sexta-feira, julho 31, 2009

#77 - À deriva, de Heitor Dalhia


A brutalidade de um filme nem sempre está na força das imagens. Wim Wenders provou isso há muito tempo, com o espetacular Paris, Texas. As palavras podem ser muito mais dolorosas do que uma agressão. Heitor Dalhia, que prova ser um exímio observador da condição humana com seu terceiro longa, segue pelo mesmo caminho. À deriva é um filme que dói.

O fantástico roteiro, escrito pelo próprio Dalhia, conta a história de uma família que começa a ter o seu núcleo, outrora amarrado pela afetividade, arruinado. Quem observa os desentendimentos dos pais e a aflição dos irmãos, em meio a descobertas sobre si mesma, é Filipa, uma adolescente de 14 anos. Durante as férias na paradisíaca e badalada Búzios da década de 80, ela começa a tentar entender o porquê da traição do pai e como se dão as relações amorosas. Porém, ao longo do filme, à medida em que a trama parece se resolver, muita dor vem à tona.

Dalhia consegue, com muito pouco, montar um belíssimo e perturbador mosaico de sentimentos. Ao invés do deserto do filme de Wenders, aqui ele faz uso do mar como personagem coadjuvante - um interlocutor mudo que versa sobre a dificuldade de se estabelecer diálogos. Estar à deriva é, também, se sentir impotente diante de uma natureza implacável e inelegível. Em um dado momento, o mar é calmo e afável, convidando à brincadeira. Em outro, é bravo e agitado, em tom ameaçador.

Embora as locações sejam simples (basicamente uma casa de veraneio e a praia), a direção oferece farto material para tornar a história visualmente atraente. Os planos são extremamente bem estudados, com tomadas belíssimas. Os atores, também simples, rendem o máximo. Débora Bloch está plena. Laura Neiva enche os olhos do espectador. Vincent Cassel, apesar de em certos momentos dar a impressão de não saber o que está dizendo, enfrenta a barreira da língua e empresta seu carisma ao personagem. De resto, todo o elenco faz um trabalho de alto nível.

Saí do cinema dolorido, extasiado, embasbacado. Um filme forte, intenso, tocante e escandalosamente bem feito.


Para entrar no site oficial do filme, clique aqui!

quinta-feira, julho 30, 2009

#76 - Almoço em agosto (Pranzo di ferragosto), de Gianni Di Gregorio


O polivalente Gianni Di Gregorio, que trabalhou como assistente de direção no badalado Gomorra, escreve, dirige e interpreta um filme com proposta um tanto diferente do que se tem visto por aí. Almoço em agosto está mais para um registro criativo do que para um longa. Até mesmo porque a projeção dura pouco mais de uma hora.

Gianni nos conta a história de um personagem homônimo que cuida com zelo e dedicação da mãe, já idosa. Endividado até a cabeça, ele aceita tomar conta da mãe do zelador do prédio, que pretende viajar durante o feriado de Ferragosto, data importante no calendário italiano. Em troca, Gianni tem suas dívidas esquecidas. Porém, aos poucos, ele é obrigado a cuidar de outras senhoras de idade, mães de pessoas a quem deve favores. Sua casa se transforma, então, em uma espécie de asilo.

O roteiro é leve, simples e ligeiro. Vez em quando, bastante enfadonho. Ao que parece, é uma boa ideia destrinchada em várias sequências. Poucos diálogos, planos bem estudados e boas atuações sustentam o filme. Talvez se fosse um média-metragem, funcionasse melhor. Destaque para as atrizes da terceira idade, cheias de carisma, que dão um show à parte. São elas as responsáveis pelas melhores cenas.

Ao que se propõe, Almoço em agosto cumpre seu papel. É rápido e corriqueiro como uma refeição. E tem uma boa quantidade de tempero para que o gosto não seja ruim.

terça-feira, julho 28, 2009

#75 - This is England, de Shane Meadows


Nem só de chá das cinco e família real vive a Inglaterra. Em This is England, um país que esteve fora do foco das câmeras na década de 80 é captado com maestria pelas lentes do diretor Shane Meadows - que recria um pouco do que viveu durante sua pré-adolescência.

