sexta-feira, dezembro 31, 2010

#102 - Exit Through the Gift Shop, de Banksy


Para quem não o conhece, Banksy é simplesmente genial! Um dos maiores nomes do que se convencionou chamar de street art. Suas obras, nada convencionais, são apreciadas no mundo inteiro. Sua ousadia também. E a sua identidade é secreta. Por isso, antes mesmo de falar sobre Exit Through the Gift Shop, indico uma passada no site do cara, aqui.

O filme é um documentário que conta como a arte das ruas pode ganhar as galerias de arte, perdendo uma força contestadora em nome da mercantilização. Mais ainda: mostra como Banksy criou um monstrinho, Mr. Brainwash. Tudo tem início quando um cinegrafista, Thierry Guetta, decide fazer um filme sobre os grafiteiros. Correndo atrás de entrevistas com os artistas, ele tem em Banksy a sua grande estrela. Obcecado por imagens, registra tudo com a sua câmera. Porém, na hora de montar o documentário, o resultado não é satisfatório. Banksy, então, o aconselha a abandonar a câmera e fazer, ele mesmo, street art. Eis que surge o Mr. Brainwash.

Em pouco tempo, Guetta reúne a imprensa ao seu redor, se tornando um artista badalado e milionário. O valor artístico de suas obras, inevitavelmente, é contestado. Com Exit Through the Gift Shop, Banksy não quer discutir exatamente o comportamento do Mr. Brainwash, mas sim apresentar uma espécie de problema paradoxal: a arte de rua confinada em espaços fechados.

O filme contém boa parte das intervenções de Banksy, além de apresentar uma penca de novos artistas de rua com trabalhos incríveis. Por isso, é bem mais do que um doc problematizando a questão da obra de arte. E, por isso, vai interessar a diferentes tipos de público.

#101 - Policiais suecos (Kopps), de Josef Fares


O título pode fazer com que muita gente pense se tratar de um pornô gay, mas não é nada disso. Eu vi Policiais suecos no Festival Internacional do Rio de 2003, numa sessão com pouco mais de 7 pessoas. Convenhamos: a tradução de Kopps (no original), não ajuda. Apesar da despretensão, trata-se de uma comédia bem bacana, leve, que aproveita para tirar um sarro das produções hollywoodianas.

A história se passa em uma pequena cidade sueca na qual o índice de criminalidade é praticamente zero. Por isso, os policiais locais não tem muito trabalho, a não corriqueirices como resgatar gatos de cima das árvores. Com a chegada de uma inspetora federal, contratada para calcular se é viável manter o posto policial funcionando, os homens da lei precisam mostrar serviço. Por isso, começam, eles mesmos, a cometer pequenos delitos.

O elenco é bacana, os diálogos são bons e o humor é um pouco diferente do convencional. Destaque para as cenas de Torkel Petersson, que interpreta um policial com fantasias de ser como os tiras de filmes estadunidenses. O desfecho, quando parece que vai ser enfadonho, traz uma surpresa bastante divertida.

Difícil de achar, mas vale a pena procurar!

#100 - As diabólicas (Les diaboliques), de Henri-Georges Clouzot


Clouzot foi um dos grandes diretores do cinema francês, na vanguarda de um cinema contemporâneo, com linguagem apurada. Considerada uma das grandes obras de suspense da história do cinema, sem exagero algum, As diabólicas é um exercício cinematográfico único. Lançado em 1955, o filme prende o espectador na poltrona do início ao fim, com reviravoltas brilhantes.

O roteiro é sensacional! Uma mulher infeliz no casamento planeja a morte de seu marido, um perverso e cruel professor. Para levar o plano a cabo, tem a ajuda de uma secretária. Após envenenar o sujeito, as duas jogam o corpo dentro de uma piscina imunda, de águas turvas, na tentativa de simular um afogamento. Porém, ao esvaziarem a piscina, o corpo não está mais lá. Está dado o ensejo para uma história incrível que mistura suspense e terror de forma bastante original, com um desfecho genial.

É uma das grandes obras do suspense - pau a pau com Psicose. Inclusive, um fato curioso: Clouzot comprou os direitos da obra que deu origem ao filme horas antes de Hitchcock.

#99 - A fita branca (Das weisse Band), de Michael Haneke


Para melhorar o nível do pacotão de resenhas de fim de ano, um excelente filme. Demorei um bocado para conferir A fita branca, e acredito que deveria ter feito isso no cinema - e não em casa. A palma de ouro em Cannes 2009 ficou em boas mãos.

A imersão que o excelente roteiro proporciona é uma experiência arrebatadora. A fotografia em preto e branco, cuidadosamente pensada, enche os olhos. Os planos são bem estruturados e os diálogos vão, paulatinamente, funcionando como um artifício para trazer à tona uma história perversa, que tem como foco os efeitos da rigidez paterna sob crianças em fase de formação do caráter.

O roteiro mostra uma pequena comunidade agrícola, no norte da Alemanha, que começa a enfrentar uma sequência de misteriosos atos de violência. O narrador, um jovem professor, busca pistas que esclareçam e expliquem tamanha maldade em um local aparentemente pacato.

Li muitos artigos afirmando que Haneke traçava, então, uma história sobre a gênese do nazismo. No entanto, não consigo enxergar nenhum paralelo possível com isso, a não ser pelo fato da história se passar momentos antes da eclosão de uma guerra mundial. O roteiro de Haneke vai muito além: esmiúça a maldade latente que existe no ser humano, e que pode ser transmitida de geração para geração. Por isso, A fita branca é um estudo da condição humana.

Filmaço.

#98 - Sherman's way, de Craig M. Saavedra


Taí um típico filme de avião. Só assisti a Sherman's way porque era a única opção que parecia mais ou menos interessante durante o voo de volta de Buenos Aires. Para falar a verdade, eu nem me lembro direito do filme. Em primeiro lugar, porque já faz tempo que o assisti. Depois, porque a história é tão ruim, que não vale a pena gastar neurônio guardando os detalhes.

Pelo que me lembro, trata-se de uma daquelas tramas na qual um almofadinha fresco vira homem de verdade. O protagonista é um jovem abastado, filho de uma importante diplomata, que leva um pé na bunda da namorada. Desamparado, acaba pegando carona com um sujeito mais velho, com idade para ser a figura paterna que ele não teve. Os dois começam a desenvolver uma relação afetiva e tals... O moleque conhece uma menina que é um piteuzinho (Brooke Nevin, que, diga-se de passagem, é a única coisa interessante do filme) e se envolve com ela também.

E é isso, né? Ajudou a passar o tempo. Mais alguma coisa? Não... O filme é de 2008. Acho que nunca vai ser lançado por aqui. Só em avião mesmo. E nem vai fazer falta.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

#97 - Thriller - a cruel picture, de Bo Arne Vibenius


Nos exploitations, vingadoras de tapa-olhos são a coisa mais sexy do mundo. Para citar duas delas, das mais recentes: a Elle Driver (Daryl Hannah) de Kill Bill e a She (Michelle Rodriguez) de Machete. Porém, todas elas prestam uma singela homenagem à primeira moçoila curvilínea que teve o olho arrancado na tela grande, a pobre Frigga (Christina Lindberg), também conhecida como One Eye, de Thriller - a cruel picture. Que é um filme muito cruel, de verdade.

O roteiro conta a história desta moça que é abusada quando criança por um velho babão. Por conta do trauma, acaba ficando muda. Anos mais tarde, ao pegar uma carona para a cidade, é sequestrada por um inescrupuloso cafetão. O sujeito, que a mantém em cárcere, a vicia em heroína. Par asustentar o vício, a moça tem que se prostituir, sofrendo todo o tipo de humilhação. Chega a ter o olho arrancado por não querer cumprir ordens. Porém, aos poucos, ela vai se capitalizando para ir à forra.

As cenas de ação de Thriller ficaram conhecidas no mundo todo. Tiros, quedas, socos e pontapés são filmados em câmera muito lenta. No entanto, foram os detalhes por trás das câmeras que fizeram com que o filme se tornasse um clássico. Por exemplo: para filmar a cena em que o olho de Frigga é arrancado, foi usado um cadáver de verdade, fresquinho, que acabara de dar entrada em uma funerária. As cenas de Frigga se drogando são bastante pesadas. A atriz injetava uma mistura de sal e água.

Por tudo isso, vale a pena! Ainda mais se você for um fã do gênero.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

#96 - Tetro, de Francis Ford Coppola


Não há dúvidas: Tetro é um filmaço. E olha que a sessão tinha tudo para desviar a minha atenção. É que conferi o novo trabalho do mestre Coppola na primeira sala vip da cidade, no Rio Design Barra. Até publiquei um artigo sobre a experiência no meu blog no SRZD, aqui. Poltronas reclináveis, amplo espaço, serviço de bar e conforto até demais. Um convite ao sono quando a exibição for mais ou menos. Não foi o caso.

Coppola retoma um tema familiar para contar a história de um jovem ajudante de cozinha que desembarca em Buenos Aires à procura de seu irmão mais velho, que abandonou a família e lhe deixou apenas um bilhete assegurando que voltaria para buscá-lo. O reencontro é conturbado, e a convivência entre os dois vai revelando detalhes obscuros sobre a história da família.

