segunda-feira, agosto 30, 2010

#70 - O Inferno (L'enfer d'Henri-Georges Clouzot), de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea


Amanhã, dia 31 de agosto, lamentavelmente, o Jornal do Brasil deixará de circular em sua versão impressa. Quem perde somos todos nós, cariocas, que já tivemos ali uma imprensa que sempre funcionou como resistência aos monopólios da comunicação. Verdade seja dita: o jornal não era mais o mesmo desde a sua aquisição pelo empresário Nelson Tanure. Ainda assim, eu tenho orgulho de poder colaborar escrevendo resenhas cinematográficas numa publicação que já teve grandes nomes do jornalismo cultural em seu quadro de funcionários. Então, presto aqui uma homenagem publicando uma resenha de um filme que não entrou no circuito carioca - e que, infelizmente, muito provavelmente não vai entrar. Trata-se do fantástico doc O Inferno (que os paulistas tiveram a oportunidade de ver nos cinemas), sobre os bastidores de um filme homônimo que nunca foi finalizado. Ah, sim: o jornal vai continuar com sua versão online!

Em 1964, o cineasta francês Henri-Georges Clouzot esteve muito perto de sacudir o circuito cinematográfico com uma obra chamada O inferno. O roteiro falava sobre as alucinações patológicas e perturbadoras de um sujeito recém-casado que desconfiava estar sendo traído. Utilizando arte cinética e técnicas visuais bastante ousadas para a época, o diretor buscou revelar nos fotogramas o inferno particular de um homem atormentado pelo ciúme. Apesar do generoso orçamento e da extensa equipe de produção, o filme nunca foi finalizado, tornando-se uma espécie de purgatório pessoal para Clouzot.

Décadas depois, os diretores Serge Bromberg e Ruxandra Medrea conseguem acesso ao material até então inédito e montam um documentário que dá uma ideia geral do que teria sido planejado pela mente profícua e complexa de Clouzot. Imagens de bastidores, testes de figurino e takes intocáveis, repletos de ousadia estética, dão ao espectador a oportunidade de testemunhar uma pequena tragédia que extrapolou os limites da tela grande. Se a sétima arte perdeu um grande filme, ao menos ganhou um documentário imperdível.

5 comentários:

Pedro Henrique disse...

É sensacional. Imagino se o filme fosse finalizado, o que não seria.

Kamila disse...

Fiquei curiosa sobre este filme depois de ler seu texto, Dudu!

Beijos!

Vulgo Dudu disse...

Pedrão, seria um assombro, hein?

Kamila, vale a pena catar o filme. Acredito que seja difícil de encontrar, mas... Fique de olhos abertos! Se eu encontrar algum link, te aviso!

Bjs e abs!

Rafael Carvalho disse...

Interessante lembrar que os diretores do filme se encontraram com a viúva do Clouzot casualmente num elevador que ficou preso, e aí o documentário começou a tomar forma. Gosto muito filme, principalmente por revelar o extraordinário material que o Clouzot tinha em mãos e na mente, já que tinha carta branca para testar todo tipo de pirotecnia. A presença luminosa de Romy Schneider é mais um atrativo.

Vulgo Dudu disse...

Rafael, não sabia dessa história do elevador! Que bacana! Só agrega ainda mais valor ao filme.

Abs!