sexta-feira, julho 30, 2010

#59 - O segredo dos seus olhos (El secreto de sus ojos), de Juan José Campanella


A Argentina tem um cinema sólido. Há um bom tempo. Incontestáveis os talentos que eles têm em todas as áreas técnicas: bons diretores, bons atores, bons roteiristas, bons diretores de fotografia e por aí vai. O segredo dos seus olhos levou a estatueta daquela academia como o melhor filme estrangeiro - decisão que não deve ter sido nada fácil, dado o nível dos concorrentes. Porém, o prêmio coroa mais do que um filme - trata-se de uma honra ao mérito pela qualidade da arte cinematográfica produzida no país.

Juan José Campanella, um ótimo diretor, filma um roteiro bastante denso e instigante, interpretado pelo excelente Ricardo Darín. A película conta a história de um investigador que, ao se aposentar, decide escrever um livro no qual retoma as memórias sobre um grotesco assassinato, cujos meandros permanecem desconhecidos. Com uma cronologia muito bem sacada, os elementos que compõem a trama vão sendo apresentados, para culminar em um desfecho bastante pungente.

Campanella tem pulso firme e imprime estilo à direção. Seus atores rendem, suas marcações funcionam e o argumento flui com facilidade. O único porém fica com a cena imediatamente antes dos créditos finais, patética, desnecessária, que alivia o espectador de toda a carga dramática construída ao longo de mais de duas horas de projeção. Ainda assim, nada que prejudique a fruição daqueles que curtem uma boa trama de suspense.

Eu nem sabia, mas meu amigo Pascarella, publicitário e cinéfilo, me mostrou como os filmes argentinos também fazem sucesso no mundo da propaganda. De fato, os caras dominam a linguagem. Prova disso é a premiada série de anúncios de um festival de cinema independente (vejam só o tema) que acontece na cidade de Buenos Aires. Confira aqui.

sábado, julho 24, 2010

#58 - O fantástico Senhor Raposo (Fantastic Mr. Fox), de Wes Anderson


Roald Dahl, autor que se dedicou à produção literária infanto-juvenil, ganhou certa fama de cool depois que sua obra mais famosa, A fantástica fábrica de chocolate, foi adaptada para a tela grande. O filme, de 1971, tinha mesmo alguns traços pitoresco, uma certa dose de bizarrice típica dos contos infantis que trabalham a ideia de moral e punição. Tim Burton sacou que poderia tirar proveito disso e assinou uma refilmagem na qual esses traços foram trabalhados à exaustão.

Wes Anderson, assim como Tim Burton, tem uma linguagem própria, ainda que ambas sejam completamente distintas. O diretor trabalha como ninguém a questão da existência humana sob um olhar mais sensível, com personagens excêntricos que acabam criando empatia com a plateia porque funcionam como arquétipos da sociedade contemporânea. Quando optou por levar aos cinemas a história do Senhor Raposo, escrita por Dahl em 1970, Anderson conseguiu capturar com perfeição as ideias de moral e punição que estão nas páginas de O fantástico Senhor Raposo.

A história tem início quando o tal Raposo - que vive em uma sociedade moderna e urbanizada -, impulsionado pelo incontrolável instinto animal de "roubar" seus alimentos, empreita um grande plano para tirar proveito de três ricos fazendeiros da região. Porém, sua ação é descoberta. Logo, sua família se vê sob risco quando os empresários se unem para caçá-lo feito um animal. A partir daí, a luta entre o instinto e a razão, a mesma que permeia as relações entre os agentes sociais até os dias de hoje, é uma constante. Prato cheio para o diretor discorrer sobre um tema que lhe é instigante.

Um dos grandes baratos de O fantástico Senhor Raposo é a utilização da animação stop motion em plena época da quase imposição mercadológica do 3D. E, para tornar a ação ainda mais caricata, ao invés dos 24 quadros por segundo, Anderson utiliza somente 12, o que confere ainda mais charme ao filme. Como em suas obras anteriores, a trilha sonora é caprichada e os diálogos são um atrativo a mais.

