sábado, dezembro 31, 2011

#99 - Stalker, de Andrey Tarkovskiy

Ver um filme de Tarkovskiy é um prazer, a mim, inenarrável! É uma viagem estética profunda, repleta de conteúdo reflexivo. Stalker é uma obra-prima, uma das películas mais densas já produzidas pela sétima arte. É ambíguo, intenso, contemplativo, provocativo. É rotulado como ficção-científica, até mesmo por ser baseado em uma obra do gênero, mas causa estranheza a quem espera seres alienígenas, naves futuristas, exoplanetas etc. Mais do que científica, trata-se de uma ficção-humanista.

O roteiro é simplesmente fantástico, nos dois sentidos da palavra. Num futuro não muito distante, que não é datado, há uma lugar no planeta na qual opera uma força alienígena que pode realizar os desejos dos seres humanos. O local, conhecido como a Zona, é isolado pelas forças armadas. A entrada é proibida. Somente os stalkers, homens com supostos poderes paranormais, podem entrar na Zona sem ter a consciência afetada. A história começa quando um stalker aceita, pela última vez, levar um professor e um escritor até lá.

O argumento trabalha em tom existencial. É colocada em xeque não só a condição do stalker, como também a legitimidade da Zona. No fim das contas, o texto é uma poesia sobre a fé e o desalento andando lado a lado. A fotografia, em preto e branco em determinadas sequências e colorida em outras, é belíssima. Como é de praxe nos filmes de Tarkovskiy, os enquadramentos são geniais, minuciosamente planejados de forma a apoiar a narrativa.

Um filmaço! Obrigatório para quem entende que o cinema pode ser um intenso e prazeroso exercício de imersão. Obrigado por isso, Tarkovskiy.

#98 - Nunca fui santa (But I'm a cheerleader), de Jamie Babbit

O título é cretino, mas o filme é ótimo! Nunca fui santa (nada a ver com a película de Marylin Monroe, mas as pessoas que traduzem títulos de filmes usam crack) é uma comédia gay que facilmente vai agradar a quem curte cinema independente criativo, independentemente da orientação sexual. Produzido por uma ativista lésbica, o argumento trata a questão com bastante irreverência, sem nunca apelar para o melodrama. A linguagem é sempre escrachada e sarcástica.

O roteiro conta a história de Megan, uma líder de torcida que leva uma vida aparentemente tranquila ao lado da família católica. É popular na escola e namora um brutamontes membro da equipe de futebol americano. Até que um dia, a família desconfia de sua sexualidade. Acabam mandando a pobre moça para uma espécie de acampamento para curar homossexuais, masculinos e femininos. Lá, Megan conhece outros jovens com as mesmas questões que ela.

O visual de Nunca fui santa é bem bacana. Esteticamente, o filme é bastante colorido. As marcações cênicas são teatrais e o exagero é tratado como recurso narrativo. Detalhe para a participação de RuPaul, famoso cantor travesti, no papel de um instrutor ex-gay. O resultado é um filme leve, divertido e diferente.

Se você é preconceituoso, só lamento.

#97 - Skinning (Sisanje), de Stevan Filipovic

O ano não foi dos melhores para a Sérvia em matéria de cinema. O único filme a se destacar foi o polêmico A serbian film, que teve sua projeção proibida ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Skinning é um outro exemplar da terra de Petkovic. E se fosse proibido de ser exibido, por qualquer razão que fosse, não faria falta alguma.

Numa Sérvia pós-Milosevic, Novica é um jovem com futuro brilhante e talento incomparável para as ciências matemáticas. Um dia, conhece um rapaz que lhe apresenta a um grupo nacional-socialista, cujos ideais xenofóbicos e ufanistas acabam seduzindo-o. O que se vê, ao longo da projeção, é uma mudança radical na personalidade e nas perspectivas de Novica.

O problema é que o roteiro é muito ruim. Há sequências constrangedoras, como a que o professor de matemática, parado no meio da escada da escola, encontra Novica fortuitamente e faz uma mágica enquanto cita uma frase de efeito. As atuações são exageradas, as reviravoltas são previsíveis e o argumento não explora o tema de forma profunda.

Sérvios, não se abalem: Pet é ídolo.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

#96 - The perfect host, de Nick Tomnay

Nick Tomnay, então um diretor inexperiente, escreveu um roteiro bem bacana para um curta, que se chamava apenas The host. Tempos depois, corajosamente, ele resolveu alongar o argumento e filmou The perfect host, longa-metragem que tinha tudo para ter um roteiro enfadonho e cansativo, uma vez que a ideia central se esgota facilmente em poucos minutos. Porém, palmas ao diretor: seu filme ficou bem bacana!

Um criminoso em fuga invade a casa de um homem aparentemente comum, fazendo se passar por um amigo de sua filha, que está em intercâmbio estudantil bem longe dali. O meliante acha que poderia facilmente controlar a situação, só que as aparências enganam. Uma reviravolta no roteiro, que vocês já devem imaginar, faz com que The perfect host seja uma excelente comédia sarcástica, com requintes de crueldade.

O destaque é, sem dúvida alguma, David Hyde Pierce no papel principal, perfeito como o tal anfitrião perfeito. Sua caracterização é espetacular! Por mais que o desfecho seja meio preguiçoso, a narrativa prende a atenção do espectador o tempo inteiro, misturando comédia com suspense.

Bem bacana!

#95 - This film is not yet rated, de Kirby Dick

Nos Estados Unidos existe uma organização civil chamada Motion Picture Association of America, também conhecida pela sigla MPAA. É ela quem faz uma espécie de classificação indicativa de todos os filmes que são exibidos no país. Aqui no Brasil, a classificação indicativa fica por conta de um órgão público, o Ministério da Justiça. Formada por uma dúzia de pessoas ordinárias, pais de família e donas de casa sem qualquer experiência jurídica, cinematográfica ou pedagógica, as classificações do MPAA têm respaldo dos grandes estúdios, influenciando diretamente estratégias de exibição e divulgação dos filmes.

Em This film is not yet rated, o diretor Kirby Dick vai atrás dessas pessoas que julgam e ajuízam os filmes, cujas identidades são mantidas sob sigilo absoluto, como forma de resguardá-los de "pressões externas". O argumento parte de um fato tão absurdo, que o documentário acaba ganhando um tom cômico. Dick contrata uma detetive particular - que por si só já valeria um documentário, de tão interessante que é como personagem - para descobrir quem são os membros do MPAA e questionar não só a eficiência de suas decisões, mas também a base de conhecimento que possuem para interferir na indústria cinematográfica.

Só para se ter uma ideia, se um filme ganhar a sigla NC-17, No Children Under 17, que antigamente era o famoso X-Rated, nenhuma pessoa com menos de 18 anos pode entrar nas salas de cinema, mesmo que acompanhada de responsáveis. Obviamente, filmes pornográficos eram classificados com um X bem grande. Todo mundo concorda com isso. O problema foi que, quando o MPAA resolveu criar o NC-17, filmes que não continham pornografia propriamente dita, mas traziam algum conteúdo polêmico, passaram a cair nessa classificação, transformando o sistema em uma espécie de censor totalitário, controlado por uma minoria, influenciado, inclusive, por setores sociais ligados a interesses religiosos e políticos.

O título faz referência à própria situação do filme. Dick enviou um copião para a MPAA, e acabou precisando se encontrar com os membros da organização em uma reunião sigilosa. Além do roteiro ser bastante interessante, e de relevância para quem curte a sétima arte, é diversão garantida!

quinta-feira, dezembro 29, 2011

#94 - Meu melhor inimigo (Min bedste fjende), de Wolfgang Murnberger

Talvez esta resenha cause certa confusão em quem vier parar aqui através de mecanismos de pesquisa. É que existem outros dois filmes com o mesmo título em português. Esse aqui vem da Dinamarca, e conta a história de um garoto de 12 anos que, cansado de sofrer bullying, se junta a um outro amigo, igualmente azucrinado,  para criar uma maneira de se defender. O que parecia uma boa ideia, acaba ganhando proporções absurdas.

O absurdo é justamente o que faz com que a metade final de Meu melhor inimigo seja fraca. O roteiro acaba escapulindo para reviravoltas exageradas, perdendo o foco. Não que seja um filme ruim - é até bastante interessante à medida que tenta mostrar a gênese de um sentimento rancoroso, que nada mais é do que a condição ideal para a instauração, quando em grande escala, de regimes totalitaristas.

