quinta-feira, abril 30, 2009

#48 - Recém-chegada (New in town), de Jonas Elmer


Chega aos cinemas amanhã, primeira sexta-feira de maio, mais uma comédia romântica, gênero para o qual não tenho muita paciência. Porém, fui assistir à cabine de imprensa de Recém-chegada de peito aberto, na esperança de que a carismática Renée Zellweger, que não é tão ruim, me surpreendesse e salvasse o dia.

De fato, não vai haver resenha lá no site da Revista M... O que significa que o filme não é digno de merda. Entra naquela velha categoria de “não fede nem cheira”. Longe de ser bom, muito longe. O roteiro é fraco e previsível, o argumento é batido, e a protagonista, que está a cara da Márcia Goldschmidt (sério, dá nervoso), não rende o esperado. Ela interpreta uma executiva que precisa ir ao gelado estado de Minessota para gerenciar um processo de downsizing na fábrica local da empresa em que trabalha. Munida em um primeiro momento de pragmatismo e ceticismo típicos do mundo dos negócios, ela logo vai amolecendo o coração - o que inclui uma aventura amorosa com um sujeito simples, porém honesto e bondoso. O resto vocês já sabem, né?

Mas então, o que realmente salva o filme de ir privada abaixo? - vocês devem estar se perguntando.

Se o carisma e a atuação de Zellweger não são o bastante, pelo menos os personagens secundários, leia-se os funcionários da tal fábrica, livram a produção de cair na merda. São engraçados, bem interpretados e concentram os escassos momentos realmente divertidos da trama. Tornam o filme menos fedorento.

Recém-chegada é, verdadeiramente, insosso.

PS: confesso que não foi fácil me concentrar na história. Já estava esperando a hora da Zellweger, que chega até a se vestir como a Márcia Goldschmidt, entrar em cena e apresentar a história do menino-peixe ou do cara que fazia amor com uma árvore. Ou então, antes dos créditos finais, virar-se para a câmera e dizer “mexeu com você, mexeu comigo”.

segunda-feira, abril 27, 2009

#47 - Super High Me, de Michael Blieden


Tudo começou com uma piada durante um número de stand up comedy. O comediante Doug Benson, conhecido por ser o maconheiro #2 dos Estados Unidos, sugere um filme aos moldes do documentário Super Size Me. Diz ele que, se um monte de gente pagou para ver um sujeito se entupir de comida do McDonald's e, depois de 30 dias, passar mal, ele também tem um filme. Só que o dele vai se chamar Super High Me. Durante um mês, ele vai fumar maconha todo o dia, o dia inteiro!

Pois a piada virou realidade. Ao lado do diretor Michael Blieden, Doug resolveu ser a cobaia deste insólito experimento cinematográfico. E o resultado é realmente bastante divertido, ainda mais porque o que comediante pretende é justamente mostrar como é possível viver chapado por tanto tempo.

Para que o argumento funcionasse de maneira correta, o filme foi dividido em dois atos. No primeiro, o comediante passou por uma espécie de desintoxicação: 30 dias sem puxar um fumo. Durante o período, contou com acompanhamento médico e psicológico, além de se submeter a um hilário teste de clarividência. No segundo ato, começou a danação. Aproveitando-se da lei do estado da California, que autoriza o comércio medicinal da droga, ele foi à forra.

Esquema profissional. Ao invés de apertar e acender um cigarro do capeta, Doug usa um vaporizador que armazena em um saco plástico somente o THC, livre de monóxido de carbono e outras impurezas. Novamente, passa por exames, consultas e testes, inclusive o que pretende provar que a maconha aumenta a tal capacidade de clarividência.

O documentário até aborda questões interessantes, como a luta pelo uso terapêutico da maconha em determinadas patologias. Porém, não se engane: trata-se de uma piada infame filmada, com temática adulta e politicamente incorreta.

