tinha um blog em que contava suas peripécias sexuais e julgava seus clientes num rigoroso sistema de avaliação. O conteúdo virtual virou livro, e muita gente torceu o nariz para a obra da garota (de programa). Mas vamos combinar: como literatura, é mais interessante do que Paulo Coelho. Não é?

Tecnicamente, Bruna Surfistinha segue o apuro estético que tem, graças aos deuses do bom cinema, permeado grande parte da produção audiovisual do país. A montagem beira a perfeição. Fotografia bem cuidada, locações bem escolhidos e uma trilha sonora caprichada chamam a atenção e conferem um acabamento bastante satisfatório. Nesse ponto, a direção de Marcos Baldini, egresso dos filmes publicitários, é certeira.

É no roteiro, entretanto, que está o centro da questão. Era de se esperar que o filme fosse tão explosivo, subversivo e ousado quanto o livro. Afinal, uma prostituta não vira celebridade sem dar uma chacoalhada no star system tupiniquim. A suavidade e ingenuidade com as quais o argumento é tratado, em dados momento, atenuam demais a intensidade com a qual o tema deveria ser tratado. Por outro lado, há certo exagero na rubrica quando a cena pede profundidade - é o caso do semblante pouco versossímil que a esforçada e corajosa Deborah Secco mantém quando está dopada.

Quem assiste ao filme à procura de polêmica pode quebrar a cara. Ainda que haja nudez, ela é correta, nunca exagerada. No fundo, Bruna Surfistinha não é uma biografia autorizada (a personagem que dá nome ao título aparece fortuitamente em quadro, travestida de recepcionista de um restaurante chique). Muito menos pretende ser uma adaptação literal das páginas do livro. É, sim, um filme sobre a perda de ingenuidade de uma garota de classe média com uma família desequilibrada. E aí, não precisa ser Raquel Pacheco para contar a história.

Ao contrário do que a moça fazia com seus clientes, não vou dar nota ao filme sobre Bruna Surfistinha. Digo apenas que vale o programa.

quinta-feira, março 24, 2011

#17 - Tuff Turf - O rebelde (Tuff Turf), de Fritz Kiersch


Taí um clássico da Look Vídeo! Anos 80, moda punk-aeróbica, sintetizadores e gangues de rua. Tuff Turf, um daqueles filmes que, segundo o SBT, era sempre exibido pela primeira vez na televisão, tem tudo isso. É uma espécie de Juventude transviada dos anos 80. No lugar de James Dean, James Spader, em um de seus primeiros longas para a tela grande.

O roteiro segue a receita de vários outros filmes: há uma loira que se disputa - e aqui a cacofonia é proposital, já que o comportamento da moça não é nada pudico - entre o chefe da gangue local e o destemido forasteiro recém-chegado à cidade. O rapaz apanha, mas não desiste de concretizar seu desejo. Até que dá para entender: no caso, a loira é interpretada por Kim Richards, com suas compridas madeixas frisadas que, de tão longas, chegavam às ancas. Deixou muitos adolescentes - como esse que lhes escreve - suspirando...

O grande barato em rever Tuff Turf agora, em pleno século 21, é perceber como tudo no filme ficou datado: o pôster, a trilha sonora, a cenografia, a montagem, os diálogos e, especialmente, o figurino. Por isso, é diversão certa aos saudosistas. Vale também para ver Robert Downey, até então sem o Jr., em começo de carreira.

Cada década tem um tipo de rebelde. O representante dos anos 80 é bem bacana!

#16 - A origem (Inception), de Christopher Nolan


Há certos filmes de ficção científica que ousam tanto, mas tanto, que acabam deixando o espectador mais confuso do que realmente admirado. Com A origem, dirigido e escrito por Christopher Nolan, acontece exatamente isso. A quantidade de informação e detalhes são tão grandes, que de vez em quando fica chato ter que montar o quebra-cabeças que o roteiro propõe.

