sábado, junho 27, 2009

#67 - O império dos sentidos (Ai no corrida), de Nagisa Oshima


Frio, vinho, edredom e filme picante. Aproveitando o fim de semana de promoções na locadora aqui perto de casa, alugue 3 DVDs e leve um saliente na faixa, resolvi assistir a um clássico da cinematografia erótica, o polêmico e dramático O império dos Sentidos. A produção japonesa de 1976 chocou o mundo com sua forma onírica e cruel de tratar as obsessões sexuais.

A história é baseada em um fato real acontecido pouco antes do Japão entrar na guerra, em 1936. Segundo um artigo de um jornal da época, uma prostituta havia sido encontrada vagando pelas ruas com um pênis e seus respectivos testículos. Foi presa acusada de matar o amante, um senhorio de uma propriedade particular. A partir desse argumento, Nagisa Oshima constrói uma narrativa complexa que mescla as tradições orientais com as mais perversas práticas sexuais.

Não há concessões. Muitas das sequências de sexo são reais, incluindo cenas de penetração. O que diferencia O império dos sentidos de produções pornográficas é justamente o tratamento dado pela direção. Todos os movimentos dos protagonistas antecipam a tragédia anunciada. O sexo nunca é gratuito. Claro, há momentos realmente perversos (não é à toa que o filme foi banido e proibido em diversos países), como na famosa passagem do ovo. Cresci ouvindo falar sobre o que o casal assanhado fazia com o tal ovo cozido. É, de fato, bastante incomum.

Trata-se de uma obra de arte erótica levada aos extremos da condição humana. Ou seja, o clima pode estar favorável, o edredom confortável e o vinho bem envelhecido, mas os olhos não vão desgrudar da tela...

sexta-feira, junho 26, 2009

#66 - Berlin Alexanderplatz (Episódio 13 - O interior e o exterior e o mistério de se ter medo do medo), de Rainer Werner Fassbinder


O 13º episódio da série de Fassbinder é mórbido. O peso das imagens, sempre banhadas por uma luz inacreditavelmente fotografada, acompanha o vigor de algumas passagens do livro de Alfred Döblin.

Franz Biberkopf chega ao fim de seu caminho. Chega a hora de sua ruína. Ele está liquidado.

Em epílogo ainda por vir, Franz vai fazer um balanço de sua conturbada vida, que nada mais é do que um mosaico da vida do homem comum na Alemanha arrasada do período entre-guerras. Sendo assim, o protagonista é nada mais do que o próprio brio germânico - e talvez por isso mesmo Berlin Alexanderplatz seja um marco na cinebiografia do país.

O destaque fica por conta da interpretação magistral de Günter Lamprecht, um monstro! O episódio é aberto e fechado por atuações verdadeiramente arrebatadoras.

Em breve, o epílogo.

terça-feira, junho 23, 2009

Radiola Vacilante #6 - Velhos pessimistas


Nossa caríssima Radiola Vacilante continua a pleno vapor! Episódio novo publicado, carimbado e liberado para o consumo.

Falamos sobre os filmes da semana (retrasada, né? - mas tá valendo...), a caixa dos Pixies, cujo preço me levou às lágrimas, a E3, famosa feira de games e sobre o nosso querido basquete, tanto o estadunidense quanto o brasileiro.

Para ouvir, vocês já sabem: cliquem aqui. E sejam felizes!

#65 - Pineapple express, de David Gordon Green


Até poderia ter escrito no título o nome em português de Pineapple express, o novo filme de Seth Rogen produzido por Judd Apatow. Porém, me recuso. E faço isso como um favor aos meus poucos, porém queridos, leitores. Para não afugentá-los, chamemos o filme pelo nome original, em inglês.

Trata-se de uma das melhores comédias do ano, na minha humilde opinião. Apatow mostra mais uma vez quem é o cara que faz os melhores representatntes do gênero cômico, que andava pausterizado e repetitivo. Em Pineapple express, além de piadas escatológicas e perversas, há também muita ação, violência e sangue! Tudo isso recheado de referências cinematográficas que brincam com certos clichês.

A história começa quando o pacato Dale Denton (Rogen), entusiasta da erva que trabalha como uma espécie de oficial de justiça, entregando intimações e notas de cobrança de empresas privadas, testemunha um assassinato. Ele, o seu fornecedor (James Franco, ótimo) e o intermediário do maior traficante da cidade (Danny McBride, espetacular) acabam se envolvendo em uma guerra narcótica, envolvendo experiências militares secretas e a máfia chinesa.

