segunda-feira, setembro 14, 2009

#97 - Copacabana mon amour, de Rogério Sganzerla


Não há dúvida quanto à importância das realizações de Rogério Sganzerla para o cinema brasileiro. Caótico, seu trabalho praticamente inaugura um cenário underground, no qual os personagens podem exercitar uma sarcástica e ácida crítica à falta de discernimento cultural e social para com o país.

Em Copacabana mon amour, os contrastes de um Rio de Janeiro decadente, ex-capital federal, conivente com os excessos da classe média e a miséria da favela, são contados através de personagens típicos do submundo. Um médium gay apaixonado pelo patrão rico, sua irmã prostituta que sonha ser cantora de rádio e um cafetão que se apaixona por ela são os três vértices principais da trama. O roteiro funciona como uma série de colagens de pequenas cenas que trazem à tona a um Brasil descaracterizado.

Estéticamente, Copacabana mon amour não tem o mesmo apuro do clássico anterior de Sganzerla, o fantástico O bandido da luz vermelha. A obra é visivelmente prejudicada pela dificuldade da época - início da década de 70 - em se realizar um filme. Ainda assim, Sganzerla consegue cenas memoráveis, como os despachos na areia da praia e a evolução de um homem com um pano branco pelas ruas de Copacabana, representando um fantasma. O ponto forte, que se destaca, por conseguinte, é o texto: afiado, caótico ácido e, ainda assim, extremamente poético. A trilha original de Gilberto Gil dá um toque ainda mais tropicalista ao discurso.

Um filme necessário para o reconhecimento de um cinema tipicamente brasileiro.

3 comentários:

T1460 disse...

Achei interessante a crítica. Ao meu ver, está bem longe dos filmes atuais que mostram favela simplesmente porque "é assim a 'realidade'".

Kamila disse...

Nunca assisti a nada do Sganzerla. Nem à sua obra mais famosa. Fiquei curiosa por esse "Copacabana".

Beijos!

Vulgo Dudu disse...

T1460, de fato, é um filme mais preocupado em desmistificar o Rio conhecido pela paisagem de Copacabana, mostrando que a desigualdade social é um fantasma que ronda os bairros mais abastados há muito tempo.

Kamila, vale a pena! Mas eu sugiro começar por O bandido da luz vermelha, que é um filme realmente maravilhoso.

Bjs e abs!