sexta-feira, maio 28, 2010

#40 - Em teu nome, de Paulo Nascimento


Estreou hoje no circuitão Em teu nome, filme dirigido por Paulo Nascimento que traz a biografia de um guerrilheiro do Grupo dos 70, movimento que lutou contra o regime militar no Brasil. O filme é até bem produzido, mas falta profundidade - tanto no conteúdo, quanto na atuações, por mais que os atores tenham sido premiados no Festival de Gramado. Algumas sequências sofrem dessa superficialidade num tema que precisa, para funcionar na tela grande, de bastante ritmo. Escrevi uma resenha para a Revista Programa, do Jornal do Brail, mais ou menos como vai escrito abaixo.

O cenário de constantes tensões políticas que o regime militar instaurou no Brasil foi capaz de engendrar verdadeiros dramas particulares - todos repletos de elementos que, aos olhos das gerações que não conheceram o impudente cerceamento da liberdade, soam como histórias cinematográficas. Assim foi a trajetótia de João Carlos Bona Garcia, o Boni: um militante de origem humilde que aderiu à luta armada na década de 70 e se tornou, anos mais tarde, um articulador do processo de anistia. Em teu nome traz os percalços vividos por Boni, da opção pela guerrilha ao exílio forçado, adaptados à linguagem cinematográfica.

Dirigido por Paulo Nascimento e premiado com quatro Kikitos no 37º Festival de Cinema de Gramado, Em teu nome tem acertos e delizes. De positivo, o nítido esmero com o qual toda a equipe se entrega às filmagens. Na parte técnica, é um filme quase perfeito. Direção de arte, figurino e montagem são particularmente destacáveis, ajudando a contextualizar a turbulenta época em que se dão os fatos. Porém, mesmo com um roteiro enxuto e baseado em fatos verídicos, falta profundidade dramática em certas sequências. O elenco, apesar de esforçado, não rende a ponto de fortalecer o discurso que o argumento propõe. Ainda assim, Em teu nome é um exemplar correto de um cinema engajado, sem perder a ternura.

quinta-feira, maio 27, 2010

#39 - Get thrashed, de Rick Ernst


Perceba bem aquela letra h logo depois do t. Thrahed quer dizer algo como destruído, bagunçado, arrasado. Portanto, nada a ver com o trash de lixo. Durante anos, muita gente que curtia bandas de thrash metal precisava explicar o que era exatamente o termo. Pois não precisam mais. Get thrashed mergulha no assunto e mostra tudo que cerca o universo do thrash metal, dos acordes ao estilo.

O foco do documentário está nas quatro bandas consideradas as gigantes do gênero: Metallica, Megadeth, Slayer e Anthrax - todas frequentadoras assíduas do meu antigo walkman amarelo da Sony, lá pro fim da década de 80. Porém, o diretor Rick Ernst faz um apanhado geral do cenário musical da época, capturando a ascensão e a queda do thrash metal. Inclusive, fica explícito o descontentamento e o rancor dos artistas com o grunge, que passou a ser o queridinho dos jovens que outrora cultivavam longas madeixas, usavam tênis de cano alto, vestiam camisas de bandas e balançavam a cabeça compassadamente.

Get thrashed tem bons depoimentos, personagens interessantes e um roteiro que funciona, dosando de forma correta os números musicais com o conteúdo documental. O período coberto pelas imagens de arquivo é precioso, com sequências raras capturadas no ínicio dos anos 80 por fotógrafos e cinegrafistas amadores. Podemos ver, por exemplo, um Dave Mustaine já maduro desabafando sobre o cartão vermelho que levou do Metallica.

Obviamente, o documentário vai agradar muito mais quem é ou já foi familiarizado com o thrash metal. Mesmo assim, vale o confere. Afinal, não é lixo. É thrash!

segunda-feira, maio 24, 2010

#38 - Torrente 2 - Misíon en Marbella, de Santiago Segura


O investigador mais escroto e carismático da história do cinema - ao menos do underground - ataca novamente. No segundo filme da série, acompanhamos a bancarrota de José Luis Torrente, que foi parar em Marbella depois de se dar bem no primeiro filme. Cheio da grana, ele torra tudo com mulheres, drogas e apostas. A falência o obriga a voltar ao ramo da espionagem. E ele acaba se envolvendo em uma trama bastante complexa.

Em Misíon en Marbella, Torrente precisa impedir que mísseis apontados para a cidade litorânea sejam disparados. Novamente, ele conta com a ajuda de tipos esquisitos e desajeitados. Piadas grosseiras, escatologia e humor politicamente incorreto recheiam o roteiro. Inclusive, alguns temas se repetem.