Não se trata apenas de mais um filme de maconha. A direção de Green é impecável e extrai o melhor do trio principal de comediantes. Os diálogos são inteligentes, sarcásticos e certeiros. As sequências de ação são muito bem marcadas e executadas, exagerando os clichês comuns ao gênero. De quebra, algumas cenas remetem, ainda que discretamente, a sucessos de bilheteria como Kill Bill, Bruxa de Blair e Cães de aluguel.

Vai na fé, que o bagulho é bom!

sábado, junho 20, 2009

#64 - Berlin Alexanderplatz (Episódio 12 - A cobra na alma da cobra), de Rainer Werner Fassbinder


Reta final da série Berlin Alexanderplatz, a obra-prima de Fassbinder. Como ficou sugerido na resenha anterior, o clima fica realmente tenso. Tudo pronto para um gran finale!

Por incrível que pareça, o episódio 12 começa com uma cena inusitada, com cerca de 10 minutos de duração, na qual Franz e Mieze brincam feito crianças. Entretanto, passada a sequência inicial, os diálogos vão ficando mais densos. Mieze acaba se encontrando, secretamente, com Reinhold - o sujeito feioso e esquisitão com quem Franz "trocava" mulheres. O ápice da trama, então, acontece.

Nem vou contar o que é...

sexta-feira, junho 19, 2009

#63 - A mulher invisível, de Claudio Torres


O argumento de A mulher invisível é bastante interessante: após levar um fora da namorada, um sujeito dedicado e romântico entra em parafuso e passa a interagir com uma linda mulher, fruto de sua imaginação. O filme até diverte, mas tem lá seus cacoetes televisivos. O roteiro tem buracos, o texto é fraco e o desfecho é romanesco.

A função de uma comédia é, antes de tudo, provocar risadas na plateia. A mulher invisível até cumpre muito bem esse papel, graças a um inspirado Selton Mello. O ator tem o timing perfeito para a comédia. Arrasta junto a ele performances razoáveis do resto do elenco principal. Luana Piovani está, de fato, um mulherão! Os diálogos, pouco inspirados, acabam ficando em segundo plano. A pantomima de Selton Mello, com mãos envolvendo o ar e língua para fora, é o que mantém o clima cômico. Destaque também para Fernanda Torres que, quando aparece, ainda que muito pouco, rouba a cena!

O problema é que até essas sequências boas chegarem, o espectador passa por preâmbulos desnecessários e entediantes, em uma edição preguiçosa que vai acelerando cada vez mais o ritmo da narrativa. Além disso, o terço final do filme é bastante constrangedor, evocando um texto novelesco que beira o melodrama fácil. Destoa completamente do gênero absurdo impresso no argumento.

Trata-se de um filme longo demais para o número de cenas engraçadas. Mas vale o ingresso...

quarta-feira, junho 17, 2009

#62 - Trama internacional (The international), de Tom Tykwer


Definitivamente, não sou afeiçoado aos filmes de espionagem internacional. Não compro a história, não me envolvo, não me movo. Trama internacional comprova a afirmação. O filme não é ruim: tem boa direção e bons atores. Já o argumento...

O roteiro gira em torno de um banco inescrupuloso que compra armas e fomenta conflitos em países do Terceiro Mundo. Das dívidas geradas pela guerra vem o seu pró-labore. Clive Owen interpreta um agente da Interpol em busca de um depoimento que possa incriminar a instituição financeira. Então, começa a paranoia. Todo mundo que chega perto da verdade é eliminado sumariamente.

Em primeiro lugar, há um physique du rôle maniqueista demais. Os mocinhos são belos, dedicados e altruístas. A musa Naomi Watts, que impressionou o mundo em Cidade dos Sonhos ao contracenar com Laura Harring em uma das cenas mais provocantes já feitas na tela grande, faz o papel de uma agente que ajuda o personagem de Owen. Já os bandidos, malvados, frios e calculistas, têm o olhar sisudo, sério e ameaçador, além de falar com forte sotaque. Acontece também que as motivações de todos os envolvidos não são bem exploradas. O roteiro corta caminho para chegar logo à ação. Ou seja, nenhuma atuação é surpreendente, mesmo sendo notório o talento dos atores.

Porém, há pontos positivos. A cena de tiroteio em pleno Guggenhaim é de se tirar o chapéu, extremamente bem feita e dirigida. O desfecho também mantém a dignidade, fugindo dos clichês mais comuns ao gênero. Talvez, quem goste de filmes sobre espionagem, teorias conspiratórias e corrupção política tenha a oportunidade de ver uma produção bem acabada e um pouco diferenciada.

Infelizmente, não é o meu caso.

