quarta-feira, julho 07, 2010

#53 - Manhattan, de Woody Allen


Sempre tive um pouco de dificuldade com os filmes de Woody Allen. Metade deles eu gosto bastante, a outra eu detesto. Durante muito tempo não soube como explicar uma certa indisposição a produções assinadas por ele. Até que amadureci suficientemente a ponto de poder exercitar um ajuizamento de gosto contundente. Não gosto quando ele interpreta a si mesmo, tautologicamente; não gosto quando o tema da neurose provocada pelo bloqueio criativo se repete; não gosto quando o roteiro é recheado de referências eruditas. E Manhattan, um dos seus filmes de maior repercussão no circuito, tem muito disso.

Lá está Allen, novinho, interpretando um escritor de programas para TV que namora uma jovem colegial. Sua vida começa a mudar quando o melhor amigo o empurra a amante. A partir daí, tem início uma série de esquetes cômicas. Porém, para realmente entender as piadas, é preciso estar familiarizado com alguns ícones eruditos. Por exemplo, se o espectador desconhece Nabokov, autor de Lolita, vai boiar com as referências ao relacionamento do protagonista com a adolescente de 17 anos. E assim, sucessivamente, são parte dos diálogos citações a filósofos, dramaturgos, músicos etc. O que, convenhamos, se torna cansativo, repetitivo, quando o gênero é uma comédia de costumes.

Nada condenável do ponto de vista cinematográfico. Manhattan é mesmo um filme para um público diferenciado - o que é uma pena e, de certa forma, dicotômico, já que o filme foi um sucesso de bilheteria. Aliás, o próprio cineasta alega não gostar da obra, nem de sua caracterização. Verdade seja dita: Allen é bem mais divertido quando não está diante das câmeras. Ou então, quando interpreta alguém diferente de si mesmo. Ou então, mais além, quando faz comédias despretensiosas.

Tecnicamente, Manhattan é impecável, e já atestava o talento do então jovem Allen. Fotografia impecável, trilha sonora bem cuidada e enquadramentos que sabem tirar proveito da aura cosmopolita de Nova York. Resumindo, e talvez reduzindo, ainda que sem querer, é filme-cabeça.

Às vezes, a despretensão é a melhor saída.

5 comentários:

Maria disse...

Eu respeito do Woody Allen. Eu não gosto, mas reconheço o talento do cara.

Acho ele um saco. A maior prova disso foi que fui ver Vicky, Cristina, Barcelona, sem saber que era dele, não gostei (exceto pela Maria Elena) e só quando acabou é que vi que o filme era dele.

Além disso tenho nojinho da figura dele... aí mesmo é que não consigo ver filmes em que ele atua (horrível isso, mas é verdade).

Kamila disse...

Assim como a Maria, eu respeito bastante o Woody Allen! E conheço mais a filmografia recente dele. Preciso entrar em contato com obras mais antigas, como este "Manhattan". Beijos!

Anônimo disse...

Reduzir Manhattan a uma "comédia de costumes" é um crime contra a Sétima Arte. Este filme é umas das obras-primas do W. Allen, juntamente com Annie Hall/ Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, e com certeza, um dos 100 filmes obrigatórios para quem ama o cinema.

Não há nada de pretensioso no filme. Ao contrário, ele é uma crítica aos pseu-intelectuais de Nova York e ao mundinho "cabeça" e fechado deles. O sucesso do público mostra que as referências eruditas são apenas detalhes em uma história absolutamente bem dirigida.

Um abraço,
Luciano Favaro

FLICTS disse...

O que o autor do blog não sacou sobre esse filme é que quem faz as citações é a personagem da Diane Keaton que é uma chata se apoiando o tempo todo em referências eruditas que é o oposto do Personagem da Mariel Hemingway. É interessante saber do que ela está falando mas só pra entender o quanto "boring" ela é mas é realmente apenas um detalhe na trama. Vale a pena assistir 3 vezes ou mais pra captar outras coisas que o filme tem de muito, muito melhor. Aliás.. usar de ironia e sarcásmo não é necessariamente fazer comédia. O final do filme pretende tudo menos arrancar gargalhadas.

Vulgo Dudu disse...

Maria, o talento dele é indiscutível! Mas fico com a despretensão. E nesse sentido, o filme de Barcelona é bem despretensioso.

Kamila, o meu filme preferido dele é "Zellig". É o que recomendo.

Luciano, antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui! Não há qualquer reducionismo na afirmação de que o filme é uma comédia de costumes. O argumento propõe uma observação comportamental. Logo, é comédia de costumes - e quantas boas comédias de costumes há por aí. Até pode ser uma crítica ao pseudo-intelectualidade, mas com reservas. Até porque ele faz parte de uma intelectualidade...

Flicts, o autor do blog gostaria de dizer que você é bem-vindo(a) por aqui também! Na opinião dele, o personagem de Allen é tão "boring", no caso, quanto a personagem metida que faz as tais citações. E Allen costuma sempre ser "boring" em todos os filmes em que resolve interpretar o escritor neurótico com bloqueios criativos blá blá blá - ou seja, todos os filmes com argumento pendendo à erudição. O autor do blog continua com a opinião de que Allen é um cineasta melhor quando usa da despretensão.

Bjs e abs a todos!