terça-feira, novembro 02, 2010

#86 - Tropa de Elite 2, de José Padilha


Fui assistir ao mais comentado filme da temporada, Tropa de Elite 2, como há muito tempo não fazia: ao lado de minha esposa, em pleno feriado, num cinema de shopping center, pagando ingresso e enfrentando uma fila quilométrica. Cerca de meia hora de anúncios e trailers depois, eu era mais um na conta dos mais de 6 milhões, segundo anúncio de TV, a conferir o trabalho de José Padilha que não foi parar nos camelôs ou na internet antes mesmo de seu lançamento.

Muito me foi dito sobre o filme, e só ouvi comentários positivos. Para dizer a verdade, ouvi uma penca de testemunhos esfuziantes, entusiasmados, arrebatados. Eu aguardava, principalmente, mais um excelente trabalho de um dos melhores - se não o melhor – roteiristas do país, Bráulio Mantovani. Quase duas horas depois do início da sessão, saí meio confuso da sala de projeção. Tropa de Elite 2 é um bom filme, sem dúvida. Porém, a verdade é que eu não fiquei tão empolgado quanto eu imaginava que ficaria.

Na síntese, o segundo filme da franquia funciona como uma espécie de mea culpa do diretor, que viu, no primeiro longa, um personagem de discurso fascista ganhar os corações da massa brasileira. Capitão Nascimento foi endeusado por uma grande parcela da população, cegamente levada a ovacionar métodos nada respeitáveis de conduta por parte de uma instituição que deveria zelar pela integridade dessa própria sociedade. Era o tal do estrabismo social fascistoide se espalhando feito epidemia. Wagner Moura foi parar em capas de revistas sob legendas de herói. Um website especializado em roupas infantis vendeu fantasias de policial do Bope. Ainda que a todo momento o roteiro reiterasse as imperfeições de Nascimento, o que se viu foi o endeusamento cego daquilo que deveria, justamente, ser questionado.

O roteiro de Tropa de Elite 2 chega a tratar o assunto de forma literal, quase irritantemente didática, para que dessa vez não haja interpretações equivocadas: é o próprio Coronel Nascimento, o mesmo que punha saco de plástico na cabeça das pessoas e acharcava quem quer que fosse para conseguir o que queria, que assume, como narrador da história, que errou. Sim, o inimigo mudou: no lugar dos traficantes e seus arsenais de guerra, os milicianos e sua influência política. Só que, desta vez, parece que Padilha quis se precaver para que seu argumento não desse brecha a interpretações obtusas. Será que foi isso mesmo?

Há que se ter cuidado, Padilha. Pela fala do protagonista, narrada em off, a mesma esquerda que é chacoteada no início do filme, cujas piadas rendem boas risadas na plateia, é aquela que se torna aliada no final. Os direitos humanos que são duramente criticados lá no início do filme, são valorizados no final. Talvez daí venha a minha principal crítica ao trabalho de Mantovani. É num filme como esse, no qual a palavra tem muito mais força do que a ação filmada, que os diálogos devem ser bem trabalhados, que a narração deve ser protagonista, que o texto deve funcionar com muito mais pungência.

Cinematograficamente falando, o filme é impecável. Da montagem à edição, perfeito. A direção de atores é precisa, com o elenco rendendo o esperado: grandes atores em papeis bem desenvolvidos. O roteiro cria bons climas de suspense e ação, ainda que assuma uma postura mais reflexiva do que imediatista - apesar do momento Charles Bronson do Coronel Nascimento.

Ao final da sessão, os espectadores discutiam o tema. Isso é uma conquista valorosa a um filme cujo argumento flerta com a realidade. Por isso, ouso aqui dizer que assistir a Tropa de Elite 2, para quem sente a necessidade de debater o Rio de Janeiro, é quase que uma lição cívica. Quase. Eu saí daquela sala de projeção convencido de que minhas escolhas políticas sempre foram coerentes com a minha visão do que é o melhor para a Cidade Maravilhada.

9 comentários:

Pedro disse...