As crianças mandam bem, com cenas bastante violentas que exigem uma certa maturidade dramática. Há a frieza com qual os nórdicos resolvem suas questões, o que pode gerar uma certa estranheza aos espectadores mais tropicais. Novamente, nos minutos finais a trama escorrega no quiabo, mas aí a culpa fica com o diretor Oliver Ussing - que foi, vejam só, assistente de roteiro de Lars Von Trier em Anticristo.

Oliver, preste mais atenção no Lars...

#93 - Apenas uma vez (Once), de John Carney

Se você, que nem eu, não curte muito musicais, mas adora música, e acha que o gênero anda cambaleante, ainda mais quando misturado a relacionamentos amorosos, precisa ver Apenas uma vez. Um sopro de inteligência e sensibilidade para contar a história de um homem e uma mulher que se cruzam em um momento conturbado de suas vidas, com direito a uma trilha sonora consistente.

Tocando seu violão nas ruas de Dublin, capital irlandesa, um rapaz tenta ganhar alguns trocados decentemente. Um dia, uma imigrante para para observá-lo. Os dois trocam olhares e percebem que têm na música uma válvula de escape para seus problemas - a moça toca piano. Ao longo da projeção, o casal vai compondo e tocando canções que falam sobre suas experiências e sentimentos. Pasmem, sem qualquer pieguice, apesar das músicas serem meio tristonhas. O desfecho, contrariando a regra, é ótimo.

Ser uma produção independente ajudou Apenas uma vez a ganhar uma identidade própria. Não há qualquer amarra com a indústria musical. As gravações foram feitas com apenas duas câmeras digitais, durante três semanas e com um orçamento de 100 mil euros. Rendeu reconhecimento ao diretor John Carney, ex-integrante da banda The Frames. Os pombinhos protagonistas, Glen Hansard e Markéta Irglová, foram premiados por suas belíssimas atuações.

Bonitinho! Bom para ver a dois.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

#92 - Trabalho interno (Inside job), de Charles Ferguson

Somos a sexta economia do mundo e continuamos galgando posições. Nada a comemorar. Na verdade, isso nada mais é do que o reflexo da crise do crédito, que começou nos Estados Unidos e foi se alastrando pela Europa, começando com os bancos islandeses. O colapso do capitalismo estava apenas começando. Em Inside job, Charles Ferguson faz uma espécie de cartilha "for dummies", explicando em linguagem simples os complexos desdobramentos da crise - da primeira fagulha, até o rescaldo do incêndio.

O material que o diretor recolheu é um valioso documento. Sua habilidade em conduzir entrevistas é espantosa. Ele consegue deixar sem graça banqueiros e diretores de grandes instituições financeiras do governo. Alguns, como um decano de uma das mais famosas (será que ainda é?) escolas de economia do mundo, chegam a gaguejar diante dos absurdos que cercam os fatos. Esse mesmo sujeito, em seu currículo, muda o nome de um artigo que, antes da crise, elogiava a solidez dos bancos islandeses. Vê-lo explicando por que o título mudou, agora criticando os pobres banqueiros da terra de Björk, chega a ser patético.

Mesmo a narração de Matt Damon e a premiação do filme no Oscar não atrapalham o tom do discurso. Por incrível que pareça, não sobra nem para o Obama. Ferguson joga a merda no ventilador. É uma aula de cine-documentário, que seria uma boa oportunidade para ensinar como criticar com contundência sem perder o foco no objeto.

#91 - Os Smurfs, de Raja Gosnell

Os Smurfs eram famosos na minha infância. Um dos meus desenhos preferidos, mesmo com um sem número de esquisitices e interpretações convexas. Por exemplo, o Gargamel é um sujeito esquisitão que quer cozinhar em água fervente pequenos seres azuis que vivem em cogumelos. Doideira. Para isso, vai à floresta catar os fungos nos quais eles vivem. Suspeito. Além disso, só há uma mulher entre os smurfs, a Smurfette. Estranho. E é o primeiro desenho animado, que tenho lembrança, com um personagem assumidamente homossexual, o Vaidoso.

O filme é passado em Nova York, quando seis deles fogem de Gargamel após Desastrado estragar uma comemoração no vilarejo dos smurfs. Agora, eles precisam achar um jeito de voltar para casa. Num mix de animação com atores reais, o resultado até que é satisfatório. O grande destaque, sem dúvida nenhuma, é Hank Azaria, talvez o melhor ator da atualidade para papéis de vilões. Seu Gargamel é hilário para os adultos e assustador para as crianças, ao mesmo tempo. Irretocável!

A Duda gostou tanto, que foi uma verdadeira batalha para conseguir aquela porcaria de Mc Lanche Feliz com a boneca da Smurfette - que, obviamente, era a mais difícil de se conseguir. A pequena acabou se contentando com o Gênio mesmo.

#90 - Thor, de Kenneth Branagh

Tem coisas que realmente são incompreensíveis. Kenneth Branagh, sujeito especialista em teatro clássico e óperas, dirigindo filme de super-herói. Eu, que não criei vínculo com essas figuras arquetípicas quando criança, assistindo a Thor. Era meio óbvio que as perspectivas não eram boas, e que eu não ia achar a menor graça. Mas se o Kenneth Branagh dirigiu, será que dessa vez poderia ser diferente?

Nem foi. A mim - e que fique bem claro que é só a mim, não tenho nenhuma ressalva a quem curte esse tipo de coisa - é meio constrangedor ver um galã de traços nórdicos empunhando um martelo, fazendo cara de mau e vivendo numa terra fictícia cheia de gente em roupas brilhantes. Não cola. Apesar da história até ser interessante, a de um herói que é meio anti-herói, intempestivo, brigão, Thor não é um filme diferente dos outros do gênero. Tem uma penca de efeitos especiais que esvaziam o conteúdo.

O roteiro vocês conhecem, não é? Thor, figura mitológica, é expulso de Asgard e enviado de castigo à Terra. Aqui, em meio aos mortais, conhece uma arqueóloga que o ajuda a tentar encontrar o seu martelo e o caminho de volta para casa. Em meio a isso, seus amigos descobrem que o novo rei, seu irmão, está de conchavo com um vilão que quer dominar Asgard. O filme tem lá bons momentos, poucos. Uma piada aqui, outra ali. Quando a coisa fica séria, ou seja, quando há lutas, brigas e tals, tudo se transforma naquela mesmice cênica de praxe.

É isso.

#89 - Dança comigo? (Shall we dance), de Peter Chelsom

Desde o dia em que minha cônjuge se descobriu na dança de salão, ela tenta em vão me convencer que dar um passinho pra lá e dois pra cá é bacana. Eu alego que dança de salão é cafona. Ela nem discorda, mas diz que há vida inteligente por ali. Os dançarinos da turma dela já a convidaram para um show do Emílio Santiago. Graças a deus, ela não foi. Porém, um dia ela achou que seria bacana assistir a Dança comigo?, um filme estrelado por Richard Gere e Jennifer Lopez. É complicado.

Para piorar, o filme é um remake de uma produção nipônica homônima. No roteiro, um executivo desacreditado da vida e infeliz no casamento descobre na dança uma forma de extravasar suas frustraçõesFaz tudo por debaixo do pano, na surdina, para que ninguém descubra. Lá, ele conhece a JLo e, apesar da tensão sexual inevitável, percebe que precisa dar um novo rumo em seu relacionamento com a família.

Piegas, previsível e monótono são alguns dos predicados do filme. Como minha querida esposa viu uma série de tosqueiras ao meu lado, quase que forçosamente, eu devia isso a ela. Aguentei os malditos 106 minutos de projeção.

Podia ter sido pior. Imagina se a trilha sonora fosse do Emílio Santiago?

#88 - Um jantar para idiotas (Dinner for shmucks), de Jay Roach

Fim de ano chegando, várias resenhas atrasadas, acho que posso me permitir a reduzir essa porcaria a apenas duas palavras: uma merda! Nem vou perder meu tempo resenhando. Você também, não perca o seu tempo assistindo. Combinado? E não, Zach Galifianakis, que faz ponta, não salva o dia.

#87 - Passe livre (Hall pass), de Bobby Farrelly e Peter Farrelly

Me falaram que Passe Livre era uma daquelas comédias que ultrapassam o limite e forçam a barra com tosqueiras e bizarrices. Ótimo - pensei. Tratei de conferi-la exatamente no dia seguinte, mesmo com o Owen Wilson no elenco. Pior, ou melhor, é que se trata de uma das comédias mais bacanas do ano. Escrachada, incorreta e bastante divertida. A escatologia está lá, sim. E é bem engraçada. Uma cena em particular, que chocou muita gente, me fez doer a barriga de tanto rir.