No fim das contas, Super High Me e Super Size Me se complementam, já que muita gente mata a larica no McDonald's.

sábado, abril 25, 2009

#46 - Tony Manero, de Pablo Larrain


Pela sinopse até parece mais um daqueles filmes independentes leves, caricatos, divertidos. No Chile dos anos 70, debaixo de ditadura, um sujeito obcecado por Tony Manero e sua coreografia em Os embalos de sábado à noite tenta, a todo custo, vencer um concurso de imitadores do personagem de John Travolta. O que esqueceram de dizer, e aí é que a coisa fica interessante, é que o protagonista tem hábitos bem incomuns. Trata-se de um serial killer!

Pablo Larrain assina a direção de Tony Manero (co-produção brasileira), seu segundo longa, e mantém o clima soturno, mórbido e imprevisível do primeiro trabalho. Com um roteiro eficiente em mãos, filma com naturalidade um Chile esquecido e miserável, onde é preciso se apegar a qualquer fio de esperança. Raúl Peralta (o excelente Alfredo Castro), o imitador de John Travolta em questão, é feio, sujo e mal ajambrado. Vive em uma espécie de cortiço que abriga, no andar de baixo, um restaurante. Ao lado de outros aspirantes a dançarinos, coreografa números para serem apresentados no recinto, objetivando atingir um estrelato que parece muito distante.

A linha psicológica de todos os outros personagens que fazem parte da história também é muito bem trabalhada. O diretor não poupa o espectador de experimentar o efeito da dura realidade imposta pelo governo opressor de Pinochet nas camadas mais baixas da sociedade chilena. As cenas de sexo são frias, intensas e violentas. Não há corpos bonitos e nem plasticidade alguma. Há também certa dose de escatologia perfeitamente enquadrada pela câmera. Os assassinatos são cruéis, diretos, sem precisar mostrar muita coisa.

Um filme denso, escuro, porém muito "maneiro"!

sexta-feira, abril 24, 2009

#45 - Eu odeio o Dia dos Namorados (I hate Valentine's Day), de Nia Vardalos


Pessoal, chega hoje às telas o mais novo filme de Nia Vardalos, aquela do Casamento Grego. Porém, a estréia da moça na direção é uma bomba!

Eu odiei Eu odeio o Dia dos Namorados. Quer saber por quê? Está tudo bem explicado lá na resenha que eu escrevi para o site da Revista M...! Para ler, clique aqui!

Lembrando que comentários podem ser feitos por lá também, na capa da seção Críticos de M...

quinta-feira, abril 23, 2009

Radiola Vacilante #2 - Piratas!


Está no ar o epísódio número dois da Radiola Vacilante. Nesse programa, falamos sobre a Série B, Vanishing Point, Tony Manero, Pirate Bay condenado, Lynch + Moby, seriado japonês e aquelas bizarrices de sempre. Tudo isso ao som do mestre John Coltrane!

Vocês já sabem como funciona, né? Para ouvir, basta clicar aqui!

Divirtam-se!

quarta-feira, abril 22, 2009

#44 - Vanishing point, de Richard C. Sarafian


Esqueça aqueles programas policiais que mostram perseguições em alta velocidade nas estradas estadunidenses! Esqueça também Vin Diesel dirigindo aqueles carros tunados, com o braço para fora e beicinho de mau. Vanishing point é o road movie. E Kowalski é o cara!

O filme é uma das referências cinematográficas citadas em Death proof, de Quentin Tarantino. A bordo de um Dodge Challenger 70 branco, o ex-piloto Kowalski precisa ir de Denver até São Francisco em apenas dois dias. Ou seja, tem que descer o pé no acelerador. Porém, no caminho, vai precisar enfrentar barricadas policiais, obras de contenção, falta de gasolina e motoristas alucinados. Está dado o ensejo para um espetacular filme de perseguição.

