sexta-feira, outubro 29, 2010

#85 - Sentimento de culpa (Please give), de Nicole Holofcener


Até parece que só há novidades aqui na sexta-feira, não é? Pois então, hoje é dia de estreia e crítica no Jornal do Brasil. O filme resenhado foi Sentimento de culpa, uma comédia dramática bem fraca, mas com um elenco que podia dar um caldo. Eu achei o filme regular, apesar da cotação no jornal ter saído errada: estão lá duas estrelas... Enfim, vamos ao texto.

Pelo título, Sentimento de culpa (Pelase give, no original) pode gerar interpretações prévias equivocadas quanto ao seu gênero. Não se trata de um dramalhão pesado, mas sim de um drama com contornos cômicos que dão à trama uma certa leveza. O roteiro conta a história de um casal novaiorquino que pretende comprar o apartamento da vizinha - uma senhora de idade ranzinza e rabugenta - para ampliar o seu imóvel. À espera do passamento da moradora ao lado, precisam lidar com questões pessoais, como os problemas com a filha adolescente, a monotonia do casamento e a ética nos negócios.

Se o argumento não é dos mais interessantes, e se a fórmula para emocionar o espectador, paulatinamente, não tem lá seus efeitos reverberados, o destaque de Sentimento de culpa fica, indubitavelmente, com o elenco. As interpretações conseguem manter o espectador imerso, em grande parte pelo carisma dos atores. Rebecca Hall, Amanda Peet, Catherine Keener e Oliver Platt fazem um excelente trabalho. Uma pena que o roteiro, bastante morno, não dê brecha para que possam ir um pouco além.

sexta-feira, outubro 22, 2010

#84 - Piranha 3D, de Alexandre Aja


Hoje estreou no circuitão mais um remake em três dimensões: Piranha! Trata-se de um filme onde, basicamente, vê-se um desfile de mulheres desnudas, mas com alguma parte do corpo faltando - em decorrência do apetite voraz dos peixes do mal. Valeu para fortalecer a minha crença de que o 3D só tem graça quando é possível extrapolar os limites físicos. Ou seja, não funciona com atores de carne e osso em cenários realistas. Escrevi uma resenha para o Jornal do Brasil, a qual compartilho com vocês, caríssimos leitores, logo abaixo.

Há mais de 30 anos, espectadores do mundo inteiro deixavam as salas de cinema com medo de tomar banho de mar. O Piranha original, de 1978, era uma produção de baixo orçamento, filmada em menos de um mês e que usava bonecos de borracha colados em palitos de madeira para dar movimento aos temidos peixes sedentos por carne humana. Agora, em 2010, nem mesmo toda a parafernália tecnológica disponível parece ser capaz de provocar arrepios na plateia. Seguindo a onda de remakes tridimensionais, o máximo que Piranha 3D consegue é um susto aqui e outro acolá. Só isso.

O roteiro é tão estapafúrdio, que chega a ser constrangedor. Tudo começa quando um terremoto no fundo do mar abre uma fenda nas rochas. Através dela, piranhas pré-históricas retornam à superfície, colocando os banhistas de uma estância litorânea em risco. A história se concentra na figura de um garoto, tímido e sem jeito com as mulheres, que acaba aceitando ser o cicerone de uma equipe que alugou uma lancha para fazer vídeos pornográficos nas praias da região.

Na verdade, o filme pouco ganha com os efeitos visuais em três dimensões. O que se vê na tela grande são jovens drogados, loucos e promíscuos sendo, de certa forma, punidos pela natureza: seus corpos são destroçados, tridimensionalmente, pelos dentes das piranhas. Nada escapa: seios fartos, pernas torneadas, bundas bronzeadas etc. Um saco.

quinta-feira, outubro 21, 2010

#83 - Alguém tem que ceder (Something's gotta give), de Nancy Meyers


Eu amo minha mãe. Escuto todos os conselhos dela e levo muito a sério as opiniões que ela tem a respeito de vários assuntos. Somos até parecidos: além da cor dos olhos, temos o mesmo temperamento. Porém, se tem uma coisa na qual a gente não combina, é no gosto cinematográfico - como toda a regra tem uma exceção, talvez Almodóvar seja a nossa. Fato é que, certo dia, minha querida mãe virou-se para minha esposa e perguntou:

"Você nunca viu Alguém tem que ceder?"

Após uma resposta negativa, veio uma espécie de interjeição impositiva:

"Ah, você tem que ver! Vai adorar!"

E lá fui eu atrás do filme. Mesmo sabendo, lá no fundo, que as chances de minha cônjuge não gostar do dito cujo eram enormes. E não deu outra...

Não adianta ter Jack Nicholson no elenco se ele faz par romântico com uma das atrizes mais chatas e insossas da história do cinema, a péssima Diane Keaton. Também não é possível levar a sério um roteiro no qual o velho Nic troca uma ninfeta jeitosa pela irritante, feia e desinteressante mãe dela.

O filme conta a história desse empresário cinquentão que tem um enfarte minutos antes de copular com sua jovem namorada. Internado às pressas, ele acaba passando uma temporada na casa de praia da amada, onde precisa viver debaixo do mesmo teto da mãe dela, que mais parece um cliché ambulante: uma dramaturga bem sucedida em processo de criação. Inicialmente, obviamente, o casal enfrenta atritos constantes. Mais tarde, acabam se aproximando. E, mais adiante um pouco, a velha fórmula dos romances cômicos é levada a cabo.

O pior de Alguém tem que ceder é ter que aguentar Diane Keaton e suas caras e bocas. A única coisa boa do filme é ver Frances McDormand atuando. Uma aula de interpretação, mesmo em um papel secundário e quase sem destaque. Fosse ela a protagonista, o argumento faria sentido.

Previsível, monótono e maçante.

domingo, outubro 17, 2010

#82 - King's road (Kóngavegur), de Valdís Óskarsdóttir






Ai ai ai... Blog completamente desatualizado. Culpa do dia que tem somente 24 horas. Muita coisa acontecendo, poucas novidades de fato. Resultado de tudo isso: vi somente quatro filmes durante as duas semanas de festival internacional - ok, na última semana eu passei quatro dias viajando. Fecho com "chave de ferro" as resenhas do evento. King's road é muito, mas muito ruim!

Dois fatores foram decisivos para a escolha de assistir ao filme. O primeiro, é que ele vem lá da Islândia, o que aguçou a minha curiosidade: como será que anda a produção cinematográfica na terra da Björk? Depois, o argumento parecia (e só ficou na aparência mesmo) nonsense o suficiente para construir um roteiro interessante. Conta a história de um jovem que, anos após sair de casa, volta da Alemanha para pedir dinheiro emprestado ao pai, pois precisa sanar uma dívida. No entanto, ele encontra seu progenitor morando em um trailer, cercado por seres esquisitos. Por exemplo, uma velha que tem como bicho de estimação uma foca morta.

Porém, King's road não sai do lugar. O roteiro não flui, os personagens não cativam o espectador e não há nenhum conflito, por mais que haja ensejo, a ser resolvido. Nem mesmo o bom ator Daniel Brühl, que fez o soldado e herói alemão que vira astro de cinema em Bastardos Inglórios, salva o dia.

O filme estava tão ruim, que um casal mais desinibido trocava carícias despudoradas na fileira da frente. E, à medida que a projeção avançava, o patolamento também ia adiante, a ponto das antiquadas poltronas vermelhas de couro do velho Estação Barra Point rangerem diante da pressão que o casal enamorado exercia sobre elas.

Um final de festival melancólico...