Tetro é uma verdadeira aula de roteiro! A maneira como Coppola costura a trama, deixando com que as feridas sejam expostas vagarosamente, é simplesmente espetacular. A assinatura do realizador se faz sentir nos detalhes técnicos e estéticos. A fotografia, em preto e branco com flashbacks em cores, salta aos olhos. O elenco é fantástico, com Vincent Gallo roubando a cena no papel do irmão mais velho que dá nome ao título do filme - e roubando também a escalação, já que o papel, inicialmente, seria de Matt Dillon, que trabalhou com Coppola em O Selvagem da motocicleta, outro filme com temática familiar.

O bom e velho Coppola. Em plena forma. Não há como desviar o olhar da tela.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

#95 - Amor sob contrato (The Joneses), de Derrick Borte


Às vésperas da ceia de Natal, capaz das salas ficarem vazias. Porém, o circuito ganha hoje alguns filmes de presente. E uma das produções que entra em cartaz mais se parece com aquela cueca esquisita que a sua tia avó, pobrezinha, insiste em lhe dar todo o ano. A bomba, ou melhor, a cueca, é Amor sob contrato, que é mais uma tentativa de autocrítica estadunidense que fica na superficialidade. Chato demais. Abaixo, o que escrevi sobre o filme no Jornal do Brasil.

Amor sob contrato é mais uma daquelas produções estadunidenses cujo argumento tem como objetivo criticar a sociedade de consumo – mas nem tanto. O roteiro conta a história de uma família aparentemente perfeita, os Jones: o pai Steve (David Duchovny), sua esposa Kate (Demi Moore) e o casal de filhos, Jenn (Amber Heard) e Mick (Ben Hollingsworth). Eles são contratados por grandes marcas para usar produtos e convencer os vizinhos a comprar o estilo de vida que apregoam com afinco. No entanto, a farsa começa a ruir quando os Jones vão se envolvendo em pequenos e corriqueiros contratempos.

O quarteto de atores pode até enganar os incautos vizinhos ao longo da projeção, mas não convence o espectador em momento algum. Amor sob contrato é tão artificial, que não engrena. Os conflitos são rasos, a trilha sonora é cafona, os diálogos são pobres, o roteiro é previsível e os atores são péssimos. Pior do que isso, não há qualquer tipo de profundidade na crítica que o argumento propõe. Chega a ser constrangedor ver o personagem de Duchovny tentando dar lição de moral aos pobres e coitados estadunidenses que crêem no crédito e no consumo como uma espécie de escapismo.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

#94 - Tron - O legado (Tron legacy), de Joseph Kosinski


Hoje entra em cartaz no circuitão a continuação do clássico de sci-fi da década de 80, Tron - O legado. Como a maioria dos filmes em três dimensões, o visual é fantástico e o roteiro é um lixo. O ponto extra é a trilha sonora do Daft Punk, maravilhosa. Escrevi um artigo lá no meu blog no portal SRZD e hoje saiu na versão online do JB a minha crítica. É ela que eu compartilho com vocês, logo abaixo.

O impacto de Tron – Uma odisséia eletrônica em 1982 foi fenomenal. Em plena revolução dos games, o filme colocava em questão a existência humana perante a evolução inimaginável da subsequente era digital. O visual futurista contribuía para contar a história de Kevyn Flynn (Jeff Bridges), um sujeito que ficava preso no mundo dos jogos eletrônicos. Décadas depois, Tron – O legado busca acrescentar alta tecnologia em efeitos especiais e imagens tridimensionais para reforçar os conceitos cibernéticos que fizeram tanto sucesso na produção da década de 80. Agora, o herdeiro de Flynn (Garrett Hedlund) atravessa a fronteira entre o real e o virtual para reencontrar o pai (o bom e velho Bridges, rejuvenescido pela computação gráfica no papel do vilão Clu), desaparecido misteriosamente 20 anos atrás.

Visualmente, Tron – O legado é realmente incrível. Cenários, figurinos e direção de arte enchem os olhos. A profundidade das imagens em 3D ajuda na imersão. A trilha sonora, a cargo da dupla Daft Punk, é absolutamente certeira e imprescindível. Porém, assim como acontece com a maioria das produções em três dimensões, falta – e muito - roteiro. O argumento já não parece mais tão impactante, e perde ainda mais volume com um punhado de cenas demasiadamente romanescas e previsíveis, em total desarmonia com as bem elaboradas seqüências de ação. Visual: 10. Roteiro: 3. Média: 6,5. Passou!

sexta-feira, dezembro 03, 2010

#93 - O garoto de Liverpool (Nowhere boy), de Sam Taylor-Wood


O mais bacana em O garoto de Liverpool, filme sobre o final da adolescência de John Lennon, é justamente a trilha sonora. E, por incrível que pareça, não há nenhuma música dos Beatles durante a hora e meia de projeção. Aliás, o roteiro se debruça muito mais sobre as questões pessoais do jovem promissor. Inclusive, o filme para quando os três pilares principais do quarteto - John, Paul e George - começam a fazer as primeiras apresentações juntos.

Aaron Johnson, que interpreta o protagonista, dá uma pinta de galã a John, enquanto o mal ajambrado Thomas Brodie-Sangster, que até ontem era um moleque, faz o papel de Paul. A direção de arte é bastante caprichada, abientando perfeitamente o espectador para no que mais tarde seria uma pequena revolução no mundo da música. Por isso, todas as sequências ganham um gosto especial. A cena na qual John conhece Paul é impagável!

O único porém de O garoto de Liverpool é uma certa dose de melodrama que, vez em quando, toma de assalto a tela. Nada que comprometa o resultado final.

#92 - Abutre (Carancho), de Pablo Trapero


Enquanto o representante brasileiro a uma vaga para a disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro é o fraco Lula, o filho do Brasil, os argentinos selecionaram uma produção que deixa a gente no chinelo, de novo. Abutre estreia hoje no circuitão e promete tirar os espectadores daquela zona de conforto. É cinema pesado, contundente, bem feito e bem acabado. Escrevi uma crítica para o Jornal do Brasil. Como de praxe, compartilho a mesma com vocês.

Assistir a Abutre, concorrente argentino à vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é uma experiência que, para muitos, pode ser incômoda. O cartaz, que traz o título manchado por um vermelho desbotado e desvanecido, já prepara o cenário para um argumento perturbador. O roteiro conta a história de um advogado que aborda vítimas de acidentes automobilísticos para mover ações indenizatórias. Porém, o esquema sujo dos processos, que mantém uma indústria milionária, começa a ser questionado quando ele se envolve com uma jovem médica idealista, que dá plantão em um dos hospitais onde a máfia dos “carcarás”, como são conhecidos, espreita os pacientes e seus familiares.

O choque entre os personagens, que produz traumas profundos na maneira de lidar com a dura realidade a que são expostos, acaba se tornando uma espécie de justificativa para a argumentação do filme, que usa o sofrimento causado pelas violentas colisões de trânsito como fio condutor de uma crítica de ordem moral. Restam apenas escombros, humanos e automotivos. Por isso, o que se vê na tela são litros de sangue, muitos hematomas e inúmeros acidentes de trânsito – tudo muito bem cerzido e montado com precisão cirúrgica pelo realizador Pablo Trapero. No elenco, o badalado e competente Ricardo Darín faz par com Martina Gusman, mulher do diretor. O desfecho é particularmente surpreendente.

#91 - A rede social (The social network), de David Fincher


Quem me segue no Twitter já ficou sabendo, então nem é tão novidade assim: agora eu tenho um blog sobre cultura no portal SRZD, do jornalista Sidney Rezende - um dos poucos profissionais da minha área que eu realmente admiro. Bacana, né? Sempre que eu publicar uma resenha por lá, vou redirecioná-la para cá.

A primeira delas foi uma das estreias de hoje no circuitão, o tão comentado filme de David Fincher sobre o Facebook, A rede social. Também escrevi a crítica para o Jornal do Brasil, mas como estou inclinado a divulgar o blog - e também porque em breve vou postar outra crítica de outro filme que fiz para o JB -, aí vai o link para vocês lerem e serem apresentados ao meu mais novo espaço na web para discultir cultura!

Mãos ao mouse: cliquem aqui!

domingo, novembro 28, 2010

#90 - Um homem misterioso (The american), de Anton Corbijn


Eu achava que não curtia filmes de perseguição, repletos de agentes duplos, espiões, armas incríveis, tramas internacionais e todo aquele repertório chupado de James Bond que - por incrível que pareça - ainda entope os cinemas. Quando Um homem misterioso estreou, no entanto, havia um alento: apesar de basear o argumento inteiro nos antigos filmes do gênero, quem dirige a produção é o talentoso holandês Anton Corbijn, responsável por uma pequena obra-prima chamada Control, filme que mostra de forma fidedigna a história de Ian Curtis e seu Joy Division. Finalmente, adorei um filme de perseguição!

George Clooney, em mais um ótimo trabalho, interpreta um assassino profissional estadunidense que precisa se esconder em uma pequena comunidade italiana. Em meio a um serviço e outro, ele tenta manter sua verdadeira identidade em sigilo. Porém, o inevitável envolvimento com os locais desperta uma série de acontecimentos. O desvelamento desses eventos é, justamente, o que faz do roteiro uma experiência bastante interessante.

Tudo em Um homem misterioso é diferente. Ao invés do barulho de explosões, o silêncio das estreitas escadarias de Pescara. Ao invés de cortes ligeiros, tomadas contemplativas (inclusive, com direito a uma referência ao mestre Sergio Leoni, que filmava contemplativamente como poucos). O clima de suspense, que permanece do início ao fim da projeção, é todo regido por pequenos detalhes. Corbijn trabalha com a imprevisibilidade de forma absolutamente brilhante.

