quinta-feira, setembro 30, 2010

#81 - Machete, de Robert Rodriguez




Eu tinha escrito aí embaixo que o bacana do festival era dar preferência às produções independentes, que não têm - e a maioria nem vai ter - distribuição garantida no país. Pois hoje eu quebrei o protocolo. Não era para menos: Machete era um dos filmes que eu mais aguardava em tempos. Na verdade, desde o trailer fake em Planeta Terror. Pois Robert Rodriguez volta à velha forma com um filme cujo protagonista tem tudo para se tornar um ícone do exploitation moderno. Machete é entretenimento barato de primeira!

Danny Trejo, o cara com mais pinta de mau da história do cinema, interpreta este ex-tira da polícia mexicana que busca vingança após uma emboscada armada por autoridades estadunidenses inescrupulosas e poderosos narcotraficantes. Porém, como o trailer já alertava, eles não sabiam que estavam mexendo com o mexicano errado... Machete é o tipo do cara que você quer ter ao seu lado em uma briga de bar.

O roteiro é recheado de frases de efeito, pancadarias, litros de sangue, cabeças decepedas e explosões. Ah, sim: e apenas uma cena com tripas que é simplesmente memorável. Inegável que a produção ganhou um acabamento mais caprichado do que aquele apresentado no trailer falso. A boa notícia é que, mesmo assim, Machete não perdeu seu charme de filme B. Inclusive, as tais sequências filmadas antes mesmo da ideia de se fazer o longa são todas usadas.

Vale a pena falar do elenco, que tem um trabalho de caracterização primoroso. Justiça seja feita: a criatividade de Rodriguez na composição dos personagens ajuda bastante. Cheech Marin, Robert De Niro, Jessica Alba, Lindsay Lohan, Steven Seagal - estão todos irretocáveis. Até a esposa do diretor, a jeitosa Michelle Rodriguez, tem uma atuação convincente.

De quebra, Machete ainda aproveita para tirar um sarro da cara dos estadunidenses xenofóbicos. Um dos filmes mais divertidos da temporada, sem dúvida alguma.

Quer ver? Corre que ainda dá tempo!

SÁB 2/10 13:10 e 19:40 Estação Vivo Gávea 5
DOM 3/10 15:45 e 21:45 Estação Botafogo 1
SEG 4/10 14:00 e 19:00 São Luiz 3

terça-feira, setembro 28, 2010

#80 - Um homem um tanto gentil (En ganske snill mann), de Hans Petter Moland




O bacana de um festival internacional é justamente fugir dos filmes mais badalados, que na maioria das vezes têm distribuição garantida, e catar umas produções de origem, digamos, exótica. Por exemplo, a Noruega, o país do bacalhau, terra do dramaturgo Henrik Ibsen. É interessante observar o que o país nórdico anda fazendo em termos de cinema. Um homem um tanto gentil é uma comédia bastante interessante, ainda que muito simples. Talvez a simplicidade seja aqui um trunfo, uma vez que o roteiro tem algo que atualmente anda escasso nas produções milionárias da indústria cinematográfica: criatividade.

Acompanhamos a história de Ulrik, um homem de meia-idade que sai da cadeia após cumprir pena por assassinato. Ele tenta recomeçar a vida trabalhando numa oficina mecânica, mas se vê pressionado pelos velhos colegas de crime a realizar mais um trabalho sujo. Gentil, simpático e atencioso, Ulrik vai repensando a vida à medida em que as pessoas vão cruzando o seu caminho.

Quem interpreta com maestria o protagonista é Stellan Skarsgård, velho conhecido do público mais afeito ao cinema nórdico - trabalhou, por exemplo, com Lars Von Trier em Dançando no escuro e Dogville. O grande barato de Um homem um tanto gentil está na construção dos personagens, todos eles essenciais para a fluidez narrativa. Cada um com sua peculiaridade, por vezes com suas bizarrices. Por isso, o riso surge dos pequenos detalhes, da pantomima, da marcação, dos trejeitos.

É isso que torna uma comédia, de fato, deliciosa. Aprendam com eles, burocratas do cinema!

segunda-feira, setembro 27, 2010

#79 - A oeste de Plutão (À l'ouest de Pluton), de Henry Bernadet e Myriam Verreault




O primeiro filme conferido no Festival Internacional do Rio de 2010 foi uma bela surpresa, totalmente independente, proveniente do Canadá. Mais precisamente de Quebec, província na qual se fala francês ao invés do inglês predominante no país.

O roteiro de A oeste de Plutão conta a histórias destes adolescentes que vivem em um território que parece não ter uma identidade própria. A figura de Plutão, que perdeu o posto de planeta há poucos anos, é usada como um ponto de referência para enquadrar a questão de uma província que se diferencia das demais que compõem o território canadense.