A direção de Richard Sarafian, bem como a montagem de Vanishing Point, impressionam. A primeira cena é extremamente bem conduzida e prega o espectador na poltrona. Para melhorar, a trilha sonora reúne o melhor do início da década de 70. Funk, soul, blues e rock da melhor qualidade, que combinam perfeitamente com velocidade.

Em meio a paisagens desérticas, Kowalski e seu Dodge Challenger são guiados por um DJ cego, que o transforma em uma verdadeira celebridade, espécie de anti-herói. Poucos diálogos, pouca enrolação e muita correria. Nem precisa de mais. As fugas e escapadas são realmente espetaculares. Impossível não torcer para a Polícia Rodoviária se dar mal!

Dá até vontade de ter um Challenger branco...

terça-feira, abril 21, 2009

#43 - Up! Megavixen, de Russ Meyer


Mais um filme de um dos meus diretores preferidos, Russ Meyer - o cara que fez os filmes eróticos mais criativos da história do cinema. Sorte dos nossos pais! Dessa vez conferi o inusitado Up! Megavixen, que traz um roteiro divertido e descabido.

Adolph Schwartz, uma espécie de Hitler sado-masoquista, mora em um castelo onde é "castigado" pelas maiores autoridades no assunto. Tem de tudo: orientais, ninfetas, africanas e até um rapaz que manuseia com habilidade extrema um chicote. Até que um dia, alguém joga em sua banheira uma piranha amazônica. Caberá ao espectador descobrir quem é o assassino. O mais bacana é que ao longo do filme não há pistas! Os personagens, bem como a narradora da história, estão mais preocupados em copular. E são justamente as cenas de sexo que chamam a atenção.

Russ Meyer não fazia apenas filmes eróticos. Mais do que isso, o diretor criava sequências com um fino apuro estético. Em suas produções, o sexo é sempre escandaloso, histérico, improvável e, acima de tudo, divertido. As atrizes têm sempre abundância em atributos físicos e o total controle sobre o ato, fazendo com que os homens sejam meros objetos sexuais - o que funciona como uma ode às mulheres.

Up! Megavixen tem tudo isso de sobra! No final das contas, o espectador nem se lembra mais que é preciso descobrir quem assassinou Adolph Schwartz. Porém, o desfecho é primoroso, com uma cena de perseguição e nudez fantástica.

Como diz o cartaz: if you don't see up, you'll feel down...

domingo, abril 19, 2009

Luz, câmera... canção! - Moby

Em junho, Moby lança o seu novo disco, Wait for me. Porém, já está circulando pela internet o clipe de uma das faixas do trabalho, "Shot in the back of the head". Trata-se de uma animação em preto e branco. A música é linda, bem arranjada, no melhor estilo que consagrou o produtor. O mais interessante, no entanto, é quem assina a direção.

Um grande diretor que faz seu debút na arte do videoclipe. Chuta aí...

Chuta, vai.

Pois é, ninguém menos que David Lynch! O resultado é espetacular. Sombrio, soturno, estranho e ainda asism belíssimo, bem ao estilo do diretor. Na minha opinião, ficou perfeito! Confira:

sábado, abril 18, 2009

#42 - Fumando espero, de Adriana L. Dutra


Se um fumante pretende fazer um documentário sobre a maléfica indústria tabagista, é melhor mesmo que pare de fumar. Só assim para fazer com que o discurso ganhe credibilidade. Melhor ainda foi a ideia da diretora Adriana L. Dutra, que decidiu documentar também o seu hercúleo esforço contra a tentação de acender um cigarro.

Fumando espero busca entender por que o hábito de fumar se tornou algo tão popular ao longo dos tempos, apesar da comprovação científica de que o cigarro é uma droga potencialmente destrutiva. O documentário conta com um sólido material de entrevistas, que vão de médicos a celebridades, passando por anônimos - todos, inclusive, identificados como fumantes, ex-fumantes ou não fumantes. O clima tenso de denúncia é quebrado, na medida certa, por depoimentos muito bem-humorados de gente como Ney Latorraca, Miúcha e Neville D'Almeida. A montagem também ajuda a na fluidez do argumento, dando igual voz a quem critica e a quem romantiza o tabagismo.

