terça-feira, abril 27, 2010

#32 - O grupo Baader Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex), de Uli Edel


Tenho uma queda por filmes que remontam fatos históricos e políticos importantes. Há um bom tempo O grupo Baader Meinhof estava engatilhado aqui em casa, esperando para ser conferido no conforto do lar, já que perdi a cabine de imprensa e o período no circuitão - que, convenhamos, nem foi tão ão assim. O filme de Uli Edel é bastante forte e contundente, se aproximando do cinema engajado de mestres como Costa-Gavras e Ken Loach.

Também conhecido como Rote Armee Fraktion (RAF, ou Facção Exército Vermelho em bom português), o grupo Baader Meinhof teve sua origem no movimento estudantil alemão, em meados da década de 60. Porém, foi na década de 70 que a facção investiu pesado na guerrilha urbana, organizando ações que ganharam destaque em jornais de todo o mundo. A luta da RAF ia contra as políticas hegemônicas dos Estados Unidos, que mantinham ocupados territórios estratégicos para a exploração de petróleo e fomentavam guerras civis e movimentos golpistas ao redor do mundo, o que continua acontecendo até a atualidade.

O filme de Uli Edel mostra o encontro entre as cabeças da RAF: Ulrike Meinhof, jornalista e mentora intelectual do grupo, Andreas Baader, o líder das ações de guerrilha e Gudrun Esslin, sua namorada. O roteiro caprichado, a trilha sonora certeira, a montagem eficiente e as excelentes atuações do elenco dão respaldo à história. Nenhuma concessão é feita. A violência e o rigor das ações do grupo são tratados com seriedade e verossimilhança. No fim das contas, é um belo documento, ainda que ficcional, sobre a atuação dos grupos paramilitares de esquerda no final do século passado.

Apesar de ter encerrado as atividades depois de uma série de suicídios - alguns contestáveis - dos líderes do movimento em suas próprias celas, os ideais do grupo Baader Meinhof permanecem vivos. Seja na letra da canção da Legião Urbana, seja no filme de Edel, havia uma espécie de ideologia que precisava ser perpetuada, agora sem armas ou extremismo.

domingo, abril 18, 2010

#31 - Fanboys, de Kyle Newman


Guerra nas Estrelas foi a franquia que praticamente inaugurou o merchandising cinematográfico. Os produtos licenciados, até hoje, dão mais grana do que a bilheteria da saga estelar. E tem de tudo: caneca, boné, boneco, roupa de banho, lençol, lancheira etc. Pense aí num objeto corriqueiro qualquer - provavelmente ele existe na versão Guerra nas Estrelas. E, assim, também foi criada uma geração apaixonada pelos heróis e vilões de George Lucas. Gente completamente devotada aos seis episódios da série.

Ambientado em 1999, Fanboys retrata quatro desses jovens fanáticos por Guerra nas Estrelas. Movidos por um sonho adolescente, eles planejam invadir o Rancho Skywalker, QG de George Lucas, para ter acesso ao então ainda inédito Episódio I - A ameaça fantasma. Ao longo da jornada, se deparam com fãs tão esquisitos quanto eles e enfrentam a ira dos trekkers, seus semelhantes viciados em Jornada nas Estrelas. No meio disso tudo, o roteiro tenta exercitar uma reflexão sobre a difícil tarefa de deixar a juventude para encarar o mundo feito um adulto.

O roteiro não é lá grandes coisas. Peca, principalmente, nessa tentativa de dramatizar a questão do amadurecimento. É pobre e simples demais para levantar de forma contundente a questão. Talvez, se permanecesse no tom de comédia o tempo inteiro, teria mais êxito. Ainda assim, há bons momentos. Há várias participações especiais de atores que integraram o elenco de Guerra nas Estrelas, além de uma atuação impagável de Seth Rogen, em dois papéis diferentes.

Digno de nota: a frase final, que encerra o filme, é simplesmente espetacular!

PS: lembro-me que, na faculdade em que eu estudava, um aluno (ou melhor, um fanboy) conseguiu uma cópia pirata do filme, captada numa sessão nos Estados Unidos. Estamos falando de 1999, ou seja, ainda não havia banda larga e muito menos torrents e BitComet. Organizaram uma sessão secreta. Eu, porém, preferi asistir no cinema, na tela grande.

quarta-feira, abril 14, 2010

#30 - El Topo, de Alejandro Jodorowsky


Antes de ser um western completamente diferente de tudo que já foi filmado até hoje, El Topo é também um divisor de águas na história do cinema contemporâneo. É, em sua essência, todo um manifesto estético e cultural em forma de filme. Mais precisamente, é a contra-cultura em seu melhor estado, agressiva e subversiva, buscando um lugar ao sol. Não obstante, o título faz menção à topeira, que cava buracos debaixo da terra, no subsolo, com o objetivo de vir à luz - ainda que mal consiga enxergar. O chileno Alejandro Jodorowsky, misto de cineasta e mago, estava interessado em cavar túneis que levassem à tona uma produção cinematográfica até então limitada ao underground.

