domingo, maio 31, 2009

#56 - O retorno dos mortos-vivos (Return of the living dead), de Dan O'Bannon


Quem disse que filmes de zumbis não podem ser divertidos? Seguindo o que convencionou-se chamar de terrir, um gênero que mistura terror com comédia, A volta dos mortos-vivos se tornou um verdadeiro clássico dos filmes B. Diálogos surreais, referências aos clichês do horror e muito punk rock fazem desta sátira uma das produções mais divertidas sobre os comedores de cérebros.

Mais de 15 anos depois do sucesso de George A. Romero, A noite dos mortos-vivos, Dan O'Bannon inaugurou uma franquia que renderia mais duas sequências - que, na minha opinião, não chegam aos pés do precursor. Aqui, dois sujeitos que trabalham em uma espécie de loja de materiais médicos, que vende de próteses à cadáveres, liberam sem querer o gás tóxico que reanima os mortos, o mesmo que foi recolhido pelo exército no clássico de 68. Na tentativa de se livrar de um morto-vivo e encobrir os fatos, acabam acordando todo o cemitério ao lado, que sugestivamente tem o nome de Ressurection Cemitery. Daí em diante, é só diversão. E alguma escatologia, obviamente!

O roteiro segue a linha catastrófica: um grupo de pessoas acaba ficando preso em um necrotério, cercado pelos mortos vivos. O interessante em A volta dos mortos-vivos são os personagens. Parte das vítimas faz parte de um grupo de jovens punks desajaustados. Portanto, a trilha sonora traz o melhor do punk rock e do hardcore da década de 80, como TSOL, Cramps e The Damned. James Karen e Thom Mathews, que interpretam os dois culpados, fazem um belíssimo trabalho de comédia e roubam a cena! São responsáveis pelas melhores sequências.

O'Bannon trabalha bem os seus zumbis. Diferentemente dos de Romero, os seus já se encontram em decomposição e gritam por cérebros. Braaaaaaaaaaains! Para incentivar a multidão de mortos-vivos a dar maior credibilidade à ação, reza a lenda que ele comeu cérebro de carneiro cru antes de convencer os figurantes a mastigar a iguaria em frente às câmeras. Verdade ou lenda, sua direção é precisa.

O desfecho, completamente preguiçoso, mas extremamente criativo, fecha a produção com chave de ouro. Um clássico! Revê-lo ao lado de amigos, petiscos e caipirinhas foi uma experiência bem agradável. Recomendo!

segunda-feira, maio 25, 2009

Luz, câmera... canção! - Ween

Taí uma das bandas mais heterogêneas do circuito underground estadunidense. O Ween existe desde 1984, quando dois amigos que se conheceram na oitava série do colégio resolveram se juntar para fazer umas músicas. Depois de algum tempo gravando fitas cessete, começaram a chamar a atenção pela ousadia e pelo trabalho fora dos padrões, completamente experimental.

Anos mais tarde o Ween assinou com uma grande gravadora, a Elektra, e começou a lançar seus álbuns, cada um mais doido do que o outro. No início, chegaram a ser comparados com Tom Waits e Zappa, tamanha era a gama de ritmos e melodias. Porém, o que conferiu à banda certo status, ainda que somente em território estadunidense, foi o espírito livre de fazer música. Não é à toa que, no meio da discografia dos caras, há um disco chamado 12 Golden Country Greats (eu tenho!) que, como o título sugere, traz covers genuínos de grandes clássicos da música country, sem improvisações ou experimentalismos.

Na minha opinião, o melhor álbum do Ween é Pure Guava, de 1992. Está nele a canção mais doida dos caras: "Push th' little daisies" - que ganhou também um dos videoclips mais loucos, bacanas e infames da história. Não bastasse a letra insólita e o vocal esganiçado, as coreografias são bem esquisitonas. Dê um confere, que vale a pena! A música gruda na cabeça...

sábado, maio 23, 2009

#55 - Partidas (Okuribito), de Yôjirô Takita


Partidas é um filme japonês, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, cujo título em português também funciona. O roteiro fala sobre a dificuldade em aprender a lidar com dois tipos de partidas. A primeira é a morte física, a partida do mundo dos viventes. A segunda é a morte psicológica, tão terrível quanto a primeira, causada pelo abandono. Usando como narrador um violoncelista desempregado abandonado pelo pai ainda na infância, Yôjirô Takita conta uma bela história que evoca tradições milenares e choques existenciais contemporâneos.