Eu curto, e muito, os filmes de Anton Corbijn.

domingo, novembro 21, 2010

#89- Moscou, Bélgica (Moscow, Belgium), de Christophe Van Rompaey


Estreou na última sexta-feira, no circuitão caorioca, um filme bem bacana, vindo de um país que não tem uma produção audiovisial profícua e bem distribuída, a Bélgica. Pois Moscou, Bélgica é uma grata surpresa - em grande parte, por tratar com leveza um tema espinhoso. Rapidamente, o filme ganha a empatia do público, graças ao roteiro e, principalmente, ao elenco.

Nada de muito novo: mulher de 41 anos recém-abandonada pelo marido, que a trocou por uma jovem de 22, abre mão de sua vaidade para cuidar dos três filhos. Um dia, ao sair do supermercado, bate o carro no caminhão de um motorista dez anos mais novo. O que começa como uma áspera discussão de trânsito acaba se transformando numa delicada relação. O argumento de Moscou, Bélgica vai traçando o perfil dessa mulher contemporânea, pós-balzaquiana, que desaprendeu a se amar e perdeu, por conseguinte, a capacidade de amar alguém.

Palmas e mais palmas para o casal protagonista, Barbara Sarafian e Jurgen Delnaet, irretocáveis. Na verdade, o filme é vendido como uma comédia, mas a atuação dos dois é tão complexa e cheia de texturas, que o tom de dramaticidade se mantém elevado, ainda que nunca caia no melodrama.

Um filme peculiar sobre uma questão corriqueira.

terça-feira, novembro 09, 2010

#88 - Scott Pilgrim contra o mundo (Scott Pilgrim vc the world), de Edgar Wright


Não há dúvida que Scott Pilgrim contra o mundo vai ser considerado um filme segmentado, produzido para um determinado tipo de espectador, a saber: adolescentes recém-saídos da puberdade e adultos com um dos pés arraigados nas memórias da infância. Normal, né? A adaptação cinematográfica dos quadrinhos criados por Bryan Lee O'Malley tem uma linguagem completamente diferente do que está em cartaz por aí. Vou mais além e digo-lhes que se trata de uma experimentação cinematográfica levada ao extremo, tendo como base as HQs e o videogame.

Edição super veloz (veloz mesmo, camarada), cortes temporais secos e diálogos muito rápidos parecem ser o norte de Scott Pilgrim contra o mundo. Muita gente vai dizer por aí que isso é reflexo da instantaneidade da informação. E, de certa forma, estão certos. Num primeiro momento, nós, balzaquianos, temos a amarga impressão de que o filme não foi feito para a nossa geração. Se ficamos boquiabertos com a agilidade do novo cinema britânico, com a montagem impetuosa de Trainspotting, ou a edição sagaz de Snatch, o filme de Edgar Wright pode nos deixar essa sensação de senilidade latente.

Porém, nada disso atrapalha a fruição. O bacana é que Scott Pilgrim contra o mundo tem um roteiro bem amarrado e interessane. Conta a história deste jovem que dá nome ao título, baixista de uma banda de garagem chamada Sex Bob-OMB, que se apaixona por uma entregadora de pacotes da Amazon, a descolada moça de cabelos tingidos Ramona Flowers. Porém, para que a união se eternize, o pobre rapaz precisa enfrentar uma malvada liga de sete ex-namorados do mal.

O casal protagonista é formado pela ótima Mary Elizabeth Winstead e pelo - já há algum tempo - novo queridinho da tela grande, o carismático Michael Cera. O resto do elenco não deixa a peteca cair e dá conta do recado. Destaque para a participação especial de Jason Schwartzman, irretocável!

Vale um parágrafo para a trilha sonora, espetacular! Tanto as músicas do Sex Bob-OMB, quanto as canções de fundo, são todas extremamente bem selecionadas. Tem gente muito boa por ali, como Beck (que assina as músicas da banda fictícia), Frank Black, Metric e Broken Social Scene.

Lamentavelmente, o filme parece ter estreado somente no circuito paulista (é isso mesmo, amigos da Terra da Garoa?). O resto do país vai ter que aguardar sabe-se lá quanto tempo. E, depois, os estúdios têm medo do fantasma da pirataria...

sexta-feira, novembro 05, 2010

#87 - Ondine, de Neil Jordan


Tá parecendo mesmo que só há atualização por aqui na sexta-feira... Enfim, vamos ao que interessa. Mais uma estreia bacana no circuito. O novo filme de Neil Jordan, Ondine, tem um roteiro intrigante e bastante inteligente quando comparado à mesmice que assola a indústria cinematográfica hollywoodiana. Adianto aqui que vale o confere. O elenco dá um show à parte. Confira a resenha que escrevi para o Jornal do Brasil, logo abaixo.

O ponto de partida de Ondine, novo trabalho do diretor irlandês Neil Jordan, é bastante interessante: um solitário pescador se depara, inexplicavelmente, com uma misteriosa mulher embaraçada em sua rede de pesca, em pleno mar aberto. A partir daí, tem início uma espécie de fábula que mistura o mito das selkies (focas que, ao retirarem suas peles, se tornam mulheres) com os enredos comuns aos contos romanescos. Aos poucos, Syracuse (Colin Farrell, num de seus melhores papeis) começa a se envolver com Ondine (a bela e sensual Alicja Bachleda), acreditando que ela pode, de fato, ser uma sereia – teoria encampada por sua filha, Anny (a surpreendente Alison Barry).

O capricho estético do filme, com uma fotografia densa e escura, ajuda a contar a história, que tem seus traços melancólicos sublinhados. A trilha sonora ajuda. Ambientado na Irlanda, a direção de arte tira proveito das águas acinzentadas e do horizonte carregado de nuvens pesadas para contextualizar uma história de amor conflitante, que deixa a dúvida no espectador até os momentos finais. Por isso, Ondine é um filme que pode agradar a quem não aguenta mais a mesmice das histórias de amor que andam sendo escritas pelos roteiristas hollywoodianos.

terça-feira, novembro 02, 2010

#86 - Tropa de Elite 2, de José Padilha


Fui assistir ao mais comentado filme da temporada, Tropa de Elite 2, como há muito tempo não fazia: ao lado de minha esposa, em pleno feriado, num cinema de shopping center, pagando ingresso e enfrentando uma fila quilométrica. Cerca de meia hora de anúncios e trailers depois, eu era mais um na conta dos mais de 6 milhões, segundo anúncio de TV, a conferir o trabalho de José Padilha que não foi parar nos camelôs ou na internet antes mesmo de seu lançamento.

Muito me foi dito sobre o filme, e só ouvi comentários positivos. Para dizer a verdade, ouvi uma penca de testemunhos esfuziantes, entusiasmados, arrebatados. Eu aguardava, principalmente, mais um excelente trabalho de um dos melhores - se não o melhor – roteiristas do país, Bráulio Mantovani. Quase duas horas depois do início da sessão, saí meio confuso da sala de projeção. Tropa de Elite 2 é um bom filme, sem dúvida. Porém, a verdade é que eu não fiquei tão empolgado quanto eu imaginava que ficaria.

Na síntese, o segundo filme da franquia funciona como uma espécie de mea culpa do diretor, que viu, no primeiro longa, um personagem de discurso fascista ganhar os corações da massa brasileira. Capitão Nascimento foi endeusado por uma grande parcela da população, cegamente levada a ovacionar métodos nada respeitáveis de conduta por parte de uma instituição que deveria zelar pela integridade dessa própria sociedade. Era o tal do estrabismo social fascistoide se espalhando feito epidemia. Wagner Moura foi parar em capas de revistas sob legendas de herói. Um website especializado em roupas infantis vendeu fantasias de policial do Bope. Ainda que a todo momento o roteiro reiterasse as imperfeições de Nascimento, o que se viu foi o endeusamento cego daquilo que deveria, justamente, ser questionado.

O roteiro de Tropa de Elite 2 chega a tratar o assunto de forma literal, quase irritantemente didática, para que dessa vez não haja interpretações equivocadas: é o próprio Coronel Nascimento, o mesmo que punha saco de plástico na cabeça das pessoas e acharcava quem quer que fosse para conseguir o que queria, que assume, como narrador da história, que errou. Sim, o inimigo mudou: no lugar dos traficantes e seus arsenais de guerra, os milicianos e sua influência política. Só que, desta vez, parece que Padilha quis se precaver para que seu argumento não desse brecha a interpretações obtusas. Será que foi isso mesmo?

Há que se ter cuidado, Padilha. Pela fala do protagonista, narrada em off, a mesma esquerda que é chacoteada no início do filme, cujas piadas rendem boas risadas na plateia, é aquela que se torna aliada no final. Os direitos humanos que são duramente criticados lá no início do filme, são valorizados no final. Talvez daí venha a minha principal crítica ao trabalho de Mantovani. É num filme como esse, no qual a palavra tem muito mais força do que a ação filmada, que os diálogos devem ser bem trabalhados, que a narração deve ser protagonista, que o texto deve funcionar com muito mais pungência.

Cinematograficamente falando, o filme é impecável. Da montagem à edição, perfeito. A direção de atores é precisa, com o elenco rendendo o esperado: grandes atores em papeis bem desenvolvidos. O roteiro cria bons climas de suspense e ação, ainda que assuma uma postura mais reflexiva do que imediatista - apesar do momento Charles Bronson do Coronel Nascimento.