O roteiro é inventivo, vejam só: dois amigos, cujo papo sempre gira em torno de sexo, recebem de suas cônjuges um passe livre por uma semana para fazer o que bem entenderem. O objetivo é desmistificar o sexo oposto e fazer com que ambos diminuam a fixação por piadas obscenas e pornográficas. Durante os derradeiros sete dias, acompanhados por um grupo de amigos esquisitões, os solteirões tentam exercitar a masculinidade.

Por incrível que pareça, Owen Wilson tem boa atuação. Sua parceria com Jason Sudeikis rende ótimos momentos. Os diálogos são bacanas, as sequências cômicas funcionam e a narrativa tem força suficiente para manter o espectador atento até o fim - coisa rara hoje em dia. Por incrível que pareça, em meio à escatologia ainda há espaço para uma reflexão no desfecho.

Eu recomendo.

#86 - Pra frente, Brasil, de Roberto Farias

Produzido em 1982 e lançado somente no ano seguinte, Pra frente, Brasil é um filme corajoso. Venceu não somente alguns festivais, como também a censura. Apesar da época ser a da redemocratização e da abertura política, tocar em feridas do regime militar ainda era algo mal visto. Os censores ficaram de olho no filme, e implicaram com muita coisa. Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores, era então presidente da Embrafilme. Teve que abandonar o cargo por ter aprovado verba para a produção de Roberto Farias.

O roteiro é ambientado na década de 70, quando a seleção brasileira de futebol brilhava com o tricampeonato mundial. Uma época em que o esporte era utilizado para anestesiar as massas e mante-las sob controle, incitando uma espécie de nacionalismo que servia para fundamentar campanhas políticas em prol do governo. No aeroporto do Rio, Jofre, um trabalhador de classe média, inadvertidamente divide um táxi com um militante de esquerda. Logo, é detido e considerado um subversivo, sendo submetido a sessões de tortura. Sua família, sem notícias de seu paradeiro, busca desesperadamente por notícias.

Dizem por aí que o argumento de Pra frente, Brasil surgiu de uma experiência verídica acontecida com Reginaldo Faria, que interpreta Jofre. Ele teria sido levado a uma sala escura do aeroporto depois de dizer a uma mulher na fila de embarque que estava portando uma arma. Brincadeira sem graça, convenhamos.

Há quem diga que o filme inocenta a direita, uma vez que os torturadores, no filme, são apoiados por empresários e não pelo governo. Há quem também o compare ao clássico Desaparecido, de Costa-Gavras. E há o próprio Roberto Farias rejeitando a comparação, por achar que Gavras era um esquerdista de boutique. Enfim, é uma confusão de lateralidades interminável. Fato é que o filme aborda uma época importante e recente do Brasil. Para as novas gerações, deveria ser obrigatória a exibição em salas de aula - nossa, soei como um ditador agora, hein?

terça-feira, dezembro 27, 2011

#85 - Um trânsito muito louco (Moving violations), de Neal Israel

Quem foi adolescente o final da década de 80 vai lembrar das incontáveis vezes em que Um trânsito muito louco foi ao ar, sempre pela primeira vez na televisão, nas sessões vespertinas do SBT. Estamos diante de um clássico. Foi difícil achar uma cópia para rever o filme. Meu irmão trouxe uma para mim, diretamente da França, numa pendrive. Agradeço muito!

O roteiro conta a história de uma turma ruim de roda que, como penalização pela imprudência ao volante, precisa passar por aulas de direção para conseguir reaver habilitação e carro. Os alunos formam uma fauna bastante incomum, liderada pelo infame Dana Cannon - o terror dos guardas de trânsito. Quando ele descobre que o policial responsável pelo curso de reabilitação tem um acordo com uma juíza inescrupulosa, e pretende reprovar a todos e leiloar os carros, embolsando o dinheiro, resolve dar o troco.

Lançado em 1985, Um trânsito muito louco tem uma penca de situações que continuam hilárias. Como, por exemplo, as protagonizadas pela velhinha que não consegue enxergar um palmo a frente. Mais divertido ainda fica o filme se você puder conferi-lo dublado, relembrando as sessões "inéditas" da TV.

#84 - Pânico 4 (Scream 4), de Wes Craven

Com os slasher movies é aquilo: ou você gosta, ou odeia. Eu sou da primeira opção. E tenho um carinho especial por Wes Craven, o cara que dirigiu clássicos do terror como A hora do pesadelo e A maldição de Samantha. O problema com a franquia Pânico é que ela pouco traz de novidade. O bacana, é que sabe rir de si mesmo e assumir essa falta de vanguarda. Isso é sinal de inteligência. Ou melhor, de diretor inteligente.

O roteiro é aquilo: te dou um doce se você adivinhar quem é o assassino mascarado. E não adianta tentar descobrir na primeira metade de projeção, porque há sempre uma reviravolta mirabolante lá para o final. No quarto capítulo da série, Sidney se transformou em uma best seller ao contar sua história. Aparentemente curada do trauma de três filmes correndo o risco de ser feita em pedaços por gente louca fantasiada de Morte, ela nem esperava (?) ter que passar por tudo outra vez.

Pronto. Ponha a cerveja no congelador e compre aquele petisco especial. Aposte com os seus amigos a identidade do assassino. Os mais fracos ainda vão dar gritinhos - se é que alguém ainda se assusta mesmo com aquelas cenas manjadas nas quais um elemento entra em quadro inesperadamente, acompanhado de uma nota aguda na trilha sonora.

Eu acho divertido...

#83 - Minhas tardes com Margueritte (La tête en friche), de Jean Becker

Gérard Depardieu é um canastrão. Simpático, mas ainda assim um canastrão. Aqui, ele estrela mais um filme regular. A sorte dele é dividir o set com a excelente atriz Gisèle Casadesus, que interpreta a tal Margueritte do título. O roteiro é bem Sessão da Tarde, despretensioso até o talo. Tão despretensioso que não decola.

Conta a história de um sujeito bronco (Depardieu, obviamente) que um dia encontra uma moça solitária num parque. Desgostoso da vida, ele acaba estabelecendo uma relação com a senhorinha. Passa, por exemplo, a cultivar o hábito da leitura, deixando seus colegas igualmente broncos atônitos. Aí, é aquilo: o final é tristonho, mas cheio de ternura. Tem uma liçãozinha aqui, outra acolá. É, no fundo, mais um filme sobre uma amizade improvável que cresce à medida em que os dois lados percebem como fazem bem um ao outro. Uma história que, com certeza, você já viu por aí.

A diferença é que a produção é bem cuidada.  Minhas tardes com Margueritte tem diálogos cuidadosos, direção criteriosa e, como já escrevi aí em cima, um banho de interpretação, uma aula de atuação, da simpática Gisèle Casadesus. Diria que o filme vale por ela.

#82 - Cara de queso, de Ariel Winograd

Também conhecido como Mi primer ghetto, Cara de queso é uma simpática produção argentina escrita e dirigida por Ariel Winograd, que então dirigia o seu primeiro longa. O roteiro conta a história de um garoto judeu recém-chegado à puberdade que, durante as férias de verão, viaja para um condomínio fechado com a família. Lá, outros rapazes iguais a ele se juntam e vivem situações formadoras de caráter - tem até bullying.

O bacana de Cara de queso (o título vem do apelido do protagonista), é que toda a ação é ambientada no final da década de 80. A direção de arte e os figurinos são caprichados, e colaboram para a fluidez do argumento. Os atores mirins são ótimos e dão bastante veracidade às situações, algumas bem constrangedoras.

Apesar do tom do roteiro ser majoritariamente cômico, há também certa dose de drama, bem comedida, na medida certa. O filme tem a maturidade que deu fôlego ao cinema argentino. É mais um bom exemplar da comédia de costumes platina. 

#81 - Copacabana, de Alfred E. Green

Groucho Marx e Carmen Miranda estrelam Copacabana, que, no caso, dá nome a uma casa de shows em Nova Iorque. Lançado em 1947, o filme traz números musicais reais da época em que a Pequena Notável já fazia sucesso no exterior. Marx, sem seus irmãos, brilha na pele de Lionel Q. Deveraux, um empresário malandrão que acaba se encrencando quando vende o show de sua namorada, Carmen Navarro (Miranda). E vende outro número, para a mesma noite, enganando o dono da casa: sua amada terá que encarnar, também, uma cantora francesa chamada Fifi. A confusão está feita.