O próprio Jodorowsky interpreta o protagonista, um cavaleiro chamado El Topo que vaga por paisagens desertificadas. Encontra vilarejos dizimados, cenários grotescos e figuras misteriosas. O roteiro tem pouco texto, mas capricha nas toneladas de símbolos e significantes. Com uma montagem seca e precisa, que lembra bastante o estilo do diretor brasileiro Glauber Rocha, Jodorowsky vai contando uma história que toca em temas profundos, relacionados não só à arte, mas também de cunho político e religioso.

Por isso, El Topo é cheio de imagens bastante fortes. Um povoado repleto de deficientes físicos rejeitados pela sociedade, uma série de cadáveres de animais mortos e várias execuções sumárias fazem parte da trama. Ainda que o filme tenha despertado ojeriza em muitos espectadores, lá em 1970, o capricho estético foi reconhecido por muita gente influente no meio artístico, como David Lynch, Peter Fonda, Bob Dylan e Peter Gabriel.

Outro que ficou impressionado com El Topo, e que foi indiretamente responsável pela difusão internacional do filme, foi John Lennon. O músico convenceu um amigo da indústria cinematográfica a comprar os direitos do filme e distribuí-lo ao redor do mundo.

Sem dúvida alguma, El Topo é um filme difícil, para poucas plateias. Porém, é uma experiência intensa e enriquecedora.

segunda-feira, abril 12, 2010

#29 - Year One, de Harold Ramis


Nos playoffs da NBA, ano passado, Year One era constantemente anunciado durante os intervalos - obviamente, pelas redes estadunidenses que transmitiam as partidas. Parecia ser um filme bem interessante, com Jack Black e Michael Cera fazendo dobradinha em uma comédia com paródias de lendas bíblicas.

Na prática, Year One não é tão divertido assim, apesar do nítido esforço dos realizadores. O roteiro conta a história de Zed (Black), um caçador atrapalhado e desajeitado que come um fruto proibido e acaba expulso do seu povoado, localizado em uma erma floresta. Acreditando ter adquirido mais conhecimento após a refeição ilícita, resolve caminhar explorando o planeta. Tem como companhia o tímido e fracassado Oh (Cera).

Ao longo do filme, os dois esbarram com personagens bíblicos, enfrentam vilões históricos e visitam cidades antigas, tudo misturado. Porém, apesar das boas sacadas e do bom elenco, o texto não facilita. As piadas não têm muita graça e as passagens cômicas são raras. O desfecho é pouco criativo e deixa aquela sensação de frustração por se tratar de uma produção com dois bons comediantes. Aliás, as melhores cenas, sem dúvida, são de Michael Cera.

Não chega a ser uma perda de tempo, mas é frustrante. Ainda mais porque quem assina a produção é Judd Apatow.

sexta-feira, abril 09, 2010

#28 - Maradona by Kusturica, de Emir Kusturica


Eu não entro naquela velha polêmica de quem foi melhor, Maradona ou Pelé. Por dois motivos. Primeiro, porque Pelé é um escroto, e depois porque me recuso a alimentar uma rivalidade animalesca inventada pela Rede Globo para ganhar dinheiro e audiência. Até na bocha brasileiro tem rivalidade histórica com argentino? Patético. Fato é que eu vi o Maradona jogar, e bem!

Maradona não é um escroto. É uma figura polêmica, esquisitona e folclórica. Finda a carreira nos gramados, começou a entrar no fundo do poço. Ficou deformado, quase morreu, ressuscitou e por muito pouco não deixou nossos irmãos platinos fora da próxima Copa do Mundo. Ou seja, haja material para um documentário!

Porém, se a polêmica fosse outra, se me perguntassem quem tem o melhor documentário, Pelé ou Maradona, responderia sem pestanejar que é gol para o argentino. Enquanto o bajulado ponta brasileiro tem um documentário panfletário, piegas e egocêntrico, dirigido por ninguém menos que o Barretão em 1974 (nem vou falar daquele outro, terrível, no qual Robinho simula o tal gol de placa que não foi filmado), Maradona ganhou como cinebiógrafo um diretor sérvio, o exótico Emir Kusturica.

O documentário de Kusturica foge bastante do convencional. É assumidamente passional e pessoal, nada referencial. Maradona não se deixa filmar como Pelé, nem fala de glórias passadas na terceira pessoa do singular. Ao invés disso, se mostra arredio, quase um antipersonagem. Mesmo assim, Kusturica consegue trabalhar bem em cima disso, caprichando no texto. A todo momento, deixa claro que sua intenção não é desmistificar o craque, e sim mitificá-lo. De quebra, ainda há um argumento político que pega carona nas convicções sócio-econômicas de Maradona, que tem Fidel e Guevara tatuados no corpo.