O filme é ambientado em 1983. Era a época da Guerra das Malvinas, da aeróbica, do regime da Dama de Ferro e de movimentos musicais como o 2Tone e o Ska. Os dois ritmos, que misturavam o reggae jamaicano com o punk britânico, foram a base de um movimento cultural cujos adeptos ficaram conhecidos como skinheads. Porém, não confunda esses jovens de cabeça raspada com os adeptos do nacional socialismo.

Quem nos guia por essas memórias britânicas é o invocado e briguento Shaun (o ótimo Thomas Turgoose, desobediente também na vida real), um garoto de 12 anos marcado profundamente pela perda do pai durante os combates nas Malvinas. Um dia, após ser ridicularizado por colegas de escola por causa de suas calças boca-de-sino, ele esbarra com um grupo de skinheads a caminho de casa. Acaba sendo adotado pelos garotos. Porém, a maionese começa a desandar quando Combo (o excelente Stephen Graham), um violento ex-presidiário, começa a recrutar os garotos para um partido de extrema direita que, aí sim, pregava a soberania inglesa e o repúdio a etnias estrangeiras. Aproveitando-se da recessão e do desemprego que assolava o país, é justamente este o momento em que parte dos skinheads se tornam adeptos dos ideais difundidos pelo nacional socialismo.

Ao longo de This is England, imagens de arquivo mostram os efeitos da política de Margareth Thatcher em toda a sociedade. A guerra, o desemprego e a falta de perspectiva são flagrantes. Shaun vai aprender sobre tudo isso da maneira mais difícil. Apesar do tom acinzentado e violento, o filme é cativante. Em grande parte, por causa do roteiro coeso e interessante, que vai atenuando a turbulência com a dose certa de drama. Nada de edição ligeira e violência estilizada - que tanto projetaram o novo cinema inglês. As atuações são muito boas, a ambientação é perfeita e os diálogos são precisos. De quebra, referências clássicas de mestres do Ska, como The Specials, The Beat e Madness.

This is english cinema!

segunda-feira, julho 27, 2009

Luz, câmera... canção! - Nuclear Assault

Outra noite estava com uns amigos aqui em casa, bebericando margueritas e jogando conversa fora. Deixei minha coleção de MP3 tocando aleatoriamente como fundo musical, em baixo volume. Foi então que, quando a pasta Heavy Metal foi acessada, precisei aumentar o volume. Ouvimos clássicos de bandas como Anthrax, Megadeth e Death Angel, que tanto amávamos quando tínhamos espinhas na cara, poucos pelos pubianos e buço. Nuclear Assault também estava no cardápio.

Lembrei-me de quando tinha 13 anos, o cabelo comprido (eu bem que tentava deixá-lo comprido, apesar dos fios desafiarem a lei da gravidade), andava de preto e passava muitas tardes, após a aula, na Hard'n'Heavy - loja especializada no gênero. Nessa época, a MTV cumpria o papel de tocar videoclipes. Um dos meus programas preferidos era o Gás Total, apresentado por Gastão Moreira, dedicado ao metal. Foi lá que eu conheci o Nuclear Assault, uma banda de thrash metal das mais singulares, preocupada com questões ambientais e sociais.

O vídeo de "Trail of tears" é triste. Conta a história de um jovem rebelde, incompreendido pela sociedade e abandonado pela namorada, que acaba se viciando em cocaína. A droga o leva ao tal caminho das lágrimas. O visual é bem anos 90, com direito à jaqueta de couro e cabelos esvoaçantes. John Connely, o ruivão vocalista e guitarrista, usa sua voz aguda e rouca, tipo Janis Joplin, para enfatizar o lado dramático do vício. Detalhe para um tigre de pelúcia preso à alça da sua Flyng V (isso sim é um intrumento metal). De resto, tem solinho cheio de efeitos e cabeças balançando de um lado para o outro.

