quinta-feira, fevereiro 25, 2010

#17 - Adventureland, de Greg Mottola


Você assistiria com bons olhos a um filme cujo título em português é Férias frustradas de verão? O pior mesmo é a correspondência torta com a clássica franquia estrelada por Chevy Chase nos anos 80. Nada a ver. Que fique, então, registrada essa tentativa dantesca de tirar proveito do sucesso oitentista para tapear espectadores menos atentos. Se bem que, para quem sente falta de uma boa comédia, que não subestime a inteligência do espectador, até que aqui seria uma vantagem ser "enganado".

Adventureland é escrito e dirigido por Greg Mottola, responsável pelo ótimo Superbad. Aqui, ele novamente conta uma boa história juvenil. Ou seja, não é um argumento infantil e nem adulto. Ponto para ele. Acompanhamos a ralação de um jovem cuja família passa por um aperto financeiro. Sem dinheiro para bancar uma viagem antes do início das aulas na universidade, ele resolva procurar um emprego temporário. Acaba encontrando somente uma possibilidade: labutar no parque de diversões que dá nome ao filme. Lá, muito mais do que juntar dinheiro, o rapaz aprende algumas coisas sobre a vida.

Quem protagoniza a trama é Jesse Eisenberg, o menino de Zombieland. E seu par romântico é Kristen Stewart, a menina de Crepúsculo (percebeu que não tem hipertexto aqui?). Os dois estão muito bem: ela, pressionada pela família a seguir carreira como advogada; ele, um virgem tímido e sem jeito com as mulheres. Ambos trabalham muito bem, mas Eisenberg precisa tomar cuidado com os papéis que escolhe se não quiser ficar estereotipado.

O resto do elenco também rende bastante, ajudados por um roteiro enxuto, interessante e bem trabalhado. De vez em quando há uma cena ou outra manjada. Porém, não há exagero. Nem mesmo a cena final, previsível, perde qualidade dramática. Outro destaque é a direção de arte, que caprichou na caracterização do final dos anos 80 (a trama se passa em 1987). O mais interessante é poder relembrar como eram os parques de diversão justamente na época em que a minha geração era criança.

Um filme fofo, mas sem frescuras.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

#16 - Whip it, de Drew Barrymore


Drew Barrymore, aquela menininha de ET que fumou maconha aos 10 anos, cresceu e virou pantera, se arrisca na direção de Whip it, filme baseado no livro homônimo, que conta a história de uma adolescente que descobre o mundo em oito rodas, ou seja, sobre dois patins. Bons atores, roteiro legal, direção de arte esperta e trilha sonora descolada ajudam a novata realizadora. Mas falta aquele algo mais.

Quem estrela o filme, em um papel bem menos exagerado e neurótico do que em Juno, é Ellen Page. É ela a jovem que vive isolada na cidade de Bodeen, interior do Texas. Nas horas vagas, trabalha como garçonete em um fast-food e participa, forçada pela mãe, de concursos de beleza. Quando conhece o mundo das competições de Roller Derby, uma espécie de corrida de patinação com contato físico, vê uma chance de finalmente se livrar do provincianismo no qual é obrigada a viver.

Whip it, apesar da boa história, tem seus problemas nos detalhes - justamente aqueles que a direção não dá conta de resolver. Há um punhado de cenas desnecessárias, além de alguns exageros melodramáticos. Algumas das referências que Barrymore concede ao filme também parecem deslocadas, como na cena em que a protagonista, uma redneck estadunidense de 17 anos, escuta "Domingo no Parque", de Gilberto Gil, no rádio do carro (possível fruto da convivência da diretora com o ex-namorado, o músico brasileiro Fabrizio Moretti). Inverossímil é pouco.

Porém, os diálogos são bacanas, os atores são carismáticos e os personagens são interessantes. Inclusive o que a própria Barrymore encarna: uma patinadora sempre contundida. Destaque para Jimmy Fallon, há muito tempo sumido da telona, que interpreta o locutor do Roller Derby.

domingo, fevereiro 21, 2010

#15 - Sukiyaki Western Django, de Takashi Miike


Western japonês, com referências aos clássicos do gênero, influências claras de Kurosawa, participação especial de Quentin Tarantino e um visual com o melhor que o cinema oriental contemporâneo tem para oferecer - aqui, nas mãos do experiente e provocador diretor Takashi Miike. Sukiyaki é um prato típico da culinária japonesa, à base de carne. Western é o gênero escolhido. Django é o título de um dos maiores clássicos do Velho Oeste. Pois estão dados os ingredientes para uma experiência cinematográfica irresistível.