Mais para adultos do que propriamente para crianças.

sexta-feira, julho 23, 2010

#57 - O pequeno Nicolau (Le petit Nicolas), de Laurent Tirard


Se uma simples e despretensiosa comédia é capaz de fazer os espectadores chorarem de rir, a ponto de se engasgarem e perderem o fôlego, acredito estarmos diante de uma pequena obra-prima. Acho muito difícil que até dezembro surja um filme tão bacana ou melhor do que O pequeno Nicolau. Ou seja, também acredito estarmos diante do filme do ano.

Baseado nos quadrinhos de um famoso cartunista francês, René Goscinny, também responsável pelas tirinhas de Asterix, acompanhamos as aventuras do pequeno Nicolau - um garoto que teme ser abandonado pelos pais por causa da suposta chegada de um irmão. Junto a seus colegas de colégio, ele planeja diferentes formas de contornar a situação, o que culmina em uma deliciosa comédia de erros, recheada de sequências inesquecíveis.

Tudo no filme é caprichado, e é justamente esse apuro técnico que enaltece a obra. Fotografia, figurino, cenários, é tudo tão bem montado, que os atores ficam livres para concentrar seus esforços na interpretação. E que elenco primoroso, das crianças aos adultos. As atuações merecem destaque especial no filme de Tirard, em especial a ala juvenil. Os personagens, que são muitos, são tão interessantes e heterogêneos, que é fácil identificá-los e não confundi-los já nos primeiros minutos de projeção. Clotaire, interpretado pelo ator-mirim Victor Carles, é impagável!

O roteiro mantém a pegada cômica do início até a última cena. Não há uma linha sequer fora do lugar, ou uma marcação qualquer sobrando. O desfecho ainda nos brinda com um bem sacado alerta à sisudez adulta, que muitas vezes torna a vida uma experiência sem qualquer graça.

Ri tanto, que fiquei mais leve.

segunda-feira, julho 19, 2010

#56 - Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland), de Tim Burton


Tim Burton sempre foi ousado na linguagem estética. Não há um filme no seu currículo que não tenha cenários, figurinos e direção de arte meticulosos. O bacana do diretor era que ele sabia como ninguém dosar o visual com o roteiro e, mais importante ainda, com as interpretações. Sempre valeu a pena ver Tim Burton porque suas histórias são bem contadas. Porque além do deleite estético, ele proporcionava um deleite ficcional.

Aí, todo o mundo ficou esperando, ansiosamente, o lançamento de Alice no País das Maravilhas. E com razão: no tal plano ficcional, o que mais havia era pano para a manga. O plus de ser em três dimensões ainda contribuiu para aumentar a celeuma dias antes da estreia. Seria possível ver, então, o tal mundo particular de Tim Burton com mais profundidade.

A grande verdade é que Burton, dessa vez, fez que nem um monte de diretor por aí. Ficou tão preocupado com a estética, que se esqueceu do básico. Ao que parece, não deu tanta bola para o roteiro, e ainda deixou em segundo plano as atuações, mesmo contando com um elenco calejado e de respeito. Há tanto exagero estético em um dos pratos da balança, que não há ação cinematográfica que equilibre o filme. O mundo de Burton se tornou uma mera representação gráfica de efeitos texturizados.

A história (quase) todo mundo conhece. Escrita por Lewis Carroll, acabou virando um clássico. Ou seja, não há muito o que escrever sobre Alice - até porque, quando criança, nunca foi das minhas histórias prediletas. E nem dá vontade de entrar nos méritos sobre a construção do enredo, uma vez que as comparações livro-filme são uma perda incomensurável de tempo, dada a diferença entre as duas linguagens.

Desânimo. Esse é o resumo de Alice no País das Maravilhas. Desânimo até para escrever essa resenha.

PS: Tim Burton e Disney? Difícil, hein?

domingo, julho 11, 2010

#55 - Notícias de uma guerra particular, de Katia Lund e João Moreira Salles


No final da década de 90, o Rio de Janeiro já se via sufocado com uma espécie de guerra civil que tirava o sono da população. Todo mundo saía perdendo: o cidadão comum, os policiais envolvidos em batalhas campais e os jovens que perdiam suas vidas a favor do tráfico de drogas. Katia Lund e João Moreira Salles realizaram em 1998, uma das reflexões mais contundentes sobre a questão. O documentário Notícias de uma guerra particular é um pequeno tapa na cara de qualquer carioca que tenha o mínimo de consciência social.

