domingo, novembro 28, 2010

#90 - Um homem misterioso (The american), de Anton Corbijn


Eu achava que não curtia filmes de perseguição, repletos de agentes duplos, espiões, armas incríveis, tramas internacionais e todo aquele repertório chupado de James Bond que - por incrível que pareça - ainda entope os cinemas. Quando Um homem misterioso estreou, no entanto, havia um alento: apesar de basear o argumento inteiro nos antigos filmes do gênero, quem dirige a produção é o talentoso holandês Anton Corbijn, responsável por uma pequena obra-prima chamada Control, filme que mostra de forma fidedigna a história de Ian Curtis e seu Joy Division. Finalmente, adorei um filme de perseguição!

George Clooney, em mais um ótimo trabalho, interpreta um assassino profissional estadunidense que precisa se esconder em uma pequena comunidade italiana. Em meio a um serviço e outro, ele tenta manter sua verdadeira identidade em sigilo. Porém, o inevitável envolvimento com os locais desperta uma série de acontecimentos. O desvelamento desses eventos é, justamente, o que faz do roteiro uma experiência bastante interessante.

Tudo em Um homem misterioso é diferente. Ao invés do barulho de explosões, o silêncio das estreitas escadarias de Pescara. Ao invés de cortes ligeiros, tomadas contemplativas (inclusive, com direito a uma referência ao mestre Sergio Leoni, que filmava contemplativamente como poucos). O clima de suspense, que permanece do início ao fim da projeção, é todo regido por pequenos detalhes. Corbijn trabalha com a imprevisibilidade de forma absolutamente brilhante.

Eu curto, e muito, os filmes de Anton Corbijn.

domingo, novembro 21, 2010

#89- Moscou, Bélgica (Moscow, Belgium), de Christophe Van Rompaey


Estreou na última sexta-feira, no circuitão caorioca, um filme bem bacana, vindo de um país que não tem uma produção audiovisial profícua e bem distribuída, a Bélgica. Pois Moscou, Bélgica é uma grata surpresa - em grande parte, por tratar com leveza um tema espinhoso. Rapidamente, o filme ganha a empatia do público, graças ao roteiro e, principalmente, ao elenco.

Nada de muito novo: mulher de 41 anos recém-abandonada pelo marido, que a trocou por uma jovem de 22, abre mão de sua vaidade para cuidar dos três filhos. Um dia, ao sair do supermercado, bate o carro no caminhão de um motorista dez anos mais novo. O que começa como uma áspera discussão de trânsito acaba se transformando numa delicada relação. O argumento de Moscou, Bélgica vai traçando o perfil dessa mulher contemporânea, pós-balzaquiana, que desaprendeu a se amar e perdeu, por conseguinte, a capacidade de amar alguém.

Palmas e mais palmas para o casal protagonista, Barbara Sarafian e Jurgen Delnaet, irretocáveis. Na verdade, o filme é vendido como uma comédia, mas a atuação dos dois é tão complexa e cheia de texturas, que o tom de dramaticidade se mantém elevado, ainda que nunca caia no melodrama.

Um filme peculiar sobre uma questão corriqueira.

terça-feira, novembro 09, 2010

#88 - Scott Pilgrim contra o mundo (Scott Pilgrim vc the world), de Edgar Wright


Não há dúvida que Scott Pilgrim contra o mundo vai ser considerado um filme segmentado, produzido para um determinado tipo de espectador, a saber: adolescentes recém-saídos da puberdade e adultos com um dos pés arraigados nas memórias da infância. Normal, né? A adaptação cinematográfica dos quadrinhos criados por Bryan Lee O'Malley tem uma linguagem completamente diferente do que está em cartaz por aí. Vou mais além e digo-lhes que se trata de uma experimentação cinematográfica levada ao extremo, tendo como base as HQs e o videogame.

Edição super veloz (veloz mesmo, camarada), cortes temporais secos e diálogos muito rápidos parecem ser o norte de Scott Pilgrim contra o mundo. Muita gente vai dizer por aí que isso é reflexo da instantaneidade da informação. E, de certa forma, estão certos. Num primeiro momento, nós, balzaquianos, temos a amarga impressão de que o filme não foi feito para a nossa geração. Se ficamos boquiabertos com a agilidade do novo cinema britânico, com a montagem impetuosa de Trainspotting, ou a edição sagaz de Snatch, o filme de Edgar Wright pode nos deixar essa sensação de senilidade latente.

Porém, nada disso atrapalha a fruição. O bacana é que Scott Pilgrim contra o mundo tem um roteiro bem amarrado e interessane. Conta a história deste jovem que dá nome ao título, baixista de uma banda de garagem chamada Sex Bob-OMB, que se apaixona por uma entregadora de pacotes da Amazon, a descolada moça de cabelos tingidos Ramona Flowers. Porém, para que a união se eternize, o pobre rapaz precisa enfrentar uma malvada liga de sete ex-namorados do mal.

O casal protagonista é formado pela ótima Mary Elizabeth Winstead e pelo - já há algum tempo - novo queridinho da tela grande, o carismático Michael Cera. O resto do elenco não deixa a peteca cair e dá conta do recado. Destaque para a participação especial de Jason Schwartzman, irretocável!

Vale um parágrafo para a trilha sonora, espetacular! Tanto as músicas do Sex Bob-OMB, quanto as canções de fundo, são todas extremamente bem selecionadas. Tem gente muito boa por ali, como Beck (que assina as músicas da banda fictícia), Frank Black, Metric e Broken Social Scene.