Carmen Miranda e Groucho Marx estão em perfeita sintonia, com atuações impecáveis. As piadas são bastante divertidas e os números musicais nem são chatos. Vale a pena ouvir com atenção a participação de outros artistas da época, como as DeCastro Singers e Os Cariocas, um conjunto criado por Ismael Neto em 1942.

Fora o nome da casa de shows, não há qualquer referência à Princesinha do Mar. Além disso, obviamente, a produção hollywoodiana traz o conceito da música brasileira um pouco distorcido, com aquela interferência caribenha que até hoje faz os estadunidenses confundirem Buenos Aires com Brasília.

Pelé com Maradona eles não confundem.


#80 - Tá chovendo hamburguer (Cloudy with a chance of meatballs), de Phil Lord e Chris Miller

Talvez o mais bacana de Tá chovendo hamburguer seja o título em inglês, que traduzido literalmente faz uma brincadeira com a previsão do tempo. Mais ou menos um "nublado com possibilidade de almôndegas". A animação é baseada num livro homônimo, que faz muito sucesso entre a garotada estadunidense. Também, imagine só, chover hambúrguer é um negócio bem bacana de se imaginar.

O roteiro conta a história de Flint, um inventor desacredito por todos, inclusive a própria família. No entanto, consegue inventar uma máquina que faz cair do céu várias guloseimas - na verdade, o invento era para transformar água em comida. Só que a invenção acaba fugindo de seu controle. O que parecia ser a salvação econômica para a cidade, que vive um momento de crise por conta do fechamento de uma fábrica de sardinha em lata, acaba se tornando um fardo. E o único capaz de consertar tudo é Flint, ajudado por uma repórter... do tempo!

A animação foi concebida para ser uma experiência visual arrebatadora em IMAX 3D. Vi na tela do netbook e foi legal... Há situações divertidas, bons diálogos e algumas referências interessantes a outros filmes. A criançada com certeza vai gostar.

#79 - As canções, de Eduardo Coutinho

Eu perdi a oportunidade de falar com Eduardo Coutinho quando da cabine de imprensa de Lula, o filho do Brasil - aquela coisa tosca. Pensei: será que é o Eduardo Coutinho sentado ali no foyer? Não pode ser... Porra, o que o cara vai estar fazendo a essa hora da manhã (eram 10h30) numa sessão para jornalistas? Era ele mesmo. Quando me dei conta, já estava cercado por um punhado de gente "famosa". O preâmbulo acima foi para ilustrar a minha admiração pelo trabalho dele.

Fui ver As canções cheio de expectativas. Ao final da sessão, todas elas foram correspondidas. Coutinho é fera em extrair contundência da simplicidade. Partindo de um tema ordinário, a música como memória afetiva - bem além da auditiva -, o diretor consegue um mosaico de personagens, cada um mais interessante do que o outro, todos com histórias incríveis que vão sendo contadas aos poucos, paulatinamente, conforme a câmera vai ganhando a confiança dos interlocutores. A lente aberta dá tempo suficiente para que a música seja cantada à capela.

O cenário é bastante simples: uma poltrona escura em primeiro plano. Ao fundo, uma cortina preta, por onde entram e saem os personagens, numa espécie de espetáculo íntimo. Simplesmente genial! Um dos documentários mais interessantes dos últimos tempos.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

#78 - Em casa para o Natal (Hjem til jul), de Bent Hamer

Dezembro é o mês dos filmes de Natal, a grande maioria voltada para a família, enaltecendo valores e dando lições de vida. Talvez pela primeira vez em anos, chega ao circuito uma produção natalina que não é estadunidense e nem se trata de uma comédia de costumes. Alguns desavisados podem escolher o norueguês Em casa para o Natal como programa vespertino às vésperas das festas de fim de ano. No entanto, estejam avisados: trata-se de um drama sobre quem, justamente, não gosta de Natal.

O argumento é mais do mesmo: na fatídica noite comemorativa, vários personagens perambulam pela cidade em busca de conforto e redenção espiritual. Suas histórias são contadas de forma paralela. Devido ao curto espaço de projeção, além do tempo dramático mais lento do que o habitual, nenhuma delas é bem desenvolvida. Apenas uma - a de um pai que é proibido pela ex-mulher de voltar para casa para festejar o Natal com os filhos - merecia um filme à parte. De resto, um amontoado de clichês faz de Em casa para o Natal uma produção como outra qualquer. Tem neve, tem Papai Noel, tem ceia, tem musiquinha tristonha, tem gente aprendendo com os erros, tem gente fazendo autoanálise e tem até – pasmem - um parto que evoca o nascimento de Jesus. A diferença é que todos falam norueguês. Ou quase todos: há um médico que fala inglês.

O desfecho é particularmente constrangedor, com a contemplação de uma aurora boreal esverdeada banhando um céu estrelado. A conexão narrativa com a boa sequência inicial só é desvelada ao final, e é capaz de frustrar ainda mais a experiência do espectador. Ou seja, o Natal ainda será, este ano, uma época de safra irregular para o circuito cinematográfico. Nem os países nórdicos foram capaz de salvar a data.

sábado, dezembro 17, 2011

#77 - Ganhar Ganhar (Win Win), de Thomas McCarthy

Normalmente, Paul Giamatti se envolve em projetos bastante interessantes. Ganhar Ganhar confirma isso. Um filme independente que investe muito mais nos personagens do que na direção de arte, no figurino ou na fotografia. Foi exibido no festival internacional, aqui no Rio, e chamou a atenção do público e da crítica como uma grata surpresa.

O roteiro conta a história de Mike Flaherty, um advogado que enfrenta sérios problemas financeiros. Nas horas vagas, treina a equipe de luta-livre da escola da cidade. Certo dia, ele passa a ser o tutor de um de seus clientes, que se torna incapaz pela senilidade. A surpresa é um garoto misterioso, calado e introspectivo, que aparece na porta de sua casa. Diz ele ser o neto do tal cliente senil. Mike passa, então, a cuidar do garoto - e descobre que ele é uma fera da luta-livre.

O argumento toca, com delicadeza, nos tênues limites entre o egoísmo e o altruísmo. Como em qualquer outro filme independente, os diálogos são bem trabalhados. Porém, o destaque, mesmo, fica com o elenco, brilhante, irretocável. Os personagens, bem heterogêneos, ganham ainda mais força com a entrega dos atores.

Veja, que você só tem a ganhar - nossa, péssima essa, hein?

#76 - Hesher, de Spencer Susser

Vai ter gente achando que estou exagerando, mas Hesher é uma espécie de Teorema - sem, obviamente, a intensidade erótica e provocante que consagrou Pasolini. Porém, o argumento é bem parecido. Seguinte: um sujeito estranho, que dá nome ao filme, se instala na casa de uma família à beira de um colapso. No entanto, é ele que, usando de métodos nada tradicionais, vai conseguir transformar a vida de cada uma das pessoas com quem vai ter dois minutos de contato. Principalmente a vida de TJ, um menino que sofre bullying na escola e que tem dificuldades em se relacionar com o pai.

Hesher, interpretado magistralmente por Joseph Gordon-Levitt, é um sujeito que vive dirigindo um furgão velho, ouvindo Metallica (que é a trilha sonora do filme) no último volume (aliás, notem a tipografia do título) e se envolvendo em episódios de pirofagia. Num belo dia, TJ cruza o seu caminho. A partir daí, Hesher não sai mais da cola do garoto, para o bem e para o mal.

O roteiro é excelente, com reviravoltas surpreendentes e nem um pingo de moralismo. Há a lição pela qual a família tem que passar para se reestruturar, mas em nenhum momento o filme apela para a pieguice. Pelo contrário, todas as ações de Hesher são condenáveis e irresponsáveis.

Um ótimo filme, que nem deve ganhar exibição por aqui tão cedo - lamentavelmente.

#75 - Submarine, de Richard Ayoade

Negativo, não estou me confundindo. Nem querendo confundir você, donairoso leitor. Quer dizer, mais ou menos: coloquei a resenha de Submarine logo após a de Submarino meio de propósito mesmo. No entanto, são dois filmes completamente diferentes. Este aqui me chamou a atenção por causa do diretor, ninguém menos que o fantástico e talentoso Richard Ayoade - a saber, o infame Moss do seriado britânico The IT Crowd (ao lado de Flight of the Conchords, os únicos dois seriados de TV que eu acompanhei com entusiasmo e afinco). E não é que o cara mandou bem na direção?

