sexta-feira, dezembro 31, 2010

#102 - Exit Through the Gift Shop, de Banksy


Para quem não o conhece, Banksy é simplesmente genial! Um dos maiores nomes do que se convencionou chamar de street art. Suas obras, nada convencionais, são apreciadas no mundo inteiro. Sua ousadia também. E a sua identidade é secreta. Por isso, antes mesmo de falar sobre Exit Through the Gift Shop, indico uma passada no site do cara, aqui.

O filme é um documentário que conta como a arte das ruas pode ganhar as galerias de arte, perdendo uma força contestadora em nome da mercantilização. Mais ainda: mostra como Banksy criou um monstrinho, Mr. Brainwash. Tudo tem início quando um cinegrafista, Thierry Guetta, decide fazer um filme sobre os grafiteiros. Correndo atrás de entrevistas com os artistas, ele tem em Banksy a sua grande estrela. Obcecado por imagens, registra tudo com a sua câmera. Porém, na hora de montar o documentário, o resultado não é satisfatório. Banksy, então, o aconselha a abandonar a câmera e fazer, ele mesmo, street art. Eis que surge o Mr. Brainwash.

Em pouco tempo, Guetta reúne a imprensa ao seu redor, se tornando um artista badalado e milionário. O valor artístico de suas obras, inevitavelmente, é contestado. Com Exit Through the Gift Shop, Banksy não quer discutir exatamente o comportamento do Mr. Brainwash, mas sim apresentar uma espécie de problema paradoxal: a arte de rua confinada em espaços fechados.

O filme contém boa parte das intervenções de Banksy, além de apresentar uma penca de novos artistas de rua com trabalhos incríveis. Por isso, é bem mais do que um doc problematizando a questão da obra de arte. E, por isso, vai interessar a diferentes tipos de público.

#101 - Policiais suecos (Kopps), de Josef Fares


O título pode fazer com que muita gente pense se tratar de um pornô gay, mas não é nada disso. Eu vi Policiais suecos no Festival Internacional do Rio de 2003, numa sessão com pouco mais de 7 pessoas. Convenhamos: a tradução de Kopps (no original), não ajuda. Apesar da despretensão, trata-se de uma comédia bem bacana, leve, que aproveita para tirar um sarro das produções hollywoodianas.

A história se passa em uma pequena cidade sueca na qual o índice de criminalidade é praticamente zero. Por isso, os policiais locais não tem muito trabalho, a não corriqueirices como resgatar gatos de cima das árvores. Com a chegada de uma inspetora federal, contratada para calcular se é viável manter o posto policial funcionando, os homens da lei precisam mostrar serviço. Por isso, começam, eles mesmos, a cometer pequenos delitos.

O elenco é bacana, os diálogos são bons e o humor é um pouco diferente do convencional. Destaque para as cenas de Torkel Petersson, que interpreta um policial com fantasias de ser como os tiras de filmes estadunidenses. O desfecho, quando parece que vai ser enfadonho, traz uma surpresa bastante divertida.

Difícil de achar, mas vale a pena procurar!

#100 - As diabólicas (Les diaboliques), de Henri-Georges Clouzot


Clouzot foi um dos grandes diretores do cinema francês, na vanguarda de um cinema contemporâneo, com linguagem apurada. Considerada uma das grandes obras de suspense da história do cinema, sem exagero algum, As diabólicas é um exercício cinematográfico único. Lançado em 1955, o filme prende o espectador na poltrona do início ao fim, com reviravoltas brilhantes.

O roteiro é sensacional! Uma mulher infeliz no casamento planeja a morte de seu marido, um perverso e cruel professor. Para levar o plano a cabo, tem a ajuda de uma secretária. Após envenenar o sujeito, as duas jogam o corpo dentro de uma piscina imunda, de águas turvas, na tentativa de simular um afogamento. Porém, ao esvaziarem a piscina, o corpo não está mais lá. Está dado o ensejo para uma história incrível que mistura suspense e terror de forma bastante original, com um desfecho genial.

É uma das grandes obras do suspense - pau a pau com Psicose. Inclusive, um fato curioso: Clouzot comprou os direitos da obra que deu origem ao filme horas antes de Hitchcock.

#99 - A fita branca (Das weisse Band), de Michael Haneke


Para melhorar o nível do pacotão de resenhas de fim de ano, um excelente filme. Demorei um bocado para conferir A fita branca, e acredito que deveria ter feito isso no cinema - e não em casa. A palma de ouro em Cannes 2009 ficou em boas mãos.