Há uma experimentação bacana em A oeste de Plutão. Os enquadramentos são diferenciados, a trilha sonora é caprichada e os atores parecem ter liberdade para explorar suas falas além do roteiro. Ainda que núcleos diferentes discutam temas distintos, sem lineariedada, o mosaico proposto pelos diretores se mostra bastante nítido.

Bem bacana! Para quem tiver interesse em conferir:

SEG 27/9 13:00 Estação Ipanema 1
SEG 27/9 17:20 Estação Ipanema 1
QUI 30/9 17:40 Estação Vivo Gávea 4

sexta-feira, setembro 24, 2010

#78 - Gente grande (Grown ups), de Dennis Dugan


Entra em cartaz, em meio aos filmes do Festival do Rio, a nova produção de Adam Sandler. Desta vez ele montou um time de humoristas (que no filme formavam um time de basquete quando crianças) para estrelar Gente grande. Trata-se de uma daquelas comédias nas quais os conflitos familiares são resolvidos em um fim de semana numa casa no lago, sabe? Escrevi uma resenha para o Jornal do Brasil. Ei-la logo aí abaixo.

O time de comediantes que estrela Gente grande não é uma unanimidade. O capitão é Adam Sandler, que também assina o roteiro. O escrete é completado por Rob Schneider, Chris Rock, David Spade e Kevin James. O filme mostra o rencontro entre amigos que formavam um time de basquete na infância. Anos mais tarde, por conta da morte do antigo treinador, os cinco voltam à uma casa no lago, onde comemoraram no passado um campeonato, para espalhar as cinzas do treinador. Ao lado de suas famílias, o fim de semana se transforma em uma lição de vida, quase uma terapia de grupo, repleta de altos e baixos. Impossível não comparar o esforço do personagem de Sandler com o de protagonistas de outras produções que também recorreram ao tema, como o Clark Griswold (Chevy Chase) de Férias frustadas ou o Chet Ripley (John Candy) de As grandes férias.

Durante boa parte de Gente grande, os humoristas aproveitam para desfilar um repertório bastante extenso de piadas rápidas, como em um número de comédia em pé. Há algumas sequências divertidas, ainda que politicamente corretas demais. O problema é quando o apelo familiar começa a ganhar contornos dramáticos mais fortes. O filme deixa de ter graça e dá lugar ao típico e enfadonho moralismo hollywoodiano. Das coisas positivas, destaque para a ligeira participação do ótimo Steve Buscemi, que mesmo não sendo um comediante de ofício rouba a cena.

segunda-feira, setembro 20, 2010

#77 - A ressaca (Hot tube time machine), de Steve Pink


A impressão que se tem com A ressaca é a de que o pessoal que traduz os títulos dos filmes para o português anda fumando muito crack. Vejam bem, enquanto The Hangover, que quer dizer "ressaca", virou Se beber, não case, Hot tube time machine, que faz menção a uma banheira que promove viagens no tempo, virou A ressaca. Vai entender... Enfim, a nova comédia encabeçada por John Cusack é até bacaninha (atente para o adjetivo no diminutivo), mas não pelo roteiro em si - e, sim, pelas referências.

O filme conta a história de três amigos de meia idade que, após viverem conflitos pessoais, resolvem voltar a uma estação de esqui onde viveram momentos de diversão selvagem e sexo desregrado quando ainda eram jovens. O sobrinho de um deles, mais novo, também embarca na viagem. E o que eles não esperavam - mas você já sacou antes mesmo de começar a ver o filme - é que a banheira de hidromassagem abrisse um túnel do tempo que os levasse de volta aos anos 80. Acontece que o equipamento quebra. Preso no passado, o quarteto precisa a todo custo arrumar uma maneira de voltar ao presente. Ou ao futuro.

É aí que entram as referências à franquia De volta para o futuro. Não é só o recheio do roteiro que é parecido. Até o display da banheira (sim, ela tem um display que indica a data, como no De Lorean voador) faz lembrar a franquia de Zemeckis. O mais bacana, na esfera referencial, é a presença do ator Crsipin Glover, que interpretou George McFly no primeiro De Volta para o Futuro - e foi sacado das continuações por ter pedido um cachê milionário.

De resto, o elenco é realmente fantástico: Rob Corddry e Craig Robinson integram o trio principal com Cusack. E o jovem talento Clark Duke, ótimo, faz mais uma vez um papel secundário que cresce vertiginosamente na tela, em vista do seu talento.