Do jeito que a gente gostava. Saca só...

sexta-feira, julho 24, 2009

#74 - Reefer madness, de Louis J. Gasnier


Um rapaz de 16 anos mata a família com um machado. Uma garota de 17 anos se deixa seduzir por cinco homens mais velhos ao mesmo tempo. Tudo isso por causa do uso de narcóticos. Pensou em crise de abstinência de crack, abuso de LSD ou overdose de ecstasy? Errou! É tudo culpa da maconha. Pelo menos é o que alega o roteiro de Reefer madness, também conhecido como Tell your children, uma produção esquisitona de 1936 que se tornou um clássico do exploitation, sem querer.

O tiro saiu pela culatra. O filme ficou famoso não por conscientizar a família estadunidense, mas jusamente pelo exagero com que trata o assunto. E mais: é adorado atualmente por maconheiros do mundo inteiro! O roteiro, espalhafatosamente catastrófico, acabou servindo de diversão a muitos jovens, décadas depois, nas famosas sessões à meia-noite - que originaram, mais tarde, os midnight movies.

Reefer madness começa com um texto que descreve os efeitos da maconha: tudo começa com gargalhadas histéricas, passando por atos de extrema violência e podendo terminar em enlouquecimento. Por isso, durante o filme, todo mundo que fuma maconha ri. E ri muito. Desesperadamente. Sem parar. Depois, aparecem descabelados, com tic nervoso e olhos arregalados. Tudo isso para depois cometerem atos insanos. Ao longo da projeção, acompanhos dois jovens que passam exatamente por essas etapas.

Na verdade, o filme é bastante chato - a não ser nos momentos cruciais de puro melodrama barato. A cópia disponível também não é lá grandes coisas. Em certos momentos, fica complicado entender o que os personagens estão dizendo. Entretanto, os diálogos pouco importam. O negócio é ver o pessoal rodeado de fumaça e fazendo careta.

Reefer madness também ganhou outros nomes bastante criativos, como Dope addict, Doped youth, Love madness e The burning question. Nenhum título foi bom o bastante para dar credibilidade ao filme.

Sorte a nossa!

terça-feira, julho 21, 2009

Teatreiro, eu? - "O ateliê voador", de Valère Novarina


Com certa frequência vou ao teatro. Gosto muito! Por isso, a partir de agora, quando a peça for muito boa, vou postar aqui uma breve resenha. Aliás, já devia ter feito isso com outros espetáculos que conferi esse ano, como "Rock'n'roll", "A farsa da boa preguiça", "Ato" e "O palhaço Jurema e os peixinhos dourados" (o nome soa infantil, mas a peça é uma porrada na cara, muito bem dada).

Para a estreia da coluna, a estreia da peça de um excelente ator - que antes de mais nada é também um excelente amigo, o Renato Livera. Foi ele quem nos convidou, a mim e a minha mulher, para assistirmos à peça "O ateliê Voador", texto do dramaturgo francês Valère Novarina - que ganhou uma espécie de retrospectiva dentro do Ano da França no Brasil.

O texto original, com cerca de seis horas de encenação, foi muito bem traduzido e editado para cerca de 120 minutos de apresentação. É uma crítica extremamente ácida e sarcástica ao sistema de exploração do indivíduo que produz, ganha pouco e acaba seduzido pelo fetiche do consumo, entrando em um ciclo vicioso. A peça conta a história de um casal de empregadores que contrata seis empregados. Inicialmente, eles obedecem cegamente às instruções. Porém, ao longo da peça, o medo de um levante e a falta de perspectiva criam uma tensão entre explorador e explorado.

Trata-se de um texto de cunho político, sem dúvida. Porém, o tom é de comédia escrachada e absurda. Muitas vezes, os diálogos são elípticos, sem um sentido imediato. Porém, a ideia central está sempre escrachada no palco. A língua, ou a falta dela, inclusive, é uma alegoria importante na crítica de Novarina. Mutilada pelo explorador, é ela quem por muitas vezes delimita e tolhe o pensamento da mudança.