Após receber a notícia de que a orquestra em que toca será dissolvida, Daigo (Masahiro Motoki) resolve voltar à sua antiga cidade natal, no interior do Japão. Decidido a abandonar a música como ofício, arruma um trabalho inusitado, em uma empresa que prepara as pessoas para partir. Ou seja, maqueia e acondiciona os mortos no caixão. Sua nova função causa um certo constrangimento em casa e desperta a desconfiança dos vizinhos. Porém, é convivendo com a dor dos outros que Daigo vai aprender a superar o seu próprio drama.

O ritual que envolve o trabalho de acondicionamento é verdadeiramente lindo, com movimentos delicados e cadenciados. Daigo aprende que maquiar o rosto do defunto e transformar o corpo gelado em uma réplica do que era quando vivo é uma tarefa que requer paciência e concentração, assim como é também a execução de uma sinfonia.

O filme começa com sequências que tiram proveito do estranhamento causado pelo argumento. Na medida certa, arranca alguns risos com os percalços da profissão, como na divertida cena do primeiro contato de Daigo com um cadáver. O peso do ritualístico é mesclado com uma edição mais solta, mais aos moldes do cinema ocidental. Porém, se por uma lado esse tipo de montagem ajuda na hora de prender a atenção do espectador, por outro ameaça o resultado final com os temidos clichês.

O terço final do filme deixa o estranhamento de lado e dá lugar a um sólido melodrama, com direito a cenas típicas dos dramalhões hollywoodianos - só que mais bem feito, bem mais verdadeiro. A sequência na qual Daigo toca seu violoncelo em meio a paisagens bucólicas, em uma série de cortes temporais da trama, é quase piegas. Só não cai no clichê por causa da belíssima atuação de Motoki. Lá para o final, quando o protagonista precisa resolver seus conflitos, a direção de Takita deixa a gente com aquele nó na garganta, apoiado pelo tristonho e melancólico som do violoncelo.

Ainda assim, Partidas é uma história sensível e muito bem contada. Um belíssimo filme!

terça-feira, maio 19, 2009

#54 - Uma noite no museu 2 (Night at the museum: Battle of the Smithsonian), de Shawn Levy


Em primeiro lugar, é preciso confessar que não conferi o antecessor de Uma noite no museu 2. Por pura e mera falta de interesse mesmo, apesar de gostar muito do trabalho de Ben Stiller. Sendo assim, me falta base para compará-los. Porém, não é que a tal continuação me impressionou positivamente?

Longe de dar aquela vontade de sair correndo e arrumar o primeiro filme da série. Trata-se de um blockbuster na raiz, daqueles de orçamento milionário e de grandes proporções. Tudo é grandioso: elenco, cenários e figurinos. Não é à toa que foi filmado em um dos maiores (não podia ser diferente) e mais visitados complexos de museus dos Estados Unidos, a Instituição Smithsonian, em Washington.

Tirando os clichês, os buracos no roteiro, os exageros, a lição de moral, a estátua de Abraham Lincon encarnando o herói estadunidense que salva o dia e o plot amoroso envolvendo o protagonista e a mocinha, até que se trata de um bom passatempo! O roteiro é mais do mesmo: o ex-segurança de museus e agora homem de negócios bem sucedido Larry Daley precisa salvar seus amigos inanimados que voltam à vida à noite quando eles são transferidos para o tal Smithsonian. No subterrâneo do museu, uma verdadeira batalha histórica será travada.

As piadas são boas, ligeiras e na dose certa, sem forçação de barra. Porém, o destaque é o elenco. Principalmente os que interpretam os vilões. Napoleão (Alain Chabat), Ivan, o Terrível (Christopher Guest) e Al Capone (Jon Bernthal) são algumas das figuras que voltam à vida em atuações convincentes e engraçadas. Elas entram para o exército de um maligno faraó com planos de dominar o mundo, interpretado por Hank Azaria, que rouba a cena! Sua caracterização rende os melhores momentos de todo o filme, incluindo uma sequência impagável quando barra a entrada de dois vilões nada convencionais ao seu grupo.

Um bom divertimento tanto para crianças, quanto para os adultos que as levarem. Por incrível que pareça, eu dei algumas boas risadas! E não levei criança nenhuma.

segunda-feira, maio 18, 2009

Luz, câmera... canção! - Squirrel Nut Zippers

Quando eu escuto os discos do Squirrel Nut Zippers, uma das minhas bandas preferidas, me dá vontade de ser um gangster da época de Al Capone e de aprender a tocar trompete. Para quem não conhece, a banda recria com alta fidelidade os sons oriundos de um gênero musical, lá dos anos 20, que ficou conhecido como dixie jazz.

Músicas bem orquestradas, instrumentistas extremamente talentosos e letras cheias de sarcasmo e boas sacadas são constantes nas composições do Squirrel Nut Zippers. Os timbres e os arranjos estão de acordo com a época passada, porém são gravados com a qualidade que a tecnologia de hoje oferece. Resultado: pérolas musicais!

