segunda-feira, outubro 26, 2009

#122 - Anticristo (Antichrist), de Lars Von Trier


Os filmes de Lars Von Trier costumam ser experiências intensas - o que, ao meu entender, é algo bastante positivo. Quando o diretor, na minha opinião o mais provocador da atualidade, anunciou um filme de terror, era óbvio que o horror seria psicológico. E era muito provável também que a parte estética teria destaque.

Anticristo é exatamente o que Von Trier vem propondo ao longo de sua filmografia: uma jornada catastrófica pela mente perturbada do ser humano (e não do diretor), com total domínio sobre a técnica cinematográfica. O roteiro conta a história de um casal que perde o filho pequeno, morto após cair da janela, enquanto faz sexo. Para tentar aliviar a dor do luto, vão para uma cabana no meio do mato. No meio do mato mesmo. Lá, o que era para ser um tratamento alternativo, acaba se tornando uma experiência que foge do controle.

O grande impacto do filme não está nas cenas de violência e mutilação sexual, e sim no argumento, que se fecha de forma obscura e perturbadora nas sequências finais. O recheio tem a marca do diretor, que tem fama de fazer a vida dos protagonistas um inferno particular. Cenas de sexo, masturbação e animais mortos causaram celeuma em Cannes. Puro exagero. Nada de mais. Nem gratuito. Tudo está de acordo com o argumento. Além do mais, quem entra numa sala de cinema para ver um filme de Lars Von Trier já sabe mais ou menos o que esperar...

Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg impressionam pela naturalidade diante das câmeras, em grande parte provocada pela direção, que proibia ensaios antes das filmagens. Porém, Anticristo é um filme essencialmente visual. A fotografia é de deixar qualquer espectador de queixo caído. Até mesmo o prólogo, de conteúdo terrível, é belo. Planos abertos, repletos de textura e com poucos timbres sonoros relembram a técnica de Tarkovsky, a quem Von Trier dedica o filme.

No fim das contas, é uma experiência estética irresistível, por mais pesada que possa ser ao espectador.

O filme me lembrou muito, guardadas as devidas proporções, minha música predileta do Ben Harper, "The woman in you". Concorda?

15 comentários:

Robson Saldanha disse...

Eu sou um dos poucos que ODEIA Dogville, portanto, já comecei não tendo um bom histórico com Lars mas nada me impede que eu possa conferir este filme, ainda que seja do diretor de um filme tão traumático para mim. Parece interessante, seu texto é atrativo.

Pascarella disse...

Dudu, só na sala de cinema que eu estava, vi 2 pessoas indo embora no meio do filme.
Anticristo é uma experiência arrebatadora, feita pra incomodar mesmo. E pouca gente tem coragem de incomodar hoje em dia.
Abração,
Rafa

Bruno disse...

Realmente o filme incomoda!
Gostei dele, mas não é uma obra prima.
Quem não viu não perdeu muita coisa, eu acredito.

Ps: Deopis me diz o que vc achou do forum que lhe indiquei!!!

Kamila disse...

Eu concordo plenamente com teu texto. Com todos os detalhes que você destaca, especialmente a fotografia, a dupla de atores e o mergulho que o Von Trier faz no comportamento e na mente humanas.

Beijos!

Vulgo Dudu disse...

Robson, então não concordamos quanto ao Lars Von Trier. Eu acho Dogville uma obra-prima. Digo mais: acho um marco na história recente do cinema, pela experimentação da linguagem cinematográfica proposta nele. Se for assistir ao Anticristo, tenha em mente que trata-se de Von Trier... Que o espetáculo está justamente na crueza do tema e na superioridade técnica do diretor.

Pasca, imagine que a mãe da Elaine, com um amiga, quase foi assistir inadvertidamente a esse filme! As duas super religiosas... Eu concordo contigo, é uma experiência arrebatadora. E são justamente elas que nos movem, que nos tiram de uma posição cômoda. Por isso acho um filme válido, e não gratuito.

Bruno, concordo que não é o melhor filme dele. Porém, quem não assistir ao filme vai perder muita coisa. Só para citar uma das perdas: a baita experiência estética!!!

Kamila, é mais um êxito na carreira do Von Trier. Como comentei, acho essas experiências válidas.