A encenação, adaptada ao teatro de arena do SESC Copacabana, é perfeita. Embora o texto tenha sido escrito há cerca de 40 anos, o jogo teatral se dá de forma contemporânea, com elementos cênicos surpreendentes. Os atores estão em perfeita sintonia, tanto na preparação corporal quanto na dramatização. Convencem, e muito! Destaque para o incansável Renato Carrera, que faz o empregador Sr. Boucot.

Foi um prazer enorme rever o Renato. Melhor ainda no palco. Vejam-no também, pois vale muito a pena!

Servição!

Local: Espaço SESC – Arena (Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel. 2547-0156)
Horário: Quinta a sábado às 21h e domingo às 19h30
Preço: 16,00 (inteira), 8,00 (estudante, classe artística e maiores de 60 anos) e 4,00 (comerciário)
Classificação etária: 14 anos
Temporada: 17 de julho a 02 de agosto

sábado, julho 18, 2009

#73 - A garota de Mônaco (La fille de Monaco), de Anne Fontain


Quando eu era mais novo, lá no início do meu envolvimento mais intenso com o cinema, tinha um ranço com a produção francesa contemporânea à época. Lembro-me de um filme péssimo que contribuiu para que tivesse essa má impressão. Era a inauguração de uma sala do grupo Estação. A película, francesa, era sobre uma garota de 15 anos que se especializava em boquetes para arrecadar dinheiro e fugir com o namorado, mau elemento que gostava de Bob Marley, para a Jamaica. Obviamente, no final, o delinquente vai pra Jamaica com o melhor amigo e a menina vai para uma clínica psiquiátrica. Um melodrama danado, frio e estranhamente pudico

Durante muito tempo, foi essa a minha opinião sobre as novas produções francesas: propunham um tema denso, mas nadavam no rasinho, na água gelada. Obviamente, com a crescente oferta de produções estrangeiras e a consolidação de um circuito, ainda que menor do que o necessário, que privilegia os bons filmes, minha opinião foi mudando. Porém, ao assistir A garota de Mônaco, tive um déjà vu.

Lá estava novamente o argumento robusto, que evoca os pudores franceses, sendo trabalhado de modo bem raso. A comédia dramática de Anne Fontain conta a história de um advogado, conhecido por fazer milagres por seus clientes, que viaja para Mônaco com o objetivo de defender uma mulher acusada de matar o marido, um russo envolvido com a máfia. Para garantir sua segurança, a família da réu contrata um profissional (o ótimo Roschdy Zem) que o acompanha 24 horas. Para completar a trama, uma jovem "garota do tempo", temperamental e liberal, o seduz. Então, temos crime, romance, sexo, luxúria, poder...

O roteiro nem é tão ruim, mas a história também não é cativante. Inclusive, poderia muito bem ser apenas um drama, já que as situações cômicas são escassas. A tensão sexual, sempre presente, até mesmo na relação entre o advogado e o segurança, é tratada com um pudor ingênuo, mas ainda assim é a chave para se entender os acontecimentos que vão ser encadeados até o insólito e esquisito desfecho.

Ficou com cara de filme estadunidense do Supercine.

quarta-feira, julho 15, 2009

#72 - Kung Fu Panda, de Mark Osborne e John Stevenson


Estava em casa num tremendo mal-humor. Gripado e irritado. Kung Fu Panda, animação do ano passado, estava lá no meio de outros títulos. Resolvi, ao lado de minha esposa, assisti-lo. Já havia feito uma tentativa ao lado da filhota, que não deu a menor bola nem para os primeiros três minutos de filme, preferindo o maldito, mas bacana, Pingu.

Pois bem, Kung Fu Panda não traz absolutamente nada de novo - a não ser para o público que pode conferi-lo com a tecnologia IMAX. Os personagens seguem os mesmos traços e as cenas, os mesmos enquadramentos. Porém, é bacana ver como a cultura oriental é inserida. Além disso, as cenas envolvendo artes marciais ficaram bem interessantes.

O chato é aquele negócio de animação infantil com mensagem de superação. No caso, um panda gordo e mal ajambrado que aprende kung fu em um intensivão de uma semana e derrota um poderoso inimigo. Tudo graças à autoconfiança. Ok. Dei minhas risadas, mas ao fim do filme já estava mal-humorado novamente.