Um dos videos mais bacanas deles é o da música "Ghost of Stephen Foster", que recria o clima de desenhos animados de época, como Betty Boop, O Gato Félix e Mickey. Uma conjunção perfeira entre música e imagem. Inclusive, o vídeo foi premiado em um festival no Canadá, em 1999. Espia:

Radiola Vacilante #4 - Lascivo e Muito Estranho


Demorou, mas saiu! Está no ar a Radiola Vacilante número 4! Na ausência de nosso centroavante e garoto-enxaqueca Daniboy, escalamos o Jenner, o homem por trás do Misturinha!

O papo foi ótimo: cinema, Doug Lascivo, Suicide Girl, cagadas da indústria musical e aquelas trivialidade deliciosas de sempre.

Para ouvir, clique aqui! E divirta-se!

quinta-feira, maio 14, 2009

#53 - Stella, de Sylvie Verheyde


Um filme sobre puberdade feminina, se não oferecer um tratamento diferenciado ao argumento, pode facilmente cair na armadilha de ser uma produção rosinha de rendas com babados e frou frous de menininha. Resumindo: corre o risco de agradar, majoritariamente, quem veste calcinha. Porém, o grande trunfo de Stella está justamente na montagem.

O roteiro, assinado pela também diretora Sylvie Verheyde, é autobiográfico e fala sobre o amadurecimento de uma adolescente, no final da décade de 70, cujos pais são donos de um bar. Acostumada a conviver com tipos boêmios e desajustados, Stella, a protagonista que dá nome ao filme, entra em conflito quando é matriculada em uma das melhores e mais caras escolas de Paris. Solitária, conhece Gladys, uma estudante argentina que tem as melhores notas da classe. A amizade entre as duas serve de contraponto para que Stella se reconheça como indivíduo em meio ao caos de seu dia-a-dia.

Os ambientes explorados pela adolescente oferecem um verdadeiro mosaico. O bar, a escola, a casa da amiga estrangeira e as férias no interior do país oferecem, cada um, experiências distintas que deixam profundas marcas no processo de amadurecimento individual.

Ao longo da projeção, temas complexos são abordados. Pelo fato de morar em cima do bar, Stella é constantemente confrontada por questões que envolvem índole e caráter. Porém, a direção de Sylvie Verheyde é certeira e faz com que todo o peso do argumento seja diluído em sequências belíssimas, com fotografia caprichada, trilha sonora original bastante eficaz e atuações realmente surpreendentes - com grande destaque ao excelente trabalho da jovem protagonista Léora Barbara, que em seu primeiro longa mostra um equilíbrio cênico invejável.

Um filme fofo, porém denso. Pena que ainda falta um pouco para a estreia, que está marcada para o dia 11 de junho. Meninas, anotem a data na agenda da Hello Kitty, ok? Meninos, peçam às meninas, sempre mais organizadas, para lhes lembrar.

segunda-feira, maio 11, 2009

#52 - Quase irmãos (Step brothers), de Adam McKay


Parece que o nome de Judd Apatow começa a atestar boas comédias. Uma de suas mais novas produções, Quase irmãos, traz novamente para as telas um filme cheio de escatologia (ainda que na medida certa), diálogos ofensivos e bom rendimento do elenco.

Will Ferrell e John C. Reilly, em ótima sintonia, emprestam seus talentos para contar uma história ridícula. Dois marmanjos de 40 anos, mimados e patéticos, precisam aprender a conviver como irmãos de criação quando seus pais, então divorciados, resolvem se casar. Ou seja, é um besteirol completo. Porém, uma besteira bastante caprichada. O roteiro, escrito por Ferrell e pelo diretor Adam McKain, é amarrado e tem bons momentos.

O grande trunfo das produções de Apatow é a quebra da previsibilidade por sequências inesperadas, repletas de um humor agressivo e incorreto. A pieguice é explorada, revirada e desmembrada. A piada funciona mesmo em cenas com próteses de testículos ou com uma família cantando "Sweet child o'mine" à capela.

Outro ponto forte de Quase irmãos é a trilha sonora. Abre com "A-punk", do Vampire Weekend, passa por LCD Soundsystem com "North american scum" e fecha com Mighty Mighty Bosstones, das antigas, com o clássico "Knock on wood".

Dica do camarada vacilante Daniboy. Bem divertido!

sexta-feira, maio 08, 2009

#51 - Vixen!, de Russ Meyer


É, dessa vez Russ Meyer errou a mão. Vixen! é o primeiro filme do diretor que me causou certa estranheza e não me agradou nem um pouco. Trata-se de uma produção recheada de polêmicas e tabus, o que poderia ser um prato cheio para Meyer.

