sexta-feira, dezembro 31, 2010

#99 - A fita branca (Das weisse Band), de Michael Haneke


Para melhorar o nível do pacotão de resenhas de fim de ano, um excelente filme. Demorei um bocado para conferir A fita branca, e acredito que deveria ter feito isso no cinema - e não em casa. A palma de ouro em Cannes 2009 ficou em boas mãos.

A imersão que o excelente roteiro proporciona é uma experiência arrebatadora. A fotografia em preto e branco, cuidadosamente pensada, enche os olhos. Os planos são bem estruturados e os diálogos vão, paulatinamente, funcionando como um artifício para trazer à tona uma história perversa, que tem como foco os efeitos da rigidez paterna sob crianças em fase de formação do caráter.

O roteiro mostra uma pequena comunidade agrícola, no norte da Alemanha, que começa a enfrentar uma sequência de misteriosos atos de violência. O narrador, um jovem professor, busca pistas que esclareçam e expliquem tamanha maldade em um local aparentemente pacato.

Li muitos artigos afirmando que Haneke traçava, então, uma história sobre a gênese do nazismo. No entanto, não consigo enxergar nenhum paralelo possível com isso, a não ser pelo fato da história se passar momentos antes da eclosão de uma guerra mundial. O roteiro de Haneke vai muito além: esmiúça a maldade latente que existe no ser humano, e que pode ser transmitida de geração para geração. Por isso, A fita branca é um estudo da condição humana.

Filmaço.

3 comentários:

Rafael Carvalho disse...

Cara, esse filme só não o meu melhor do ano por causa de Mother. Mas é incrível o domínio técnico do Haneke em prol de uma história poderosa, mas que nunca se mostra explícita como tal. Tem muita coisa nas entrelinhas e ele é mestre nesse tipo de discurso. Maravilha demais!

Maria disse...

eu ainda gosto de histórias com conclusões e essa coisa de entrelinhas anda me enchendo um pouco, mas eu gostei beeem deste filme, que eu fui ver sozinha, é claro, numa sessão de meio da tarde, é claro, e com umas 4 pessoas na sala... é claro.

;)

Vulgo Dudu disse...

Rafael, não vi Mother - bem lembrado! Eu achei esse aí bem intenso. Me lembrou até um pouco o Dogville, em termos de contundência no discurso.

Maria, esse é o espírito do filme mesmo. Para poucos, como nós.

Bjs e abs!