Prefiro o Pingu também.

quinta-feira, julho 09, 2009

#71 - Bem-vindo (Welcome), de Philippe Lioret


No mesmo dia, hora e local em que acontecia a cabine de imprensa do badalado Jean Charles, era exibido à imprensa o filme francês Bem-vindo, de Philippe Lioret. Para a sessão do primeiro, distribuição de brindes, farto café da manhã e sala cheia. Já para o segundo, apenas uma dúzia de espectadores - me inclui aí. Não vi o filme do Selton Mello, por isso não posso fazer juízo sobre o mesmo. Porém, fato é que, ao final da sessão de Bem-vindo, minha vontade era de dizer a quem viu Jean Charles: perdeu um filmaço!

O roteiro é daqueles que conseguem extrair de um argumento aparentemente simples toda uma reflexão sobre superação sem cair em excessos ou clichês. Conta a história de um jovem curdo, em fuga da guerra no Iraque, que tem como objetivo ir à Inglaterra encontrar sua namorada. Quando chega à França, porém, é impedido de atravessar o Canal da Mancha pelas autoridades. Decide, então, atravessá-lo a nado. Detalhe: ele não sabe nadar. É daí que surge a amizade com um professor de natação, divorciado e desacreditado, que resolve ensinar o garoto a dar as primeiras braçadas.

A direção de Lioret funciona muito bem, fazendo com que a tal "mensagem", que na maioria das produções do gênero é atirada violentamente contra a plateia, se dê de forma lenta e gradual. Sendo assim, não há diálogos marcantes, atuações exacerbadas, trilha sonora emotiva ou final didático. Ao invés disso, o filme aborda de forma testemunhal uma série de conflitos, sejam eles religiosos, étnicos ou humanitários. O ritmo da narrativa vai crescendo até culminar em um último ato verdadeiramente lindo, maravilhoso! E o melhor: sem uma gota de sentimentalismo barato.

Saí da sala de projeção pleno. Um filmaço!

quarta-feira, julho 08, 2009

#70 - Berlin Alexanderplatz (Epílogo - Meu sonho do sonho de Franz Biberkopf), de Rainer Werner Fassbinder


Durante os 13 episódios de Berlin Alexanderplatz, Fassbinder utilizou-se de todo o seu apuro como diretor meticuloso pra contar a história de um sujeito que sai da cadeia, após matar a sua mulher, e tenta levar uma vida honesta na Alemanha entre-guerras. Se durante todos os capítulos da série o cineasta imprimiu um rigor estético mais expressionista, alinhado com o livro de Alfred Döblin, é no epílogo que ele desenvolve um cinema que lhe é típico: brutal, assustador e intenso.

O desfecho de Berlin Alexanderplatz é uma reflexão sobre todo o conteúdo expressionista da obra de Döblin. Fassbinder escreveu o roteiro e se permitiu ir um pouco mais a fundo nas histórias individuais dos personagens. O epílogo tem início com Franz Biberkopf, o protagonista, andando pelas ruas de Berlim ao lado de dois anjos. Ele encontra todas as pessoas que fizeram parte da sua trajetória de vida e escuta delas ajuizamentos dos mais diversos. Logo depois, entra em uma espécie de surto delirante. E é aí que Fassbinder se esbalda!

Imagens brutais, que mais parecem instalações artísticas, são atiradas contra a tela para expressar uma espécie de morte, de paralisação, da consciência de Franz. Ele é visto em uma espécie de açougue humano, no qual se junta a uma pilha de corpos ensanguentados. Em meio à trilha sonora caprinchada, que mistura música erudita com Lou Reed e Elvis Presley, o espectador descobre ainda mais dados sobre a tumultuada trajetória da sociedade alemã daquela época.

Fassbinder explora questões que permeiam sua cinebiografia: o homossexualismo, a anarquia e o simbolismo religioso. Diferentemente do que consta no final do livro, o diretor vai mais a fundo nessas questões, deixando mais sublinhadas as tendências sexuais dos personagens, inserindo a participação de soldados nazistas à narrativa (lembrando que Döblin escreveu o livro antes do regime nazista tomar conta do país) e recriando imagens sacras.

