segunda-feira, março 29, 2010

#25 - O Vingador Tóxico (The Toxic Avenger), de Michael Herz e Lloyd Kaufman


É bem provável que O Vingador Tóxico seja a produção mais famosa da Troma, a infame produtora de filmes b. Todos os ingredientes necessários ao gênero estão lá, em abundância: roteiro estapafúrdio, lições tortas de moral, atuações exageradas e efeitos especiais toscos. Muito toscos! Ou seja, é diversão garantida.

Acompanhamos o surgimento de uma espécie de super heroi justiceiro, cuja fama no undergroud cinematográfico rendeu outras três continuações. A história se passa na fictícia Tromaville, mais precisamente na academia de ginástica local. Lá, Melvin é um faixineiro feio e desajeitado que sofre bullying das gostosonas e dos sarados que frequentam o lugar. Até o dia em que, após uma brincadeira de mau gosto, o pobre coitado cai de cabeça em um barril cheio de resíduos altamente tóxicos. Acaba se transformando em um paladino da justiça, lutando vorazmente contra os maus elementos que contaminam a sociedade.

O filme é repleto de cenas grotescas e violentas, que na verdade são bastante divertidas. Afinal, estamos falando de uma produção de baixo orçamento de 1984. Cabeças esmagadas, miolos espalhados, tripas penduradas e corpos desmembrados fazem a festa dos fãs do gênero. Há também um punhado de cenas polêmicas, que renderam alguns protestos na época. Como, por exemplo, quando um cão-guia é morto com um tiro de escopeta. Ou então, quando um assaltante aponta uma espingarda para a cabeça de um bebê - cena que, inclusive, fez com que o próprio ator abandonasse as filmagens.

O grande barato é não levar o filme a sério, já que esse é realmente o intuito por trás de tudo o que a Troma faz. E faz bem: é cinema barato, criativo e divertido.

quinta-feira, março 25, 2010

#24 - Even dwarfs started small (Auch Zwerge haben klein angefangen), de Werner Herzog


Em 1970, Werner Herzog escrevia definitivamente o seu nome no circuito cinematográfico internacional. Desconhecido do grande público, Even dwarfs started small é uma obra-prima chocante e transgressora, para poucas plateias, dirigida por um realizador bastante preocupado em subverter a lógica estética vigente naquela época. Filmado em preto e branco, com fotografia caprichada, o elenco é inteiramente composto por anões.

O roteiro é muito simples. Conta a história de um pequeno (literalmente) grupo que organiza um levante em uma espécie de comunidade agrícola depois que o "diretor" se ausenta. Na tentativa de negociar uma saída diplomática, o líder substituto sequestra um deles e o mantém em cárcere privado, atado a uma cadeira. Os revoltosos começam, então, uma série de atos bárbaros. Bárbaros de verdade!

O filme de Herzog chocou uma geração e foi banido de vários países. Muita gente o comparou ao clássico Monstros, de Tod Browning, considerado até hoje uma das produções mais dantescas que a sétima arte já pariu. Aqui, a mecânica vai um pouco além, já que o argumento fala, essencialmente, de anarquia. Trata-se de uma espécie de fábula ao avesso: anões, como os que ilustram aventuras infantis, cometem as mais diversas atrocidades: maltratam animais, ateiam fogo e destroem objetos dos mais diversos, humilham semelhantes cegos, fazem guerra de comida e zombam de instituições socialmente sacramentadas, como o casamento e a fé religiosa. Em uma das cenas mais polêmicas, um mico é amarrado em um crucifixo e exibido numa espécie de procissão.

Nem os bastidores de Even dwarfs started small foram dos mais convencionais. Reza a lenda que um dos anões foi atropelado durante uma sequência com um carro desgovernado. Em outra cena, o mesmo ator se queimou seriamente. Herzog, então, prometeu que se tudo transcorresse em paz até o final das filmagens, se jogaria em uma plantação de cactus. Como não houve mais registros de acidentes, o diretor precisou cumprir a promessa. E concluiu que foi mais fácil se jogar do que sair do meio dos cactus.

