domingo, janeiro 23, 2011

#3 - Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas (Loong Boonmee raleuk chat), de Apichatpong Weerasetakhul


Eu costumo dizer por aí, para quem quiser ouvir, que não gosto de filmes de fantasmas. Porém, depois de assistir ao vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano passado, preciso repensar meus conceitos. É que Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas mostra que é possível dramatizar espectros a ponto de poetizar a tênue linha entre a existência e a ausência. Não é um filme para muitos. Porém, os poucos que estiverem dispostos a embarcar na onda do diretor tailandês Apichatpong Weerasetakhul, conhecido por fazerem coabitar em seus filmes o ficcional e o documental, vai ter uma experiência cinematográfica realmente enriquecedora.

O tal Tio Boonmee está enfermo, praticamente aguardando a morte, quando recebe a visita de alguns familiares. Refugiado em uma chácara nos confins da floresta tailandesa, começa a repassar toda a sua vida, refletindo sobre erros e acertos. Numa noite densa e escura, durante o jantar, recebe a visita de dois espectros: sua esposa e seu filho - este, metamorfoseado como uma estranha criatura, conhecida na região como macaco fantasma. A espontaneidade com que os seres do outro mundo se juntam aos viventes, além da profundidade do que têm a fazer e dizer, tornam Tio Boonmee uma pequena pérola do cinema asiático.

Weerasetakhul conta uma fábula mostrando total domínio da técnica. A fraca luz que banha seus personagens é magistral. As aparições são intrigantes, delicadas, e acontecem em meio à penumbra da noite ou à volumosidade da mata. Os atores, com pouca experiência, tem tempo de sobra para exercitar o jogo cênico, apoiados na cronologia oriental que encara todo o detalhe do movimento como passo necessário para que se enxergue o todo. Por isso, é preciso dar tempo ao filme, esquecer a eloquência e a verborragia ocidental que ditam as produções contemporâneas. Nesse aspecto, Weerasetakhul é quase como Tarkovsky: se um personagem atravessa um rio, o espectador acompanha a travessia de uma margem à outra, sem sobressaltos, podendo absorver o que de mais simples há na ação.

Dono de uma cinebiografia bastante contestadora, Weerasetakhul não se esquece de inserir, em meio à fábula, questões relacionadas ao seu país. São recorrentes as passagens que fazem menção à guerrilha, aos dogmas religiosos, à situação política e à xenofobia. Tudo isso sem perder o padrão estético apurado, sem abrir mão do lirismo.

Bom saber que o cinema ainda serve para encantar os olhos.

4 comentários:

Kamila disse...

Nunca assisti a nenhuma filme do cinema tailandês, mas essa obra aí tá tão bem resenhada por todo mundo que eu tenho que conferir - isso, se o filme chegar em minha cidade. rssrsrs

Beijos!

renatocinema disse...

Se você, que não gosta do estilo, adorou........imagine eu que aprecio.

Vou assistir essa produção.

Rafael Carvalho disse...

Curiosíssimo por esse filme, que nao estreou aqui em Salvador (nem sei se vai). Mas nao é tao difícil consegui-lo por outros meios e, para me preparar, resolvi ver uns filmes anteriores dele. Já tinha me encatado muito com Mal dos Trópicos, que é uma pérola diferente de tudo aquilo que a gente já viu no cinema. E é com esse seu cinema peculiar, fantástico (nos dois sentidos) e metafísico que o Joe vem ganhando cada vez mais a simpatia e a curiosidade do Ocidente.

edgar luiz molnar disse...

Gostei do filme, só não consegui entender a cena final, quando a cun hada e o sobrinho saem do corpo e vão se alimentar, e a sobrinha fica, não se jun ta a eles. Alguém enteneu a metafóra?