segunda-feira, janeiro 25, 2010

#6 - Onde vivem os monstros (Where the wild things are), de Spike Jonze


Era tudo o que eu esperava. Spike Jonze é um sujeito que tem uma percepção do cinema que deveria ser mais difundida por aí. Em seu mais novo trabalho, ele aproveita tudo o que a linguagem cinematográfica pode oferecer para dar movimento a uma narrativa. Mais do que ousadia, isso se chama bom senso. Em Onde vivem os monstros a técnica é perfeitamente dosada com a criatividade. Saí da sala de projeção com a convicção de que é para isso que existe a sétima arte: através da ousadia, permitir que os olhos possam ir o mais além possível da tela.

O filme é uma adaptação de um famoso livro infantil - que só agora ganhou uma edição em português - escrito pelo também ilustrador Maurice Sendak. O personagem principal é Max, um menino cuja imaginação o permite criar histórias fantásticas. Porém, sem ter com quem compartilhá-las, acaba tendo que enfrentar uma solidão forçosa. Um dia, se revolta com a mãe e foge de casa. Vai parar, então, em um mundo habitado por enormes criaturas, das quais vira rei.

O interessante é observar que em momento algum, no livro e no filme, as criaturas são chamadas de monstros. São coisas. Erro da tradução. Coisas selvagens, sobre as quais não se tem controle, a não ser que haja um rei, uma consciência. Cada uma das criaturas, selvagens por vagarem livremente, sem comando, representa um traço da personalidade humana. Max, o protagonista, tenta a todo custo fazer com que todos os seus monstros convivam em paz.

As criaturas são realmente impressionantes. Humanizadas, são capazes de dialogar com o espectador sem exageros cartunescos. Sofrem, choram e se irritam. As discussões entre elas e Max são firmes, angustiantes, emocionantes e até mesmo, em certas sequências, perturbadoras. O tom de medo e melancolia está presente em cada linha. Contribuem para a narrativa uma fotografia extremamente bem cuidada, com luz e sombra bem trabalhadas, e uma trilha sonora original de se tirar o chapéu, composta por Karen O, a líder dos Yeah Yeah Yeahs.

Segundo notas da produção, Jonze se desentendeu com a Universal, primeiro estúdio a bancar a empreitada. Foi então para a Warner, que também não achou muita graça no primeiro corte do filme, uma vez que esperava um produto com mais apelo familiar. Ainda assim, Jonze bateu o pé e montou uma obra que esteticamente se assume para públicos mais maduros, mesmo que, lá no fundo, trate da imaturidade.

Ainda que a carga dramática se acentue perto do desfecho, Onde vivem os monstros emociona o espectador pelo conjunto da obra, e não por cenas pontuais. Meus olhos, por exemplo, ficaram marejados durante as sequências mais agitadas. Prova de que o cinema pode, quando bem intencionado, emocionar sem clichês baratos.

E lá vai Spike Jonze contando uma história... É para isso que serve o cinema.

Isso é cinema!

13 comentários:

Marguinha disse...

Poxa!!! Eu fiquei com muita vontade de assistir depois dessa tua empolgaçao!! =*

Mike Benavides, disse...

Quero muito ver este filme! Curti muito seu espaço! Adoro cinema, quando puder dá umm pulo lá no meu! Vou te seguir! Abraços!

Mike Benavides

Anna JU disse...

Dudu, tb achei o filme MUITO bom. Me emocionei demais.

bruno knott disse...

É um filme que emociona, por proporcionar várias lembranças...

Mas algo me diz que o Jonze funciona melhor junto com o Kauffman e vice-versa.

Abraços.

Kamila disse...

Mais uma boa crítica sobre um filme cuja vontade de assistir veio crescendo em mim com o tempo!

Beijos!

Vulgo Dudu disse...

Marguinha, querida, você sabe como sou movido pelas coisas boas, né? Me entusiasmei mesmo. Eu acho que você vai gostar...

Mike, obrigado pela visita! Vou passar no seu blog também, com certeza, já que temos a sétima arte em comum.

AJ, fomos dois! Engraçado que, na sessão que fui, seis pessoas saíram da sala de cinema antes do final.

Bruno, a química entre Jonze e Kauffman é realmente impressionante. Mas na minha opinião os dois já mostraram que podem perfeitamente trabalhar sozinhos (Sinédoque NY e este dos monstros).

Kamila, obrigado! Fico sempre curioso para saber que nota você vai dar! rs...

Bjs e abs a todos!

Renan MG disse...

Muito bom o seu comentário sobre o filme! Agora fiquei com mais vontade de ver o filme!

Pedro Henrique disse...

É vendo filmes como este que ainda creio no potencial do cinema como conjugador de duas vertentes: a comercial e a autoral. Filmaço!!!

Vulgo Dudu disse...

Renan, muito obrigado! Depois volte aqui para dizer o que achou, combinado?

Pedro, foi EXATAMENTE isso que eu disse para minha mulher quando o filme acabou! Que bom que o cinema ainda pode nos levar a lugares que não imaginamos, sem forçar a barra para isso.

Abs!

Bruno Cava disse...

Também me amarrei, e a meu ver o filme trabalha o devir-criança, a criança que continuamos a nos tornar, que nunca morreu, e que nos ajuda a compreender o mundo e as pessoas.
http://quadradodosloucos.blogspot.com/2010/01/critica-onde-vivem-os-monstros-spike.html

Vulgo Dudu disse...

Bruno, eu nem cheguei a escrever isso na minha resenha, mas acredito que este filme é uma espécie de "A história sem fim" contemporânea, mais intensa, mais madura, mais cruel até. Achei o filme realmente encantador e emocionante.

Abs!

Mescla de culturas disse...

É...vi hj...e fiz resenha desse,rs
gostei muito...o curioso é que realmente ele é bem adulto...
bem mais do que se imagina!
abraços

Vulgo Dudu disse...

Bruno, vou passar lá para ler sua resenha. Eu acho o filme adulto, sim. Mas como comentei em algum outro lugar, acho que ele tem o potencial de fazer nas crianças de hoje o que "A história sem fim" fez na minha geração.

Abs!