Os documentaristas acompanham os principais personagens desta guerra particular - termo usado pelo então capitão do Batalhão de Operações Especiais (o BOPE), Rodrigo Pimentel, atual comentarista da TV Globo e autor do livro que deu origem ao filme Tropa de Elite. Além dele, um traficante e uma família que vive numa favela controlada pelo tráfico também têm suas vidas transformadas em objetos documentais.

O grande trunfo de Notícias de uma guerra particular é a entrevista com o então chefe da Polícia Civil, Hélio Luz. Seus comentários, bastante sóbrios e honestos, deixaram muita gente horrorizada. É ele quem expõe de maneira crua e realista a falência do sistema e a ineficiência das ações de segurança pública no estado. Pouco tempo depois do filme, o próprio Luz pediu dispensa do cargo.

Sequências impactantes e inéditas na época, como a de meninos de 10 anos de idade explicando o funcionamento de armamentos pesados, propõem uma reflexão que perdura até os dias atuais, em meio à tentativa de pacificação de comunidades carentes com a implantação das UPPs.

De quebra, nos extras do DVD, há um documentário imperdível de Eduardo Coutinho, o Santa Marta: duas semanas no morro, de 1987, no qual o cineasta dá voz aos moradores da favela Dona Marta. Um deles, por acaso, é Marcinho VP, ainda adolescente, que sonhava se tornar advogado para defender os amigos da opressão policial.

É um Rio de Janeiro inóspito, mas alguém precisava mostrá-lo.

quinta-feira, julho 08, 2010

#54 - 180º South, de Chris Malloy


Estou bem cercado de primos curiosos o bastante para compartilhar comigo o bom cinema. Desta vez, a dica veio do lado paterno, do Luiz - um talentoso fotógrafo que debruça sua lente sobre causas sociais e ambientais, além de exercitar uma forte crítica ao consumo desenfreado. Foi ele quem me chamou a atenção para o documentário 180º South. Meio filme de surfe, meio filme de alpinismo, meio filme ambiental, meio filme de autoconhecimento. Inteiramente incrível!

Acompanhamos o aventureiro Jeff Johnson em uma expedição à Patagonia para ganhar o cume de uma montanha gelada de nome Corcovado. A viagem, na verdade, é uma reedição do trajeto feito por dois homens na década de 60, que agora dedicam suas vidas a causas ambientais, Yvon Chouinard e Doug Tompkins, ícones para Johnson. Ao longo do trajeto, costeando o Pacífico, a câmera vai registrando as belas paisagens e as lições, nada convencionais e bastante reflexivas, que vão surgindo. Como o próprio Johnson cita no início da projeção: as melhores viagens são aquelas que respondem perguntas que você nunca pensou em fazer.

O capricho do filme é arrebatador, de uma sensibilidade pouco antes vista em documentários do gênero. A trilha sonora é extremamente bem pensada e caprichada, o texto da narração em off é brilhante e a fotografia é de deixar qualquer um arrepiado. Sem dar qualquer brecha ao pieguismo costumeiro das jornadas ao interior do ser humano, o documentário abre espaço para diversos tipos de questionamentos. O principal deles é sobre a fatídica caminhada do homem à bancarrota sustentável, esgotando com voracidade os recursos do planeta em prol do consumo desenfreado. Por isso, Johnson acaba se envolvendo com pequenos grupos que lutam para sobreviver sem a interferência das grandes corporações, principalmente na costa chilena, que sofre com um severo descaso ambiental iniciado na época da ditadura de Pinochet.

Durante o percurso, paradas estratégicas para surfar em picos exóticos, que rendem imagens estonteantes! Por exemplo, uma onda quilométrica em Rapa Nui, com as misteriosas cabeças de pedra ao fundo. O alpinismo também serve como ponto para mais uma reflexão, na medida em que a sociedade, em geral, julga a chegada a um cume como uma conquista vazia, inútil - pautando as ações como meios para chegar a um fim material.

