segunda-feira, março 15, 2010

#21 - Guerra ao terror (The hurt locker), de Kathryn Bigelow


Antes mesmo de ser indicado ao prêmio de melhor filme pela academia estadunidense, Guerra ao terror podia ser facilmente encontrado nas prateleiras das Lojas Americanas, a preço de banana. Foi somente depois de faturar alguns prêmios em festivais ao redor do mundo que a estratégia de distribuição se modificou, e a produção de Kathryn Bigelow ganhou as telas grandes.

Guerra ao terror não é um filme ruim. Também não é ótimo. Porém, ajuizamentos à parte, estaria fadado a um cruel ostracismo se não tivesse sido lembrado e premiado na corrida ao Oscar. É a prova cabal de que o marketing pode influenciar produções cinematográficas, a ponto de elevá-las a um patamar inimaginável: ter a preferência concorendo com pérolas como Bastardos Inglórios e Um homem sério - este, na minha opinião, o melhor dentre os indicados.

Tecnicamente, Guerra ao terror funciona. É bem montado, bem enquadrado e até mesmo bem dirigido. Os atores são bons e a direção de arte é carpichada. Os pontos fracos, que inclusive o impedem de figurar em uma lista pessoal dos grandes filmes de guerra, são o argumento e o roteiro, ambos muito fracos e inconsistentes. A minha implicância é, de certa forma, ideológica.

Em primeiro lugar, um filme antibelicista, como sugere a frase que abre a projeção, não pode ser unilateral. E é isso que Bigelow faz. Se o objetivo é contextualizar as mazelas da guerra, e não buscar justificativas para o conflito, seria mais enriquecedor mostrar o que acontece com todos os que estão no território conflituoso. Por uma questão do tratamento do roteiro, os civis iraquianos, que também são vítimas da guerra, são mostrados sempre com desconfiança. O terror que a tal guerra ao terror estadunidense perpetua ao redor do mundo, uma política belicosa e hipócrita continuada por Barack Obama (que, aliás, é farinha do mesmo saco de Bush), fica de fora do argumento, que se limita a mostrar a ação do esquadrão antibombas.

Depois, o roteiro se fecha muito em apenas um protagonista, figura que obviamente vai precisar passar por todo o calor da guerra até os minutos finais do filme. Ou seja, por mais que haja tensão nas sequências dirigidas por Bigelow, o comportamento extravagante do personagem é previsível. Além disso, o desfecho não traz qualquer tipo de reflexão. Apenas reitera o que foi dito lá no começo. Mais ainda: sublinha e escancara com um certo sadismo involuntário o vício do qual os Estados Unidos não conseguem se livrar desde a época em que resolveram emcampar os ideais do capitalismo: a bilionária indústria da guerra. Tanto é que, no discurso de agradecimento, a diretora lembrou os soldados que lutam no Afeganistão e no Iraque. Esqueceu dos militares feridos e dos civis mortos.

No fim das contas, os aplausos esfuziantes ao filme serviram também para saudar a demagógica corrida contra um terrorismo que mais parece um vilão cinematográfico.

5 comentários:

Robson Saldanha disse...

Em poucas linhas vocês expressou tudo que eu precisei em várias linhas. Concordo com tudo que disse (menos com a parte que A Serious Man é o melhor de todos rsrsrsrs). Vi uma observação interessante em torno de Avatar e Guerra ao Terror. Os americanos preferiram premiar aquele que os tornavam heróis a premiar o que os tornavam vilões da história.

Não consigo encontrar muitas razões para esse filme ter sido o grande vencedor da noite. Ele tem seus méritos e devem ser respeitados, mas a ponto de ganhar a categoria principal? Isso já é um pouco demais.

Ótimo texto!

Kamila disse...

Poxa, eu NUNCA encontrei "Guerra ao Terror" a preço de banana na Americanas... rsrsrsrsrsr

Eu adoro esse filme. Não acho melhor que "Avatar", mas é uma obra notável. Incrível a agilidade da direção da Bigelow e a capacidade dela de nos inserir diretamente na trama do longa. Me senti um quarto elemento da equipe de desarmadores de bombas.


Beijos!

O Cara da Locadora disse...

É um filme legal porém só isso, né?

Vulgo Dudu disse...

Robson, é um filme cuja premiação não me causa surpresa por apenas um motivo: eles são VICIADOS em guerra.

Kamila, depois do Oscar ele deve estar lá na casa dos 50 reais... Mas daqui a um ano já se esqueceram dele e o preço volta a ser baixo.

Da Locadora, exatamente. É legal. E ponto. Na verdade, nem legal. É bem feito. Bem feitinho. Ponto final.

Bjs e abs!

Surfista disse...

Após muito tempo, eu vi "Guerra ao Terror", cujo títuto em português é um dos piores já escolhidos. Olha, gostei bastante. Achei um filme honesto, que repete muito do que já foi feito no estilo, mas é tecnicamente bem feito e com ritmo. A edição e o som são muito legais.

Na minha opnião, "Guerra ao Terror" consegue reproduzir no personagem principal a citação inicial: "a guerra é uma droga". É difícil ampliar a discussão em um filme de 2 horas, mas o foco da insanidade e na intensidade do conflito são mantidos.

Concordo que o líder do pelotão antibombas é muito Sgt. Riggs, mas passa.