Há alguns pequenos deslizes que, se não chegam a comprometer o resultado final de Fumando espero, deixam um lastro de amadorismo. Por exemplo, a utilização de algumas imagens de arquivo completamente pixeladas, de baixíssima qualidade, que ficam ainda mais comprometidas na tela de cinema. São feias e não combinam em nada com a qualidade da edição e do videografismo do resto do documentário. Outro ponto que poderia ter sido melhor desenvolvido é a abordagem sobre a posição da indústria tabagista - que, obviamente, se esconde por trás de seguranças neurastênicos. A recusa em dar depoimentos poderia ter sido mais bem trabalhada. Nesse caso, ficou faltando um pouco mais de ousadia.

Trata-se de um filme bastante interessante! Leve, fácil, mas que ainda assim aborda assuntos de extrema relevância à sociedade.

quinta-feira, abril 16, 2009

Radiola Vacilante #1 - Absoluta!


Já está no ar a Radiola Vacilante #1, que na verdade é o segundo programa, já que, chique que somos, chamamos o primeiro de #0!

Eu e meus grandes camaradas Daniboy Gontijo e Peter Strauss discutimos muita coisa bacana, bizarra, bonita e absoluta. Dessa vez, a pauta tava não mão. Temos Rock'n'roll no teatro, rock do Leste Europeu, Stephany no Crossfox, Blockbuster e a bancarrota, o novo filme do Kaufman (esse resenhado no post anterior) e o pornozinho light nosso de cada dia!

Sempre ao som de música de qualidade. Para ouvir, clique aqui! Divirtam-se!

quarta-feira, abril 15, 2009

#41 - Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York), de Charlie Kaufman


Após a projeção, muita gente deve ir ao dicionário procurar o que é sinédoque. Eu fiz isso. Então, adianto aqui: trata-se de uma figura de linguagem que substitui um termo por uma parte do mesmo, ou vice-versa - mais ou menos o que vale, atualmente, para a metonímia. Por exemplo: A cidade elegeu o prefeito corrupto (a cidade no lugar dos eleitores).

O que acontece em Sinédoque, Nova York, o novo filme de Charlie Kaufman, é uma metalinguagem sobre a vida. Mais além, uma provocação sobre a vida que imita a arte ou a arte que, concomitantemente, imita a vida. Acompanhamos o processo criativo de um diretor de teatro na busca de uma peça inédita, que fale sobre a brevidade da vida, assunto que o obceca profundamente e acaba transformando de forma irreversível a sua relação com as pessoas. Tem muito mais que isso, mas se contar estraga. Prepare-se para ver o impensável!

Kaufman, a mente por trás de belíssimos roteiros complexos, como Brilho eterno de uma mente sem lembranças e Quero ser John Malkovich, para citar os mais conhecidos, aqui também assina a direção. Porém, sem dúvida alguma, este é o seu roteiro mais denso e angustiante. Versa sobre temas humanos complexos, como a racionalização da morte e a incapacidade de concretização do desejo. Meio Schopenhauer, né?

Tudo isso é pano para manga. Vai ter muita gente dizendo que Sinédoque, Nova York não faz sentido algum. Não seja um desses, porque quem embarcar na onda de Kaufman verá um deleite cinematográfico! É onde o cinema pode operar de maneira mais contundente: quando a inverossimilhança se torna tangível. O que se vê na tela são personagens interessantes, diálogos imprevisíveis e cenas plásticas de extrema sensibilidade artística.

Para melhorar, o diretor tem seu trabalho facilitado pelas atuações soberbas daqueles que estão no grupo dos melhores atores em atividade, casos de Philip Seymour Hoffman, Catherine Keerer e Emily Watson. O elenco inteiro, sem exceções, dá conta do recado.