A imersão que o excelente roteiro proporciona é uma experiência arrebatadora. A fotografia em preto e branco, cuidadosamente pensada, enche os olhos. Os planos são bem estruturados e os diálogos vão, paulatinamente, funcionando como um artifício para trazer à tona uma história perversa, que tem como foco os efeitos da rigidez paterna sob crianças em fase de formação do caráter.

O roteiro mostra uma pequena comunidade agrícola, no norte da Alemanha, que começa a enfrentar uma sequência de misteriosos atos de violência. O narrador, um jovem professor, busca pistas que esclareçam e expliquem tamanha maldade em um local aparentemente pacato.

Li muitos artigos afirmando que Haneke traçava, então, uma história sobre a gênese do nazismo. No entanto, não consigo enxergar nenhum paralelo possível com isso, a não ser pelo fato da história se passar momentos antes da eclosão de uma guerra mundial. O roteiro de Haneke vai muito além: esmiúça a maldade latente que existe no ser humano, e que pode ser transmitida de geração para geração. Por isso, A fita branca é um estudo da condição humana.

Filmaço.

#98 - Sherman's way, de Craig M. Saavedra


Taí um típico filme de avião. Só assisti a Sherman's way porque era a única opção que parecia mais ou menos interessante durante o voo de volta de Buenos Aires. Para falar a verdade, eu nem me lembro direito do filme. Em primeiro lugar, porque já faz tempo que o assisti. Depois, porque a história é tão ruim, que não vale a pena gastar neurônio guardando os detalhes.

Pelo que me lembro, trata-se de uma daquelas tramas na qual um almofadinha fresco vira homem de verdade. O protagonista é um jovem abastado, filho de uma importante diplomata, que leva um pé na bunda da namorada. Desamparado, acaba pegando carona com um sujeito mais velho, com idade para ser a figura paterna que ele não teve. Os dois começam a desenvolver uma relação afetiva e tals... O moleque conhece uma menina que é um piteuzinho (Brooke Nevin, que, diga-se de passagem, é a única coisa interessante do filme) e se envolve com ela também.

E é isso, né? Ajudou a passar o tempo. Mais alguma coisa? Não... O filme é de 2008. Acho que nunca vai ser lançado por aqui. Só em avião mesmo. E nem vai fazer falta.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

#97 - Thriller - a cruel picture, de Bo Arne Vibenius


Nos exploitations, vingadoras de tapa-olhos são a coisa mais sexy do mundo. Para citar duas delas, das mais recentes: a Elle Driver (Daryl Hannah) de Kill Bill e a She (Michelle Rodriguez) de Machete. Porém, todas elas prestam uma singela homenagem à primeira moçoila curvilínea que teve o olho arrancado na tela grande, a pobre Frigga (Christina Lindberg), também conhecida como One Eye, de Thriller - a cruel picture. Que é um filme muito cruel, de verdade.

O roteiro conta a história desta moça que é abusada quando criança por um velho babão. Por conta do trauma, acaba ficando muda. Anos mais tarde, ao pegar uma carona para a cidade, é sequestrada por um inescrupuloso cafetão. O sujeito, que a mantém em cárcere, a vicia em heroína. Par asustentar o vício, a moça tem que se prostituir, sofrendo todo o tipo de humilhação. Chega a ter o olho arrancado por não querer cumprir ordens. Porém, aos poucos, ela vai se capitalizando para ir à forra.

As cenas de ação de Thriller ficaram conhecidas no mundo todo. Tiros, quedas, socos e pontapés são filmados em câmera muito lenta. No entanto, foram os detalhes por trás das câmeras que fizeram com que o filme se tornasse um clássico. Por exemplo: para filmar a cena em que o olho de Frigga é arrancado, foi usado um cadáver de verdade, fresquinho, que acabara de dar entrada em uma funerária. As cenas de Frigga se drogando são bastante pesadas. A atriz injetava uma mistura de sal e água.

Por tudo isso, vale a pena! Ainda mais se você for um fã do gênero.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

#96 - Tetro, de Francis Ford Coppola


Não há dúvidas: Tetro é um filmaço. E olha que a sessão tinha tudo para desviar a minha atenção. É que conferi o novo trabalho do mestre Coppola na primeira sala vip da cidade, no Rio Design Barra. Até publiquei um artigo sobre a experiência no meu blog no SRZD, aqui. Poltronas reclináveis, amplo espaço, serviço de bar e conforto até demais. Um convite ao sono quando a exibição for mais ou menos. Não foi o caso.