Mulheres de seios fartos e cenas de sexo, de fato, não faltam. A bem fornida Erica Gavin, ex-dançarina que voltaria a estrelar grandes sucessos de Meyer, interpreta a ninfomaníaca Vixen Palmer. Casada com um piloto de avião, a moça vive em uma espécie de pousada nas montanhas canadenses. Enquanto o marido voa em busca de turistas, ela sacia seu apetite sexual com quem aparecer na sua frente: seja com um guarda florestal, com a mulher de um cliente (em uma demorada cena de lesbianismo) e até mesmo com seu irmão! Só não aceita abrir as pernas para o negro Niles, estadunidense fugitivo que recusou servir ao exército do seu país - e que serve como contraponto para um confuso discurso sobre deveres patrióticos e racismo.

O roteiro só ganha ritmo mesmo lá para o terço final, quando um irlandês comunista (?) resolve sequestrar o piloto para uma viagem até Cuba. Aí a maionese desanda por completo! O que se vê são diálogos políticos sem pé ou cabeça. Um negro, um comunista, uma ninfomaníaca e um corno discutindo a alguns metros de altitude. Poderia ser engraçado, divertido, curioso, mas não é. É patético na pior acepção da palavra.

Os planos mirabolantes, o sexo absurdo, os enquadramentos diferenciados e a estética singular, que fizeram de Meyer um grande diretor, ficaram de fora.

Uma pena...

quinta-feira, maio 07, 2009

#50 - Berlin Alexanderplatz (Episódio 10 - A solidão cria rachaduras de loucura até nas paredes), de Rainer Werner Fassbinder


Voltando à saga de Franz Biberkopf. Aproveitando o momento de marasmo na atividade da escrita como ofício, espero poder concluir muito em breve a série de Berlin Alexanderplatz. Faltam apenas três episódios mais o epílogo - que dizem ser, este último, o ápice da carreira cinematográfica de Fassbinder.

Depois de um panorama histórico sobre a Alemanha entre-guerras e a República de Weimar, o foco retorna a Franz, atordoado pelos fantasmas da solidão, exatamente como sugere o título do episódio. Sua relação com Mieze começa a nutrir sentimentos de desconfiança e raiva.

Franz, então, faz o que melhor sabe: enche a cara! Novos questionamentos vão surgindo e um pacto no mínimo bizarro é proposto por Mieze a Eva (lembra dela, a primeira prostituta de quem Franz foi cafetão?). Não vou nem escrever o que é para não estragar o deleite alheio.

segunda-feira, maio 04, 2009

#49 - L'aventure c'est l'aventure, de Claude Lelouch


Foram meses esperando que o download fosse concluído. Sim, apelei para a banda larga, porque é impossível encontrar L'aventure c'est l'aventure, deliciosa comédia de 1972 dirigida por Claude Lelouch, em qualquer serviço de locação ou venda do Rio de Janeiro. Pois bem, valeu a pena!

O filme conta a história de cinco ladrões que, após longas semanas de estudo, resolvem se unir para praticar novos golpes na praça. A especialidade: raptos, de vez em quando com o consentimento da vítima. Ao longo do filme, a experiência de cada um deles é posta em prática em situações hilárias! Com um humor ferino e cínico, Lelouch vai conduzindo uma espécie de farsa que engloba política, religião e até o mundo das celebridades.

Os atores são outro ponte forte, em atuações homogêneas e inesquecíveis. Carismáticos, formam uma das quadrilhas mais simpáticas da história do cinema, cada um com suas peculiaridades. Destaque para Lino Ventura, no papel de Lino Massaro, o mentor intelectual da trupe.

O desfecho é absurdamente sensacional, com direito a uma reviravolta política e um discurso de palanque que beira o absurdo. Nos créditos finais, as possíveis próximas vítimas de rapto: entre os nomes de Nixon e Onassis, está o de Pelé - que havia sagrado-se campeão mundial de futebol pela seleção brasileira em 70.

Dica de ninguém menos que meu progenitor (sujeito de bom gosto cinematográfico)! Imperdível para quem gosta das antigas comédias farsescas.

sábado, maio 02, 2009

Radiola Vacilante #3 - Na mansão Frota


Está no ar a Radiola Vacilante #3, gravada em minha suntuosa residência. Recebi, na décima-segunda hora, uma trupe do mais alto nível. Coisa fina: o crème de la crème da sociedade carioca. Participações especiais do amigo e músico Patrick Laplan e da cônjuge do Peter, a antenada Fernanda Prado.

Durante a gravação e o comes-e-bebes, o bom papo de sempre: cinema, música e trivialidades. Para escutar, clique aqui!

Espero que seja tão divertido para vocês, caros ouvintes, quanto foi para nós, os vacilantes!