quinta-feira, maio 20, 2010

#37 - Simonal - Ninguém sabe o duro que dei, de Micael Langer, Calvito Leal e Cláudio Manoel


Eu conheci a música de Simonal, então no ostracismo, pouco tempo antes dele morrer, meio que por acaso. Naquela época, não fosse um vinil antigo ou uma cópia pirata, seria impossível que a minha geração escutasse uma das grandes vozes da música brasileira nas décadas de 60 e 70. Justamente essa dificuldade em encontrar discos de Simonal deixava às claras o boicote intelectual e artístico que se seguiu após um episódio espinhoso. O documentário Simonal - Ninguém sabe o duro que dei busca contextualizar vida e obra, ascensão e queda, mitos e verdades.

Simonal era um sucesso não somente pelo timbre diferenciado, pela escolha do repertório e pela talentosa banda que o acompanhava. O sujeito era, inegavelmente, um maestro das plateias. Sua presença de palco era insuperável e chamava a atenção até mesmo de artistas internacionais. Não demorou muito para que o rei da "pilantragem" ganhasse notoriedade e muito dinheiro. Muito dinheiro. O rapaz humilde outrora vítima de racismo, agora morava numa cobertura da Zona Sul, dirigia carros esportivos e abalava com o mulheril.

E daí veio a confusão.

Sem noção de que dinheiro é um bem volátil, Simonal gastava, gastava e gastava. Esbanjava - estava no seu direito. Quando achou estar sendo roubado pelo próprio contador, resolveu agir de forma truculenta, o que lhe custou uma ida à delegacia. Lá, acusado de mandar torturar seu funcionário, vendo que estava em apuros, deu uma declaração bastante infeliz e ingênua, alegando que o contador era um subversivo e que ele, Simonal, estava a favor do governo, em pleno regime militar, à época um dos mais truculentos da história do país. Esse foi o tiro no pé. Deu mole.

O documentário se sai bem na escolha dos personagens. Entrevista não somente a família e os amigos mais chegados de Simonal, mas também dá voz ao tal contador e aos jornalistas do Pasquim, folhetim no qual o cantor foi ilustrado como dedo-duro, seguindo as denúncias que pipocaram em diversos meios de comunicação. Ainda há espaço para reforçar o talento e brilhantismo das apresentações que lotavam estádios.

Acredito que Simonal era muito ingênuo para se envolver com política. Estava mais preocupado com dinheiro, carros e mulheres. Por isso, acusá-lo de ser um agente do DOPS me parece um exagero. Porém, tal acusação perde relevância diante do fato de ter tentado resolver com a truculência do regime militar uma questão pessoal. Torturar alguém, independentemente do motivo ser de cunho político ou de foro íntimo, é inadmissível - ainda mais naquela época, em que pessoas simplesmente sumiam da noite para o dia. A declaração infeliz que fez na delegacia, também ingenuamente, sacramentou o seu destino.

Ainda assim, é preciso decantar as questões. Não conheço cantor tão original e talentoso quanto Simonal. Ouço direto! Sua obra é de imenso valor à música brasileira.

E o documentário é excelente!

3 comentários:

Museu do Cinema disse...

Verdade, corroboro com o relato, é imperdoavél o que Simonal fez com o ex-contador, e o grande lance do documentário foi esse, deu todos os lados e mostrou o talento do cantor.

Anônimo disse...

Olá
tenho um blog sobre cinema, vamos fazer uma parceria? www.brunocine.wordpress.com
Se quiser posso inserir o link no meu blog.
Abraço

Vulgo Dudu disse...

Cassiano, de fato, pouco importa se ele era ou não dedo-duro. E no mais, ele continua sendo insubstituível - pelo menos até agora.

Bruno, qual seria a parceria?

Abs!