Outra curiosidade, que denota a maneira ímpar e incomum com que Herzog dirigia seus atores, era a provocação pela qual um dos anões, que durante o filme todo tenta segurar o riso, passava nas mãos do diretor. Sob ordens de não rir em hipótese alguma, assim que as câmeras eram ligadas Herzog começava uma sessão interminável de caretas.

Ainda que Even dwarfs started small seja sádico, mórbido e bizarro, é um filme espetacular! Uma experiência cinematográfica que vai ao limite estético para reforçar e dar contundência a um argumento marginal.

domingo, março 21, 2010

#23 - Big Man Japan (Dai-Nihonjin), de Hitoshi Matsumoto


São milhares os heróis japoneses que se predispõem a salvar a Terra de gigantescos e assustadores monstros. Daileon, Ultraman, Spectroman são apenas alguns famosos examplares desses baluartes da justiça. Destruíam não somente os seres maquiavélicos, mas também maquetes em miniatura. E se, por acaso, o ofício de herói japonês entrasse em decadência? É o que propõe o mockumentary - espécie de documentário falso - Big Man Japan.

Escrito, dirigido e estrelado por Hitoshi Matsumoto, o filme mostra a vida de um homem solitário que se transforma em gigante para enfrentar os monstros que colocam o Japão em perigo. Praticamente anônimo, ele precisa enfrentar problemas corriqueiros como qualquer outro ser humano. Portanto, a câmera acompanha o seu dia a dia e registra algumas entrevistas.

Questões filosóficas e existenciais são colocadas em pauta, intercaladas por cenas de combate entre o gigante e os monstros. A estética é a mais simples possível, fidedigna ao gênero documentacional. Apenas as lutas são feitas com computação gráfica. Inclusive, cada monstro é mais interessante do que o outro.

O bacana é que o roteiro, que mescla a comédia com o drama de forma perfeita, faz uma crítica bastante sutil à indústria cultural japonesa, que ao longo das décadas foi se moldando ao gosto do entretenimento ocidental - principalmente o estadunidense. Tal sutileza é mandada às favas apenas nos 15 minutos finais de projeção, quando o espectador é advertido de que verá "cenas reais". Com inteligência, infâmia e agressividade, a sequência final traz com contudência bastante feroz o argumento proposto.

Um filme bizarro e insólito. Por isso mesmo, imperdível!

quinta-feira, março 18, 2010

#22 - A banda (Bikur Ha-Tizmoret), de Eran Kolirin


Há certos filmes que sabem tocar de forma mais lírica e menos panfletária na espinhosa questão da convivência entre árabes e judeus. A banda, decididamente, é uma dessas produções que coloca a arte cinematográfica a serviço de uma reflexão mais profunda e menos radical.

O roteiro conta a história de uma banda egípcia que chega à Israel para uma apresentação em um centro de cultura árabe. Porém, a dificuldade de comunicação acaba levando os músicos, membros da academia de polícia da cidade de Alexandria, para um humilde povoado no meio do deserto. Sem dinheiro, comida ou lugar para ficar, passam a depender da soliedariedade dos judeus locais.

Eran Kolirin dirige seu filme com bastante sensibilidade. Com um bom elenco, consegue montar sequências bastante interessantes, que vão do lirismo à comédia com extrema naturalidade. No fim das contas, a tal mensagem de paz e boa convivência que o argumento propõe é assimilada com muito mais facilidade pelo espectador.

segunda-feira, março 15, 2010

#21 - Guerra ao terror (The hurt locker), de Kathryn Bigelow


Antes mesmo de ser indicado ao prêmio de melhor filme pela academia estadunidense, Guerra ao terror podia ser facilmente encontrado nas prateleiras das Lojas Americanas, a preço de banana. Foi somente depois de faturar alguns prêmios em festivais ao redor do mundo que a estratégia de distribuição se modificou, e a produção de Kathryn Bigelow ganhou as telas grandes.