A ressaca é meio que uma volta ao passado de filmes de comédia e ficção-científica sobre viagens no tempo. O futuro da produção deve ser mesmo as prateleiras das locadoras ou as gôndolas promocionais das lojas de departamento. Mas até que vale a pena o confere.

domingo, setembro 19, 2010

#76 - A terceira margem do rio, de Nelson Pereira dos Santos


Dois mestres, cada um no seu suporte: o escritor João Guimarães Rosa e o cineasta Nelson Pereira dos Santos. Para melhorar, um dos textos mais intrigantes e sensíveis da literatura brasileira, A terceira margem do rio, que fala sobre uma linha imaginária que separa as pessoas do que é tangível e torna a existência insustentável. Apesar do título, neste filme de 1994 o cineasta trabalha um punhado de contos de Primeiras Estórias, livro lançado em 1962, repleto de um realismo fantástico que dá pano para manga - ou, no caso, para a tela. O resultado é realmente encantador.

Nelson Pereira dos Santos consegue fazer um filme simples na estética, mas profundamente emocionante no conteúdo. E por méritos próprios, já que o roteiro é uma única história adaptada de pelo menos cinco contos da obra de Guimarães Rosa. A escolha do elenco é acertada, sem estrelas globais ou atores badalados. A trilha sonora, belíssima, é de autoria de Milton Nascimento - que, como o autor, traduz de forma singular os mistérios e encantos das Minas Gerais.

Depois da sessão, a conclusão de sempre: é essencial conhecer a obra de Nelson Pereira dos Santos para entender melhor o que é o cinema brasileiro. O grande problema é encontrar seus filme... Principalmente os mais antigos (e olha que esse nem é tão antigo assim, e já foi complicado de arrumar). Tarefa árdua. Muitas vezes, estão disponíveis apenas em antigos VHS, já castigados pelo tempo. Porém, rola por aí um boato de que boa parte da obra do cineasta vai ser recuperada e lançada em DVD.

Enquanto isso, vamos catando o que há disponível por aí, né?

sexta-feira, setembro 17, 2010

#75 - Baarìa - A Porta do Vento (Baarìa), de Giuseppe Tornatore


Estreia hoje no circuitão a nova e milionária (cerca de 25 milhões de euros) produção de Giuseppe Tornatore, o cara que comoveu muita gente com Cinema Paradiso. Baarìa - A Porta do Vento é uma colegem de memórias autobiográficas do cineasta. Escrevi uma resenha para o Jornal do Brasil, que agora é digital. Como de costume, compartilho aqui o que escrevi lá.

Tratando-se de um realizador tão profícuo como Giusepe Tornatore, era mesmo de se esperar que um filme calcado em suas memórias fosse, no mínimo, interessante e cativante. Em Baarìa – A Porta do Vento, o cineasta italiano conta a história de três gerações, incluindo a própria, que testemunham o amadurecimento da pequena vila siciliana que dá nome à produção. Testemunha-se a Segunda Guerra Mundial, passando pelas manifestações comunistas, até culminar nos processos de exclusão social frutos da especulação urbana contemporânea. Paralelamente, lá está também o amadurecimento da relação de Tornatore com o cinema, tema recorrente em sua cinebiografia.

O filme tem méritos técnicos incontestáveis. A fotografia é belíssima, a direção de arte é impecável e a trilha sonora de Ennio Morricone é, como de costume, magnífica. O trabalho de direção de atores é facilitado pelo talentoso elenco. O pecado de Tornatore é tentar arrancar de forma forçosa a mesma comoção que Cinema Paradiso provocou despretensiosamente em plateias do mundo inteiro. Há, ainda que poucos, certos deslizes cênicos e melodramáticos ao longo do extenso roteiro que deixam o acabamento final quase hollywoodiano, exagerado. Ainda assim, Baarìa – A Porta do Vento é capaz de prender a atenção dos amantes do cinema e daqueles que têm na sétima arte as bases de suas memórias afetivas.

segunda-feira, setembro 13, 2010

#74 - The Weather Underground, de Sam Green e Bill Siegel


Difícil de acreditar, mas houve movimentos de esquerda nos Estados Unidos das décadas de 60 e 70. Guardadas as devidas proporções, pode-se dizer que o Weatherman (nome baseado na letra de uma música de Bob Dylan) foi o Baader-Meinhof estadunidense. O que o documentário The Weather Underground mostra é, justamente, a formação de uma célula revolucionária furiosa em um país que coibia qualquer tentativa de manifestação contrária à política capitalista.

Tudo começou quando líderes de movimentos estudantis, cansados da resistência pacífica, resolveram levar um pouco mais a sério o protesto antibelicista. Contrários à política externa dos EUA, em plena guerra do Vietnã, o lema do Weatherman era “bring the war home” – algo como “traga a guerra para casa”. Os primeiros movimentos foram bastante violentos, quase descontrolados, que serviram para por o grupo nas manchetes dos jornais. Foi somente mais tarde, com o aprimoramento de técnicas de guerrilha, que o Wetherman chamou a atenção da sociedade e das autoridades, passando a viver na clandestinidade, no underground.