Meu ídolo no futebol? Zico. E o documentário sobre Maradona é muito melhor que o documentário sobre o Pelé.

quarta-feira, abril 07, 2010

#27 - Torrente - El brazo tonto de la ley, de Santiago Segura


Torrente é um detetive tosco. Muito tosco (olha o naipe da figura aí no poster). Bebe, fuma, cheira, é racista, misógino e interesseiro. Ou seja, é realmente um "braço burro da lei", espécie de bad lieutenant espanhol. E qual não foi a minha surpresa, numa conversa com o Simon, um amigo catalão, ao constatar que José Luis Torrente, personagem criado e interpretado pelo cineasta Santiago Segura, é uma espécie de ídolo do underground ibérico? Só pelo primeiro filme, eu também já virei fã!

Produção de baixo orçamento, o primeiro filme de Torrente é uma comédia amoral e nada correta, repleta de piadas grosseiras e humor negro - o que, no caso, é um baita elogio! As situações embaraçosas pelas quais o detetive e seus amigos passam são hilárias! Segura se cerca de bons atores, com caracterizações exageradas e timing perfeito para o que se pode chamar de comédia de baixo calão.

O roteiro, ótimo, compensa qualquer falta de verba para os efeitos especiais. É explosivo do início ao fim. Mostra Torrente investigando um misterioso restaurante chinês que parece vender mais do que simples rolinhos-primavera.

O filme deu tão certo e fez tanto sucesso na Europa, que ganhou duas sequências. Segura se tornou figura fácil em programas de TV e costumava ter acesso livre para anunciar suas produções. Costumava brincar dizendo que, sempre que precisava de dinheiro, rodava uma continuação de Torrente. Fato é que o personagem, apesar de ser uma caricatura pejorativa da direita conservadora madrilenha, é bastante carismático, justamente por assumir o desvio de caráter de forma exacerbada e divertida.

Já estou providenciando os outros filmes de Torrente. Uma ode ao escrotismo. Em breve, mais resenhas!

sábado, abril 03, 2010

#26 - Zazie no metrô (Zazie dans le métro), de Louis Malle


Buscando fugir do rigor e da austeridade que norteavam a Nouvelle Vague, o cineasta francês Louis Malle resolveu, em 1960, filmar uma comédia rasgada. Adaptou para a tela grande um romance publicado apenas um ano antes, o homônimo Zazie no metrô. Porém, mesmo tentando se distanciar do enfoque proposto pela "nova onda", realizou uma obra bastante caprichada, charmosa e repleta de ousadia estética.

O roteiro conta a história de Zazie (a ótima Catherine Demongeot), uma menina de 12 anos, desbocada e desinibida, que chega a Paris para passar dois dias com o tio (Philippe Noiret, fantástico). Impedida de conhecer o metrô da cidade, que está em greve, ela flana livremente pelas ruas, conhecendo tipos estranhos e arrumando encrenca. Mais do que uma simples comédia, o filme funciona como uma divertida observação dos costumes da sociedade francesa da época, evocando de forma descontraída discussões sobre a arte e a sexualidade.

O que realmente chama a atenção no filme de Malle é a montagem, absolutamente estonteante! Com o rigor técnico de sempre, o diretor cria sequências inesquecíveis. Os frames são manipulados em diferentes velocidades, o que remete à fotografia das antigas produções cômicas do cinema mudo. A música, orquestrada, acompanha cada ação com precisão jônica. Os atores obedecem a marcações quase teatrais, e é isso que proporciona jogos de cena bastante criativos, usando apenas a câmera e a edição para criar efeitos cômicos.

Duas sequências inesquecíveis demonstram o talento de Malle, anos-luz à frente de seus contemporâneos: uma perseguição cartunesca que começa num mercado de pulgas e uma visita nada convencional à Torre Eiffel. É de bater palmas em pé, sozinho, na sala da sua casa!

Maravilhoso!

quinta-feira, abril 01, 2010

Luz, câmera... canção! - Tom Waits

Além de ser um excelente musicista e um compositor de mão cheia, Tom Waits também tem talento para a interpretação. Prova disso foram as parcerias que o sujeito fez ao longo de sua carreira com o diretor Jim Jarmush, compondo trilhas sonoras ou atuando em uma penca de filmes inesquecíveis, como o clássico Down by law, Trem mistério e Sobre cafés e cigarros.

Em 1992, Waits lançou um álbum chamado Bone Machine, que continha a célebre e muito regravada (o cover mais famoso talvez seja o dos Ramones) faixa "I don't wanna grow up", um hino lírico sobre o fracasso da pós-modernidade em criar adultos saudáveis e preenchidos pelos anseios materialistas. Simplificando, uma canção assustadoramente verdadeira sobre o ser humano e suas questões existenciais.

Para produzir o videoclipe de "I don't wanna grow up" (a década de 90 foi dos videoclipes), o músico chamou, então, ninguém menos que o seu parceiro Jarmusch. O resultado é um vídeo bastante interessante e criativo, que coloca de forma esteticamente perfeita o que a letra propõe. Confira abaixo Tom Waits vestido de diabo, pedalando um triciclo e se contorcendo para caber no pequeno espaço debaixo de mesa de um café.