Uma viagem cinematográfica realmente incrível! Estreia nesta sexta, 17/04.

domingo, abril 12, 2009

#40 - Território restrito (Crossing over), de Wayne Kramer


Está em cartaz, no circuitão, o mais novo filme de Harrison Ford. Trata-se do fraco, bem fraco, Território restrito. O roteiro é mais do mesmo: pessoas de etnias e culturas das mais diversas lutam para conseguir regularizar a situação nos Estados Unidos.

O problema é que os personagens têm histórias desinteressantes e os diálogos são bem arrastados. Alice Braga, que balbucia apenas meia dúzia de palavras - em espanhol, já que interpreta uma mexicana -, passa batida.

Portanto, vocês já sabem: tem resenha lá no site da Revista M... Leia aqui! Lembrando que também é possível comentar o filme por lá, na capa da seção Críticos de M...

sexta-feira, abril 10, 2009

#39 - Delírios de consumo de Becky Bloom (Confessions of a shopaholic), de PJ Hogan


Semana retrasada eu fui à cabine de imprensa de um filme realmente constrangedor: o tal Delírios de consumo de Becky Bloom, a mais nova comédia do diretor PJ Hogan, o cara por trás de O casamento do meu melhor amigo e O casamento de Muriel. Pois bem, o filme estreia hoje no circuito.

Conta a história de uma jornalista viciada em compras (quase um paradoxo) que deve milhões às operadoras de cartões de crédito. E, pasmem, durante todo o filme ela não cancela nem um deles.

Quem me segue no Twitter já sabia a minha opinião sobre a obra. E sabia também que, na sexta-feira, entraria uma resenha no site da Revista M... Lá está ela. Para ler, clique aqui!

Quem quiser, pode comentar lá também, ok? Há um espaço para comentários na capa da seção Críticos de M...

quarta-feira, abril 08, 2009

Radiola Vacilante #0


Queridões e queridonas, é com imensa satisfação que anuncio o retorno triunfal de um programa mui curioso, a Radiola Vacilante. Há anos, tive a oportunidade de participar de algumas poucas edições. Agora, em 2009, a Era de Aquário, tudo está diferente. Meus grandes camaradas Daniboy Gontijo e Peter Strauss me fizeram o convite para integrar a trupe. Aceitei na hora!

Trata-se de um podcast sobre cultura, tecnologia, política e o que mais der na telha. Tudo isso intercalado por música de qualidade. O número zero já está no ar. Foi mais um teste, mas resolvemos publicá-lo mesmo assim. 'Pauta na mão'? Que nada. Foi tudo improvisado e, por isso mesmo, mais gostoso. Nessa edição, falamos sobre conspiração dos multiplex, bizarrices sexuais, como se divertir com TV aberta e outras trivialidades.

Vamos tentar gravar semanalmente. Enquanto isso, escute o début aqui!

Radiola. Vacila, mas é gente boa.

#38 - A face do crime (Jail bait), de Ed Wood


Agora eu tenho uma caixa com os quatro grandes sucessos (?) do sujeito que foi considerado (na minha opinião, desmerecidamente) o pior cineasta do mundo. A bola da vez foi A face do crime, um filme que se diferencia do resto da filmografia do cineasta por não se tratar de uma obra de ficção-científica. Melhor que isso: é uma tentativa de film noir.

Obviamente, uma vez que o orçamento era risório, o filme não alcança seu objetivo estético de ser uma boa película policial. Nem poderia ser. Os atores não são lá grandes coisa, os diálogos não são lá bem trabalhados e a trilha sonora... Putz, a trilha sonora, essa sim, é um horror! Imagine um film noir com arranjos musicais de guitarra flamenca. Acontece que Wood pegou a trilha emprestada de outro filme, chamado Mesa of Lost Women.

Porém, o roteiro é surpreendentemente interessante. Conta a história do filho de um famoso artista plástico que se mete em uma enrascada após matar um vigia noturno. Se eu contar mais, estraga. Basta saber que a trama conta com chantagens, cirurgias e reviravoltas, guardando um final que, se não é tão inesperado, é bastante criativo.