Ao final da sessão, os espectadores discutiam o tema. Isso é uma conquista valorosa a um filme cujo argumento flerta com a realidade. Por isso, ouso aqui dizer que assistir a Tropa de Elite 2, para quem sente a necessidade de debater o Rio de Janeiro, é quase que uma lição cívica. Quase. Eu saí daquela sala de projeção convencido de que minhas escolhas políticas sempre foram coerentes com a minha visão do que é o melhor para a Cidade Maravilhada.

sexta-feira, outubro 29, 2010

#85 - Sentimento de culpa (Please give), de Nicole Holofcener


Até parece que só há novidades aqui na sexta-feira, não é? Pois então, hoje é dia de estreia e crítica no Jornal do Brasil. O filme resenhado foi Sentimento de culpa, uma comédia dramática bem fraca, mas com um elenco que podia dar um caldo. Eu achei o filme regular, apesar da cotação no jornal ter saído errada: estão lá duas estrelas... Enfim, vamos ao texto.

Pelo título, Sentimento de culpa (Pelase give, no original) pode gerar interpretações prévias equivocadas quanto ao seu gênero. Não se trata de um dramalhão pesado, mas sim de um drama com contornos cômicos que dão à trama uma certa leveza. O roteiro conta a história de um casal novaiorquino que pretende comprar o apartamento da vizinha - uma senhora de idade ranzinza e rabugenta - para ampliar o seu imóvel. À espera do passamento da moradora ao lado, precisam lidar com questões pessoais, como os problemas com a filha adolescente, a monotonia do casamento e a ética nos negócios.

Se o argumento não é dos mais interessantes, e se a fórmula para emocionar o espectador, paulatinamente, não tem lá seus efeitos reverberados, o destaque de Sentimento de culpa fica, indubitavelmente, com o elenco. As interpretações conseguem manter o espectador imerso, em grande parte pelo carisma dos atores. Rebecca Hall, Amanda Peet, Catherine Keener e Oliver Platt fazem um excelente trabalho. Uma pena que o roteiro, bastante morno, não dê brecha para que possam ir um pouco além.

sexta-feira, outubro 22, 2010

#84 - Piranha 3D, de Alexandre Aja


Hoje estreou no circuitão mais um remake em três dimensões: Piranha! Trata-se de um filme onde, basicamente, vê-se um desfile de mulheres desnudas, mas com alguma parte do corpo faltando - em decorrência do apetite voraz dos peixes do mal. Valeu para fortalecer a minha crença de que o 3D só tem graça quando é possível extrapolar os limites físicos. Ou seja, não funciona com atores de carne e osso em cenários realistas. Escrevi uma resenha para o Jornal do Brasil, a qual compartilho com vocês, caríssimos leitores, logo abaixo.

Há mais de 30 anos, espectadores do mundo inteiro deixavam as salas de cinema com medo de tomar banho de mar. O Piranha original, de 1978, era uma produção de baixo orçamento, filmada em menos de um mês e que usava bonecos de borracha colados em palitos de madeira para dar movimento aos temidos peixes sedentos por carne humana. Agora, em 2010, nem mesmo toda a parafernália tecnológica disponível parece ser capaz de provocar arrepios na plateia. Seguindo a onda de remakes tridimensionais, o máximo que Piranha 3D consegue é um susto aqui e outro acolá. Só isso.

O roteiro é tão estapafúrdio, que chega a ser constrangedor. Tudo começa quando um terremoto no fundo do mar abre uma fenda nas rochas. Através dela, piranhas pré-históricas retornam à superfície, colocando os banhistas de uma estância litorânea em risco. A história se concentra na figura de um garoto, tímido e sem jeito com as mulheres, que acaba aceitando ser o cicerone de uma equipe que alugou uma lancha para fazer vídeos pornográficos nas praias da região.

Na verdade, o filme pouco ganha com os efeitos visuais em três dimensões. O que se vê na tela grande são jovens drogados, loucos e promíscuos sendo, de certa forma, punidos pela natureza: seus corpos são destroçados, tridimensionalmente, pelos dentes das piranhas. Nada escapa: seios fartos, pernas torneadas, bundas bronzeadas etc. Um saco.

quinta-feira, outubro 21, 2010

#83 - Alguém tem que ceder (Something's gotta give), de Nancy Meyers


Eu amo minha mãe. Escuto todos os conselhos dela e levo muito a sério as opiniões que ela tem a respeito de vários assuntos. Somos até parecidos: além da cor dos olhos, temos o mesmo temperamento. Porém, se tem uma coisa na qual a gente não combina, é no gosto cinematográfico - como toda a regra tem uma exceção, talvez Almodóvar seja a nossa. Fato é que, certo dia, minha querida mãe virou-se para minha esposa e perguntou:

"Você nunca viu Alguém tem que ceder?"

Após uma resposta negativa, veio uma espécie de interjeição impositiva:

"Ah, você tem que ver! Vai adorar!"

E lá fui eu atrás do filme. Mesmo sabendo, lá no fundo, que as chances de minha cônjuge não gostar do dito cujo eram enormes. E não deu outra...

Não adianta ter Jack Nicholson no elenco se ele faz par romântico com uma das atrizes mais chatas e insossas da história do cinema, a péssima Diane Keaton. Também não é possível levar a sério um roteiro no qual o velho Nic troca uma ninfeta jeitosa pela irritante, feia e desinteressante mãe dela.

O filme conta a história desse empresário cinquentão que tem um enfarte minutos antes de copular com sua jovem namorada. Internado às pressas, ele acaba passando uma temporada na casa de praia da amada, onde precisa viver debaixo do mesmo teto da mãe dela, que mais parece um cliché ambulante: uma dramaturga bem sucedida em processo de criação. Inicialmente, obviamente, o casal enfrenta atritos constantes. Mais tarde, acabam se aproximando. E, mais adiante um pouco, a velha fórmula dos romances cômicos é levada a cabo.

O pior de Alguém tem que ceder é ter que aguentar Diane Keaton e suas caras e bocas. A única coisa boa do filme é ver Frances McDormand atuando. Uma aula de interpretação, mesmo em um papel secundário e quase sem destaque. Fosse ela a protagonista, o argumento faria sentido.

Previsível, monótono e maçante.

domingo, outubro 17, 2010

#82 - King's road (Kóngavegur), de Valdís Óskarsdóttir






Ai ai ai... Blog completamente desatualizado. Culpa do dia que tem somente 24 horas. Muita coisa acontecendo, poucas novidades de fato. Resultado de tudo isso: vi somente quatro filmes durante as duas semanas de festival internacional - ok, na última semana eu passei quatro dias viajando. Fecho com "chave de ferro" as resenhas do evento. King's road é muito, mas muito ruim!

Dois fatores foram decisivos para a escolha de assistir ao filme. O primeiro, é que ele vem lá da Islândia, o que aguçou a minha curiosidade: como será que anda a produção cinematográfica na terra da Björk? Depois, o argumento parecia (e só ficou na aparência mesmo) nonsense o suficiente para construir um roteiro interessante. Conta a história de um jovem que, anos após sair de casa, volta da Alemanha para pedir dinheiro emprestado ao pai, pois precisa sanar uma dívida. No entanto, ele encontra seu progenitor morando em um trailer, cercado por seres esquisitos. Por exemplo, uma velha que tem como bicho de estimação uma foca morta.

Porém, King's road não sai do lugar. O roteiro não flui, os personagens não cativam o espectador e não há nenhum conflito, por mais que haja ensejo, a ser resolvido. Nem mesmo o bom ator Daniel Brühl, que fez o soldado e herói alemão que vira astro de cinema em Bastardos Inglórios, salva o dia.

O filme estava tão ruim, que um casal mais desinibido trocava carícias despudoradas na fileira da frente. E, à medida que a projeção avançava, o patolamento também ia adiante, a ponto das antiquadas poltronas vermelhas de couro do velho Estação Barra Point rangerem diante da pressão que o casal enamorado exercia sobre elas.

Um final de festival melancólico...

quinta-feira, setembro 30, 2010

#81 - Machete, de Robert Rodriguez




Eu tinha escrito aí embaixo que o bacana do festival era dar preferência às produções independentes, que não têm - e a maioria nem vai ter - distribuição garantida no país. Pois hoje eu quebrei o protocolo. Não era para menos: Machete era um dos filmes que eu mais aguardava em tempos. Na verdade, desde o trailer fake em Planeta Terror. Pois Robert Rodriguez volta à velha forma com um filme cujo protagonista tem tudo para se tornar um ícone do exploitation moderno. Machete é entretenimento barato de primeira!

Danny Trejo, o cara com mais pinta de mau da história do cinema, interpreta este ex-tira da polícia mexicana que busca vingança após uma emboscada armada por autoridades estadunidenses inescrupulosas e poderosos narcotraficantes. Porém, como o trailer já alertava, eles não sabiam que estavam mexendo com o mexicano errado... Machete é o tipo do cara que você quer ter ao seu lado em uma briga de bar.

O roteiro é recheado de frases de efeito, pancadarias, litros de sangue, cabeças decepedas e explosões. Ah, sim: e apenas uma cena com tripas que é simplesmente memorável. Inegável que a produção ganhou um acabamento mais caprichado do que aquele apresentado no trailer falso. A boa notícia é que, mesmo assim, Machete não perdeu seu charme de filme B. Inclusive, as tais sequências filmadas antes mesmo da ideia de se fazer o longa são todas usadas.