Acompanhamos a história de um grupo de especialistas em entrar nos sonhos das pessoas para acessar dados sigilosos, que normalmente ficam trancafiados no inconsciente. Capitaneados por Leo DiCaprio, os tais "ladrões de sonhos" aceitam um trabalho bastante arriscado quando um inescrupuloso empresário japonês os desafia a colocar uma memória falsa na mente de um jovem prestes a herdar uma fortuna do pai enfermo. Isso é o que eles chamam de inception - ou, em bom português, inserção.

Sem pedir licença, faço o trocadilho: Inception é insípido. Tem lá seus efeitos especiais, que não enchem tanto os olhos. Tem lá suas questões existenciais, que não são tão (nossa, três ãos seguidos) aprofundadas. Tem lá sua historieta romântica, que não é tão bem explorada como deveria. Tem lá sua fotografia que estranhamente levou um prêmio. E tem esse roteiro confuso, doido, que exige demais da paciência - e não da inteligência - do espectador ao longo das quase duas horas e meia de duração.

Tão confuso é esse roteiro, que na internet há foruns destinados a tentar compreender várias cenas do filme. Inclusive, uma delas é realmente intrigante (tenho mesmo que avisar que tem spoiler?): se a aeromoça da companhia aérea, comprada pelo japonês, sabia de tudo o que estava acontecendo, e se todos ali são comparsas, menos a vítima, por que DiCaprio disfarça quando vai colocar o sonífero na bebida? As respostas são as mais esdrúxulas. Aliás, a maioria das respostas para todas as questões que suscitam dúvidas tem mais de uma interpretação, característica que vai contra a cartilha da indústria hollywoodiana - da qual faz parte a produção de Nolan.

Podem comparar com Matrix. Faz sentido. Duas boas ideias desperdiçadas. Um é tão sem-graça quanto o outro.

sexta-feira, março 18, 2011

#15 - Não me abandone jamais (Never let me go), de Mark Romanek


Outra estreia de hoje, mas essa vale muito a pena! O filme é uma adaptação de um livro japonês, cuja história é bastante interessante. E perturbadora també. Segue o que eu escrevi sobre o filme no Jornal do Brasil.

O fio condutor de Não me abandone jamais é um triângulo amoroso entre três jovens que se conhecem desde a infância, alunos de um bucólico e aparentemente tranquilo internato no interior da Inglaterra. Porém, o argumento que dá corpo ao filme do diretor Mark Romanek, baseado no livro do escritor japonês Kazuo Ishiguro, consegue ir um pouco mais além: mistura drama, romance, suspense e até ficção científica de forma arrebatadora.

O roteiro tem início na década de 50, quando o espectador é informado sobre o aumento na expectativa de vida dos seres humanos graças aos avanços das pesquisas sobre transplantes de órgãos. Então, o que no livro de Ishiguro só é revelado nos últimos capítulos, vêm à tona nos primeiros 20 minutos de projeção: as crianças do tal internato são especiais. Aos poucos, o tal eufemismo vai dando lugar a uma história incrivelmente densa e bastante perturbadora, capaz de deixar a plateia boquiaberta.

A direção de Romanek tem lá seus vícios estilísticos. Abusa de certos clichês, como longos closes em objetos inanimados, música tristonha e uma narração em off que explica demais o argumento - recurso que, em parte, até se faz necessário para dar conta da profundidade do livro. A belíssima fotografia e o figurino caprichado ajudam a dar um tom de pesar ao filme. A atuação do trio principal é irretocável. Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley se doam integralmente aos seus personagens. Forte e pungente, Não me abandone jamais é uma história de amor que esconde uma discussão existencialista pertinente, colocando em xeque conceitos éticos e morais.

#14 - Sexo sem compromisso (No strings attached), de Ivan Reitman


Hoje é dia de muitas estreias no circuitão: somente aqui no Rio, são 10! Hoje o blog ganha duas postagens. A primeira é a comédia romântica, a primeira na carreira de Natalie Portman, Sexo sem compromisso. Ela faz par romântico com o péssimo Ashton Kutcher. Podia ter se poupado desse mico, Portman! Eis o que escrevi sobre o filme para o Jornal do Brasil.

