terça-feira, março 02, 2010

#19 - Um homem sério (A serious man), de Joel e Ethan Coen


Ainda não tive a oportunidade de conferir todos os indicados ao prêmio de melhor filme do ano segundo os membros da academia estadunidense de cinema. Porém, acho muito difícil algum deles superar Um homem sério, a nova e arrebatadora empreitada dos irmãos Coen. Novamente, a dupla mergulha em um argumento denso e perturbador para contar, com extremo sarcasmo e humanismo, uma história que envolve dogmas religiosos e falsos moralismos.

O roteiro, original em todos os sentidos, mostra como a vida de Larry Gopnik (o excelente Michael Stuhlbarg), um pacato professor de física, começa a virar de cabeça para baixo quando tudo parecia andar nos trilhos. Acostumado ao empirismo matemático, mas apegado às tradições judaicas, procura resolver seus problemas de acordo com um código ético que parece ruir a cada acontecimento do qual não tem controle.

Tudo no filme dos irmãos Coen é brilhante: fotografia, montagem, edição e até a trilha sonora, que brinca de forma espetacular com a canção "Somebody to love", imortalizada pela banda Jefferson Airplane. Os versos iniciais casam perfeitamente com a trama. Dizem: when the truth is found to be lies, and all the joy within you dies. Algo como: quando a verdade se torna mentira, e toda a sua alegria morre. É exatamente a partir desse ponto da vida do protagonista que os irmãos Coen exercitam toda a sua criatividade.

Um homem sério lembra os grandes filmes do início da carreira dos cineastas. Produções densas, complexas e bem acabadas, com textos primorosos e argumentos que beiram o inverossímil, ainda que caminhem pela tênue linha da verossimilhança. É justamente desse flerte com o irreal, do estranhamento plausível, que os irmãos Coen conseguem tirar vantagem. Fazem cinema como poucos. Brincam com a linguagem cinematográfica como poucos.

E ainda ganham poucas indicações para aquela estatueta boboca...

8 comentários:

Kamila disse...

Dudu, ainda não conferi este filme, mas tenho um certo problema com esse estilo de obras do irmãos Coen. Dificilmente, eu gosto delas. Mas, prometo dar uma chance à "Um Homem Sério". Ainda mais depois dessa sua resenha!

Beijos!

Rafael Carvalho disse...

Esse pode não ser um dos melhores filmes dos Coen, mas é muito bom, e um dos melhores do ano desde já. É incrível toda a maturidade cinematográfica dos dois e de como eles tiram tanta força de uma história aparentemente simples. Toda a composição dos personagens e a gama de situações que vão se complicando na vida de Larry são super bem explorados.

Um filme que deixa muita coisa no ar, mas o principal aspecto da história, para mim, é a reflexão sobre como o “mal” entra em nossas vidas sem pedir licença e bagunça tudo. Quando um personage já é atrapalhado, a coisa é pior ainda. O toque de humor negro que os Coen imprimem ao todo é o grande lance. Muito bom.

Airton disse...

opaa
nossa vo tentar baixar hoje
acabei de escrever meu post do oscar...me esqueci deste filme

http://publicandobr.blogspot.com/2010/03/os-premios-do-fim-de-semana.html

bruno knott disse...

Gostei bastante, mas menos do que você. Acabei preferindo filmes como Bastardos, Guerra ao Terror, Amor sem Escalas e Distrito 9, mas não nego as qualidades deste belo trabalho dos Coen.

Abraços.

Kahlil Affonso disse...

Definitivamente um filme inspirador. Com certeza um dos mais inteligentes do ano. Faltou algumas indicações á mais pra este filme no Oscar, mas pelo menos concorre no prêmio principal (mesmo que com nenhuma chance de ganhar).

http://cinemaemdvd.blogspot.com/

Vulgo Dudu disse...

Kamila, eu já sou diferente de você: sou muito, mas muito mesmo, fã dos Coen, desde os primeiros trabalhos. E esse, novo, se assemelha muito aos antigos, o que para mim foi uma grata experiência.

Rafael, é um filmaço mesmo! E o bacana é que ele é bom nos detalhes. É cheio de nuances, camadas, texturas etc. E até desafia o padrão de filme que vem sendo produzido por aí: é imprevisível! Acho que tudo se resume àquela frase do coreano: aceite o mistério...

Airton, na minha opinião, este deveria ser o vencedor de Melhor Filme.

Bruno, o único à altura de Um homem simples, na minh aopinião, é Bastardos Inglórios. Distrito 9 é foda, muito bom, mas acho os outros dois mais maduros, com propostas mais sólidas. Quanto a Amor sem escalas, acho muito fraco, muito fraquim...

Khalil, não tinha chance de ganhar mesmo. Mas merecia!

Bjs e abs!

Pascarella disse...

Dudu,
Pra quem curte a técnica cinematográfica (fotografia, direção de arte, montagem) este filme é mais uma aula de cinema dos irmãos Cohen.

Abração

Vulgo Dudu disse...

Pascarella, é mais uma aula de cinema mesmo! E para nós, fãs dos caras há tempos, que estamos acostumados com a linguagem deles, é deleite certo!

Abs!