Bjs e abs para todos!

Pedro Tavares disse...

Pra mim, "Anticristo" é uma obra-prima. Interessante essa comparação com a música do Ben Harper, pela letra e por ele ser Cristão.

Rogerio disse...

Dudu, obra única, eterna.Ao lado de Cannibal Hollocaust, foi o filme que mais me incomodou até hoje.FANTÁSTICO.

Vulgo Dudu disse...

Pedro, é um excelente filme, mas na minha opinião não está nem entre os três melhores do Von Trier. A obra-prima dele, pra mim, continua sendo Dogville. A música do Ben Harper me veio à cabeça porque representa uma opinião muito particular sobre a natureza feminina. Acho sensacional quando ele diz "the woman in you is the worry in me". Anticristo fala um pouco sobre isso também, obviamente que de uma maneira diferente.

Rogerio, eu até hoje estou para tomar coragem e ver "Holocausto Canibal", ainda mais depois de saber que o Sergio Leone escreveu uma carta ao Deodato dizendo se tratar de uma obra-prima! Anticristo incomoda, mas eu saí mais arrassado da projeção com Dançando no escuro.

Abs!

Surfista disse...

Confesso que amarelei para esse filme.

Rogerio disse...

Carakas Dudu, nao sabia desse fato do Leone, que legal.Poxa, vc tem que ver o Cannibal, é muito bom.

Vou procurar Dançando no Escuro, que nao vi nao.
abs.

Rafael Carvalho disse...

Perdão Dudu, mas acho o filme péssimo. O argumento é dos mais interessantes, mas o filme se perde numa tentativa de chocar o espectador e ainda aposta nas "sessão de psicanálise" das mais baratas, com pretensões de serem profundas e revelarem aspectos assustadores dos personagens. Parece que o próprio filme se descontrola quando vai chegando no final e é uma bagunça só. Realmente, os quesitos técnicos do filme são incríveis e a atuação da Gainsbourg é excelente, de entrega total, mas, como um todo, o filme não me convence.

Pedro Henrique disse...

Filme difícil, como todos os Trier, mas não menos interessante, como todos deste mesmo diretor.

Abs!

Vulgo Dudu disse...

Surfista, é menos do que pintam por aí. Nada tão pesado que você ainda não tenha visto. Se fosse você, dava uma chance.

Rogerio, pois é... Eu fico naquela de querer ver. Quem sabe um dia? rs... O que mais me motiva é justamente a carta do Sergio Leone.

Rafael, enquanto eu via o filme, só pensava assim: porra, depois o cara não quer ser duramente criticado... Ele dá mil motivos para que você odeie o filme. Porém, acho a experiência extremamente válida, além do fato do filme ser um primor estético.

Pedrão, assino embaixo!

Abs a todos!

Fernando disse...

Realmente é um senhor filme. Para pessoas que aceitam novas experiências e que não estão engessada pela indústria de cinema.

Um filme para pensar, revisar e principalmente: degustar.
Direção de arte, trilha e drama primordial.

E sinceramente, este filme nada tem a ver com Holocausto Canibal.
Estamos falando sobre uma obra de arte (Anticristo) já Holocausto Canibal é um filme de canibais, bobo, violento, cheio de sangue e com erros grotescos de continuidade.

Lars Von Trier realmente é um dos melhores atualmente. Sinceramente, para mim, perde apenas para Kubrick, Bergman e Almodovar.

Vulgo Dudu disse...

Fernando, bem-vndo por aqui! De fato, não canso de repetir que Lars Von Trier é um dos, se não o, diretores mais provocativos da nossa época. E é impressionante o que ele consegue fazer nos espectadores, para o bem ou para o mal. Qto ao Holocausto Canibal, é outra onda, sem dúvida, mas que incomodou o Rogerio tanto qto Anticristo. A minha curiosidade com o filme do Deodato é pelo fato dele ser considerado (apenas por quem se aprofunda no assunto) o primeiro filme de terror no estilo documental, com propaganda que se dizia real fora das telas. Deodato chegou a ir preso! E mais, Leone diz que é uma obra-prima - o cara que dirigiu uma obra-prima como Era uma vez no oeste...

Abs e volte sempre!