quarta-feira, julho 08, 2009

#70 - Berlin Alexanderplatz (Epílogo - Meu sonho do sonho de Franz Biberkopf), de Rainer Werner Fassbinder


Durante os 13 episódios de Berlin Alexanderplatz, Fassbinder utilizou-se de todo o seu apuro como diretor meticuloso pra contar a história de um sujeito que sai da cadeia, após matar a sua mulher, e tenta levar uma vida honesta na Alemanha entre-guerras. Se durante todos os capítulos da série o cineasta imprimiu um rigor estético mais expressionista, alinhado com o livro de Alfred Döblin, é no epílogo que ele desenvolve um cinema que lhe é típico: brutal, assustador e intenso.

O desfecho de Berlin Alexanderplatz é uma reflexão sobre todo o conteúdo expressionista da obra de Döblin. Fassbinder escreveu o roteiro e se permitiu ir um pouco mais a fundo nas histórias individuais dos personagens. O epílogo tem início com Franz Biberkopf, o protagonista, andando pelas ruas de Berlim ao lado de dois anjos. Ele encontra todas as pessoas que fizeram parte da sua trajetória de vida e escuta delas ajuizamentos dos mais diversos. Logo depois, entra em uma espécie de surto delirante. E é aí que Fassbinder se esbalda!

Imagens brutais, que mais parecem instalações artísticas, são atiradas contra a tela para expressar uma espécie de morte, de paralisação, da consciência de Franz. Ele é visto em uma espécie de açougue humano, no qual se junta a uma pilha de corpos ensanguentados. Em meio à trilha sonora caprinchada, que mistura música erudita com Lou Reed e Elvis Presley, o espectador descobre ainda mais dados sobre a tumultuada trajetória da sociedade alemã daquela época.

Fassbinder explora questões que permeiam sua cinebiografia: o homossexualismo, a anarquia e o simbolismo religioso. Diferentemente do que consta no final do livro, o diretor vai mais a fundo nessas questões, deixando mais sublinhadas as tendências sexuais dos personagens, inserindo a participação de soldados nazistas à narrativa (lembrando que Döblin escreveu o livro antes do regime nazista tomar conta do país) e recriando imagens sacras.

A ousadia em levar a cabo o projeto de transformar um clássico da literatura expressionista alemã em imagens levou Fassbinder a ícone do Novo Cinema Alemão - movimento que, inclusive, finda com a sua morte. Criar uma obra adaptada de um livro, com mais de 15 horas de duração, para ser passada na TV e utilizando-se da linguagem cinematográfica é algo quase impensável. Quase.

Perturbador, intenso, maravilhoso. É tudo o que posso concluir de Berlin Alexanderplatz. Preciso, como cinéfilo que me proponho a ser neste espaço, recomendar a série a quem tiver acesso. É uma experiência realmente enriquecedora.


PS: Esse aí na capa do box é o próprio Fassbinder no set de filmagem.

6 comentários:

Rafael disse...

Berlin Alexanderplatz é foda, é espetacular! Eu comprei há alguns meses, me surpreendi bastante... Pena que muita gente não tem saco de ver, por ser um filme longo.
Muito bom seu blog aqui!
Abraço

T1460 disse...

Os comentários sobre todos os episódios me deixaram empolgado para ver. Farei assim que os conseguir.

Vulgo Dudu disse...

Rafael, seja bem-vindo por aqui! De fato, é uma série longa. E, como escrevi em uma resenha de um dos capítulos, não dá para ser vista como um seriado, dada a sua complexidade. Mas é verdadeiramente uma obra-prima! Obrigado pelo comentário e volte sempre.

T1460, que bom que as resenhas o empolgaram! Esse era uma das propostas... rs...

Abs!

Kamila disse...

Dudu, espero poder assistir a esta série um dia. Foi um prazer acompanhar a tua série de posts.

Beijos!

Vulgo Dudu disse...

Kamila, e eu espero que minhas resenhas, ainda que simples, tenham contribuído!

Bjs!

Juliana disse...

Fiquei bastante interessada, tanto que acabei de comprar o box pela Saraiva. Fica aí a dica para quem não encontra a série completa nas locadoras.
abç
Juliana