Vale a pena falar do elenco, que tem um trabalho de caracterização primoroso. Justiça seja feita: a criatividade de Rodriguez na composição dos personagens ajuda bastante. Cheech Marin, Robert De Niro, Jessica Alba, Lindsay Lohan, Steven Seagal - estão todos irretocáveis. Até a esposa do diretor, a jeitosa Michelle Rodriguez, tem uma atuação convincente.

De quebra, Machete ainda aproveita para tirar um sarro da cara dos estadunidenses xenofóbicos. Um dos filmes mais divertidos da temporada, sem dúvida alguma.

Quer ver? Corre que ainda dá tempo!

SÁB 2/10 13:10 e 19:40 Estação Vivo Gávea 5
DOM 3/10 15:45 e 21:45 Estação Botafogo 1
SEG 4/10 14:00 e 19:00 São Luiz 3

terça-feira, setembro 28, 2010

#80 - Um homem um tanto gentil (En ganske snill mann), de Hans Petter Moland




O bacana de um festival internacional é justamente fugir dos filmes mais badalados, que na maioria das vezes têm distribuição garantida, e catar umas produções de origem, digamos, exótica. Por exemplo, a Noruega, o país do bacalhau, terra do dramaturgo Henrik Ibsen. É interessante observar o que o país nórdico anda fazendo em termos de cinema. Um homem um tanto gentil é uma comédia bastante interessante, ainda que muito simples. Talvez a simplicidade seja aqui um trunfo, uma vez que o roteiro tem algo que atualmente anda escasso nas produções milionárias da indústria cinematográfica: criatividade.

Acompanhamos a história de Ulrik, um homem de meia-idade que sai da cadeia após cumprir pena por assassinato. Ele tenta recomeçar a vida trabalhando numa oficina mecânica, mas se vê pressionado pelos velhos colegas de crime a realizar mais um trabalho sujo. Gentil, simpático e atencioso, Ulrik vai repensando a vida à medida em que as pessoas vão cruzando o seu caminho.

Quem interpreta com maestria o protagonista é Stellan Skarsgård, velho conhecido do público mais afeito ao cinema nórdico - trabalhou, por exemplo, com Lars Von Trier em Dançando no escuro e Dogville. O grande barato de Um homem um tanto gentil está na construção dos personagens, todos eles essenciais para a fluidez narrativa. Cada um com sua peculiaridade, por vezes com suas bizarrices. Por isso, o riso surge dos pequenos detalhes, da pantomima, da marcação, dos trejeitos.

É isso que torna uma comédia, de fato, deliciosa. Aprendam com eles, burocratas do cinema!

segunda-feira, setembro 27, 2010

#79 - A oeste de Plutão (À l'ouest de Pluton), de Henry Bernadet e Myriam Verreault




O primeiro filme conferido no Festival Internacional do Rio de 2010 foi uma bela surpresa, totalmente independente, proveniente do Canadá. Mais precisamente de Quebec, província na qual se fala francês ao invés do inglês predominante no país.

O roteiro de A oeste de Plutão conta a histórias destes adolescentes que vivem em um território que parece não ter uma identidade própria. A figura de Plutão, que perdeu o posto de planeta há poucos anos, é usada como um ponto de referência para enquadrar a questão de uma província que se diferencia das demais que compõem o território canadense.

Há uma experimentação bacana em A oeste de Plutão. Os enquadramentos são diferenciados, a trilha sonora é caprichada e os atores parecem ter liberdade para explorar suas falas além do roteiro. Ainda que núcleos diferentes discutam temas distintos, sem lineariedada, o mosaico proposto pelos diretores se mostra bastante nítido.

Bem bacana! Para quem tiver interesse em conferir:

SEG 27/9 13:00 Estação Ipanema 1
SEG 27/9 17:20 Estação Ipanema 1
QUI 30/9 17:40 Estação Vivo Gávea 4

sexta-feira, setembro 24, 2010

#78 - Gente grande (Grown ups), de Dennis Dugan


Entra em cartaz, em meio aos filmes do Festival do Rio, a nova produção de Adam Sandler. Desta vez ele montou um time de humoristas (que no filme formavam um time de basquete quando crianças) para estrelar Gente grande. Trata-se de uma daquelas comédias nas quais os conflitos familiares são resolvidos em um fim de semana numa casa no lago, sabe? Escrevi uma resenha para o Jornal do Brasil. Ei-la logo aí abaixo.

O time de comediantes que estrela Gente grande não é uma unanimidade. O capitão é Adam Sandler, que também assina o roteiro. O escrete é completado por Rob Schneider, Chris Rock, David Spade e Kevin James. O filme mostra o rencontro entre amigos que formavam um time de basquete na infância. Anos mais tarde, por conta da morte do antigo treinador, os cinco voltam à uma casa no lago, onde comemoraram no passado um campeonato, para espalhar as cinzas do treinador. Ao lado de suas famílias, o fim de semana se transforma em uma lição de vida, quase uma terapia de grupo, repleta de altos e baixos. Impossível não comparar o esforço do personagem de Sandler com o de protagonistas de outras produções que também recorreram ao tema, como o Clark Griswold (Chevy Chase) de Férias frustadas ou o Chet Ripley (John Candy) de As grandes férias.

Durante boa parte de Gente grande, os humoristas aproveitam para desfilar um repertório bastante extenso de piadas rápidas, como em um número de comédia em pé. Há algumas sequências divertidas, ainda que politicamente corretas demais. O problema é quando o apelo familiar começa a ganhar contornos dramáticos mais fortes. O filme deixa de ter graça e dá lugar ao típico e enfadonho moralismo hollywoodiano. Das coisas positivas, destaque para a ligeira participação do ótimo Steve Buscemi, que mesmo não sendo um comediante de ofício rouba a cena.

segunda-feira, setembro 20, 2010

#77 - A ressaca (Hot tube time machine), de Steve Pink


A impressão que se tem com A ressaca é a de que o pessoal que traduz os títulos dos filmes para o português anda fumando muito crack. Vejam bem, enquanto The Hangover, que quer dizer "ressaca", virou Se beber, não case, Hot tube time machine, que faz menção a uma banheira que promove viagens no tempo, virou A ressaca. Vai entender... Enfim, a nova comédia encabeçada por John Cusack é até bacaninha (atente para o adjetivo no diminutivo), mas não pelo roteiro em si - e, sim, pelas referências.

O filme conta a história de três amigos de meia idade que, após viverem conflitos pessoais, resolvem voltar a uma estação de esqui onde viveram momentos de diversão selvagem e sexo desregrado quando ainda eram jovens. O sobrinho de um deles, mais novo, também embarca na viagem. E o que eles não esperavam - mas você já sacou antes mesmo de começar a ver o filme - é que a banheira de hidromassagem abrisse um túnel do tempo que os levasse de volta aos anos 80. Acontece que o equipamento quebra. Preso no passado, o quarteto precisa a todo custo arrumar uma maneira de voltar ao presente. Ou ao futuro.

É aí que entram as referências à franquia De volta para o futuro. Não é só o recheio do roteiro que é parecido. Até o display da banheira (sim, ela tem um display que indica a data, como no De Lorean voador) faz lembrar a franquia de Zemeckis. O mais bacana, na esfera referencial, é a presença do ator Crsipin Glover, que interpretou George McFly no primeiro De Volta para o Futuro - e foi sacado das continuações por ter pedido um cachê milionário.

De resto, o elenco é realmente fantástico: Rob Corddry e Craig Robinson integram o trio principal com Cusack. E o jovem talento Clark Duke, ótimo, faz mais uma vez um papel secundário que cresce vertiginosamente na tela, em vista do seu talento.

A ressaca é meio que uma volta ao passado de filmes de comédia e ficção-científica sobre viagens no tempo. O futuro da produção deve ser mesmo as prateleiras das locadoras ou as gôndolas promocionais das lojas de departamento. Mas até que vale a pena o confere.

domingo, setembro 19, 2010

#76 - A terceira margem do rio, de Nelson Pereira dos Santos


Dois mestres, cada um no seu suporte: o escritor João Guimarães Rosa e o cineasta Nelson Pereira dos Santos. Para melhorar, um dos textos mais intrigantes e sensíveis da literatura brasileira, A terceira margem do rio, que fala sobre uma linha imaginária que separa as pessoas do que é tangível e torna a existência insustentável. Apesar do título, neste filme de 1994 o cineasta trabalha um punhado de contos de Primeiras Estórias, livro lançado em 1962, repleto de um realismo fantástico que dá pano para manga - ou, no caso, para a tela. O resultado é realmente encantador.

Nelson Pereira dos Santos consegue fazer um filme simples na estética, mas profundamente emocionante no conteúdo. E por méritos próprios, já que o roteiro é uma única história adaptada de pelo menos cinco contos da obra de Guimarães Rosa. A escolha do elenco é acertada, sem estrelas globais ou atores badalados. A trilha sonora, belíssima, é de autoria de Milton Nascimento - que, como o autor, traduz de forma singular os mistérios e encantos das Minas Gerais.

Depois da sessão, a conclusão de sempre: é essencial conhecer a obra de Nelson Pereira dos Santos para entender melhor o que é o cinema brasileiro. O grande problema é encontrar seus filme... Principalmente os mais antigos (e olha que esse nem é tão antigo assim, e já foi complicado de arrumar). Tarefa árdua. Muitas vezes, estão disponíveis apenas em antigos VHS, já castigados pelo tempo. Porém, rola por aí um boato de que boa parte da obra do cineasta vai ser recuperada e lançada em DVD.

