quinta-feira, março 25, 2010

#24 - Even dwarfs started small (Auch Zwerge haben klein angefangen), de Werner Herzog


Em 1970, Werner Herzog escrevia definitivamente o seu nome no circuito cinematográfico internacional. Desconhecido do grande público, Even dwarfs started small é uma obra-prima chocante e transgressora, para poucas plateias, dirigida por um realizador bastante preocupado em subverter a lógica estética vigente naquela época. Filmado em preto e branco, com fotografia caprichada, o elenco é inteiramente composto por anões.

O roteiro é muito simples. Conta a história de um pequeno (literalmente) grupo que organiza um levante em uma espécie de comunidade agrícola depois que o "diretor" se ausenta. Na tentativa de negociar uma saída diplomática, o líder substituto sequestra um deles e o mantém em cárcere privado, atado a uma cadeira. Os revoltosos começam, então, uma série de atos bárbaros. Bárbaros de verdade!

O filme de Herzog chocou uma geração e foi banido de vários países. Muita gente o comparou ao clássico Monstros, de Tod Browning, considerado até hoje uma das produções mais dantescas que a sétima arte já pariu. Aqui, a mecânica vai um pouco além, já que o argumento fala, essencialmente, de anarquia. Trata-se de uma espécie de fábula ao avesso: anões, como os que ilustram aventuras infantis, cometem as mais diversas atrocidades: maltratam animais, ateiam fogo e destroem objetos dos mais diversos, humilham semelhantes cegos, fazem guerra de comida e zombam de instituições socialmente sacramentadas, como o casamento e a fé religiosa. Em uma das cenas mais polêmicas, um mico é amarrado em um crucifixo e exibido numa espécie de procissão.

Nem os bastidores de Even dwarfs started small foram dos mais convencionais. Reza a lenda que um dos anões foi atropelado durante uma sequência com um carro desgovernado. Em outra cena, o mesmo ator se queimou seriamente. Herzog, então, prometeu que se tudo transcorresse em paz até o final das filmagens, se jogaria em uma plantação de cactus. Como não houve mais registros de acidentes, o diretor precisou cumprir a promessa. E concluiu que foi mais fácil se jogar do que sair do meio dos cactus.

Outra curiosidade, que denota a maneira ímpar e incomum com que Herzog dirigia seus atores, era a provocação pela qual um dos anões, que durante o filme todo tenta segurar o riso, passava nas mãos do diretor. Sob ordens de não rir em hipótese alguma, assim que as câmeras eram ligadas Herzog começava uma sessão interminável de caretas.

Ainda que Even dwarfs started small seja sádico, mórbido e bizarro, é um filme espetacular! Uma experiência cinematográfica que vai ao limite estético para reforçar e dar contundência a um argumento marginal.

5 comentários:

Kamila disse...

Nunca assisti a nenhum filme do Werner Herzog. Anotei a dica aqui!

Beijos!

Vulgo Dudu disse...

Kamila, se você nunca viu nenhum filme do Herzog, há todo um mundo a ser descoberto. E você vai gostar de desbravá-lo!

Bjs!

Rafael Carvalho disse...

Dudu, tenho visto algumas coisas do Herzog, mas acho que me prendi demais aos filmes mais festejados dele. Esse aí parece bem alternativo e transgressor mesmo. Vou procurar!

Vulgo Dudu disse...

Rafael, é uma face do Herzog desconhecida do grande público. Muito mais densa e subversiva, que faz dele o grande diretor que é hoje em dia. É foda! Você vai gostar!

Abs!

Anônimo disse...

Já vi esse filme e tudo que eu tenho a dizer é: Você precisa ver!