Parece que a falta de compromisso com a criatividade anda assolando o terreno das comédias românticas. Sexo sem compromisso é apenas mais uma produção que segue a cartilha com antolhos bem presos à câmera. Natalie Portman, que merecidamente foi recém-agraciada com um Oscar, se presta a fazer par romântico com o monodramático Ashton Kutcher, em um roteiro batido e previsível.

Seguindo a ultrapassada cartilha do gênero à risca, acompanhamos a história de um jovem que reencontra, anos mais tarde, uma antiga paixão de infância. Agora, ele é um assistente de direção que vive à sombra do sucesso do pai (o sempre correto Kevin Kline). Ela, uma médica emancipada que evita compromissos amorosos. Apoiados na ideia de praticar o coito sem comprometimento emocional, o casal, obviamente, vai passar por uma série de provações. Está dado o ensejo para as lições de vida.

Não bastasse os personagens desinteressantes e apáticos, em Sexo sem compromisso o tema da "amizade colorida" é tratado com tanto puritanismo, que mal há espaço para a comédia - muito menos para uma possível reflexão sobre o assunto. A única coisa que salva o filme, ainda que mal utilizada na montagem, é a trilha sonora.

sexta-feira, março 11, 2011

#13 - Doce vingança (I spit on your grave), de Steven R. Monroe


Estreia hoje o remake de um clássico do exploitation. O título, que era o bacana do original, em português mais parece que se trata de uma comédia romântica: I spit on your grave (que tinha outros títulos alternativos como I hate your guts) aqui virou Doce vingança. A refilmagemn dá conta da atmosfera sombria e brutal do original, apesar de não ser, na sua essência, um exploitation. Veja o que escrevi sobre o dito cujo no Jornal do Brasil.

Em 1978, I spit on your grave, um dos vários subtítulos para o filme Day of the woman – que por aqui ficou conhecido como A vingança de Jennifer – chegava aos cinemas provocando estardalhaço. A produção de Meir Zarchi, que continha uma longa e perturbadora sequência de humilhação e violência sexual, foi banida de diversos países e logo se tornou um clássico do exploitation. Mais de 30 anos depois, o filme ganha um remake, Doce Vingança. Agora, com orçamento generoso para gastar em sangue e incrementar as cenas de tortura.

O argumento é o mesmo: uma bela e esbelta escritora da cidade grande, em busca de paz para terminar seu livro, aluga uma cabana isolada no meio do mato. Assediada pelos locais, acaba sendo brutalmente violentada por um grupo de cinco homens (no original, eram somente quatro). Dada como desaparecida, tempos depois ela volta para se vingar de seus algozes.

O roteiro tem lá seus erros e acertos. E tem também seus buracos, bem profundos. A produção da década de 70 não precisava se preocupar com crateras narrativas, já que era um produto típico do underground. Por isso, diálogos estapafúrdios, reviravoltas esquisitas e atuações irregulares, agora, não são perdoáveis pelo público. No entanto, a força da história original se mantém. A cena na qual a mocinha é vilipendiada ainda é capaz de gerar bastante incômodo. Já as sequências de vingança, com mortes repaginadas, ganharam requintes de extrema crueldade, pegando carona na contemporânea estética de hiperviolência que povoa os títulos do gênero.

A grande diferença entre o original e o remake é o tipo de impressão que vão deixar na plateia. Enquanto o primeiro pregou o terror moral, o segundo investiu no terror gráfico. Um criou polêmica para entrar para a História do cinema underground. O outro vai criar polêmica para uma discussão em mesa de bar. Porém, ainda assim, tirando proveito da aura do original, Doce Vingança é uma interessante experiência cinematográfica para quem tem estômago.

quarta-feira, março 09, 2011

#12 - Gnomeu e Julieta (Gnomeo & Juliet), de Kelly Asbury


Terça-feira de Carnaval, já de saco cheio de bailinhos infantis - os quais, desconfio, minha filhota nem curte tanto assim -, resolvi levar minha pequena cinéfila, ela, ao cinema. Aquele programa de índio mesmo: multiplex no shopping! Como ela achou o Rango muito feio no cartaz, resolvemos conferir Gnomeu e Julieta. Dessa vez foi mais complicado. Sessão lotada, crianças esperniando, mães explicando em voz alta a história (o moleque atrás da gente chamou a Julieta de Gnomeu), ar-condicionado no talo e nós três sentados na seção descolamento de retina, aquela que fica praticamente grudada na tela.