Enquanto isso, vamos catando o que há disponível por aí, né?

sexta-feira, setembro 17, 2010

#75 - Baarìa - A Porta do Vento (Baarìa), de Giuseppe Tornatore


Estreia hoje no circuitão a nova e milionária (cerca de 25 milhões de euros) produção de Giuseppe Tornatore, o cara que comoveu muita gente com Cinema Paradiso. Baarìa - A Porta do Vento é uma colegem de memórias autobiográficas do cineasta. Escrevi uma resenha para o Jornal do Brasil, que agora é digital. Como de costume, compartilho aqui o que escrevi lá.

Tratando-se de um realizador tão profícuo como Giusepe Tornatore, era mesmo de se esperar que um filme calcado em suas memórias fosse, no mínimo, interessante e cativante. Em Baarìa – A Porta do Vento, o cineasta italiano conta a história de três gerações, incluindo a própria, que testemunham o amadurecimento da pequena vila siciliana que dá nome à produção. Testemunha-se a Segunda Guerra Mundial, passando pelas manifestações comunistas, até culminar nos processos de exclusão social frutos da especulação urbana contemporânea. Paralelamente, lá está também o amadurecimento da relação de Tornatore com o cinema, tema recorrente em sua cinebiografia.

O filme tem méritos técnicos incontestáveis. A fotografia é belíssima, a direção de arte é impecável e a trilha sonora de Ennio Morricone é, como de costume, magnífica. O trabalho de direção de atores é facilitado pelo talentoso elenco. O pecado de Tornatore é tentar arrancar de forma forçosa a mesma comoção que Cinema Paradiso provocou despretensiosamente em plateias do mundo inteiro. Há, ainda que poucos, certos deslizes cênicos e melodramáticos ao longo do extenso roteiro que deixam o acabamento final quase hollywoodiano, exagerado. Ainda assim, Baarìa – A Porta do Vento é capaz de prender a atenção dos amantes do cinema e daqueles que têm na sétima arte as bases de suas memórias afetivas.

segunda-feira, setembro 13, 2010

#74 - The Weather Underground, de Sam Green e Bill Siegel


Difícil de acreditar, mas houve movimentos de esquerda nos Estados Unidos das décadas de 60 e 70. Guardadas as devidas proporções, pode-se dizer que o Weatherman (nome baseado na letra de uma música de Bob Dylan) foi o Baader-Meinhof estadunidense. O que o documentário The Weather Underground mostra é, justamente, a formação de uma célula revolucionária furiosa em um país que coibia qualquer tentativa de manifestação contrária à política capitalista.

Tudo começou quando líderes de movimentos estudantis, cansados da resistência pacífica, resolveram levar um pouco mais a sério o protesto antibelicista. Contrários à política externa dos EUA, em plena guerra do Vietnã, o lema do Weatherman era “bring the war home” – algo como “traga a guerra para casa”. Os primeiros movimentos foram bastante violentos, quase descontrolados, que serviram para por o grupo nas manchetes dos jornais. Foi somente mais tarde, com o aprimoramento de técnicas de guerrilha, que o Wetherman chamou a atenção da sociedade e das autoridades, passando a viver na clandestinidade, no underground.

The Weather Underground tem um excelente material de acervo, com imagens de confrontos e depoimentos de gente que vivenciou a ascensão e a queda dos ideais do grupo, cujos líderes acabaram se entregando. Muitos ex-militantes, atualmente em posições desvinculadas dos seus passados de luta, prestam depoimentos à câmera – alguns até mesmo arrependidos de terem tomado parte dos conflitos.

Um documento bastante interessante, que talvez se mantenha fora do alcance da maioria dos jovens estadunidenses. Jovens que não fazem idéia de como começar a contestar o regime vigente.

quinta-feira, setembro 09, 2010

#73 - Tortura do medo (Peeping Tom), de Michael Powell


Pode-se dizer que a carreira de Michael Powell começou a ruir pela repercussão negativa de Tortura do medo à época de seu lançamento. Apesar disso, quem diria, o tal burburinho, atualmente, lhe confere ousadia suficiente para ser reconhecido como uma grande obra de suspense e terror psicológico. De fato, o roteiro é assustador! Conta a história de um assassino que filma a expressão de medo e desespero de suas vítimas diante da iminência da morte.

Powell usa muito bem o recurso da narrativa em primeira pessoa, com a câmera funcionando como os olhos do assassino. A construção do clima de suspense é perfeita. Quem protagoniza a história é o ótimo Carl Boehm. Recluso em um quarto no andar de cima de uma casa, ele acaba se envolvendo com a vizinha de baixo. E é aí que seus conflitos internos começam a vir à tona. A trama vai ficando cada vez mais complexa e angustiante, até culminar em um desfecho verdadeiramente perturbador.

Fato lamentável é que a obra foi tão picotada para caber ao gosto dos censores de plantão, que muitas sequências foram perdidas para sempre. Ainda assim, Tortura do medo é uma obra que causa um bacana desconforto no espectador.

Por todas essas razões, um clássico!

domingo, setembro 05, 2010

#72 - Skinheads - A Força Branca (Romper Stomper), de Geoffrey Wright


Obviamente, um filme sobre jovens neonazistas precisa ser repleto de violência explícita, capaz de despertar ojeriza no público. No caso de Skinheads - A Força Branca, com um título em português meio exagerado (o original se refere às botas usadas pelos skinheads), já que o argumento vai muito além da xenofobia. Os momentos brutais estão lá, mas o ótimo roteiro oferece um filme completo, com destaque para as atuações.

Quem protagoniza e impressiona é Russell "Gladiador" Crowe, ainda um jovem ator local, que encarna um furioso e assustador líder de uma gangue de tendências nazistas que quer varrer o bairro dos imigrantes chineses que ali abrem seus comércios. Depois de um desentendimento mais grave, os orientais se unem para a vingança. A situação acaba afetando a estrutura do grupo, que precisa lidar com questões pessoais para garantir a sobrevivência.

Apesar de ser uma produção bem simples, Skinheads - A Força Branca tem lá seu valor estético. A fotografia é escura, granulada e crua. Os conflitos, tanto físicos quanto psicológicos, são bastante contundentes. Todos os atores emprestam realismo à trama.

O desfecho é impressionante! Vale o confere.

sexta-feira, setembro 03, 2010

#71 - O Dia da Besta (El Día de la Bestia), de Álex de la Iglesia


Das profundezas do underground espanhol, emerge mais um filmaço. Dirigido e escrito por Álex de la Iglesia, O Dia da Besta tem um roteiro impecável, que faz um gênero de terror completamente diferente do usual. Apesar do título evocar a figura do Diabo, não há a profusão de sustos, litros de sangue e tripas penduradas - efeitos tão difundidos pelo cinema de horror contemporâneo. Aqui, o que vale é o conteúdo. É entretenimento do começo ao fim.

Acompanhamos a tentativa desesperada do padre Angel Berriartua, interpretado pelo formidável Álex Angulo, de entrar em contato com o Tinhoso. Isso porque, após anos de pesquisa, ele conseguiu decifrar um código na Bíblia que indica a data e o local do nascimento do Anticristo: justamente naquela noite, exatamente em Madri. Ajudado por um jovem vendedor de discos de heavy metal (o figuraça Santiago Segura, o mesmo ator que encabeça a trilogia do imbatível Torrente, o policial escroto), já iniciado nos rituais satânicos, o clérigo precisa correr para evocar a presença do Príncipe das Trevas e, assim, tentar impedir o Apocalipse.

A primeira sequência do filme é absurdamente espetacular. Padre Angel sai pelas ruas da cidade cometendo atrocidades para se tornar um pecador. O tom de jocosidade e sarcasmo prossegue durante todo o filme, com situações bizarras, escabrosas e divertidíssimas. Até culminar em um dos desfechos mais hilários e surreais da história dos filmes de terror!

Bom demais!

segunda-feira, agosto 30, 2010

#70 - O Inferno (L'enfer d'Henri-Georges Clouzot), de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea


Amanhã, dia 31 de agosto, lamentavelmente, o Jornal do Brasil deixará de circular em sua versão impressa. Quem perde somos todos nós, cariocas, que já tivemos ali uma imprensa que sempre funcionou como resistência aos monopólios da comunicação. Verdade seja dita: o jornal não era mais o mesmo desde a sua aquisição pelo empresário Nelson Tanure. Ainda assim, eu tenho orgulho de poder colaborar escrevendo resenhas cinematográficas numa publicação que já teve grandes nomes do jornalismo cultural em seu quadro de funcionários. Então, presto aqui uma homenagem publicando uma resenha de um filme que não entrou no circuito carioca - e que, infelizmente, muito provavelmente não vai entrar. Trata-se do fantástico doc O Inferno (que os paulistas tiveram a oportunidade de ver nos cinemas), sobre os bastidores de um filme homônimo que nunca foi finalizado. Ah, sim: o jornal vai continuar com sua versão online!

Em 1964, o cineasta francês Henri-Georges Clouzot esteve muito perto de sacudir o circuito cinematográfico com uma obra chamada O inferno. O roteiro falava sobre as alucinações patológicas e perturbadoras de um sujeito recém-casado que desconfiava estar sendo traído. Utilizando arte cinética e técnicas visuais bastante ousadas para a época, o diretor buscou revelar nos fotogramas o inferno particular de um homem atormentado pelo ciúme. Apesar do generoso orçamento e da extensa equipe de produção, o filme nunca foi finalizado, tornando-se uma espécie de purgatório pessoal para Clouzot.

