quinta-feira, janeiro 28, 2010

#7 - Memória do saqueio (Memoria del saqueo), de Fernando Solanas


Fernando "Pino" Solanas é um dos grandes nomes do cinedocumentário argentino, com forte militância frente as causas políticas e sociais. Sua cinebiografia é extensa e marcada por filmes corajosos, ousados e bem montados. Memória do saqueio, também conhecido como Genocídio social, doc de 2004, relembra e contextualiza os anos que antecederam a maior crise socioeconômica que nossos hermanos atravessaram. Lembra daqueles panelaços pelas ruas de Buenos Aires?

Afundada em dívidas e repleta de credores internacionais, a Argentina de terras outrora ricas, se via arrasada por políticas ditas democráticas, mas que cada vez mais se afastavam de vínculos sociais. A contração de uma dívida externa de cifras astronômicas e o controle do capital por meio de acordos escusos entre o governo e as corporações permitiu o alastramento da corrupção. Resultado: desemprego, fuga de capitais e enfraquecimento do estado. Para Pino, Carlos Menem foi o grande vilão da história, aquele que afundou de vez o seu país num mar de lama.

Alçado ao poder pelo partido neoperonista, Menem prometeu um programa de governo voltado para as causas sociais. Porém, pouco tempo depois, leiloava a preço de banana estatais argentinas lucrativas, como a YPF. Inclusive, meses após a privatização, abriram um posto de gasolina com bandeira da YPF aqui perto de casa. Um ano depois da inauguração, o que restava era apenas o esqueleto do que foi um posto, com mato alto e instalações depredadas e abandonadas.

Memória do saqueio é muito bem produzido. Enquanto a câmera passeia livremente pelos suntuosos palácios do executivo, do legislativo e do judiciário argentino, Pino vai narrando os fatos. Há um excelente e rico material de arquivo, com imagens de manifestações, confrontos e até mesmo as gafes dos estadistas envolvidos nos escândalos. Pino mostra que o estrago, desde o período ditatorial, foi grande. A cicatriz ainda está aberta.

Prova disso é a notícia que ganhou as manchetes dos principais noticiários internacionais na semana passada. O então presidente do BC argentino se afastou do cargo em meio à polêmica decisão de não usar os recursos do governo para pagar a enorme dívida interna do país - fruto, obviamente, das constantes políticas de achatamento.

Um belíssimo documento para entender como o neoliberalismo promove, a seu modo, um genocídio social.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

#6 - Onde vivem os monstros (Where the wild things are), de Spike Jonze


Era tudo o que eu esperava. Spike Jonze é um sujeito que tem uma percepção do cinema que deveria ser mais difundida por aí. Em seu mais novo trabalho, ele aproveita tudo o que a linguagem cinematográfica pode oferecer para dar movimento a uma narrativa. Mais do que ousadia, isso se chama bom senso. Em Onde vivem os monstros a técnica é perfeitamente dosada com a criatividade. Saí da sala de projeção com a convicção de que é para isso que existe a sétima arte: através da ousadia, permitir que os olhos possam ir o mais além possível da tela.

O filme é uma adaptação de um famoso livro infantil - que só agora ganhou uma edição em português - escrito pelo também ilustrador Maurice Sendak. O personagem principal é Max, um menino cuja imaginação o permite criar histórias fantásticas. Porém, sem ter com quem compartilhá-las, acaba tendo que enfrentar uma solidão forçosa. Um dia, se revolta com a mãe e foge de casa. Vai parar, então, em um mundo habitado por enormes criaturas, das quais vira rei.

O interessante é observar que em momento algum, no livro e no filme, as criaturas são chamadas de monstros. São coisas. Erro da tradução. Coisas selvagens, sobre as quais não se tem controle, a não ser que haja um rei, uma consciência. Cada uma das criaturas, selvagens por vagarem livremente, sem comando, representa um traço da personalidade humana. Max, o protagonista, tenta a todo custo fazer com que todos os seus monstros convivam em paz.

As criaturas são realmente impressionantes. Humanizadas, são capazes de dialogar com o espectador sem exageros cartunescos. Sofrem, choram e se irritam. As discussões entre elas e Max são firmes, angustiantes, emocionantes e até mesmo, em certas sequências, perturbadoras. O tom de medo e melancolia está presente em cada linha. Contribuem para a narrativa uma fotografia extremamente bem cuidada, com luz e sombra bem trabalhadas, e uma trilha sonora original de se tirar o chapéu, composta por Karen O, a líder dos Yeah Yeah Yeahs.