A ousadia em levar a cabo o projeto de transformar um clássico da literatura expressionista alemã em imagens levou Fassbinder a ícone do Novo Cinema Alemão - movimento que, inclusive, finda com a sua morte. Criar uma obra adaptada de um livro, com mais de 15 horas de duração, para ser passada na TV e utilizando-se da linguagem cinematográfica é algo quase impensável. Quase.

Perturbador, intenso, maravilhoso. É tudo o que posso concluir de Berlin Alexanderplatz. Preciso, como cinéfilo que me proponho a ser neste espaço, recomendar a série a quem tiver acesso. É uma experiência realmente enriquecedora.


PS: Esse aí na capa do box é o próprio Fassbinder no set de filmagem.

domingo, julho 05, 2009

Luz, câmera... canção! - Lady Pank

Lady Pank é uma banda polonesa lá da década de 80 que não fez muito sucesso aqui no Brasil. Fazia um som proto-punk típico da região do leste europeu, com influências que mesclavam o rock inglês com a cultura cigana. A música mais conhecida dos caras, que talvez muita gente já tenha dançado em alguma festa mais obscura sem saber (se eu era o DJ, você já deve ter balançado o esqueleto ao som dessa), é "Minus Zero".

O clipe é muito doido! Tem um tanque rosa e gente comendo linguiça, além dos modelitos de guitarras, luvas e polainas sensacionais da época. Ou seja, é um típico exemplar do movimento pré-punk do leste europeu. Infelizmente, ele perde a sincronia lá na metade, mas nada que comprometa a sua diversão. Eu demorei muito tempo para perceber em que língua a música era realmente cantada. Achava que era uma mistura - hora em polonês, hora em inglês. Por isso, para facilitar a vida dos meus queridos leitores, eis a letra aqui. O vídeo, vai aí embaixo.Vale o confere.



Porém, minha história com a canção que fala sobre as modelos de Ulla é, digamos, inusitada.

Era o fim da década de 90. Eu estava em uma festa à fantasia bem chinfrim, em pleno Dia das Bruxas, num casarão de uma chácara em Campo Grande, aqui no Rio. Era numa região bem remota, longe da civilização. O que vale dizer que não havia escapatória. Como as músicas eram péssimas, as pessoas eram estranhas, o clima era de monotonia e a cerveja estava gelada, fui tratar de encher a cara até ficar completamente bêbado. Horas tantas, bateu o inconveniente de tanta bebida: me deu vontade de esvaziar a bexiga. Porém, não conseguia encontrar a porcaria do banheiro. Perguntei a um sujeito se ele sabia onde poderia despejar minha urina e ele me disse para usar a parede. Isso mesmo, você não leu errado. A parede do casarão seria o meu penico. Abri o zíper e mandei ver.

Não sei se o que vou narrar aqui costuma acontecer com alguém. Comigo, acontece sempre. Enquanto estou urinando, não sei por que cargas d'água (ou de xixi), não importa o nível de álcool no sangue, fico completamente sóbrio. Sou capaz de realizar cálculos mentais e de racionalizar com extrema sobriedade qualquer assunto. Porém, tudo acaba com a última gota, aquela da cueca. Volto à embriaguez total. Naquela festa, enquanto estava lá molhando a parede, o desgraçado do DJ tocou "Minus Zero". Na mesma hora, racionalizei:

Putz, eu adoro essa música, mas não sei o nome. O pior é que, quando acabar aqui, vou me esquecer dela. Se decorasse o que o sujeito está cantando, poderia catá-la na internet!

Dito e feito: assim que a última gota tocou a cueca, fiquei bêbado de novo e me esqueci o que o sujeito cantava. Lembrava-me apenas de ter um numeral no refrão (no caso, o zero). Nos dias seguintes - diria que foram até meses - tentei procurar a música usando diversas variações: million miles, thousand years, million years, hundred miles etc. Nada.