Interessante foi o comentário que minha mulher fez, logo após uma das centenas de sequências fantásticas de 180º South. Concluiu ela, perspicazmente, que nos acostumamos a levar uma vida chata e monótona. De fato, a resignação faz parte do cotidiano cosmopolita contemporâneo. É preciso praticar o desapego para encontrar uma espécie de harmonia que aulas de yoga em salas de centros profissionais, ou sessões de terapia com psiquiatras abalizados, já não podem mais oferecer.

Algumas viagens são capazes de mudar o ser humano. Assim também é o cinema - e assim é 180º South.

quarta-feira, julho 07, 2010

#53 - Manhattan, de Woody Allen


Sempre tive um pouco de dificuldade com os filmes de Woody Allen. Metade deles eu gosto bastante, a outra eu detesto. Durante muito tempo não soube como explicar uma certa indisposição a produções assinadas por ele. Até que amadureci suficientemente a ponto de poder exercitar um ajuizamento de gosto contundente. Não gosto quando ele interpreta a si mesmo, tautologicamente; não gosto quando o tema da neurose provocada pelo bloqueio criativo se repete; não gosto quando o roteiro é recheado de referências eruditas. E Manhattan, um dos seus filmes de maior repercussão no circuito, tem muito disso.

Lá está Allen, novinho, interpretando um escritor de programas para TV que namora uma jovem colegial. Sua vida começa a mudar quando o melhor amigo o empurra a amante. A partir daí, tem início uma série de esquetes cômicas. Porém, para realmente entender as piadas, é preciso estar familiarizado com alguns ícones eruditos. Por exemplo, se o espectador desconhece Nabokov, autor de Lolita, vai boiar com as referências ao relacionamento do protagonista com a adolescente de 17 anos. E assim, sucessivamente, são parte dos diálogos citações a filósofos, dramaturgos, músicos etc. O que, convenhamos, se torna cansativo, repetitivo, quando o gênero é uma comédia de costumes.

Nada condenável do ponto de vista cinematográfico. Manhattan é mesmo um filme para um público diferenciado - o que é uma pena e, de certa forma, dicotômico, já que o filme foi um sucesso de bilheteria. Aliás, o próprio cineasta alega não gostar da obra, nem de sua caracterização. Verdade seja dita: Allen é bem mais divertido quando não está diante das câmeras. Ou então, quando interpreta alguém diferente de si mesmo. Ou então, mais além, quando faz comédias despretensiosas.

Tecnicamente, Manhattan é impecável, e já atestava o talento do então jovem Allen. Fotografia impecável, trilha sonora bem cuidada e enquadramentos que sabem tirar proveito da aura cosmopolita de Nova York. Resumindo, e talvez reduzindo, ainda que sem querer, é filme-cabeça.

Às vezes, a despretensão é a melhor saída.

segunda-feira, julho 05, 2010

#52 - Youth in revolt, de Miguel Arteta


Parece que Michael Cera é a bola da vez. Prestes a estrear o muito aguardado Scott Pilgrim Vs The World, o jovem ator é figurinha fácil na nova safra de comédias estadunidenses. Está virando o queridinho dos produtores de Hollywood. E talento, de fato, o garoto tem. Youth in revolt, que sabe-se lá quando vai ganhar o circuito nacional, é um bom exercício dramático para Cera, que se desdobra em dois papéis antagônicos.

Trata-se de mais uma comédia sobre adolescentes com descompensamento hormonal em busca do coito - mas com algumas boas sacadas. O roteiro conta a história de Nick Twisp, um jovem sem jeito com as garotas que vai passar as férias de verão em uma cidade interiorana. Lá, conhece uma menina, filha de religiosos ortodoxos, por quem logo se apaixona. Para dar continuidade ao romance, então, terá que passar por cima de algumas convicções. Seu alter-ego, François Dillinger, se materializa para lhe dar dicas de como transgredir a lei e se tornar atraente ao sexo oposto.

Não tem jeito, Cera rouba a cena. Suas caracterizações são bastante eficientes e rendem momentos impagáveis. Na verdade, de uma maneira geral, são as atuações que sustentam o filme. Tem muita gente boa no elenco: Zach Galifianakis, Steve Buscemi e Ray Liotta - só para citar os mais conhecidos. Por isso, Youth in revolt tem lá seu charme, ainda que discreto.

Nada de mais, mas nada de menos também.