PS: o filme tem estreia marcada para 19 de junho. Ou seja, nesta sexta.

terça-feira, junho 16, 2009

#61 - O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla


O Brasil já teve um expoente do cinema undreground e independente. Rogério Sganzerla foi um cineasta controverso, polêmico, agressivo e contestador, sem perder o lirismo. Seus filmes procuravam uma linguagem contemporânea e brasileira. Por isso, não é exagero considerar sua obra genial, muito à frente do seu tempo.

Sganzerla deu o pontapé inicial em longas em 1968, com o impecável O bandido da luz vermelha - um verdadeiro sucesso popular meses antes do AI-5. Rodado em preto e branco e ambientado na Boca do Lixo (famoso submundo cinematográfico que revelou dezenas de diretores), conta a história de um criminoso que rouba os ricos e seduz as mulheres, gastando dinheiro com extravagâncias. Trata-se de uma obra-prima do cinema brasileiro.

A começar pelo roteiro: completamente amarrado, coeso e enxuto. Não há exageros, discrepâncias ou apelações - características, então, muito comuns à produção nacional de baixo custo. A história é narrada por um jogral que imita os programas de crônicas policiais das rádios AM. As cenas de ação vão formando um grande mosaico, em uma linha completamente atemporal, mas que faz todo o sentido. O clima de film noir, policialesco, ganha traços propositalmente caricatos. Além da direção certeira de Sganzerla, a montagem e a edição impressionam. São limpas, claras e bem feitas. Tornam o filme extremamente contemporâneo.

Sganzerla já foi descoberto pelos estrangeiros. Seus filmes são exibidos e aclamados ao redor do mundo. Gente como Tarantino já rendeu honras à obra do cineasta. Enquanto isso, pouca gente o conhece por aqui - talvez só de nome. Uma pequena parte de sua filmografia foi lançada em DVD, em versões remasterizadas. Uma boa oportunidade para os cinéfilos brasileiros conhecerem a força visual de seus filmes.

O bandido da luz vermelha é coisa nossa.

domingo, junho 14, 2009

#60 - Santiago, de João Moreira Salles


Documentários como Santiago me tornam cada vez mais apaixonado pelo gênero. Esmiuçar a vida de personagens reais é um desafio monumental para qualquer diretor. Trabalha-se com a imprevisibilidade, com o inusitado, praticamente sem um roteiro. O filme de João Moreira Salles, que na verdade é um recorte de uma obra inacabada, é uma verdadeira aula de cinema!

Há alguns anos, durante alguns dias, o diretor coordenou uma série de entrevistas com o Santiago, mordomo que trabalhou para sua abastada família enquanto morou na famosa casa na Gávea, onde hoje funciona o Instituto Moreira Salles. Ao levar as filmagens à ilha de edição, achou que faltava coesão ao material. Acabou por engavetar o projeto. Porém, pouco depois, fez uma nova empreitada. Ao invés de contar a história sobre Santiago, João Moreira Salles resolve falar também sobre a tentativa de se fazer um documentário sobre um ex-empregado - sem desviar o foco do personagem, mas compartilhando a experiência de montagem do filme.

O resultado é arrebatador! Em primeiro lugar, porque Santiago é uma figura incrivelmente singular. Homem de bastante cultura, devotou grande parte de sua vida à servidão e ao estudo e catalogação da história da nobreza mundial, em documentos meticulosamente arranjados. São cerca de 30 mil páginas, datilografadas em uma antiga máquina de escrever, que contam histórias diversas. O próprio mordomo conta, ele mesmo, suas memórias, em uma espécie de narrativa quixotesca - nos deparamos com a dúvida constantemente, muito comum na maioria dos planos documentais. É justamente esse o outro ponto de interesse em Santiago: o filme envolve toda a questão de memória. Não somente as lembranças do mordomo, mas também as do diretor.

O lirismo e o cuidado com a narração fazem de Santiago uma obra de arte. Um documentário aparentemente simples, mas que fica impregnado na cabeça horas após a exibição. Consolida o nome de João Moreira Salles como um dos maiores cinedocumentaristas do país - até mesmo quando está envolvido pessoalmente com o argumento.

Aplausos. Muitos aplausos!

sexta-feira, junho 12, 2009

#59 - Minhas adoráveis ex-namoradas (Ghosts of girlfriends past), de Mark Waters


Hoje é Dia dos Namorados, data em que cinemas, restaurantes e motéis ganham filas gigantescas de gente querendo celebrar o amor - principalmente no último estabelecimento. Portanto, se você, leitor ou leitora, pretende levar seu cônjuge à sala de projeção, é melhor tomar cuidado com as armadilhas do circuitão.