O roteiro trata de mediar o encontro de duas correntes distintas: a ação do spaghetti italiano e o capricho do cinema nipônico. Sukiyaki Western Django se baseia em uma das histórias mais interessantes do mestre Kurosawa, Yojimbo, de 1961, no qual uma cidade é dividida por dois grupos de samurais. Aqui, a cidade em questão é tomada por dois grupos de garimpeiros fora-da-lei. Quando um misterioso pistoleiro chega por lá, um outro tipo de disputa tem início. Quem já viu o clássico de Kurosawa, sabe do que se trata. Quem não viu, deleite-se!

Miike, como de costume, faz um filme bastante violento, com um punhado de bizarrices, mas cheio de estilo. Cenários, figurinos e diálogos são de cair o queixo. Tarantino faz um belo trabalho interpretando uma espécie de narrador que situa o espectador na trama. Aliás, o filme tem a cara dele. Esteticamente, é um trabalho impecável, que reconstrói todo o conceito por trás dos westerns. Praticamente uma apropriação do tema, como propunha o movimento antropofágico: exteriorizar o externo interiorizado.

Muito bom!

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

#14 - A todo volume (It might get loud), de Davis Guggenheim


A guitarra está para o rock assim como o tridente está para o diabo - assim como o rock está para o diabo, também. Impossível dissociar os dois. A palavra de ordem é amplificar o som, torná-lo mais alto, robusto, encorpado. Como qualquer instrumento, a guitarra tem seus segredos. Em A todo volume, um trio bastante competente e heterogêneo se reúne para discorrer sobre as excentricidades e usabilidades do instrumento, além de trocar experiências.

O escrete é respeitável: The Edge, guitarrista do U2; Jack White, da dupla White Stripes; e o mestre Jimmy Page (preciso dizer por quais bandas ele tocou?). O diretor Davis Guggenheim monta um documentário enxuto, que mescla bem as minibiografias dos músicos com o papo que acontece em um galpão especialmente preparado para receber os três guitarristas. O resultado é um deleite não só para quem arranha as seis cordas, mas para o público afeiçoado à boa música.

O valor documental está na particularidade de cada guitarrista. The Edge é meticuloso com a tecnologia, e busca efeitos e timbres através de pedaleiras e softwares modernos. Jimmy Page tem um feeling que não se deixa acobertar pela exímia técnica. Jack White é, por incrível que pareça, a grande atração do filme. Eu não sabia, mas ele é foda! Obcecado pelas raízes do rock, busca um som grutural, primitivo e intenso. White entende como ninguém os mecanismos que fazem uma guitarra funcionar - ou gritar, berrar. Por isso, molda os seus instrumentos para tais fins. Os melhores momentos de A todo volume, como comprova a sequência inicial, são dele.

O filme é tão bacana que, ao final da projeção, tirei a poeira da minha guitarra para tentar incomodar alguns vizinhos. Porém, não tocava há tanto tempo, que o amplificador não funciona mais. Fiquei na vontade...

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

#13 - Zumbilândia (Zombieland), de Ruben Fleischer


É impressionante como zumbis continuam rendendo bons filmes. E não necessariamente produções de terror. Zumbilândia é assumidamente uma comédia. Tem lá seus litros de sangue, mortos-vivos desfigurados e tripas sendo devoradas - mas nada que cause temor entre os de estômago mais fraco.

O roteiro conta a história de um jovem solitário e metódico que tenta cruzar os Estados Unidos, infestado por zumbis, a caminho da casa dos pais, em Columbus. Por isso, fica conhecido, durante o filme inteiro, como Columbus mesmo. Ao longo da jornada, encontra outros sobreviventes, todos mais corajosos do que ele. E todos apelidados com nomes de cidades estadunidenses. Um deles é Tallahassee, interpretado por um inspirado e irrepreensível Woody Harrelson. No entanto, é Bill Murray, no papel dele mesmo, quem rouba a cena!

O que faz de Zumbilândia um bom filme são as referências que ele traz de outros clássicos do gênero, sob forma de uma cartilha elaborada pelo protagonista com dicas para sobreviver em caso de ataques de zumbis. Somado a isso, há uma edição ligeira, uma boa trilha sonora e diálogos realmente interessantes.

Entretanto, há no decorrer da trama um tratamento sentimentaloide sobre a questão familiar que não combina com o ritmo dos habituais filmes de zumbis. E isso ganha força no quarto final da projeção, culminando em um desfecho um pouco frustrante para os fãs dos mortos-vivos. Não chega a estragar a diversão, mas faz com que o filme não seja uma experiência plena.