O filme conta a história de Oliver (o ótimo Craig Roberts), um jovem que traça um objetivo de vida: perder a virgindade antes do próximo aniversário. Desajeitado com o sexo oposto, acaba se envolvendo com uma excêntrica colega de turma, Jordana (a também ótima Yasmin Paige). Ao contrário da maioria dos filmes  do gênero, nos quais adolescentes com hormônios descompensados buscam desesperadamente o coito, Submarine é um retrato tragicômico da descoberta do amor e do sexo. Envolve não somente os jovens, mas também suas respectivas famílias.

Além do excelente roteiro, a edição é caprichada e a trilha sonora é descolada. O elenco ainda conta com Sally Hawkins, ótima. Trata-se de um filme muito fácil de se gostar. Tão fácil quanto dar risadas intermináveis com as esquisitices de Moss.

domingo, dezembro 11, 2011

#74 - Submarino, de Thomas Vinterberg

Thomas Vinterberg foi um dos participantes do movimento Dogma, encabeçado por Lars Von Trier como um exercício cinematográfico que se opunha à ideia de cinema como mero produto. Sem dúvida, Vinterberg aproveitou ao máximo a experiência. Tornou-se conhecido internacionalmente com o tenso Festa de família. Agora, com Submarino, o diretor demonstra uma capacidade espantosa de retratar dramas humanos.

O roteiro conta a história de dois irmãos cuja mãe é uma alcoólatra desgostosa da vida. Por isso, são eles que cuidam de um bebê. No entanto, uma tragédia marca para sempre a vida de ambos. Separados pelas circunstâncias, acabam se reencontrando. O espectador acompanha, com requintes narrativos, a trajetória de cada personagem.

Gustav Fischer Kjærulff e Jakob Cedergren, os dois irmãos protagonistas, impressionam pela entrega a seus personagens. A fotografia, cheia de claridade na infância, e escurecida na idade adulta, contribui para o clima de desolação. Trata-se de uma experiência bastante intensa. E válida.

O trocadilho pode soar infame, mas Submarino é sobre isso mesmo: até onde o ser humano aguenta a submersão.

sábado, dezembro 10, 2011

#73 - A vida durante a guerra (Life during wartime)

A vida durante a guerra é a continuação de um dos filmes mais perturbadores do cinema estadunidense: Felicidade. Em 1998, Todd Solondz dava início a uma contundente e voraz crítica à sociedade americana. Fruto de um esforço vindo do underground cinematográfico, pouco tempo depois copiado pelo mainstream - que tem em Beleza americana, um filme cujo argumento é bem meia-boca e chapa branca, o seu apogeu.


Mais um vez, após empreitada hercúlea, Solondz conta uma história densa, sinistra, com um humor que faz o espectador sorrir amarelado, de canto de boca. Joy, a protagonista de Felicidade, está de volta. Ela é o centro da narrativa, que costura a vida de pessoas comuns. A cena de abertura é dolorosamente bela, e dá uma boa prévia do que virá pela frente.

A vida durante a guerra é magistralmente bem filmado. Sua fotografia desbotada e bolorenta dá tons mais intensos aos perturbadores diálogos. Todo o elenco se doa irretocavelmente, com méritos à direção de atores, um dos pontos fortes de Solondz. Nada parece artificial no filme.

Critica melhor quem não tem o rabo preso.

#72 - Meia-noite em Paris (Midnight in Paris), de Woody Allen

Quando realiza filmes despretensiosos, Woody Allen pode ser encantador. Porém, há, sim, uma aura de prepotência em outras produções dele, que acabam afastando uma boa parte do público. Independentemente disso, Allen é um diretor de mão cheia, profícuo e competente - goste você, ou não, de seus filmes. Meia-noite em Paris é um meio termo: trata-se de um filme despretensioso demais, mas com uma enxurrada de referências que só aqueles mais chegados à vida cultural vão reconhecer. E aqui, permitam-me dizer, sem pedantismo, de coração: azar de quem não é chegado...

O roteiro de Meia-noite em Paris é delicioso! Conta a história de um aspirante a escritor que, numa viagem a Paris com a noiva, acaba passando por situações que envolvem seus ídolos - tanto na literatura, quanto nas artes plásticas, na música e no cinema. Meia-noite, em uma rua deserta da cidade, um carro antigo lhe dá uma carona diretamente à década de 1920, na efervescente cena cultural parisiense. Lá, encontra Hemingway, Fitzgerald, Picasso, Cole Porter, Buñuel e uma série de outros mestres. Além disso, acaba se envolvendo com uma jovem que frequenta a casa de Gertrude Stein.

A caracterização dos atores é fenomenal. Owen Wilson, o protagonista, convence o espectador pela primeira vez em sua carreira. A direção de arte é caprichosa e mostra uma Paris ainda mais encantadora do que já é. Impossível não ficar pensando o que eu faria se encontrasse todos aqueles autores, cineastas, pintores, músicos. Gente que eu julgo conheçar tamanha a identificação com suas obras.

No fim das contas, Meia-noite em Paris é cinema despretensiosamente pedante - o que é um baita elogio! Um dos filmes mais deliciosos do ano.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

#71 - O Gato de Botas (Puss in boots), de Chris Miller

Olha aí o Antonoi Banderas de novo no blog... Hoje estreou O Gato de Botas, nova animação do pessoal da Dreamworks. Fiz a crítica para o Jornal do Brasil, e compartilho com vocês logo abaixo.

A Dreamworks teve uma excelente ideia quando resolveu que um dos personagens mais interessantes da turma de Shrek ganharia um filme só para ele. O Gato de Botas, de certa forma, dá um refresco à franquia do ogro verde, que vinha em desabalada decrescência.

Desta vez, o personagem criado por Charles Perrault no século XVII se envolve numa trama que mistura o pé-de-feijão, seres oriundos de parlendas e até o mito de Zorro, o espadachim justiceiro. Anos após ter sido traído por Humpty Dumpty, seu amigo de infância que tem formato oval, os dois se reencontram e se veem novamente diante de um projeto ousado: plantar os feijões mágicos, subir no castelo do gigante e capturar a galinha dos ovos de ouro - que, no caso, ainda é um pintinho. Quem os acompanha é Kitty, uma gata com habilidades para furtos mirabolantes. Os três também precisam fugir da concorrência de um casal de experientes e temidos bandidos.

A personalidade do Gato de Botas, arisco e egocêntrico, é bem explorada. As piadas funcionam e a edição ousa de vez em quando, criando sequências de ação e perseguição interessantes. As referências aos contos infantis estão lá - assim como em Shrek -, mas de forma bem mais sutil.

No fim das contas, O Gato de Botas é tão interessante quanto o primeiro Shrek. Quem sai ganhando é a criançada, que vai ter mais uma opção de ídolo para virar tema decorativo de suas festas.

domingo, novembro 27, 2011

#70 - A pele que habito (La piel que habito), de Pedro Almodóvar

Almodóvar, desde o começo da carreira, faz um tipo de cinema ímpar. Espécie de exploitation kitsch que, ao longo do tempo, foi se tornando um exploitation chic - acompanhando o amadurecimento do realizador. Muita gente andou dizendo que desta vez ele pegou pesado demais, que A pele que habito é grotesco e bizarro. Achei genial. O filme e a reação que ele provoca nas pessoas, a ponto de incomodar de verdade os espectadores mais desavisados. Mais uma vez, Almodóvar arranca lirismo e poesia de um argumento insólito.

O roteiro é baseado num romance. Conta a história de um médico que desenvolve uma pele artificial, resistente ao fogo. Acontece que, para dar liga à sua invenção, ele mantém encarcerada como cobaia uma jovem misteriosa. A partir daí, há uma série de reviravoltas, algumas bem inesperadas. O resultado é uma narrativa densa, tensa e completamente imprevisível. O espectador é obrigado a sair da zona de conforto. Na sessão em que eu fui, muita gente ficou estupefata, por mais que, em Almodóvar, ficar estupefato é um prazer inenarrável.

Como em toda produção do diretor espanhol, para variar, a estética salta aos olhos. Há certa beleza na instrumentação cirúrgica, nos curativos e na liturgia médica capturadas pela câmera. Antonio Bandeiras, o médico com pinta de cientista louco, tem aqui o melhor trabalho de sua carreira. A bela e encantadora Elena Anaya preenche a tela como a jovem enclausurada - mérito também ao diretor, que sabe trabalhar a beleza feminina como poucos.