Guerra ao terror não é um filme ruim. Também não é ótimo. Porém, ajuizamentos à parte, estaria fadado a um cruel ostracismo se não tivesse sido lembrado e premiado na corrida ao Oscar. É a prova cabal de que o marketing pode influenciar produções cinematográficas, a ponto de elevá-las a um patamar inimaginável: ter a preferência concorendo com pérolas como Bastardos Inglórios e Um homem sério - este, na minha opinião, o melhor dentre os indicados.

Tecnicamente, Guerra ao terror funciona. É bem montado, bem enquadrado e até mesmo bem dirigido. Os atores são bons e a direção de arte é carpichada. Os pontos fracos, que inclusive o impedem de figurar em uma lista pessoal dos grandes filmes de guerra, são o argumento e o roteiro, ambos muito fracos e inconsistentes. A minha implicância é, de certa forma, ideológica.

Em primeiro lugar, um filme antibelicista, como sugere a frase que abre a projeção, não pode ser unilateral. E é isso que Bigelow faz. Se o objetivo é contextualizar as mazelas da guerra, e não buscar justificativas para o conflito, seria mais enriquecedor mostrar o que acontece com todos os que estão no território conflituoso. Por uma questão do tratamento do roteiro, os civis iraquianos, que também são vítimas da guerra, são mostrados sempre com desconfiança. O terror que a tal guerra ao terror estadunidense perpetua ao redor do mundo, uma política belicosa e hipócrita continuada por Barack Obama (que, aliás, é farinha do mesmo saco de Bush), fica de fora do argumento, que se limita a mostrar a ação do esquadrão antibombas.

Depois, o roteiro se fecha muito em apenas um protagonista, figura que obviamente vai precisar passar por todo o calor da guerra até os minutos finais do filme. Ou seja, por mais que haja tensão nas sequências dirigidas por Bigelow, o comportamento extravagante do personagem é previsível. Além disso, o desfecho não traz qualquer tipo de reflexão. Apenas reitera o que foi dito lá no começo. Mais ainda: sublinha e escancara com um certo sadismo involuntário o vício do qual os Estados Unidos não conseguem se livrar desde a época em que resolveram emcampar os ideais do capitalismo: a bilionária indústria da guerra. Tanto é que, no discurso de agradecimento, a diretora lembrou os soldados que lutam no Afeganistão e no Iraque. Esqueceu dos militares feridos e dos civis mortos.

No fim das contas, os aplausos esfuziantes ao filme serviram também para saudar a demagógica corrida contra um terrorismo que mais parece um vilão cinematográfico.

segunda-feira, março 08, 2010

#20 - Funny people, de Judd Apatow


Mais uma vez, foi dado a Adam Sandler um papel que pedia um pouco mais de dramaticidade à interpretação. Mais uma vez, ele correspondeu. E, mais uma vez, foi um fiasco na bilheteria. Funny people, filme escrito e dirigido pelo competente Judd Apatow, não fez nem barulho aqui no Brasil. Acabou esquecido nas prateleiras das locadoras. Uma pena, já que se trata de um belo e bem acabado trabalho de gente que entende de comédia.

O mais interessante é que Funny people, apesar de retratar a rotina de quem tem como ofício divertir os outros, não é um filme divertido. Quer dizer, até tem comédia, mas o foco é a solidão e a melancolia por trás do sucesso. O roteiro conta a história de um rico e famoso humorista (Sandler) que descobre ter uma doença rara e letal, cuja chance de sobrevivência é muito baixa. Atordoado, decide voltar às raízes, participando de festivais de stand-up comedy. Para ajudá-lo a escrever as piadas, contrata um humorista amador (Seth Rogen) que busca seu lugar ao sol.

