quarta-feira, abril 01, 2009

#36 - Moscou, de Eduardo Coutinho


Eis um grande, enorme, descomunal encontro de talentos: Eduardo Coutinho, um dos grandes documentaristas do país; Enrique Diaz, um monstro à frente de uma das maiores companhias de teatro do país, como ator e diretor, a Cia dos Atores; e, na minha opinião, a trupe mais homogênea e talentosa que já pisou em palcos brasileiros, o Grupo Galpão. Quando os três se juntam, cada um com suas experiências e vivências, para trabalhar em cima de um texto de ninguém menos que Tchekov, o resultado é arrebatador.

Assim é Moscou, um belíssimo documentário que vai dissecando um árduo trabalho de três semanas em cima da peça "As três irmãs". Diante das câmeras, sem figurinos ou cenário, o Galpão exercita toda a capacidade cênica disponível, enquanto Enrique Diaz propõe jogos para que a relação entre ator e texto seja a mais completa possível. Toda a ação, seja ensaio, leitura ou reflexão, é captada de forma muito natural por Eduardo Coutinho.

O teatro é a arte do ator em sua essência. É o lugar onde o trabalho de atuar precisa ser puro, sem truques ou artifícios. Mais do que um filme, Moscou funciona como um estudo sobre esse extenuante e nada badalado ofício de se doar aos personagens.

Como em Jogo de cena, obra anterior de Coutinho que também abordou as artes cênicas, a linguagem adotada faz com que o filme não seja convidativo ao circuitão. Porém, é obrigatório para quem ama cinema, para quem ama teatro e para quem simplesmente se interessa por cultura.

Eu tive a feliz oportunidade de conhecer melhor os atores do Grupo Galpão, já que minha mulher trabalhou durante algum tempo na produção local deles, aqui no Rio. Dei carona, bebi três chopes, troquei ideias e até cachaça com eles. E, surpreendentemente, são pessoas completamente simples, avessas à doença das celebridades, e conscientes da importância do teatro. Pois tinham tudo para serem pedantes, afinal já apresentaram a sua versão de rua de "Romeu e Julieta" dentro do Shakespeare Theater - só isso.

Tenho um carinho muito grande pelo grupo. E revê-los, ainda que em duas dimensões, é sempre uma lição de amor à arte.

8 comentários:

Kamila disse...

Dudu, parece-me que Eduardo Coutinho anda se interessando bastante pelo processo de criação. Adorei a premissa por trás desse documentário e, se for tão bom quanto "Jogo de Cena', com certeza irei conferi-lo.

Alex Gonçalves disse...

Dudu, ainda não vi um projeto sequer do seu xará, o Eduardo Coutinho. Mas criei uma curiosidade enorme em ver ao menos "Jogo de Cena", que foi muito, muito elogiado. Inclusive, vou tentar assisti-lo num dos feriados da semana que vem. E eu não conhecia esse "Moscou", mas é no mínimo interessante assistir a um filme que deve agradar as pessoas que apreciam as mais diversas artes culturais, especialmente as de cinema e teatro.

Abraços!

jeff disse...

Aff, eu sou uma mula. Esqueci completamente do festival que tava rolando no Rio! Minha intenção era ver esse e o do José Padilha, mas minha mente um tanto avoada não permitiu. E Moscou pelo visto seria ainda mais interessante para mim, já que estudo teatro.

Sabe quando entra no circuito, Dudu?

[]s!

Vulgo Dudu disse...

Kamila, é um filme diferente, que não vai agradar o circuitão. Porém, se você tem interesse pelo fazer artístico (e acho que tem, né? rs...)é encantador!

Alex, Moscou mescla bem essas duas artes. Coutinho pelo documentário, Enrique Diaz pela direção de atores e o Galpão como um grupo teatral completo. A Santa Trindade!

Jeff, para você eu diria que é OBRIGATÓRIO! rs...

Bjs e abs!

Sérgio Déda disse...

E ai cara... tow tentando voltar à ativa depois de um tempo parado. hehehehe

Abraços!

IN ON IT disse...

trackback: http://inonit.wordpress.com/2009/04/02/moscou-de-eduardo-coutinho/

Rafael Carvalho disse...

O mais impressionante no Coutinho é que mesmo na idade dele e com obras-primas no currículo, o cara consegue se reiventar, como aconteceu com Jogo de Cena, que me pegou de jeito. Não há filme nacional que eu mais queria ver hoje se não esse Moscou.

Vulgo Dudu disse...

Rafael, eu acho que Jogo de cena é mais acessível ao grande público. Quer dizer, nem sei se ficou tão acessível assim. Moscou é mais intrigante, mais denso, mais artístico mesmo - até por isso mesmo acho que você vai gostar!

Abs!