Estreia hoje o filme Minhas adoráveis ex-namoradas, com o insosso casal Matthew McConaughey e Jennifer Garner. Programa apenas para quem não quer perder tempo no escurinho do cinema. Entenda por que na resenha que escrevi para a M... Online. Para ler, clique aqui! Comentários podem ser feitos por lá também, ok?

E sejam felizes!

quinta-feira, junho 11, 2009

#58 - Berlin Alexandreplatz (Episódio 11 - Saber é poder e Deus ajuda a quem cedo madruga), de Rainer Werner Fassbinder


Faltam apenas dois episódios e o epílogo para terminar de assistir a Berlin Alexanderplatz, o marco do Novo Cinema Alemão. Depois de uma certa amansada na trama, Franz Biberkopf volta a ter sua vida virada de cabeça para baixo. O décimo-primeiro capítulo é, até agora, o mais brutal e perturbador, com cenas de extrema dramaticidade e violência.

Em um acesso de raiva, o protagonista quase comete um outro assassinato, em uma cena absurdamente bem dirigida e interpretada. O texto também ganha contornos mais sombrios, e nos prepara para o turbilhão de acontecimentos que vão se dar nos próximos episódios. A trama, ao que parece, deve ficar ainda mais sórdida.

Outro dia me perguntaram por que não via logo todos os episódios de uma vez, em uma espécie de maratona. Pois bem, explico: cada capítulo de Berlin Alexanderplatz tem uma complexidade diferente. Não é como assistir, por exemplo, a uma temporada de Two and a half man ou Simpsons (ambos ótimos). É preciso um tempo para digerir a história e entendê-la em seus diversos aspectos. Estamos diante da obra-prima difícil, densa e envolvente.

Fundamental para quem quer ter repertório cinematográfico.

sexta-feira, junho 05, 2009

#57 - Loki - Arnaldo Bapstista, de Paulo Henrique Fontenelle


Loki é o título de um fantástico álbum de música brasileira, que acabou se tornando um testemunho do tortuoso caminho traçado por um verdadeiro gênio. Quando Arnaldo Baptista gravou esse disco, produzido por Roberto Menescal, mal sabia que estava, além de exorcizando os seus fantasmas, deixando registrada toda a sua sensibilidade como músico. Era como se o Brasil ganhasse, guardadas as devidas proporções, uma espécie de Syd Barret - um mártir, um mito.

O documentário, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle e produzido integralmente pelo Canal Brasil, traz um rico material audiovisual para contar a história não somente de um músico, mas de uma das bandas mais importantes do país, os Mutantes. Cronologicamente, acompanhamos desde os primeiros encontros até os dias de reclusão de Arnaldo Baptista - incluindo seu envolvimento com LSD, o romance com Rita Lee, o rompimento com os outros mutantes, as internações em hospitais psiquiátricos e até um acidente que o deixou em coma.

A edição é eficaz, sem ajustar o foco a pieguices ou sentimentalismos baratos. Se o espectador se envolve, é por causa da intensidade e do vigor do documentado, um personagem complexo e interessante. Imagens de arquivo revivem os tempos de festivais televisivos e apresentações ao redor do mundo. Depoimentos de pesos pesados da MPB, como Liminha (ex-baixista dos Mutantes), Gilberto Gil, Lobão e Tom Zé atestam o carisma e a capacidade artística de Baptista. Fica fácil compreender porque sua música é cultuada até mesmo fora do país e foi propagada por gente como David Byrne, Kurdt Cobain e Sean Lennon.

O filme é tão interessante e bem montado que, apesar do forte cheiro de tinta da recém-pintada sala do Arteplex, aguentei firme a dor de cabeça e a ardência nos olhos e no nariz. Até o fim. Fosse outro o filme, daqueles meia-bomba, teria desistido nos primeiros 20 minutos de projeção.

Nestes tempos de música pasteurizada e ícones vazios, trata-se de um documento de extrema importância para se entender o que é o rock brasileiro e quem são os seus verdadeiros heróis.

Imperdível!

segunda-feira, junho 01, 2009

Radiola Vacilante #5 - Conspiração!


Depois de uma tentativa frustrada de gravação caótica, regada a muita capirinha de laranja lima da pérsia (esse negócio de misturar álcool e frutas é perigoso), chegamos  à conslusão de que era melhor passar a borracha e gravar tudo de novo.

Portanto, ao som de Weezer, retornamos ao formato original e careta, ainda que informal e divertido, de se fazer Radiola. Um bom papo sobre cinema, música, política (Gontijo cada vez mais antenado com a economia global) e teorias da conspiração!

Para ouvir, clique aqui! E sejam felizes.