Se A pele que habito é bizarrice, é o crème de la crème do gênero!

#69 - Scenes from the suburbs, de Spike Jonze

Sempre me referi ao Arcade Fire como uma banda diferenciada. Em plena era do CD, mais do que gravar discos, o grupo canadense cria álbuns à moda antiga. As músicas têm coesão narrativa, encadeamento lírico e conceito estético. Foi assim com o belíssimo Funeral, seguido do fantástico Neon bible e agora com o premiado The suburbs. A ideia de filmar um curta-metragem com o diretor Spike Jonze caiu como uma luva na trajetória da banda.

Podia ser só mais um videoclipe, mas quando se tem um álbum, e quando há um argumento por ali, que serviu como guia na hora das composições, um curta-metragem parece mesmo uma ideia bem mais enriquecedora. No caso, Scenes from the suburbs agrega valor ao trabalho do Arcade Fire, amplificando a beleza de The suburbs como expressão artística.

O roteiro, escrito a três mãos (Jonze e os irmãos Will e Win Butler, ambos integrantes do Arcade Fire), conta a história de um grupo de adolescentes que vive num subúrbio sitiado por um conflito que envolve as forças armadas - apesar de não explicar os motivos da tal guerra. Todos aprendem, forçosamente, a conviver com aviões, tanques e soldados. O foco, no entanto, está na amizade entre dois desses jovens, que atravessam a fase mais complicada de suas vidas em meio a assustada e desconfiada sociedade estadunidense. E esse é o argumento do curta: como o medo e a paranóia imobilizaram a classe média dos Estados Unidos. Apesar da banda ser canadense, o argumento parte da paranoia pós-Guerra do Golfo, que gerou o medo do terrorismo e a legitimação da violência e da barbárie como método eficaz de defesa.

Um belo curta, com fotografia incrível, atuações comoventes (apesar da inexperiência do elenco) e música - obviamente - sob medida. Scenes from the suburbs, inclusive, é capaz de mudar a percepção que os ouvintes e espectadores mais atentos têm do álbum.

sexta-feira, novembro 25, 2011

#68 - A árvore da vida (The tree of life), de Terrence Malick

Sempre fui admirador do cinema de Terrence Malick. Depois de assistir a Além da Linha Vermelha na tela grande, saí da sala de projeção estupefato, emudecido, emocionado. Na mesma época, O resgate do soldado Ryan lotou o circuitão. Os dois filmes foram lançados simultaneamente e argumentavam sobre a mesma guerra. Enquanto o de Spielberg me deixou apenas um lastro de excitação, o de Malick me deixou pensativo. Essa é a chave para entender - e curtir - A árvore da vida.

Malick sempre trabalha suas narrativas de forma a dar destaque às imagens. Isso porque o argumento está sempre presente, em cada fotograma, em cada diálogo, em cada enquadramento. Logo, a narrativa é fragmentada. Mais importante do que entender é sentir. Dispensa, assim, a estrutura romanesca da tríade início-meio-fim. Oferece ao espectador um mergulho profundo em uma determinada questão existencial.

Aqui, essa questão nada mais é do que colocar em xeque, mediante a morte de uma pessoa próxima, a benevolência de um deus que regula de forma inexorável a vida dos seres humanos. O roteiro mostra uma família tipicamente estadunidense, temente a esse deus, em plena década de 60 (apogeu do american way of life), tentando lidar com a perda de um filho de 17 anos. A fatalidade ecoa e se faz sentir, acompanhando a família até os dias atuais. O filme se concentra no pai (Brad Pitt, um monstro) e no primogênito (quando adulto, interpretado por Sean Penn, outro monstro).

A linguagem cinematográfica é explorada ao extremo. Fotografia, direção de arte, enquadramentos e edição são de encher os olhos - e umedecê-los também. As imagens são belíssimas. Há uma luz quase sacra banhando os personagens, como se a divindade estivesse presente em cada cena, feito um personagem. Inclusive, o pé direito de todas as locações é enorme, em referência a arquitetura utilizada pela Igreja, criada para provocar um sentimento de pequenez nos fiéis.

Malick sabe como ninguém trabalhar com grandes egos - ops, quer dizer, com celebridades hollywoodianas. A direção de atores é fabulosa, com atuações irretocáveis da dupla Pitt e Penn. Outro destaque é o jovem Hunter McCracken, promissor, que faz o primogênito quando garoto. É impressionante ver a entrega do jovem ator ao personagem.

Na verdade, ao contrário do que muita gente tem dito por aí, A árvore da vida é um filme bem simples. Não tem nada de pretensioso ou intelectualóide. Versa sobre um tema universal que é comum a qualquer ser humano que já questionou, por exemplo, a sua própria existência. Ou que já tenha se intrigado com a extinção dos dinossauros (sacou?). Sua complexidade reside no fato de ser uma obra de arte. Por conseguinte, é necessário, sim, uma certa sensibilidade para aproveitá-lo em sua totalidade, sob pena de encarar a projeção como um mero sequenciamento de imagens aleatórias. Não precisa ser cinéfilo, não precisa ter lido os clássicos, não precisa de mestrado em filosofia. Porém, uma vez que a fruição e o ajuizamento de gosto operam numa esfera subjetiva, obra de arte é assim mesmo.

No meu ajuizamento, é um filme arrebatador!

#67 - Assalto em dose dupla (Flypaper), de Rob Minkoff

Rob Minkoff é um diretor acostumado a filmes de animação para crianças. Foi ele o responsável, por exemplo, por Rei Leão. Por isso, era de se esperar que o seu novo filme, Assalto em dose dupla (Flypaper no original, que ganhou uma das traduções mais cretinas da temporada), fosse mais uma comédia uniforme e pasteurizada. Surpreendentemente, é um exemplar do gênero que fica acima da média.

O roteiro tem início quando duas quadrilhas resolvem assaltar o mesmo banco. Uma delas é profissional, fortemente armada e com tecnologia de ponta para abrir cofres. A outra é composta por uma dupla de red necks inexperientes e trapalhões. O grupo de reféns é o mais heterogêneo possível. Entre eles está Tripp (o galã de seriado Patrick Dempsey), um obsessivo compulsivo com inteligência acima da média.

O bacana de Assalto em dose dupla é que o tom de comédia é constante e sem exageros. As piadas funcionam, os diálogos são divertidos e os personagens são muito interessantes. O elenco está todo irretocável, com atuações caricatas na medida certa.

sábado, novembro 19, 2011

#66 - Catfish, de Henry Joost e Ariel Schulman




Tudo começou quando três amigos resolveram ir a fundo numa história bastante contemporânea, que diz muito sobre a forma como as pessoas tendem a se comportar diante da internet, por detrás dos cabos de fibra óptica.

Yaniv, um fotógrafo nova-iorquino, troca mensagens com uma garota de 12 anos que faz pinturas inspiradas em suas fotografias. Seu irmão, Ariel, e um terceiro amigo, Henry, começam a filmar a relação virtual dos dois. Logo, Yaniv se vê envolvido com a família inteira da menina (principalmente com a bela e sensual irmã mais velha dela), que parece ter sua arte reconhecida na cidade onde mora. Quando os três decidem ir mais a fundo na história, acabam confrontando os fatos e começam a desconfiar de que as coisas podem não ser o que parecem. Partem, então, em busca de resposta.

O que parecia ser apenas um documentário sobre relacionamentos virtuais se torna um angustiante e perturbador retrato sobre a condição humana. É difícil falar mais de Catfish sem estragar o entretenimento alheio. Por isso, paro por aqui.

A quem gosta de documentários surpreendentes, esse é uma excelente pedida.

#65 - Biutiful, de Alejandro González Iñárritu




Barcelona é uma cidade apaixonante. No entanto, não foge à regra das grandes metrópoles mundiais. Há um lado miserável e hostil, agravado pela crise que assola e desequilibra a harmonia da União Europeia, que só é visível a quem tem apura o olhar. O cinema é capaz de fazer isso. E Iñarritu, capaz de contar uma história realmente angustiante.

Javier Bardem, que mostra mais uma vez ser um ator realmente brilhante, protagoniza a história de Uxbal, um sujeito que ganha a vida agenciando imigrantes ilegais. Além disso, tem o dom de se comunicar com os mortos. Sem medir esforços para cuidar dos dois filhos, mesmo doente, luta pela sobrevivência em uma cidade de aura pesada.