Bom, eu so poderei assistir quando o filme cair na internet... (na verdade ja deve ter)

Agora, o Tropa de elite 1 fez muito sucesso aqui na França (ja ouvi varias vezes o rap das armas tocando em celulares franceses)

Pelo pouco que conversei com os frances que viram o filme e com uma brasileira professora da universidade de montpellier, aqui o Capitao Nascimento sempre foi visto como vilao, eles inclusive tomaram um susto quando eu disse que ele foi endeusado no Rio.
Mas uma das coisas dificeis de explicar por aqui.... (assim como o porteiro, a xerox autenticada e etc e tal)

Pedro disse...

Faltou um "I" ai no mais....

Eu sou ruim de portugues, mas nao tanto!

Kamila disse...

Eu te entendo um pouco, Dudu. O filme só me empolgou mesmo em seu ato final, que foi quando tudo começou a ganhar sentido. Antes, eu acho que o Padilha faz uma grande contextualização sobre o tema que ele quer tratar no ato final.

O que eu mais valorizo nessa obra é justamente o fato de ela estimular as pessoas a discutir. Ainda mais vocês, cariocas, que enfrentam esta realidade diariamente. Este filme fala diretamente com vocês.

Beijos!

Camila disse...

Meu maior problema com cinema nacional é a trilha sonora. Penso que além da boa historia, a musica é fundamental. Depois de ver Phillip Glass em Nosso Lar, me bateu um ar de esperança. Mesmo não tendo visto o filme, imagino que a qualidade foi ás alturas.
Mas você também é fogo, heim?! Cinema no feriado, pra ver um "parte dois" de filme nacional, é pedir pra passar raiva.
Eu lamento não ver na telona um filme que jogua a m**da no ventilador e não cobre lado nenhum. Só me lembro do Cabeleira (Cidade de Deus), esse sim era um malando firmeza. O resto ou é vilão ou é herói. Não se vê mais "gente" - brasileira- no cinema.

Rafael Carvalho disse...

Dudu, gosto muito do filme, que faz o primeiro parecer menor. Mas senti também essa mesma coisa de tentar desconstruir essa figura heroica do Capitão Nascimento, pois muita gente viu o personagem como uma "solução" para a onda de violência urbana. Pelo menos com isso e com o foco dessa vez na política, acho interessante que o projeto está aí porque tem algo mais a dizer e não somente para duplicar o suceso que conseguiu com o filme anterior.

Vulgo Dudu disse...

Pedrim, sensacional o seu comentário. Só atesta o que eu comentei sobre o endeusamento do personagem...

Kamila, é exatamente isso: o filme é válido por deixar o espectador fora da zona de conforto. Mas é preciso ter muito cuidado com o texto, pois estamos falando, justamente, de um veículo de massa, de grande alcance. Achei que faltou capricho no texto...

Camila, eu queria também observar a reação da plateia. Valeu a pena! E vivao cinema nacional - de verdade, não novela global em forma de filme.

Rafael, eu não achei o segundo melhor que o primeiro. É um ótimo filme, sem dúvida. Mas acho que os dois ficam na equivalência.

Bjs e abs a todos!

Pedro Henrique disse...

Acho o 2 muito mais filme que o 1. Na verdade nem gosto muito do primeiro. Já esse é de abestar qualquer um. Um filme que encontra realmente onde está sujeira e dá tapa na cara dela. Sem contar que o Padilha é um baita diretor de ação.

Navegante disse...

Gostei bastante desse segundo filme por ser um dos poucos que eu vi no cinema nacional que te fazem pensar DE VERDADE (e não são uma diversão descartável), e esse pensar gera a discussão posterior, ao meu ver muito prazeirosa.

Quanto a questão do papel da esquerda, concordo que a mudança poderia ser melhor explorada no roteiro. Ao meu ver, fugindo ao máximo do maniqueísmo típico desse tipo de discussão e centrando no que o filme faz melhor: interesses individuais. Até acho que ele tentou ir pra esse lado, mas não tão bem o suficiente quanto poderia

musicabetudo disse...

Fala Dudu,
Deixei pra ler a resenha só agora, pois, acredite, só agora consegui ver o filme. Concordo plenamente... O diretor tenta colocar o supostamente "certo" e o supostamente "errado" no seu suposto lugar e tenta explicar tintin por tintin via discursos Fraga. Mas a meu ver o resultado final para a maioria é menos entretenimento pipoca e mais reflexão e crítica, principalmente para os que viram o primeiro aplaudindo a tortura.