Lamentavelmente, o filme parece ter estreado somente no circuito paulista (é isso mesmo, amigos da Terra da Garoa?). O resto do país vai ter que aguardar sabe-se lá quanto tempo. E, depois, os estúdios têm medo do fantasma da pirataria...

sexta-feira, novembro 05, 2010

#87 - Ondine, de Neil Jordan


Tá parecendo mesmo que só há atualização por aqui na sexta-feira... Enfim, vamos ao que interessa. Mais uma estreia bacana no circuito. O novo filme de Neil Jordan, Ondine, tem um roteiro intrigante e bastante inteligente quando comparado à mesmice que assola a indústria cinematográfica hollywoodiana. Adianto aqui que vale o confere. O elenco dá um show à parte. Confira a resenha que escrevi para o Jornal do Brasil, logo abaixo.

O ponto de partida de Ondine, novo trabalho do diretor irlandês Neil Jordan, é bastante interessante: um solitário pescador se depara, inexplicavelmente, com uma misteriosa mulher embaraçada em sua rede de pesca, em pleno mar aberto. A partir daí, tem início uma espécie de fábula que mistura o mito das selkies (focas que, ao retirarem suas peles, se tornam mulheres) com os enredos comuns aos contos romanescos. Aos poucos, Syracuse (Colin Farrell, num de seus melhores papeis) começa a se envolver com Ondine (a bela e sensual Alicja Bachleda), acreditando que ela pode, de fato, ser uma sereia – teoria encampada por sua filha, Anny (a surpreendente Alison Barry).

O capricho estético do filme, com uma fotografia densa e escura, ajuda a contar a história, que tem seus traços melancólicos sublinhados. A trilha sonora ajuda. Ambientado na Irlanda, a direção de arte tira proveito das águas acinzentadas e do horizonte carregado de nuvens pesadas para contextualizar uma história de amor conflitante, que deixa a dúvida no espectador até os momentos finais. Por isso, Ondine é um filme que pode agradar a quem não aguenta mais a mesmice das histórias de amor que andam sendo escritas pelos roteiristas hollywoodianos.

terça-feira, novembro 02, 2010

#86 - Tropa de Elite 2, de José Padilha


Fui assistir ao mais comentado filme da temporada, Tropa de Elite 2, como há muito tempo não fazia: ao lado de minha esposa, em pleno feriado, num cinema de shopping center, pagando ingresso e enfrentando uma fila quilométrica. Cerca de meia hora de anúncios e trailers depois, eu era mais um na conta dos mais de 6 milhões, segundo anúncio de TV, a conferir o trabalho de José Padilha que não foi parar nos camelôs ou na internet antes mesmo de seu lançamento.

Muito me foi dito sobre o filme, e só ouvi comentários positivos. Para dizer a verdade, ouvi uma penca de testemunhos esfuziantes, entusiasmados, arrebatados. Eu aguardava, principalmente, mais um excelente trabalho de um dos melhores - se não o melhor – roteiristas do país, Bráulio Mantovani. Quase duas horas depois do início da sessão, saí meio confuso da sala de projeção. Tropa de Elite 2 é um bom filme, sem dúvida. Porém, a verdade é que eu não fiquei tão empolgado quanto eu imaginava que ficaria.

Na síntese, o segundo filme da franquia funciona como uma espécie de mea culpa do diretor, que viu, no primeiro longa, um personagem de discurso fascista ganhar os corações da massa brasileira. Capitão Nascimento foi endeusado por uma grande parcela da população, cegamente levada a ovacionar métodos nada respeitáveis de conduta por parte de uma instituição que deveria zelar pela integridade dessa própria sociedade. Era o tal do estrabismo social fascistoide se espalhando feito epidemia. Wagner Moura foi parar em capas de revistas sob legendas de herói. Um website especializado em roupas infantis vendeu fantasias de policial do Bope. Ainda que a todo momento o roteiro reiterasse as imperfeições de Nascimento, o que se viu foi o endeusamento cego daquilo que deveria, justamente, ser questionado.

O roteiro de Tropa de Elite 2 chega a tratar o assunto de forma literal, quase irritantemente didática, para que dessa vez não haja interpretações equivocadas: é o próprio Coronel Nascimento, o mesmo que punha saco de plástico na cabeça das pessoas e acharcava quem quer que fosse para conseguir o que queria, que assume, como narrador da história, que errou. Sim, o inimigo mudou: no lugar dos traficantes e seus arsenais de guerra, os milicianos e sua influência política. Só que, desta vez, parece que Padilha quis se precaver para que seu argumento não desse brecha a interpretações obtusas. Será que foi isso mesmo?

Há que se ter cuidado, Padilha. Pela fala do protagonista, narrada em off, a mesma esquerda que é chacoteada no início do filme, cujas piadas rendem boas risadas na plateia, é aquela que se torna aliada no final. Os direitos humanos que são duramente criticados lá no início do filme, são valorizados no final. Talvez daí venha a minha principal crítica ao trabalho de Mantovani. É num filme como esse, no qual a palavra tem muito mais força do que a ação filmada, que os diálogos devem ser bem trabalhados, que a narração deve ser protagonista, que o texto deve funcionar com muito mais pungência.

Cinematograficamente falando, o filme é impecável. Da montagem à edição, perfeito. A direção de atores é precisa, com o elenco rendendo o esperado: grandes atores em papeis bem desenvolvidos. O roteiro cria bons climas de suspense e ação, ainda que assuma uma postura mais reflexiva do que imediatista - apesar do momento Charles Bronson do Coronel Nascimento.

Ao final da sessão, os espectadores discutiam o tema. Isso é uma conquista valorosa a um filme cujo argumento flerta com a realidade. Por isso, ouso aqui dizer que assistir a Tropa de Elite 2, para quem sente a necessidade de debater o Rio de Janeiro, é quase que uma lição cívica. Quase. Eu saí daquela sala de projeção convencido de que minhas escolhas políticas sempre foram coerentes com a minha visão do que é o melhor para a Cidade Maravilhada.