E tinha tudo para ser...

terça-feira, fevereiro 09, 2010

#12 - Tokyo!, vários diretores


Três dos diretores mais inventivos da atualidade se uniram num projeto que tinha como objetivo filmar três histórias ambientadas em Tokyo. Uma das cidades mais cosmopolitas do planeta, com a geografia estreita e a tecnologia onipresente, serve de pano de fundo para que Michel Gondry, Leos Carax e Joon-ho Bong, nessa ordem, perturbem as tradições e mitos nipônicos. Através de uma linguagem que mistura o realismo fantástico a questionamentos existencialistas, o resultado é arrebatador.

No primeiro episódio, Gondry aproveita a arquitetura claustrofóbica e a falta de perspectiva juvenil pra contar a história de uma garota que, acusada de não ter um objetivo na vida, começa a se transformar em uma cadeira. Leos Carax vai fundo na questão do olhar estrangeiro e mostra uma criatura que vive nos esgotos, o Sr. Merde, da qual os japoneses morrem de medo. Detido pela polícia, o único que pode defendê-lo é um advogado francês que entende o seu estranho dialeto. Joon-ho Bong é quem faz o episódio mais marcante, sem dúvida alguma. Tomando como argumento o fenômeno regional dos hikikomoris, que optam por levar uma vida reclusa em seus próprios quartos, ele conta a história de um homem que se apaixona por uma estranha entregadora de pizza.

Todos os episódios, apesar da média de 40 minutos de duração, têm o roteiro muito bem trabalhado. Cada diretor sabe fazer render o que tem de melhor: Gondry, com a subversão das leis físicas e o descompromisso com a realidade; Carax, com o estranhamento humanista através do grotesco; e Bong, demonstrando a capacidade de transgressão do novo cinema coreano num tema que não envolve a violência, e sim o amor.

Três parágrafos e três bons motivos para ver Tokyo!

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

#11 - O terceiro tiro (The trouble with Harry), de Alfred Hitchcock)


Semana passada, fui me esconder da civilização lá na Serra da Bocaina. Trilhas em mata primária, lindas cachoeiras, paisagens de tirar o fôlego e uma paz... Fiquei hospedado na espetacular Pousada da Terra, um recanto digno de nota. Simples, mas sem perder o charme. Tudo lá é de um bom gosto ímpar, da decoração dos chalés à comida oferecida. Como não há entretenimento por perto (e nem é preciso...), alguns quartos são equipados com DVD. A pousada oferece uma videoteca de alto nível. Fiquei realmente impressionado.

Depois de um dia de extensa caminhada, após ter me embasbacado com a Cachoeira do Bracuí, resolvi levar para o quarto O terceiro tiro, de 1955, um dos filmes do mestre Hitchcock que ainda não havia conferido. Porém, cansado, dormi nos 10 minutos iniciais. Tentei vê-lo, então, na noite seguinte. Aconteceu a mesma coisa: 28 minutos depois já estava de olhos fechados. Então, quando cheguei ao Rio, providenciei uma cópia.

O filme começa com um capitão aposentado que acredita ter acertado um tiro num misterioso homem, o tal Harry, enquanto caçava coelhos. Na tentativa de ocultar o cadáver, acaba envolvendo todo o povoado em um complicado e divertido plano para despistar a autoridade local. Aos poucos, os envolvidos vão entendendo não somente quem é o morto, mas quem são seus próprios vizinhos.

A fotografia é incrível, ajudada pela bela locação, em Vermont. O elenco, com debut de Shirley MacLaine, é bastante afiado. Os planos bem estudados, marca registrada do diretor, estão lá. O grande destaque, no entanto, fica por conta da trilha sonora composta por Bernard Herrmann, em seu primeiro trabalho ao lado de Hitchcock.

Um filme simples, mas inesquecível por causa da perfeição dos detalhes. Exatamente como o meu fim de semana na Bocaina.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

#10 - Ah... o amor! (Ex), de Fausto Brizzi


Estreia hoje no circuito carioca, após semanas de pré-estreias, a comédia romântica italiana Ah... o amor!, que foi aclamada pela crítica e pelo público da Itália. Porém, trata-se de uma tentativa de comédia romântica hollywoodiana das piores. Abaixo vocês podem ler o que eu escrevi para a Revista Programa, do Jornal do Brasil.

