quinta-feira, julho 02, 2009

#69 - O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha

Assistir a qualquer filme de Glauber Rocha é uma experiência enriquecedora para quem pretende ir mais a fundo nas artes cinematográficas. São produções densas, diferenciadas e que levam à tela narrativas com linguagem brasileira. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, filme colorido de 1969, faz da história do cangaço um verdadeiro western, mas com a cara de um Brasil esquecido pelo eixo do Sul Maravilha.

O personagem Antônio das Mortes, que esteve também em Deus e o Diabo na Terra do Sol, volta para cuidar de um grupo de cangaceiros que clamam por vingança e pelas terras de um sujeito abastado, cego e avarento. Apoiados por uma pequena comunidade carente liderada por um líder religioso, os justiceiros do sertão entram em conflito com o matador de cangaceiros, transformando o pequeno povoado de Milagres em um campo de batalha onde violência, religião e crítica social se misturam com imagens líricas e oníricas.

Os personagens são trabalhados em prol da narrativa, com características exacerbadas para que seus papéis na hierarquia do Nordeste sertanejo fiquem bem claros. Há o professor bêbado que ensina as crianças a decorar fatos históricos, a mulher em vestido roxo que trai o marido, o cangaceiro que vira mártir, o líder espiritual que guia a comunidade e a Santa Bárbara que é capaz de emocionar Antônio das Mortes.

Ao longo do filme, o povo é sempre retratado como um coletivo que mantém suas raízes firmes ao solo - exatamente o que o Cinema Novo tinha como proposta, em meio à concorrência com as produções estadunidenses. Por isso, homens e mulheres estão sempre a cantar e a dançar, em uma espécie de transe que envolve todos os personagens.

É nítido o apuro estético de Glauber Rocha. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro é um filme enxuto, bem montado, bem editado e bem produzido. Uma pérola da cinematografia brasileira.

8 comentários:

Diego Rodrigues disse...

Sempre que assisto qualquer um dos filmes de Glauber me deixa extremamente feliz com o Cinema nacional. Mas aí eu vejo as produções em cartaz e me desanimo. Porém, são verdadeiras pérolas do cinema nacional - gosto bastante de Terra em Transe.

Não conhecia seu blog e já até linkei lá no meu. Só falta te desejar os parabéns e que continue assim. Também te convido para visitar o meu. Até mais!

Diego
(http://www.blogcinemania.blogspot.com)

Cleidson Lourenço disse...

Tem lances que parecem com A cor da romã... Mas tudo bem. Seu blog tá nas minhas indicações de Blogs legais. Apesar de ter indicado sem o seu consentimento, adoraria uma retribuição. RS. Parabéns pelo trabalho!

Kamila disse...

Eu assisti a este filme, na faculdade, quando paguei a disciplina "Comunicação Cinematográfica". A obra deixou uma profunda impressão em mim. Glauber Rocha foi um dos grandes, viu?

Beijos!

Ciro Hamen disse...

um dos melhores do cinema brasileiro. sem dúvida.

Rafael Carvalho disse...

O melhor de Glauber era que ele filmava com um vigor incrível, aliada a uma direção potente. Talvez esse seja seu melhor trabalho de direção, o mais arrojado e renovador, tanto que levou o prêmio de direção em Cannes. Emprestar um tom operístico ao sertão é coisa de gênio, e ainda falar de religiosidade, cangaço e coronelismo. E Odete Lara toda de roxo é uma imagem sensacional!!

Vulgo Dudu disse...

Diego, antes de mais nada, obrigado pela visita e pelo comentário! Seja sempre bem-vindo por aqui. Quanto ao cinema nacional, a maioria dos filmes são extensões da programação televisiva, mas vez em quando aparecem verdadeiras pérolas, como o filme resenhado anteriormente, Estômago. Coisa linda de se ver!

Cleidson, bem-vindo também! Ainda não vi A cor da romã, do Paradjanov. Mas foi uma boa lembrança, hein? Vou catá-lo para conferir as ligações com a obra do Glauber Rocha! Vou dar uma passada no seu blog. Volte sempre por aqui!

Kamila, realmente, uma ótima pedida para universitários! O cara foi dos grandes mesmo...

Ciro, nenhum exagero em dizer isso!

Rafael, mais que isso: o filme é tecnicamente perfeito! Comparado com a maioria da produção da época, a montagem, a edição, o som... é tudo muito bem cuidado. O que, por si só, já denota a mão do grande cineasta que ele era!

Bjs e abs a todos!

T1460 disse...

Simplesmente um clássico! :D

Vulgo Dudu disse...

T1460, "complexamente" um clássico! rs...

Abs!