São quase duas horas e meia de projeção. O argumento é bem trabalhado, o texto é bem escrito e as atuações de todo o elenco convencem. É nítido o carinho que Apatow, considerado por muitos como um dos sujeitos mais inteligentes da nova safra de cineastas estadunidenses, tem com o tema. O cuidado na direção permite que a trama flua sem clichês ou exageros.

No fim das contas, é um drama sobre a comédia.

terça-feira, março 02, 2010

#19 - Um homem sério (A serious man), de Joel e Ethan Coen


Ainda não tive a oportunidade de conferir todos os indicados ao prêmio de melhor filme do ano segundo os membros da academia estadunidense de cinema. Porém, acho muito difícil algum deles superar Um homem sério, a nova e arrebatadora empreitada dos irmãos Coen. Novamente, a dupla mergulha em um argumento denso e perturbador para contar, com extremo sarcasmo e humanismo, uma história que envolve dogmas religiosos e falsos moralismos.

O roteiro, original em todos os sentidos, mostra como a vida de Larry Gopnik (o excelente Michael Stuhlbarg), um pacato professor de física, começa a virar de cabeça para baixo quando tudo parecia andar nos trilhos. Acostumado ao empirismo matemático, mas apegado às tradições judaicas, procura resolver seus problemas de acordo com um código ético que parece ruir a cada acontecimento do qual não tem controle.

Tudo no filme dos irmãos Coen é brilhante: fotografia, montagem, edição e até a trilha sonora, que brinca de forma espetacular com a canção "Somebody to love", imortalizada pela banda Jefferson Airplane. Os versos iniciais casam perfeitamente com a trama. Dizem: when the truth is found to be lies, and all the joy within you dies. Algo como: quando a verdade se torna mentira, e toda a sua alegria morre. É exatamente a partir desse ponto da vida do protagonista que os irmãos Coen exercitam toda a sua criatividade.

Um homem sério lembra os grandes filmes do início da carreira dos cineastas. Produções densas, complexas e bem acabadas, com textos primorosos e argumentos que beiram o inverossímil, ainda que caminhem pela tênue linha da verossimilhança. É justamente desse flerte com o irreal, do estranhamento plausível, que os irmãos Coen conseguem tirar vantagem. Fazem cinema como poucos. Brincam com a linguagem cinematográfica como poucos.

E ainda ganham poucas indicações para aquela estatueta boboca...

segunda-feira, março 01, 2010

#18 - Eve and the handyman, de Russ Meyer


O quarto longa do mestre Russ Meyer, se comparado ao conjunto da obra, é talvez um dos mais fracos no que diz respeito à ousadia do diretor. Porém, é o registro do exercício cinematográfico que proporcionou, anos depois, clássicos do exploitation. Eve and the handyman é uma simples comédia picante.

Nessa produção de 1961, a estrela é a esposa de Russ Meyer à época, Eve. Trata-se de uma loura de olhos verdes e seios fartos, no melhor estilo das mulheres que o diretor costuma retratar em seus filmes. Aqui, ela se desdobra em vários papeis, incluindo uma detetive que espiona um handyman, espécie de faz-tudo, tímido e recatado. Ao longo da projeção, ele vai se envolvendo em situações nada convencionais com o sexo oposto. Toda a ação é baseada em pantomima, já que não há diálogos.

Apesar do argumento, o filme é bem comportado. Pouco se vê além dos volumosos seios de Eve trepidando por trás de decotes e sutiãs sugestivos. O máximo que aparece é uma bundinha desnuda, que nem é a da mulher do diretor. O que vale mesmo é o deleite estético e olhar apurado de Meyer, que empresta todo o seu talento como fotógrafo à sétima arte. São Francisco é enquadrada com planos bastante criativos. O visual, para um filme rodado no início dos anos 60, é realmente incrível e impecável.

Nada de mais. Porém, para quem é fã do cara, vale a pena.