Tinha tudo para dar certo. A julgar pela tradição da comédia italiana, que sempre proporcionou boas risadas através das lentes de mestres como Mario Monicelli, Ettore Scola e Dino Risi, o argumento de Ah... o amor! parece promissor. O filme, conta a sinopse, começa onde todas as comédias românticas param: na troca de juras de amor eterno. No entanto, o resto é mais do mesmo. O diretor Fausto Brizzi se afasta de quaisquer referências cinematográficas do seu país de origem e entrega uma produção italiana com pretensões hollywoodianas. O resultado é constrangedor.

Quase tudo em Ah... o amor! é artificial e forçado. O roteiro abusa não somente dos clichês típicos ao gênero, mas utiliza-se de incontáveis ícones da cultura pop para falar de desilusões amorosas e de destinos que se cruzam. O desfecho, preguiçoso, traz com didatismo pueril uma lição de vida prosaica. Montagem, cenografia, diálogos e até a trilha sonora se tornam uma mera tentativa de espelhar o que de pior já foi produzido pela indústria cinematográfica em termos de comédia romântica. Nem a atuação irrepreensível de Fabio De Luigi, na pele de um sujeito perseguido pelo ex de sua namorada, consegue salvar o filme.

Frustrante.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

#9 - Battle Royale, de Kinji Fukasaku


Em um futuro não muito distante, a economia japonesa está na lama, o desemprego cresce a taxas alarmantes e o sistema educacional entra em colapso. Jovens rebeldes e problemáticos se recusam a seguir os programas letivos e aumenta a evasão escolar. Os adultos, temendo que a situação piore, aprovam um ato chamado Battle Royale, no qual uma turma de oitava série é sorteada e levada a uma ilha deserta. Lá, recebem uma mochila com armas e provimentos. Durante três dias, eles precisam matar uns aos outros. Aquele que sobreviver fica livre para ir para casa. Este é o argumento de um dos filmes mais polêmicos da Terra do Sol Nascente.

Battle Royale é baseado num controverso mangá que causou celeuma entre os japoneses mais conservadores. Organizações políticas tentaram a todo custo bani-lo do país, mas malograram. A polêmica serviu para aguçar ainda mais a curiosidade das pessoas - que lotaram os cinemas para ver a adaptação cinematografica dos quadrinhos. Mais uma vez, houve tentativa de boicote. Que, mais uma vez, malogrou.

De fato, Battle Royale é bastante violento. O que se vê na tela são jovens uniformizados matando seus colegas de classe com armas sortidas. Tem machado, foice, aparelho de dar choque, veneno, revólver e até metralhadora. O diretor Kinji Fukasaku, no entanto, soube trabalhar bem o argumento. Durante quase duas horas de projeção, o ritmo se mantém alucinante. A contagem de corpos não para!

O bacana é que, em meio à carnificina, os jovens continuam experimentando as angústias e frustrações da adolescência. Paixões são desveladas, traições são descobertas e mentiras são confessadas. Tudo isso contribui para deixar o filme ainda mais esquisito e diferente - ou seja, ainda mais interessante. O ponto alto é, sem dúvida alguma, a presença do mestre Takeshi Kitano no elenco. Ele interpreta o professor que coordena a batalha. Sua caracterização é perfeita, cheia de sarcasmo.

Cogitou-se a hipótese de um remake rodado nos Estados Unidos. Não foi para frente. Alguns dizem que a Toei, responsável pelos direitos do filme, não concordou com as condições impostas pelos estúdios de Hollywood. Porém, como bem lembrou um amigo meu, não pegaria bem filmar jovens estadunidenses em idade escolar metralhando os colegas...

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

#8 - Schlock! - The secret history of american movies, de Ray Greene


Schlock é um termo em inglês para tudo aquilo que foge do convencional. Por isso mesmo, foi o título escolhido para este documentário sobre o exploitation produzido nos Estados Unidos. Durante uma hora e meia, grandes nomes ligados ao gênero contextualizam as obras e tentam definir o que de fato é exploitation - termo que, por sua vez, vem do verbo exploit, que significa abusar, explorar, exagerar.

O roteiro mostra como o exploitation foi influenciado pela contracultura. Tem o marco inicial com o clássico Reefer madness, aquele filme escalafobético que alertava os jovens da década de 30 sobre os perigos da maconha. A partir daí, todas as vertentes do gênero são contextualizadas, como o sexploitation, o nudie camp e o nudie cutie.

Muita gente boa presta depoimento, muitas imagens de arquivo são mostradas e muitos filmes até então desconhecidos são desengavetados. Porém, Schlock! não é tão bem montado, e pode ser cansativo para quem não tem interesse na história do exploitation. Para mim, valeu a pena.

Já estou providenciando vários títulos que não conhecia!