A clássica tragédia de Shakespeare é adaptada para o mundo dos anões de jardim, mais comuns nos gramados estadunidenses do que nos brasileiros. No caso, gnomos vermelhos e azuis, que vivem no melhor estilo Crisps and Bloods, aquelas gangues rivais de Los Angeles. Ou seja, estão sempre em pé de guerra. Um dia, Gnomeu, azulão, se apaixona pela Julieta, rubra. Em meio aos conflitos que marcam a disputa territorial, o casal diminuto tenta manter um relacionamento às escondidas.

Produzido por Elton John, Gnomeu e Julieta tem uma aura glitter divertida. É uma história de amor com aquela pitada de purpurina. Diverte os pais um pouquinho, mas tenho lá minhas dúvidas se, assim como os bailes infantis, entretém as crianças. Falo pela minha cria, que saiu mais impressionada com o frio glacial da sala de projeção do que com a história dos anões apaixonados.

Rango deve ser melhor.

segunda-feira, março 07, 2011

#11 - Barry Munday, de Chris D'Arienzo


Não me lembro como Barry Munday veio parar na minha frente. Não há aqui nenhuma badalação: protagonistas, diretor, roteirista etc - ninguém famoso. E, para a falar a verdade, é um dos filmes mais estranhos que eu já vi. Não é bom nem ruim. Quer dizer, às vezes fica bom, de repente fica ruim. Porém, nunca chega a ser em sua totalidade bom ou ruim. Entende?

O roteiro conta a história do sujeito que dá nome ao filme, um jovem cuja testosterona funciona a mil por hora, embora não faça lá tanto sucesso com as mulheres. Um dia, após um incidente com uma de suas pretendentes, ele acorda no hospital e descobre que precisou ter os testículos removidos. Sua virilidade, então, cai em xeque. Para piorar, um advogado o procura para que reconheça a paternidade do bebê de uma moça muito feia. Com a impossibilidade de ser pai novamente, e abalado sexualmente, tem início uma trama óbvia.

Misto de drama e comédia, Barry Munday aborda assuntos delicados, mas nunca cai em profundidade. As piadas também não são rasas o suficiente para criar empatia com o roteiro (talvez isso explique um pouco melhor o primeiro parágrafo lá em cima). Apesar de tudo, Patrick Wilson, o protagonista castrado, e Judy Greer, a patinha feia, têm um bom rendimento. Primeiro trabalho de Chris D'Arienzo como diretor, falta pulso firme para dar um acabamento mais robusto ao filme.

Então é isso, ora bolas! Nhé.

#10 - Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (You will meet a tall dark stranger), de Woody Allen


Já escrevi anteriormente, e sublinho aqui novamente, que Woody Allen é um barato quando não se leva tão a sério. Seus filmes mais despretensiosos têm um quê de sessão vespertina que me encanta. Assim é com Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, um roteiro que não chega nem aos pés dos roteiros mais complexos do diretor em termos de erudição. Por isso mesmo, é leve e divertido.

A história começa com uma senhora de idade que busca o auxílio de uma cartomante para apaziguar seus problemas pessoais. Recém-abandonada pelo marido, começa a se intrometer na vida da filha, casada com um escritor em dificuldade para lançar o segundo livro. Em pouco tempo, tem início uma sucessão de encontros e desencontros.

O roteiro conta com uma narração em off que dá o tom bem humorado de uma comédia de costumes. O elenco dá conta do recado, com medalhões em forma: Anthony Hopkins, Naomi Watts e Antonio Banderas. Gemma Jones dá um show à parte como uma entusiasta das ciências ocultas.

Tão leve, que a resenha para por aqui, para que a leitura não fique pesada.