Coppola retoma um tema familiar para contar a história de um jovem ajudante de cozinha que desembarca em Buenos Aires à procura de seu irmão mais velho, que abandonou a família e lhe deixou apenas um bilhete assegurando que voltaria para buscá-lo. O reencontro é conturbado, e a convivência entre os dois vai revelando detalhes obscuros sobre a história da família.

Tetro é uma verdadeira aula de roteiro! A maneira como Coppola costura a trama, deixando com que as feridas sejam expostas vagarosamente, é simplesmente espetacular. A assinatura do realizador se faz sentir nos detalhes técnicos e estéticos. A fotografia, em preto e branco com flashbacks em cores, salta aos olhos. O elenco é fantástico, com Vincent Gallo roubando a cena no papel do irmão mais velho que dá nome ao título do filme - e roubando também a escalação, já que o papel, inicialmente, seria de Matt Dillon, que trabalhou com Coppola em O Selvagem da motocicleta, outro filme com temática familiar.

O bom e velho Coppola. Em plena forma. Não há como desviar o olhar da tela.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

#95 - Amor sob contrato (The Joneses), de Derrick Borte


Às vésperas da ceia de Natal, capaz das salas ficarem vazias. Porém, o circuito ganha hoje alguns filmes de presente. E uma das produções que entra em cartaz mais se parece com aquela cueca esquisita que a sua tia avó, pobrezinha, insiste em lhe dar todo o ano. A bomba, ou melhor, a cueca, é Amor sob contrato, que é mais uma tentativa de autocrítica estadunidense que fica na superficialidade. Chato demais. Abaixo, o que escrevi sobre o filme no Jornal do Brasil.

Amor sob contrato é mais uma daquelas produções estadunidenses cujo argumento tem como objetivo criticar a sociedade de consumo – mas nem tanto. O roteiro conta a história de uma família aparentemente perfeita, os Jones: o pai Steve (David Duchovny), sua esposa Kate (Demi Moore) e o casal de filhos, Jenn (Amber Heard) e Mick (Ben Hollingsworth). Eles são contratados por grandes marcas para usar produtos e convencer os vizinhos a comprar o estilo de vida que apregoam com afinco. No entanto, a farsa começa a ruir quando os Jones vão se envolvendo em pequenos e corriqueiros contratempos.

O quarteto de atores pode até enganar os incautos vizinhos ao longo da projeção, mas não convence o espectador em momento algum. Amor sob contrato é tão artificial, que não engrena. Os conflitos são rasos, a trilha sonora é cafona, os diálogos são pobres, o roteiro é previsível e os atores são péssimos. Pior do que isso, não há qualquer tipo de profundidade na crítica que o argumento propõe. Chega a ser constrangedor ver o personagem de Duchovny tentando dar lição de moral aos pobres e coitados estadunidenses que crêem no crédito e no consumo como uma espécie de escapismo.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

#94 - Tron - O legado (Tron legacy), de Joseph Kosinski


Hoje entra em cartaz no circuitão a continuação do clássico de sci-fi da década de 80, Tron - O legado. Como a maioria dos filmes em três dimensões, o visual é fantástico e o roteiro é um lixo. O ponto extra é a trilha sonora do Daft Punk, maravilhosa. Escrevi um artigo lá no meu blog no portal SRZD e hoje saiu na versão online do JB a minha crítica. É ela que eu compartilho com vocês, logo abaixo.

O impacto de Tron – Uma odisséia eletrônica em 1982 foi fenomenal. Em plena revolução dos games, o filme colocava em questão a existência humana perante a evolução inimaginável da subsequente era digital. O visual futurista contribuía para contar a história de Kevyn Flynn (Jeff Bridges), um sujeito que ficava preso no mundo dos jogos eletrônicos. Décadas depois, Tron – O legado busca acrescentar alta tecnologia em efeitos especiais e imagens tridimensionais para reforçar os conceitos cibernéticos que fizeram tanto sucesso na produção da década de 80. Agora, o herdeiro de Flynn (Garrett Hedlund) atravessa a fronteira entre o real e o virtual para reencontrar o pai (o bom e velho Bridges, rejuvenescido pela computação gráfica no papel do vilão Clu), desaparecido misteriosamente 20 anos atrás.