No geral, o filme fica bem aquém de seu antecessor. Não tem o ritmo tresloucado do primeiro. É mais regular. No entanto, vale a pena conferir a história bolada e dirigida por Santiago Segura - um ícone na Espanha.

quinta-feira, maio 20, 2010

#37 - Simonal - Ninguém sabe o duro que dei, de Micael Langer, Calvito Leal e Cláudio Manoel


Eu conheci a música de Simonal, então no ostracismo, pouco tempo antes dele morrer, meio que por acaso. Naquela época, não fosse um vinil antigo ou uma cópia pirata, seria impossível que a minha geração escutasse uma das grandes vozes da música brasileira nas décadas de 60 e 70. Justamente essa dificuldade em encontrar discos de Simonal deixava às claras o boicote intelectual e artístico que se seguiu após um episódio espinhoso. O documentário Simonal - Ninguém sabe o duro que dei busca contextualizar vida e obra, ascensão e queda, mitos e verdades.

Simonal era um sucesso não somente pelo timbre diferenciado, pela escolha do repertório e pela talentosa banda que o acompanhava. O sujeito era, inegavelmente, um maestro das plateias. Sua presença de palco era insuperável e chamava a atenção até mesmo de artistas internacionais. Não demorou muito para que o rei da "pilantragem" ganhasse notoriedade e muito dinheiro. Muito dinheiro. O rapaz humilde outrora vítima de racismo, agora morava numa cobertura da Zona Sul, dirigia carros esportivos e abalava com o mulheril.

E daí veio a confusão.

Sem noção de que dinheiro é um bem volátil, Simonal gastava, gastava e gastava. Esbanjava - estava no seu direito. Quando achou estar sendo roubado pelo próprio contador, resolveu agir de forma truculenta, o que lhe custou uma ida à delegacia. Lá, acusado de mandar torturar seu funcionário, vendo que estava em apuros, deu uma declaração bastante infeliz e ingênua, alegando que o contador era um subversivo e que ele, Simonal, estava a favor do governo, em pleno regime militar, à época um dos mais truculentos da história do país. Esse foi o tiro no pé. Deu mole.

O documentário se sai bem na escolha dos personagens. Entrevista não somente a família e os amigos mais chegados de Simonal, mas também dá voz ao tal contador e aos jornalistas do Pasquim, folhetim no qual o cantor foi ilustrado como dedo-duro, seguindo as denúncias que pipocaram em diversos meios de comunicação. Ainda há espaço para reforçar o talento e brilhantismo das apresentações que lotavam estádios.

Acredito que Simonal era muito ingênuo para se envolver com política. Estava mais preocupado com dinheiro, carros e mulheres. Por isso, acusá-lo de ser um agente do DOPS me parece um exagero. Porém, tal acusação perde relevância diante do fato de ter tentado resolver com a truculência do regime militar uma questão pessoal. Torturar alguém, independentemente do motivo ser de cunho político ou de foro íntimo, é inadmissível - ainda mais naquela época, em que pessoas simplesmente sumiam da noite para o dia. A declaração infeliz que fez na delegacia, também ingenuamente, sacramentou o seu destino.

Ainda assim, é preciso decantar as questões. Não conheço cantor tão original e talentoso quanto Simonal. Ouço direto! Sua obra é de imenso valor à música brasileira.

E o documentário é excelente!

terça-feira, maio 18, 2010

#36 - Avatar, de James Cameron


Vou parafrasear Juca Pirama, personagem de Gonçalves Dias: meninos, eu vi! Finalmente, depois de algumas semanas à espera de uma cópia vagabunda, consegui observar Avatar, a produção milionária de James Cameron, do ponto de vista do roteiro. Sim, porque para este que vos escreve, o mais importante no cinema ainda é o roteiro, uma vez que, com ou sem óculos 3D, conta-se uma história.

Cópia vagabunda, TV de 14 polegadas e cerveja vagabunda me acompanharam na empreitada. Não estava nem um pouco interessado em conferir os efeitos visuais, mesmo tendo discernimento e decência para admitir que são eles o ponto forte do filme. Porém, não estou interessado em nada disso. Não é meu fetiche. E sempre defendi aqui que não basta, por exemplo, direção de arte impecável para se fazer um bom filme. Do mesmo jeito, efeitos em três dimensões não bastam a mim.