Segundo notas da produção, Jonze se desentendeu com a Universal, primeiro estúdio a bancar a empreitada. Foi então para a Warner, que também não achou muita graça no primeiro corte do filme, uma vez que esperava um produto com mais apelo familiar. Ainda assim, Jonze bateu o pé e montou uma obra que esteticamente se assume para públicos mais maduros, mesmo que, lá no fundo, trate da imaturidade.

Ainda que a carga dramática se acentue perto do desfecho, Onde vivem os monstros emociona o espectador pelo conjunto da obra, e não por cenas pontuais. Meus olhos, por exemplo, ficaram marejados durante as sequências mais agitadas. Prova de que o cinema pode, quando bem intencionado, emocionar sem clichês baratos.

E lá vai Spike Jonze contando uma história... É para isso que serve o cinema.

Isso é cinema!

sexta-feira, janeiro 22, 2010

#5 - Amor sem escalas (Up in the air), de Jason Reitman


Só ouço e leio elogios ao filme que venceu o Globo de Ouro de Melhor Roteiro. Na minha opinião, Amor sem escalas tem uma simplicidade que soa pedante demais. É bem feito, sem dúvida. Mas malogra porque tenta, a todo momento, um certo requinte estético e dramático que os bons filmes simples dispensam. Filme simples com George Clooney no elenco? Já não havia gostado de Juno. Entendi, afinal, que não gosto mesmo é do estilo de Jason Reitman. Segue minha resenha.

O novo filme de Jason Reitman segue a cartilha que fez de Juno um sucesso de bilheteria. Amor sem escalas é uma narrativa cômica entrecortada por fortes doses de melancolia. Em comparação ao trabalho anterior, muda o argumento, mudam os personagens, mas permanece uma espécie de simplicidade dramática pretensiosa demais.

George Clooney interpreta um sujeito que viaja os EUA demitindo pessoas. Acostumado com aeroportos e hotéis, vê como privilégio o fato de poder manter à distância os relacionamentos interpessoais. Porém, tudo muda quando conhece uma mulher com os mesmos hábitos. Logo, começa a questionar seu modo de vida e a repensar seus valores.

Apesar do forte ensejo, o roteiro não cai em clichês. Por outro lado, também não propõe saídas criativas. Apesar de ser um trabalho bem executado e sensível, Amor sem escalas é linear demais. Não decola como comédia, nem como drama. Culpa da tal simplicidade imposta pelo estilo de Reitman, que não deixa a história ganhar contornos mais fortes. Até mesmo as atuações, engajadas, se mantêm num nível abaixo do que poderiam render.

#4 - O fada do dente (Tooth fairy), de Michael Lembeck


Sexta-feira é dia de estreias e resenhas. Por aqui e também lá na Revista Programa. Nesta semana, são dois novos filmes resenhados. Como Jack, o Estripador, vamos por partes. O primeiro é uma comédia infantil tão ridícula, mas tão ridícula, que me fez cair na gargalhada. Realmente me diverti assistindo a O fada do dente. Quem tiver que levar a molecada ao cinema, esse é o filme. Segue o que escrevi lá no JB.

Como a maioria dos filmes para crianças, O fada do dente trabalha com a velha e enfadonha máxima da importância de acreditar nos sonhos, um tema universal. Porém, o roteiro utiliza como alegoria dois assuntos distantes do cotidiano da criançada brasileira: o hockey no gelo e a crença de que uma fada troca um dente deixado debaixo do travesseiro por um dólar. Além disso, a história é absurdamente patética - mas é justamente isso que torna o filme engraçado.

Dwayne Johnson, uma montanha de músculos, interpreta um truculento jogador de hockey que tem como marca registrada deixar os adversários com a arcada dentária desfalcada. No dia em que destrói os sonhos de uma menina, é intimado a servir como uma verdadeira fada do dente. Por não ter como ser levado a sério, o filme acaba provocando boas risadas não somente na molecada, mas também nos adultos.

O diretor Michael Lembeck consegue extrair boas atuações de seu elenco, criando sequências bastante divertidas. Os diálogos são bem trabalhados e as piadas funcionam. De quebra, uma participação especial de Julie Andrews no papel da chefe das fadas.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

#3 - Assalto ao trem blindado (Quel maledetto treno blindato), de Enzo Castellari


O cinema de Quentin Tarantino sempre foi recheado de referências à gêneros, cineastas e correntes das mais diversas. Seu último grande sucesso de bilheteria, o arrebatador Bastardos Inglórios tem um pé num filme italiano de 1978 chamado, no original, Quel maledetto treno blindato - que por aqui ficou conhecido como Assalto ao trem blindado. Em inglês, ganhou o nome de Inglorious Bastards, que difere do título de Tarantino por uma letra e. Dirigido por Enzo Castellari, um dos grandes nomes do exploitation italiano, o roteiro faz graça da Segunda Guerra Mundial, transformando militares amorais em heróis.