Foi então que, já desencanado da busca, numa dessas noites comuns, sonhei com a dita cuja. E era possível ouvi-la com total nitidez: minus zero! Minus Zero! Acordei com o refrão na cabeça e cheguei até a conferir se não havia feito xixi na cama. Lençol seco, pulei para a frente do computador, achei o nome da banda, o nome da música e o mais importante: o MP3!

Desde então, tenho ela como a música do meu inconsciente. Toco em quase todas as festas, ainda que poucas, em que sou DJ. E as pessoas curtem! Até um segurança de uma boate, uma vez, veio me perguntar o nome da banda. Disse ele que dançava muito essa música numas festas da década de 80, que aconteciam debaixo de um viaduto, em Madureira.

Ô ô ô ô!

quinta-feira, julho 02, 2009

#69 - O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha

Assistir a qualquer filme de Glauber Rocha é uma experiência enriquecedora para quem pretende ir mais a fundo nas artes cinematográficas. São produções densas, diferenciadas e que levam à tela narrativas com linguagem brasileira. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, filme colorido de 1969, faz da história do cangaço um verdadeiro western, mas com a cara de um Brasil esquecido pelo eixo do Sul Maravilha.

O personagem Antônio das Mortes, que esteve também em Deus e o Diabo na Terra do Sol, volta para cuidar de um grupo de cangaceiros que clamam por vingança e pelas terras de um sujeito abastado, cego e avarento. Apoiados por uma pequena comunidade carente liderada por um líder religioso, os justiceiros do sertão entram em conflito com o matador de cangaceiros, transformando o pequeno povoado de Milagres em um campo de batalha onde violência, religião e crítica social se misturam com imagens líricas e oníricas.

Os personagens são trabalhados em prol da narrativa, com características exacerbadas para que seus papéis na hierarquia do Nordeste sertanejo fiquem bem claros. Há o professor bêbado que ensina as crianças a decorar fatos históricos, a mulher em vestido roxo que trai o marido, o cangaceiro que vira mártir, o líder espiritual que guia a comunidade e a Santa Bárbara que é capaz de emocionar Antônio das Mortes.

Ao longo do filme, o povo é sempre retratado como um coletivo que mantém suas raízes firmes ao solo - exatamente o que o Cinema Novo tinha como proposta, em meio à concorrência com as produções estadunidenses. Por isso, homens e mulheres estão sempre a cantar e a dançar, em uma espécie de transe que envolve todos os personagens.

É nítido o apuro estético de Glauber Rocha. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro é um filme enxuto, bem montado, bem editado e bem produzido. Uma pérola da cinematografia brasileira.

quarta-feira, julho 01, 2009

#68 - Estômago, de Marcos Jorge


Já dizia o dito popular que tem gente que morre pelo estômago. É justamente dessa premissa que parte o delicioso e apetitoso roteiro de Estômago, excelente produção nacional dirigida por Marcos Jorge e estrelada pelo ótimo ator João Miguel. A gula, a avareza, a luxúria e outros pecados mortais vão à mesa em uma trama cheia de reviravoltas.

Tudo começa quando o retirante Raimundo Nonato chega à cidade grande sem lenço, sem documento e sem dinheiro para sobreviver. Acaba aceitando trabalhar de graça em um restaurante de quinta categoria cuja especialidade é coxinha de frango. A boa mão para a cozinha acaba levando Raimundo a uma espécie de pequeno estrelato local. Nesse meio tempo, ficamos sabendo que o protagonista está preso. A narrativa se divide em duas: o que aconteceu antes de Raimundo ser preso e como ele planeja sobreviver na cadeia. O dom da culinária acaba fechando celas e abrindo portas.

Para contar essas duas histórias, o filme conta com um elenco primoroso e bastante afiado, com gente que dá bastante veracidade às atuações. De quebra, participação especial de Paulo Miklos no papel de... bandido! Não tem jeito: Miklos é a versão brasileira de Danny Trejo. A direção é bastante ágil e mantém, em meio a situações tragicômicas, um bom clima de suspense.

O desfecho é particularmente sensacional. Lamento não ter visto na tela grande!