Isso posto, Avatar não superou minhas expectativas. O roteiro é muito ruim. Explico tudo isso num texto que fiz especialmente para o coletivo Mondo Redondo, que volta a girar depois de anos. Quer conferir? Vai ter paciência para ler tudo? Então, clique aqui.

sexta-feira, maio 14, 2010

#35 - Os homens que não amavam as mulheres (Män som hatar kvinnor), de Niels Arden Oplev


Estreia hoje no circuitão um filme baseado num best seller sueco. Os homens que não amavam as mulheres peca por não levar em conta que a linguagem cinematográfica é diferente da literária. A adaptação ao pé da letra atrapalha o bom andamento do filme. Escrevi uma resenha publicada hoje na Revista Programa, do Jornal do Brasil. Taí.

Primeiro filme adaptado de uma trilogia literária escrita pelo sueco Stieg Larrson, Os homens que não amavam as mulheres é um thriller que tem uma premissa bastante interessante: um jornalista investigativo é contratado por um milionário para desvendar o estranho desaparecimento de uma jovem, décadas atrás. Ele é ajudado por uma hacker temperamental e esquisitona, a protagonista da série, Lisbeth Salander.

Porém, o que era para ser uma trama instigante e perturbadora, acaba se revelando uma produção enfadonha logo nos minutos inciais de projeção. Com um roteiro cerzido nas coxas, repleto de clichês e reviravoltas previsíveis, o clima de suspense não é o suficiente para prender o espectador na poltrona. Há exageros nas interpretações e, principalmente, nas caracterizações. O desfecho, tão importante ao gênero, é particularmente irritante, apelando para o didatismo e tornando o filme uma experiência ainda mais cansativa.

terça-feira, maio 11, 2010

#34 - Suburbia, de Penelope Spheeris


Os subúrbios nas grandes capitais dos Estados Unidos foram projetados para serem áreas nobres, onde o american way of life pudesse ser difundido livremente. Casas sem muros, com gramados vistosos e calçadas tomadas por crianças brincalhonas. Porém, a recessão estadunidense, que lá nos idos dos anos 80 já fazia algumas vítimas, transformou alguns desses redutos em locais abandonados. Casas abandonadas, valores abandonados, jovens abandonados. É justamente isso que um dos clássicos das sessões da madrugada, Suburbia, mostra.

O filme se concentra num grupo de jovens punks conhecidos como The Rejected, os rejeitados em bom português. Eles habitam uma casa abandonada em um subúrbio de Los Angeles, numa área que seria desapropriada para a construção de uma estrada até o centro da capital. Para sobreviver, o grupo comete pequenos delitos, chocando os moradores da região e as autoridades locais. O roteiro foca no ingresso de um adolescente aos Rejected.

Suburbia, de certa forma, ficou datado, em grande parte pelo exagero com que trata o tema na tentativa de chocar o público. Nos shows de bandas punk, com participações especialíssimas de TSOL e The Vandals, acontece de tudo: roubos, violência sexual e até assassinatos. Enfim, a diretora Penelope Spheeris não mede esforços para retratar a falta de perspectiva dos jovens suburbanos, filhos de famílias desmanteladas pela opressão econômica.

O filme é produzido por ninguém menos que o mestre Roger Corman. Portanto, é acertadamente violento, obscuro e depressivo. O mais bacana, no entanto, é ver Flea na flor da idade interpretando um dos Rejected.

Vale o confere!

sexta-feira, maio 07, 2010

#33 - Aproximação (Disengagement), de Amos Gitai


Enfim, vamos tirar as teias de aranha daqui. Finalmente estreou, ainda que em poucas salas do circuito carioca, o novo - que também não é tão novo assim - filme do cineasta Amos Gitai. Apesar de Aproximação não ter sido tão bem recebido pela crítica em geral, eu gostei do que vi. Escrevi uma pequena resenha que compartilho abaixo com vocês, queridos e donairosos leitores.

O israelense Amos Gitai é um diretor conhecido pela forma esteticamente simples com a qual trata temas complexos, sem perder a pujança. Em Aproximação, o realizador faz uma abordagem sobre o impasse étnico que favorece os conflitos, armamentistas e psicológicos, entre judeus e palestinos. A bela Juliette Binoche protagoniza o drama de uma mulher que, após o funeral do pai, precisa viajar até Israel para acertar as contas com um passado nebuloso. A tal viagem se dá em um momento crítico, no qual as tropas israelenses comandam a retirada dos judeus da Faixa de Gaza.

O roteiro de Aproximação pode ser subdividido em três partes: um ligeiro e interessante prólogo sobre a questão da nacionalidade, o funeral na França e a viagem da protagonista até Israel. É justamente na terceira parte que o argumento ganha contundência. Gitai dá ao filme o ritmo necessário para que seus personagens desenvolvam a trama de forma sólida. Planos longos, sequências lentas e diálogos curtos deixam as interpretações em destaque. A última cena é bela e, ao mesmo tempo, impactante.