The Weather Underground tem um excelente material de acervo, com imagens de confrontos e depoimentos de gente que vivenciou a ascensão e a queda dos ideais do grupo, cujos líderes acabaram se entregando. Muitos ex-militantes, atualmente em posições desvinculadas dos seus passados de luta, prestam depoimentos à câmera – alguns até mesmo arrependidos de terem tomado parte dos conflitos.

Um documento bastante interessante, que talvez se mantenha fora do alcance da maioria dos jovens estadunidenses. Jovens que não fazem idéia de como começar a contestar o regime vigente.

quinta-feira, setembro 09, 2010

#73 - Tortura do medo (Peeping Tom), de Michael Powell


Pode-se dizer que a carreira de Michael Powell começou a ruir pela repercussão negativa de Tortura do medo à época de seu lançamento. Apesar disso, quem diria, o tal burburinho, atualmente, lhe confere ousadia suficiente para ser reconhecido como uma grande obra de suspense e terror psicológico. De fato, o roteiro é assustador! Conta a história de um assassino que filma a expressão de medo e desespero de suas vítimas diante da iminência da morte.

Powell usa muito bem o recurso da narrativa em primeira pessoa, com a câmera funcionando como os olhos do assassino. A construção do clima de suspense é perfeita. Quem protagoniza a história é o ótimo Carl Boehm. Recluso em um quarto no andar de cima de uma casa, ele acaba se envolvendo com a vizinha de baixo. E é aí que seus conflitos internos começam a vir à tona. A trama vai ficando cada vez mais complexa e angustiante, até culminar em um desfecho verdadeiramente perturbador.

Fato lamentável é que a obra foi tão picotada para caber ao gosto dos censores de plantão, que muitas sequências foram perdidas para sempre. Ainda assim, Tortura do medo é uma obra que causa um bacana desconforto no espectador.

Por todas essas razões, um clássico!

domingo, setembro 05, 2010

#72 - Skinheads - A Força Branca (Romper Stomper), de Geoffrey Wright


Obviamente, um filme sobre jovens neonazistas precisa ser repleto de violência explícita, capaz de despertar ojeriza no público. No caso de Skinheads - A Força Branca, com um título em português meio exagerado (o original se refere às botas usadas pelos skinheads), já que o argumento vai muito além da xenofobia. Os momentos brutais estão lá, mas o ótimo roteiro oferece um filme completo, com destaque para as atuações.

Quem protagoniza e impressiona é Russell "Gladiador" Crowe, ainda um jovem ator local, que encarna um furioso e assustador líder de uma gangue de tendências nazistas que quer varrer o bairro dos imigrantes chineses que ali abrem seus comércios. Depois de um desentendimento mais grave, os orientais se unem para a vingança. A situação acaba afetando a estrutura do grupo, que precisa lidar com questões pessoais para garantir a sobrevivência.

Apesar de ser uma produção bem simples, Skinheads - A Força Branca tem lá seu valor estético. A fotografia é escura, granulada e crua. Os conflitos, tanto físicos quanto psicológicos, são bastante contundentes. Todos os atores emprestam realismo à trama.

O desfecho é impressionante! Vale o confere.

sexta-feira, setembro 03, 2010

#71 - O Dia da Besta (El Día de la Bestia), de Álex de la Iglesia


Das profundezas do underground espanhol, emerge mais um filmaço. Dirigido e escrito por Álex de la Iglesia, O Dia da Besta tem um roteiro impecável, que faz um gênero de terror completamente diferente do usual. Apesar do título evocar a figura do Diabo, não há a profusão de sustos, litros de sangue e tripas penduradas - efeitos tão difundidos pelo cinema de horror contemporâneo. Aqui, o que vale é o conteúdo. É entretenimento do começo ao fim.

Acompanhamos a tentativa desesperada do padre Angel Berriartua, interpretado pelo formidável Álex Angulo, de entrar em contato com o Tinhoso. Isso porque, após anos de pesquisa, ele conseguiu decifrar um código na Bíblia que indica a data e o local do nascimento do Anticristo: justamente naquela noite, exatamente em Madri. Ajudado por um jovem vendedor de discos de heavy metal (o figuraça Santiago Segura, o mesmo ator que encabeça a trilogia do imbatível Torrente, o policial escroto), já iniciado nos rituais satânicos, o clérigo precisa correr para evocar a presença do Príncipe das Trevas e, assim, tentar impedir o Apocalipse.

A primeira sequência do filme é absurdamente espetacular. Padre Angel sai pelas ruas da cidade cometendo atrocidades para se tornar um pecador. O tom de jocosidade e sarcasmo prossegue durante todo o filme, com situações bizarras, escabrosas e divertidíssimas. Até culminar em um dos desfechos mais hilários e surreais da história dos filmes de terror!

Bom demais!