Décadas depois, os diretores Serge Bromberg e Ruxandra Medrea conseguem acesso ao material até então inédito e montam um documentário que dá uma ideia geral do que teria sido planejado pela mente profícua e complexa de Clouzot. Imagens de bastidores, testes de figurino e takes intocáveis, repletos de ousadia estética, dão ao espectador a oportunidade de testemunhar uma pequena tragédia que extrapolou os limites da tela grande. Se a sétima arte perdeu um grande filme, ao menos ganhou um documentário imperdível.

sexta-feira, agosto 27, 2010

#69 - Karatê Kid (The Karate Kid), de Harald Zwart


Outra estreia é o remake de um clássico dos anos 80, Karatê Kid. Desta vez, algumas mudanças foram feitas no argumento, para adaptá-lo aos novos tempos. Duas coisas muito estranhas vão chamar a atenção do espectador. Primeiro, o menino aprende kung fu, e não karatê. Segundo, Jackie Chan está muito bem no papel de zelador que nas horas vagas é mestre das artes marciais. O roteiro mudou, mas as lições continuam as mesmas. Segue o que escrevi para a Revista Programa, do Jornal do Brasil.

A história do jovem desajeitado que aprende karatê e vence um torneio contra os pupilos de um treinador mal intencionado, que fez bastante sucesso na década de 80, ganhou uma repaginada. O argumento permanece o mesmo, mas há uma série de adaptações que desqualificam Karatê Kid de uma mera refilmagem. Desta vez, a história se passa na Pequim pós-jogos olímpicos, para onde o adolescente estadunidense Dre Parker (o espevitado Jaden Smith) se muda com a mãe. Lá, vítima de bullying e constantemente ameaçado por garotos que desonram o kung fu, acaba sendo salvo pelo zelador do prédio, o Sr. Han (o carismático Jackie Chan). O resto é mais do mesmo: a dupla protagonista é desafiada para uma competição local e precisa correr contra o tempo para transformar o inepto aprendiz em um exímio campeão.

Apesar do título, o garoto aprende kung fu, e não karatê. Porém, as lições de vida, carregadas de um simbolismo exótico aos ocidentais, são praticamente as mesmas. Ao invés de pintar uma cerca ou polir um automóvel, como fez Daniel San, o pequeno Dre é obrigado a vestir e despir um casaco incessantemente, sem notar que já está aprendendo kung fu. Karatê Kid tem algumas boas piadas e um punhado de referências à franquia original, mas o longo e confuso roteiro vai perdendo força com excessos narrativos e exageros melodramáticos. O destaque é, sem dúvida alguma, a caracterização cuidadosa e caprichada de Chan, cujo personagem exige um pouco mais do que acrobacias e caretas.

#68 - Par perfeito (Killers), de Robert Luketic


Sexta-feira é dia de estreias. Nem tão boas, é verdade. Então vamos a dois filmes que entram no circuitão hoje e que foram resenhados lá na Revista Programa, do Jornal do Brasil. O primeiro é mais uma bomba de Ashton Kutcher, que agora também resolveu dar uma de produtor executivo. Seu novo trabalho, Par Perfeito, mistura de comédia romântica com ação, é um fiasco completo. Chega a ser constrangedor. Eis o que escrevi, logo abaixo.

O novo filme de Ashton Kutcher, que agora também se aventura no ofício da produção, é uma boa demonstração de como enrolar o espectador. Em meio a belas locações na costa francesa, o astro mais querido do Twitter fracassa na tentativa de contar a história de um agente secreto do governo estadunidense que, após se apaixonar por uma moça de família abastada, resolve largar o ofício de assassino profissional para tentar levar uma vida ordinária. Acontece que seu processo de aposentadoria vai ser bem mais complicado do que ele poderia ter imaginado – a despeito da imaginação pouco fértil dos roteiristas.

Kutcher escolheu com perfeição o seu par romântico: a bela Katherine Heigl. Entretanto, o roteiro é imperfeito da primeira à última linha. Misto de comédia e espionagem, Par perfeito só começa a realmente reter a atenção do espectador lá para o terço final de projeção. Durante os outros dois terços, nada de relevante ou interessante acontece. Há uma espécie de deserto narrativo, sublinhado pelas atuações rarefeitas não somente dos protagonistas, mas também de atores experientes, como Tom Selleck e Catherine O'Hara. As prometidas e aguardadas sequências de ação, com direito a tiroteios, situações cômicas e perseguições, demoram uma eternidade para vir à tela. E, quando finalmente chegam, inundam excessivamente a trama.

quinta-feira, agosto 26, 2010

Entrevista com Nelson Pereira dos Santos - Natura Musical

Tenho novidades para vocês, queridos, seletos e donairosos leitores! A partir de agora vou ter o prazer de acompanhar, na qualidade de jornalista, o processo de finalização do novo documentário do mestre Nelson Pereira dos Santos. Trata-se do primeiro longa-metragem sobre a obra do saudoso maestro Tom Jobim, que deve chegar aos cinemas no fim do ano.

Os textos serão publicados no bacanérrimo portal Natura Musical. Compartilho com vocês o primeiro artigo da série, após uma entrevista com o diretor! Basta clicar aqui!

Leiam, comentem, espalhem, critiquem - ou elogiem, né?

segunda-feira, agosto 23, 2010

#67 - Os amantes (Les amants), de Louis Malle


Louis Malle é um diretor que costuma sempre surpreender o espectador. Até mesmo quando o tema parece esgotado ou o argumento parece batido. Filmado em 1958, Os amantes fala sobre os desdobramentos de um triângulo amoroso - do ponto de vista feminino - cujos vértices estão ligados à sociedade francesa do meio do século passado. A maestria de Malle está justamente na maneira como a história é contada, com a ousadia de um cineasta que esteve sempre um passo à frente de seus colegas de ofício.

Como muito bem observou minha cônjuge, a protagonista do filme é uma espécie de Madame Bovary moderna. Quem a interpreta, no auge da carreira, irrepreensível, é Jeanne Moreau. Casada com um empresário muito ocupado, enfastiada da vida no interior da França, ela resolve passar mais tempo em Paris, em companhia de uma amiga de infância. Lá, livre, leve e solta, acaba se envolvendo com um jogador de polo equestre. Está formado um triângulo amoroso que reserva algumas boas reviravoltas na trama.

Assim como Flaubert, Malle foi audaz ao tratar da traição feminina. Não à toa, o cineasta também foi acusado de ser um pornógrafo por muita gente, principalmente nos Estados Unidos. Os amantes chegou a receber duras críticas e teve até mesmo sua exibição dificultada. Os delicados peitinhos de Moreau, que ficam à mostra durante poucos segundos, foram o bastante para irritar conservadores de plantão. Ou seja, conservadores não entendem nada de cinema.

O filme acabou ganhando, com o tempo, a notoriedade que merecia. Tecnicamente impecável, dramaticamente contundente, é mais uma obra-prima de Louis Malle!

terça-feira, agosto 17, 2010

#66 - Hell ride, de Larry Bishop


Produzido por ninguém menos que Quentin Tarantino, Hell ride é uma espécie de homenagem aos filmes de motoqueiros. Não é à toa que há milhares de referências ao clássico maior dos road movies sobre duas rodas, Easy Rider - inclusive, com a presença do saudoso Dennis Hopper no elenco, pilotando sua própria motocicleta. Outros excelentes atores completam o elenco, como Michael Madsen e David Carridine. Larry Bishop, que interpreta o protagonista da trama, assina a direção e o roteiro. Ou seja, está todo mundo em casa: a maioria da equipe já trabalhou junta anteriormente.

Apesar da violência fácil, o roteiro é um pouco complexo, o que pode afastar uma boa parcela do público. Conta a história de um grupo de motoqueiros que ainda busca por vingança anos após o brutal assassinato de uma bela jovem de origem indígena. Aos poucos, o espectador vai entendendo o que se passou, em uma narrativa atemporal e pouco linear que por vezes se torna confusa. Porém, o que vale mesmo é o deleite estético proporcionado pelo filme, de uma competência técnica realmente espantosa.

As sequências de ação são bem enquadradas, a edição é ligeira, a trilha sonora colabora com o clima e as atuações convencem. Hell ride funciona como um resgate a um tipo de cinema que era puro entretenimento, mas sem apelações comerciais. Prova disso é o fato do filme ter sido lançado primeiro em DVD.

Azar o nosso, cinéfilos.

sexta-feira, agosto 13, 2010

#65 - Almas à venda (Cold souls), de Sophie Barthes


Estreia hoje no circuitão carioca, com certa demora, o novo filme de Paul Giamatti, Almas à venda. Dirigido por Sophie Barthes, o longa tem um bom argumento, mas que não é tão bem desenvolvido assim. Escrevi uma resenha para a Revista Programa, do Jornal do Brasil, que foi praticamente retalhada na hora da edição. Compartilho com vocês, donairosos leitores, a versão original da pobre coitada.