Visualmente, Tron – O legado é realmente incrível. Cenários, figurinos e direção de arte enchem os olhos. A profundidade das imagens em 3D ajuda na imersão. A trilha sonora, a cargo da dupla Daft Punk, é absolutamente certeira e imprescindível. Porém, assim como acontece com a maioria das produções em três dimensões, falta – e muito - roteiro. O argumento já não parece mais tão impactante, e perde ainda mais volume com um punhado de cenas demasiadamente romanescas e previsíveis, em total desarmonia com as bem elaboradas seqüências de ação. Visual: 10. Roteiro: 3. Média: 6,5. Passou!

sexta-feira, dezembro 03, 2010

#93 - O garoto de Liverpool (Nowhere boy), de Sam Taylor-Wood


O mais bacana em O garoto de Liverpool, filme sobre o final da adolescência de John Lennon, é justamente a trilha sonora. E, por incrível que pareça, não há nenhuma música dos Beatles durante a hora e meia de projeção. Aliás, o roteiro se debruça muito mais sobre as questões pessoais do jovem promissor. Inclusive, o filme para quando os três pilares principais do quarteto - John, Paul e George - começam a fazer as primeiras apresentações juntos.

Aaron Johnson, que interpreta o protagonista, dá uma pinta de galã a John, enquanto o mal ajambrado Thomas Brodie-Sangster, que até ontem era um moleque, faz o papel de Paul. A direção de arte é bastante caprichada, abientando perfeitamente o espectador para no que mais tarde seria uma pequena revolução no mundo da música. Por isso, todas as sequências ganham um gosto especial. A cena na qual John conhece Paul é impagável!

O único porém de O garoto de Liverpool é uma certa dose de melodrama que, vez em quando, toma de assalto a tela. Nada que comprometa o resultado final.

#92 - Abutre (Carancho), de Pablo Trapero


Enquanto o representante brasileiro a uma vaga para a disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro é o fraco Lula, o filho do Brasil, os argentinos selecionaram uma produção que deixa a gente no chinelo, de novo. Abutre estreia hoje no circuitão e promete tirar os espectadores daquela zona de conforto. É cinema pesado, contundente, bem feito e bem acabado. Escrevi uma crítica para o Jornal do Brasil. Como de praxe, compartilho a mesma com vocês.

Assistir a Abutre, concorrente argentino à vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é uma experiência que, para muitos, pode ser incômoda. O cartaz, que traz o título manchado por um vermelho desbotado e desvanecido, já prepara o cenário para um argumento perturbador. O roteiro conta a história de um advogado que aborda vítimas de acidentes automobilísticos para mover ações indenizatórias. Porém, o esquema sujo dos processos, que mantém uma indústria milionária, começa a ser questionado quando ele se envolve com uma jovem médica idealista, que dá plantão em um dos hospitais onde a máfia dos “carcarás”, como são conhecidos, espreita os pacientes e seus familiares.

O choque entre os personagens, que produz traumas profundos na maneira de lidar com a dura realidade a que são expostos, acaba se tornando uma espécie de justificativa para a argumentação do filme, que usa o sofrimento causado pelas violentas colisões de trânsito como fio condutor de uma crítica de ordem moral. Restam apenas escombros, humanos e automotivos. Por isso, o que se vê na tela são litros de sangue, muitos hematomas e inúmeros acidentes de trânsito – tudo muito bem cerzido e montado com precisão cirúrgica pelo realizador Pablo Trapero. No elenco, o badalado e competente Ricardo Darín faz par com Martina Gusman, mulher do diretor. O desfecho é particularmente surpreendente.

#91 - A rede social (The social network), de David Fincher


Quem me segue no Twitter já ficou sabendo, então nem é tão novidade assim: agora eu tenho um blog sobre cultura no portal SRZD, do jornalista Sidney Rezende - um dos poucos profissionais da minha área que eu realmente admiro. Bacana, né? Sempre que eu publicar uma resenha por lá, vou redirecioná-la para cá.

A primeira delas foi uma das estreias de hoje no circuitão, o tão comentado filme de David Fincher sobre o Facebook, A rede social. Também escrevi a crítica para o Jornal do Brasil, mas como estou inclinado a divulgar o blog - e também porque em breve vou postar outra crítica de outro filme que fiz para o JB -, aí vai o link para vocês lerem e serem apresentados ao meu mais novo espaço na web para discultir cultura!

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