A fotografia escurecida, os planos abertos de Barcelona ao cair do sol e os personagens que perambulam pela narrativa dão um tom fúnebre e angustiante ao filme. Biutiful mostra o lado feio da vida em uma das cidades mais charmosas do mundo. Como em todos os filmes de Iñarritu, as coisas não dão certo aos protagonistas.

Biutiful é uma experiência que tira o espectador da zona de conforto. É desolador, mas consegue extrair beleza estética da melancolia.

sexta-feira, novembro 18, 2011

#64 - Bibliothèque Pascal, de Szabolcs Hajdu




Taí um típico exemplo de filme que, infelizxmente, passa despercebido. Vem da Hungria, país com pouca visibilidade cinematográfica (o único nome que me vem à memória enquanto escrevo essa resenha é o do diretor Bela Tarr), (ah, sim, o Béla Lugosi também era húngaro) uma história que mistura magistralmente a tradição da oralidade cigana com a ousadia surrealista. Bibliothèque Pascal é uma viagem, em todas as acepções da palavra.

O roteiro conta a história de Mona, uma artista de rua que precisa provar a um assistente social que tem condições de cuidar da sua filha, sob custódia do conselho tutelar. A história que ela conta beira o inverossímil, com passagens repletas de mistério e fantasia. No fundo, Mona tenta desesperadamente retomar o sentido da própria vida.

Bibliothèque Pascal é uma espécie de Amélie Poulain cigana. Ambos os filmes têm o mesmo vigor lírico e a mesma vitalidade estética. Direção de arte, fotografia e cenografia saltam aos olhos, sem deixar de lado a dramaticidade e o peso do argumento - afinal, trata-se da luta de uma mãe pela guarda da filha.
Aproveitando os nomes dos dois representantes do cinema húngaro dos quais lembrei no primeiro parágrafo, Bibliothèque Pascal é um "belo" filme.

#63 - Lemmy, de Greg Olliver e Wes Orshoski



Não há neste mundo ninguém que personifique de forma mais perfeita o rock'n'roll way of life. Lemmy é o cara! No documentário que leva o seu nome, o líder do Motörhead permite que a câmera perambule para cima e para baixo acompanhado seu dia a dia - seja no palco, tocando diante de multidões, seja em casa, em meio a sua coleção de artigos da Segunda Guerra Mundial.

O bacana do filme, por incrível que pareça, é que há pouca música e muita imagem. Por isso, o documentário funciona, acertadamente, muito mais como biografia do músico do que como mero registro da história da banda. Somente assim é possível conhecer melhor a figura singular de Lemmy, repleta de esquisitices e excentricidades.

Fãs de rock, mesmo que não sejam fãs de Motörhead - o que é improvável, quase impossível -, tem o dever cívico de conferir Lemmy.

#62 - Um novo despertar (The beaver), de Jodie Foster




Desde o seu filme sobre Jesus e as declarações tidas como antisemitas, Mel Gibson nunca mais foi o mesmo. Colecionou um punhado de polêmicas e acabou sumindo do mapa - ou melhor, de Hollywood. Jodie Foster, que vez em quando se arrisca na direção, resolveu dá-lo um papel que lhe caiu como uma luva. E aí, permitam-me o trocadilho: caiu-lhe como um fantoche.

Em Um novo despertar, o eterno Mad Max interpreta um pai de família em depressão profunda. Com sérias dificuldades em se comunicar, acaba ficando sozinho, é abandonado pela mulher e fica desacreditado por seus funcionários na loja de brinquedos que herdou do pai. Quando encontra na lata de lixo um fantoche de castor, sua vida muda. Ele começa a se relacionar com o mundo através do boneco.

A história é triste, melancólica e com um desfecho bastante forte e angustiante. Pela complexidade do papel, Gibson merece reconhecimento. Constrói o protagonista com bastante competência. Foster cumpre bem os seus dois papeis, de atriz e diretora.

Verdade seja dita: por mais louco que seja - agora sem trocadilhos - Mel Gibson é um ótimo ator.

#61 - Amores imaginários (Les amours imaginaires), de Xavier Dolan



Apesar da pouca idade, Xavier Dolan já pode ser considerado um realizador. Desde seu filme de estreia, o bem recepcionado Eu matei minha mãe, o jovem canadense escreve, dirige e interpreta suas produções. Seu mais novo trabalho, Amores imaginários, chega às telas brasileiras depois de chamar a atenção da crítica internacional - que considera o rapaz, com apenas 22 anos, um dos grandes expoentes do cinema contemporâneo.

O roteiro não vai muito longe. Trata de um triângulo amoroso entre três amigos. O diferencial fica por conta da maneira como Dolan trata a sexualidade e, por conseguinte, a homossexualidade.

Francis e Marie se apaixonam por Nico, recém-chegado à cidade. Começam, então, uma disputa particular pela atenção do moço, em meio a flertes e investidas. Enquanto isso, depoimentos de terceiros sobre amor, traição e sexo permeiam a narrativa de forma documental.

A direção de arte é bastante caprichada, a trilha sonora encaixa-se sob medida e a edição é muito bem acabada. Dolan demonstra completo domínio da técnica cinematográfica, sabendo tirar proveito dos recursos que tem para adereçar sua trama. O desfecho, inclusive, é bem interessante. De fato, por incrível que possa parecer, o cineasta amadureceu no curto período desde sua estreia.

#60 - Pronto para recomeçar (Everything must go), de Dan Rush



Will Ferrell precisou abandonar as rubricas cômicas, como já havia feito em Mais estranho que a ficção, para protagonizar a comédia dramática - mais drama cômico - Pronto para recomeçar, filme de estreia do inexperiente - mas esforçado - diretor Dan Rush.


Aqui, Ferrell interpreta Nick Halsey, um alcoólatra que se vê, após um episódio envolvendo uma colega de trabalho, sem mulher e sem emprego. Seus pertences são atirados no gramado da casa, que por sua vez é trancada e tem as fechaduras trocadas. Com os cartões cancelados, a conta bancária bloqueada e sem ter para onde ir, ele passa a vender seus pertences enquanto faz uma espécie de análise de sua vida.


O roteiro se encaminha de forma correta, sem sobressaltos ou exageros. Há diversos ensejos dramáticos para que o discurso do protagonista caia na armadilha do existencialismo barato, com as manjadas lições de vida. Porém, a direção mantém certa distância de clímaces desnecessários. O elenco ainda conta com a bela presença de Rebecca Hall, cuja personagem serve de contraponto para o protagonista.

#59 - O retorno de Johnny English (Johnny English reborn), de Oliver Parker




É quase impossível dissociar a imagem de Rowan Atkinson do famoso personagem Mr. Bean. A culpa, em grande parte, é dele mesmo. Sua tentativa de interpretar um espião inglês desajeitado já havia dividido opiniões em 2003, quando foi lançado o primeiro filme Da franquia Johnny English. Posto que a comédia tem lugar apenas quando a sua habilidade na pantomima é exigida, não há muita novidade.


O segundo filme da série, O Retorno de Johnny English, segue a mesma fórmula de seu antecessor. O roteiro, muito fraco, mostra o espião tentando descobrir quem é o impostor no serviço secreto britânico que planeja matar um influente líder chinês. Como não podia deixar de ser, Johnny English se mete em uma série de situações embaraçosas - que, como de costume, só provocam riso quando o ator age como o inglês desajeitado que o projetou para o mundo.


No entanto, nem tudo está perdido. Pelo menos a pantomima funciona. Rende algumas boas risadas. Afinal, Rowan Atkinson é bom nisso. Só não precisava querer se aventurar em paródias de filmes de espionagem.

domingo, outubro 23, 2011

#58 - Torrente 4 3D, de Santiago Segura




Santiago Segura é um fanfarrão. No bom sentido da palavra. Velho conhecido do público espanhol, seu personagem José Luiz Torrente, o policial escroto mais carismático da tela grande, chega a seu quarto filme. Com um pequeno detalhe, que só sublinha a fanfarronice do seu criador: em três dimensões!

Depois de desbaratar um esquema de tráfico em um restaurante chinês, de salvar o mundo de mísseis nucleares e de se tornar um guarda-costas profissional, Torrente vai trabalhar como chefe de segurança particular. Depois de causar muita encrenca no casamento de um ricaço, arruinando a festa, ele é escalado para sua missão mais complicada: matar uma pessoa. Todos os ingredientes que fizeram da franquia um sucesso estão lá. Escatologia, piadas grosseiras e muitas mulheres nuas. Agora, em 3D. Prato cheio para quem gosta do gênero.

