sexta-feira, dezembro 03, 2010

#92 - Abutre (Carancho), de Pablo Trapero


Enquanto o representante brasileiro a uma vaga para a disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro é o fraco Lula, o filho do Brasil, os argentinos selecionaram uma produção que deixa a gente no chinelo, de novo. Abutre estreia hoje no circuitão e promete tirar os espectadores daquela zona de conforto. É cinema pesado, contundente, bem feito e bem acabado. Escrevi uma crítica para o Jornal do Brasil. Como de praxe, compartilho a mesma com vocês.

Assistir a Abutre, concorrente argentino à vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é uma experiência que, para muitos, pode ser incômoda. O cartaz, que traz o título manchado por um vermelho desbotado e desvanecido, já prepara o cenário para um argumento perturbador. O roteiro conta a história de um advogado que aborda vítimas de acidentes automobilísticos para mover ações indenizatórias. Porém, o esquema sujo dos processos, que mantém uma indústria milionária, começa a ser questionado quando ele se envolve com uma jovem médica idealista, que dá plantão em um dos hospitais onde a máfia dos “carcarás”, como são conhecidos, espreita os pacientes e seus familiares.

O choque entre os personagens, que produz traumas profundos na maneira de lidar com a dura realidade a que são expostos, acaba se tornando uma espécie de justificativa para a argumentação do filme, que usa o sofrimento causado pelas violentas colisões de trânsito como fio condutor de uma crítica de ordem moral. Restam apenas escombros, humanos e automotivos. Por isso, o que se vê na tela são litros de sangue, muitos hematomas e inúmeros acidentes de trânsito – tudo muito bem cerzido e montado com precisão cirúrgica pelo realizador Pablo Trapero. No elenco, o badalado e competente Ricardo Darín faz par com Martina Gusman, mulher do diretor. O desfecho é particularmente surpreendente.

3 comentários:

renatocinema disse...

Lula fraco? você foi generoso. É um lixo mesmo.

Pedro Henrique disse...

O Trapero tem a mão boa, mas falta um pouco do olhar. Mas isso não torna Carancho um filme ruim. Gosto do filme, até mais do que acreditava que poderia gostar antes de vê-lo. A rever, inclusive, para ver se não perdi nada.

Abs!

Rafael Carvalho disse...

Vi o filme recentemente e gostei demais, muito provavelmente o melhor do Trapero (não vi ainda Nascido e Criado), já tinha até esquecido como ele filma bem. A história é pancada, não sobra redenção para os personagens, todos tortos, que entram num caminho sem volta. O filme faz denúncia, ensaia um relacionamento amoroso, mas quer mesmo retratar um ambiente sujo, do qual é extremamente difícil de se livrar. E, de fato, o filme dá um banho no nosso escolhido a competir no Oscar, e ainda tem o fator comercial que o filme consegue manter, além de muitíssimo bem produzido e realizado. O plano-sequência final é uma porrada!