Tudo começa na França, quando um caminhão repleto de desertores estadunidenses, afastados do exército aliado por mau comportamento, sofre uma emboscada das tropas nazistas. Um grupo de cinco deles, com habilidades bem distintas, consegue fugir. Porém, são confundidos com os integrantes de um esquadrão de elite que deve interceptar um trem que transporta uma potente arma de guerra. Obviamente, os cinco homens têm seus métodos nada convencionais para resolver os problemas.

Castellari trabalha muito bem os personagens e constrói boas sequências. Bo Svenson, protagonista metido a galã dos Bastards italiano, também está no elenco dos Basterds de Tarantino. Assalto ao trem blindado mais parece um spaghetti bélico, com direito a frases de efeito, explosões e pitadas de sarcasmo. Porém, o mais bacana é ver uma tropa de estadunidenses falando... italiano! Até mesmo quando são perguntados se falam inglês, o que se escuta como resposta é o italiano. Bem divertido!

Mais uma vez, Tarantino bebeu em fontes da melhor qualidade!

sexta-feira, janeiro 15, 2010

#2 - Forbidden Zone, de Richard Elfman


Já nos primeiros e caóticos minutos de Forbidden Zone, dá para perceber que estamos diante de uma obra incomum. É estranho, divertido, bizarro e estiloso. Completamente diferente de tudo que já havia sido produzido até então - estamos falando do ano de 1982. Quem escreveu e dirigiu o filme foi a mente fértil de Richard Elfman. Prestou atenção no sobrenome? Mais à frente retomaremos o assunto.

Sente a viagem: o filme conta a absurda história de uma família bizarra que se muda para uma misteriosa casa em Venice, na California. Lá dentro, acredita-se haver uma porta que leva à sexta dimensão. Quando a jovem Frenchy desaparece, a família vai toda atrás dela. E aí, o que se vê é um musical nonsense repleto de cenas insólitas e diálogos, no mínimo, esquisitos - do tipo:

"Te encontro depois! Vou trocar o meu Tampax."

A estética de Forbidden Zone é fantástica! Todos os cenários lembram os cartoons da década de 50. As interpretações são exageradas, como pede o roteiro, com marcações teatrais. Não há qualquer tipo de rigor dramático, o que colabora para tornar tudo ainda mais divertido. Animações gráficas e em stop motion complementam as piadas. Tudo em preto e branco!

O mais bacana, no entanto, é a trilha sonora. Os números musicais são o ponto forte do filme. Lembra do sobrenome? Elfman. Pois Richard é irmão de ninguém menos que Danny Elfman. Aqui, o premiado músico não só assina a primeira trilha sonora para cinema da carreira, como se apresenta, no papel de um diabo, ao lado de sua então recém-criada banda, The Mystic Knights Of The Oingo Boingo. Forbidden Zone ainda conta com a hilária participação de Hervé Villechaize, o Tattoo do antigo seriado Ilha da Fantasia.

Há poucos anos lançaram uma versão colorida digitalmente, autorizada por Richard Elfman. Inclusive, a ideia inicial era que os fotogramas fossem coloridos na China, mas faltou dinheiro para isso e o fime foi lançado em p&b mesmo.

Uma experiência cinematográfica muito louca!

domingo, janeiro 03, 2010

#1 - Trinta anos esta noite (Le feu follet), de Louis Malle


O que mais impressiona nos filmes de Louis Malle é a atemporalidade que sua direção proporciona. Por isso mesmo, suas obras são uma forte referência do cinema francês. Trinta anos esta noite vem reforçar a habilidade do diretor na arte de montar e contar boas histórias. Elenco, fotografia, trilha sonora - tudo com a classe, o charme e o rigor do bom cinema.

O roteiro fala sobre um homem que se interna para tratar o alcoolismo e as tendências suicidas. Ao receber alta dos médicos, volta ao convívio social. Porém, precisa se adequar novamente à sociedade, lutando para vencer uma melancolia implacável. Maurice Ronet, um dos atores preferidos de Malle, brilha no papel principal.

Outro destaque é a trilha sonora. Se em Ascensor para o cadafalso Malle conseguiu dar dramaticidade à trama com a música de Miles Davis, aqui ele faz com que o som novamente entre em perfeita sintonia com a imagem. Belíssimos concertos para piano de Erik Satie, um dos expoentes do minimalismo, colaboram para fortalecer o clima de desolação que permeia todo o filme - fotografado, acertadamente, em preto e branco.

Cada vez mais fico boquiaberto com os filmes de Louis Malle!