Segura conseguiu prestígio na mídia espanhola. Quando anunciava um filme de Torrente, muita gente boa se oferecia para participar. Com o sucesso, foi crescendo também o orçamento. Nessa quarta produção, é nítido o aprimoramento não só dos efeitos especiais, mas também das sequências de ação. Há carros explodindo aos montes e muitas perseguições com dublês precisando se desdobrar.

Demonstrando o supracitado prestígio que Segura tem com os espanhóis, uma boa parte do Real Madri (time que é sempre alvo de piadas em seus filmes, já que o protagonista é um apaixonado pelo Atlético de Madri) participa do filme. Estão lá Agüero, Fàbregas e Higuaín, para citar alguns dos vários figurantes de luxo.

Fato é que Torrente 4 3D é muito divertido. Tão bom quanto o primeiro da série - e pode ser apreciado sem a necessidade de se conferir os episódios anteriores. Nos créditos finas, está lá anunciado em letras grandes, que ganham a profundidade da sala de projeção: vem aí, em 2012, Torrente 5!

quarta-feira, outubro 19, 2011

#56 - Red State, de Kevin Smith




Kevin Smith começou cedo e com o pé direito. Seu filme de estreia foi nada menos que o espetacular O balconista, de 1994, uma pequena obra-prima do cinema independente. Desde então, os espectadores ficam aguardando, a cada lançamento anunciado, outra pérola – que nunca vem com o mesmo brilho da primeira, apesar de ter lá seu valor. No entanto, finalmente, Kevin Smith se superou! E num gênero no qual não havia ainda experimentado.

Do começo ao fim, Red State é um petardo. Roteiro fechado, bem costurado, com reviravoltas impressionantes e um clima de tensão crescente capaz de deixar muita gente sem fôlego. A história gira em torno do fundamentalismo religioso e da intolerância à diferença, condensadas na figura de um pastor que pretende banir, a qualquer custo, o homossexualismo da face da Terra. Três jovens que procuram sexo pela internet acabam indo parar nas mãos de devotos fervorosos. Começa, então, um calvário com conseqüências incomensuráveis.

Por mais que Kevin Smith não poupe o espectador de sequências repletas de violência, muito bem montadas e editadas, o olhar apurado sobre a sociedade estadunidense e os valores obtusos da classe-média são retratados com a mesma inteligência e perspicácia de sempre. As boas sacadas surgem em diálogos inesperados e bastante inventivos. A última frase, dita pelo próprio diretor, é simplesmente genial.

A direção de atores – completamente diferente da comédia, que requer outro timing – é perfeita. Todo o elenco rende em atuações bastante convincentes. Destaque para John Goodman (bem mais magro), cujo personagem só entra na metade final da projeção e ainda assim é capaz de roubar a cena e preencher a tela com maestria.

É muito gratificante poder apreciar nos cinemas outra obra-prima de Kevin Smith. Novamente, uma produção de baixo orçamento. Melhor ainda, num gênero diferente daquele que o alçou como grande realizador.

terça-feira, outubro 18, 2011

#55 - Drive, de Nicolas Winding Refn



Desde Bronson, ficou claro que Nicolas Winding Refn era um diretor para se ficar de olho. Enquanto isso, na Europa, Drive chamava a atenção do público e da crítica. Por aqui, só líamos a respeito. Foi então que o filme venceu a Palma de Ouro de Melhor Direção em Cannes. Tornou-se, logo, uma das sessões mais aguardadas do Festival do Rio. E com razão.

Não seria exagero algum colocar Drive no posto de melhores do ano - quiçá o melhor. Trata-se de uma produção que sabe tirar proveito de cada detalhe técnico. Ou seja, a montagem deveria ganhar um prêmio também. A estética de Drive remete aos filmes de ação da década de 80. Da tipografia ao figurino, é como uma viagem ao tempo em que anti-heróis ainda eram iconoclásticos.

Para começar, um roteiro fantástico, enxuto, econômico na medida certa, sem exageros e com personagens bem delineados. Apesar de ser um filme de ação, Drive aposta muito mais em pequenos clímax do que em perseguições mirabolantes. Nisso, há um quê de David Lynch em cada fotograma. O elenco é espetacular, com Ryan Gosling protagonizando um dublê que dirige carros nos sets e, nas horas vagas, faz bico atrás do volante para bandidos em fuga. Sem armas, ele oferece aos clientes cinco minutos de seus serviços.

A música é um detalhe a parte, que merece um parágrafo só para ela. Dizem os créditos de abertura que o compositor a cargo dela é Angelo Badalamenti. Até era para ser o sujeito responsável pelas trilhas de Lynch, mas não foi. Quem compôs a música de Drive, magistralmente inspirado por Badalamenti, foi Cliff Martinez. Por que o nome dele não aparece nos créditos é um mistério. Basta dizer que a trilha é sublime e acrescenta à trama um clima misterioso que dá charme ao filme. A canção de abertura, "Nightcall', do DJ e produtor Kavinsky, com sintetizadores à moda 80, define bem a proposta de Drive.

Em uma palavra: imperdível!

#54 - Hollywood não surfa! (Hollywood don't surf!), de Sam George e Greg MacGillivray




Desde a década de 50, quando Hollywood resolveu apostar no surf como modismo para os jovens da época, os surfistas são vistos como irresponsáveis e preguiçosos. Esse é o argumento do documentário Hollywood não surfa!, que traz depoimentos de muita gente entendida no assunto - do surfista Laird Hamilton até o diretor Quentin Tarantino.

Após uma breve explanação cronológica das tentativas frustradas em projetar na tela uma história que mostrasse a verdadeira essência do surfe, sem moçoilas dançantes e sem crooners de bermudas apertadas cantando felizes nas areias, o documentário se debruça sobre o que seria a derradeira tentativa. O diretor John Milius, também adepto do esporte, resolve filmar Big Wednesday. O filme, mau recebido pelo público e pela crítica na época de seu lançamento, no final da década de 70, acabou se tornando um clássico cult. Equipe e elenco contam detalhes pitorescos da produção, como a decisão de Milius de levar o set para El Salvador, em meio a uma guerra civil.

Numa das sequências mais interessantes, dois grandes amigos de Milius da época da faculdade de cinema, George Lucas e Steven Spielberg, então começando suas carreiras, resolvem trocar participações em seus filmes. Logo, Contatos imediatos do terceiro grau e Guerra nas Estrelas entram no negócio. Dois estrondosos sucessos de bilheteria, que renderam a Milius alguns bons trocados. Spielberg, para variar, mais preocupado com cifras.

Narrado por Robert Englond, o eterno Freddy Kruger, ele mesmo um dos figurantes de Big Wednesday, Hollywood não surfa! funciona como a absolvição, ainda que tardia, de John Milius - uma vez que defende a tese de que, até hoje, nenhum diretor hollywoodiano levou às telas uma história com a essência do surfe, o que seria algo improvável de acontecer inclusive hoje em dia.

segunda-feira, outubro 17, 2011

#53 - O justiceiro no quarto 164 (El sicario: room 164), de Gianfranco Rosi





A mecânica pode soar monótona para a maioria: entocado em um quarto de hotel, com o rosto coberto por um pano preto, um sujeito conta a sua história usando apenas um caderno de folhas brancas e uma caneta esferográfica. O justiceiro no quarto 164 apresenta 80 minutos de uma reveladora entrevista com um sicário, matador profissional que trabalhava para os narcotraficantes mexicanos.

Baseado em um artigo escrito pelo jornalista Charles Bowden, que retratou com o apoio da figura do sicário uma das cidades mais violenta do mundo, Juarez, o diretor Gianfranco Rosi apresenta a ordem cronológica dos fatos: do poder de sedução do mundo do crime, passando por descrições minuciosas e perturbadoras de sessões de tortura, até um ponto de saturação onde a porta de saída também é uma sentença de morte. A cabeça do justiceiro em questão, que aceitou conceder entrevista e se diz afastado de atividades criminosas, vale US$ 250 mil.

O mais interessante é que, mesmo com papel e caneta para contar a história, o documentário tem a estrutura clássica de um filme de ação. Tem início, meio e fim bem delimitados, com direito a clímax. O desenho que demonstra a diferença entre um sicário e um assassino qualquer é perfeito.

A surpresa fica mesmo nos minutos finais. O desfecho é particularmente mórbido, talvez até mesmo inesperado. No entanto, sublinha a força arrebatadora do poder paralelo em regiões onde a miséria é imperativa.

Vale por um Documento Especial - aquele programa antigo que passava na TV Manchete.