Alguns argumentos são tão criativos e bem elaborados, que seus respectivos roteiros não dão conta de sustentar um longa. É o que acontece com Almas à venda, uma comédia dramática que usa um pressuposto fantástico para falar de crises existenciais e perdas de identidade, além das neuroses contemporâneas recorrentes. Paul Giamatti, irrepreensível, interpreta um personagem homônimo - no caso, um ator com dificuldades de levar adiante os ensaios de Tio Vânia, peça de Tchékov. Ao ler um artigo sobre uma empresa que extrai almas, aliviando o sofrimento interior de seus clientes, ele resolve experimentar o tratamento. No entanto, as coisas fogem do controle quando sua alma desaparece misteriosamente.

Apesar da fotografia caprichada, da montagem eficiente e do elenco bastante afiado, Almas à venda não se mantém interessante ao longo da projeção. O problema é que a ideia central se esgota muito rapidamente, tornando o recheio do roteiro por vezes enfadonho. Assim como Descartes, citado nos créditos iniciais, tratou de localizar o lugar da alma e garantir a existência de Deus em seu esquema filosófico, sob ameaça inquisitória de ser sentenciado à fogueira, a diretora Sophie Barthes parece não querer trabalhar o absurdo a ponto de incomodar e provocar a plateia. Trabalho, por vezes ingrato, que outros diretores e roteiristas já realizaram de forma brilhante.

quinta-feira, agosto 12, 2010

#64 - The 41-Year-Old Virgin Who Knocked Up Sarah Marshall and Felt Superbad About It , de Craig Moss


Eis uma paródia. Com direito a título ridículo. Dá para pescar pelo menos três comédias de sucesso por ali: O virgem de 40 anos, Ligeiramente grávidos e Superbad. Pois bem, The 41-Year-Old Virgin Who Knocked Up Sarah Marshall and Felt Superbad About It faz de forma razoável o que propõe: exacerbar as piadas já exageradas das produções que parodia. O resultado é um filme bastante agressivo - e por vezes engraçado.

O roteiro é recheado de escatologia e bizarrice, o que pode agradar quem gosta de piadas grosseiras e incorretas. Trata da história de um rapaz de 41 anos, ainda virgem, que precisa colocar para fora o conteúdo de seu saco escrotal, já inchado devido ao tempo em que ficou em desuso. Haja esperma, amigo - diria Galvão Bueno. Não é difícil imaginar a cena, né? É bem por aí mesmo.

Ao longo da projeção, vários outros filmes que não estão citados no quilométrico título também servem de referência. Porém, o grande barato é o elenco. Todos os protagonistas são realmente parecidos com os atores dos filmes originais. Chegam até a causar um pouco de confusão. Outro ponto alto são os créditos finais, tirando um belo sarro de Quem quer ser um milionário.

Porém fica a dica: só veja se realmente gostar de comédias idiotas e escatológicas.

quarta-feira, agosto 11, 2010

#63 - Endless bummer, de Sam Pillsbury


As referências, pelo menos a mim, pareciam bastante claras: Endless bummer seria uma paródia do clássico filme de surfe dos anos 60, Endless summer. No caso, "bummer" é uma gíria que significa algo como "chapação", aquela sensação de entorpecimento causado por drogas um pouco mais pesadas. Tratando-se de uma comédia credenciada pela National Lapoon, produtora que tem no currículo filmes de sucesso como Férias frustradas e Clube dos cafajestes, era de se esperar algo no mínimo um pouquinho interessante, que não se levasse tão a sério. Porém, não se trata de uma paródia. E o filme é um fracasso do começo ao fim.

Poucas coisas são tão ruins quanto Endless bummer. O desastre começa com o roteiro quase mongoloide, sobre um jovem surfista que tem sua prancha roubada por um garoto rico. Para recuperar o tal objeto, ele junta seus amigos igualmente tresloucados e parte em busca de pistas. Nada de relevante acontece. O elenco é absurdamente incompetente, de nível iniciante no curso livre de teatro do colégio da esquina. Nem mesmo a presença de Matthew Lillard - que apesar de não ser um bom ator é figura fácil em filmes adolescentes - salva o dia. Interessante observar que há muito dinheiro jogado no lixo aqui. As cenas de surfe são bem filmadas e, por incrível que pareça, o filme é bem editado.

O mais incrível, no entanto, é a presença torta da veterana Joan Jett interpretando uma mendiga louca que vive na praia. Aliás, é a parte musical que quase salva Endless bummer do apedrejamento em praça pública. Tiro o chapéu para a trilha sonora, que desenterra bandas veteranas do punk rock da década de 80/90, como Fear e Wire Train - esta última ganha uma versão muito bacana para a clássica "Chamber of hellos", tocada pela desconhecida Action Design.

Ou seja, poupe seus olhos. O que vale a pena é baixar a trilha sonora.

terça-feira, agosto 10, 2010

#62 - I walked with a zombie, de Jacques Tourneur


Foi lá pela década de 40 que o cinema começou a explorar de forma intensa as figuras dos zumbis. Obviamente, ainda não eram criaturas reanimadas em estado de putrefação que devoravam cérebros. Naquela época, o que assustava a plateia eram os rituais de magia negra, as práticas religiosas de tribos da América Central, os bonecos de vudu e por aí vai. I walked with a zombie é uma produção de 1943, um clássico do cinema de horror, que ilustra bem a forma como a magia e os zumbis eram caracterizados.

No fundo, trata-se de um terror romântico. O filme mostra uma enfermeira canadense que aceita um trabalho em uma ilha do Pacífico. Ela deverá tomar conta da bela esposa de um rico empresário, que se encontra em estado catatônico, sem esperanças de recobrar a consciência. Ou seja, ela vive como uma zumbi. Chegando à mansão, a protagonista começa a se envolver com o tal empresário, praticamente viúvo. Aos poucos, vai descobrindo uma trama repleta de mistérios, que envolve paixão, ganância e magia negra.

De certa forma, o roteiro é meio confuso em relação às práticas religiosas dos habitantes da ilha. Porém, há um punhado de sequências muito bem filmadas, que utilizam artifícios dramáticos eficientes para criar o clima de suspense. O destaque fica por conta da figura realmente assustadora do ator Darby Jones, que deve ter deixado muita gente sem dormir à noite com seu semblante esquisitão. Ele interpreta Carrefour, uma espécie de entidade que protege o santuário do lugar.

Danças frenéticas ao ritmo de tambores, animais sacrificados dependurados em árvores, bonecos cheios de alfinetes espetados e sessões de possessão fazem parte de I walked with a zombie, um filme até que ousado para a época. Tão ousado que, nos créditos finais, avisa: qualquer semelhança com indivíduos vivos, mortos ou possuídos é mera coincidência.

quinta-feira, agosto 05, 2010

#61 - Sex Drive - Rumo ao sexo (Sex Drive), de Sean Anders


Vez em quando, uma comédia idiota faz bem. Nada de sadismo, vejam bem. Pelo título, Sex Drive já sugere um daqueles filmes para não ser levado a sério. Ainda mais pelo subtítulo em português: Rumo ao sexo. E é sobre isso mesmo que o roteiro fala: um jovem virgem, com os hormônios descontrolados, rouba o carro esportivo do irmão mais velho e atravessa os Estados Unidos para descabelar o palhaço com uma linda mulher que conheceu pela internet. Nenhuma novidade.

Entretanto, Sex Drive é uma comédia divertida. Em grande parte porque tem um elenco que dá conta da proposta. Destaque para Clark Duke, que interpreta o amigo do protagonista - um rapaz bastante excêntrico que faz sucesso com as mulheres. As melhores sequências, sem dúvida, são dele. Outra participação que vale destacar é a do veterano Seth Green, no papel de um tresloucado amish (aquele grupo de cristãos que vive como se estivesse no século XVIII).

Conferi a versão uncut do filme. E aí a besteirada rola solta. Talvez até tenham errado a mão na proposta de fazer algo diferente das outras versões uncut que existem por aí. A única diferença para o filme original é que mulheres completamente nuas são inseridas digitalmente, cruzando a tela constantemente. Não fosse o exagero do artifício, que até soa original, funcionaria como uma boa piada.

Sem grandes expectativas, até que vale a pena.

quarta-feira, agosto 04, 2010

#60 - La Nana, de Sebastián Silva


Ano passado, La Nana fez um certo sucesso durante o Festival Internacional do Rio. Trata-se de um digno exemplo do que a contemporaneidade pode fazer pelo cinema. Com uma câmera digital em punho e um argumento na cabeça, o diretor chileno Sebastián Silva conta uma simples e bonita história de amizade. Poucos atores, poucas locações, poucas frescuras e até mesmo, de vez em quando, pouca ação. Inclusive, isso pode incomodar alguns espectadores.

Catalina Saavedra (sobrenome nobre!) interpreta magistralmente a temperamental e esquisitona serviçal Raquel, uma empregada doméstica que serve a uma tradicional e abastada família chilena. Durante décadas, cegamente, ela abdica da própria família para cuidar dos patrões e seus filhos, anulando-se por completo. Em troca, tem o carinho de todos, mas continua sempre a ser uma empregada uniformizada. Já com problemas de saúde, ela não aceita que outra pessoa a ajude nas tarefas de casa. Toda a tentativa de cooperação é duramente rechaçada.

Há uma linguagem interessante em La Nana. A câmera é mais uma testemunha do que um ponto de referência narrativo. Ela espia tudo - inclusive os banhos da empregada, sublinhando um certo fetiche da classe média. Os diálogos são curtos e há bastante espaço para o improviso, pois o foco principal está no estudo do comportamento de quem cuida dos outros antes de cuidar de si mesmo.