Ainda assim, eu defendo Wood. Acho o cara um grande diretor. Explico-me: fazer cinema nada mais é do que exercitar a criatividade para contar uma história. Para isso, há artifícios e toda uma linguagem para ser explorada. Inegavelmente, seus filmes são muito criativos! Quem substituiria Bela Lugosi por um maquiador nem um pouco parecido no meio das filmagens? Quem se travestiria para estrelar um filme quase autobiográfico sobre ambiguidade sexual? É uma espécie de ousadia formidável! Spielberg, sem juízo de qualidade, por exemplo, nem precisa se exercitar tanto assim, pois possui um batalhão com os melhores equipamentos, profissionais e efeitos à sua disposição.

O mais engraçado é que até na hora de procurar uma foto para ilustrar a resenha acontece coisa tosca. Experimente digitar na tela de busca por imagens do Google a expressão "Jail Bait" e confira o que acontece.

domingo, abril 05, 2009

#37 - A noite dos mortos-vivos (Night of the living dead), de George A. Romero


Pode-se dizer que A noite dos mortos-vivos, o original de 1968, participa da fundação de um novo cinema de horror. É o começo de produções realmente assustadoras. No lugar de figurinos carnavalescos e efeitos baratos, entra em cena um apuro técnico capaz de provocar sustos com edição, montagem e trilha sonora adequadas. George A. Romero, o pai dos filmes de zumbis, fez uma soberba estreia.

O roteiro conta a história de um pequeno grupo de pessoas que se vê acoado por mortos-vivos canibais. Abrigados em uma casa no interior, precisam arrumar uma maneira de combater as criaturas para chegar a um posto das Forças Armadas, onde estarão a salvo. Imagens impressionantes, marcantes e até certo ponto chocantes para o público da época, como na cena em que zumbis devoram os restos mortais de suas vítimas, chocaram um setor da opinião pública, motivando protestos de grupos conservadores. Porém, os espectadores adoraram! O desenrolar da ação guarda momentos realmente perturbadores do ponto de vista moral. Durante a estreia cinematográfica, um seguro chegou a ser feito para cobrir possíveis mortes causadas por problemas cardíacos. Era terror como nunca antes havia sido visto.

O filme se utiliza de poucos recursos técnicos para criar o clima de terror, uma vez que o orçamento era apertado. A caracterização das criaturas (que, curiosamente, nunca são chamadas durante o filme de zumbis) é mais corporal do que facial. Elas são lentas, esguias e desengonçadas, como se estivessem em um transe. O que se destaca na criação das sequências mais assustadoras é o uso certeiro e preciso de técnicas de iluminação e fotografia p&b, que remontam a era do expressionismo alemão. Com uma edição ligeira e trilha sonora adequada, os sustos estão garantidos.

O desfecho é particularmente mórbido e bem bolado, encerrando com certa profundidade o que poderia ser um simples filme de terror datado pelo hiperrealismo das produções atuais.

Um clássico!

quarta-feira, abril 01, 2009

#36 - Moscou, de Eduardo Coutinho


Eis um grande, enorme, descomunal encontro de talentos: Eduardo Coutinho, um dos grandes documentaristas do país; Enrique Diaz, um monstro à frente de uma das maiores companhias de teatro do país, como ator e diretor, a Cia dos Atores; e, na minha opinião, a trupe mais homogênea e talentosa que já pisou em palcos brasileiros, o Grupo Galpão. Quando os três se juntam, cada um com suas experiências e vivências, para trabalhar em cima de um texto de ninguém menos que Tchekov, o resultado é arrebatador.

Assim é Moscou, um belíssimo documentário que vai dissecando um árduo trabalho de três semanas em cima da peça "As três irmãs". Diante das câmeras, sem figurinos ou cenário, o Galpão exercita toda a capacidade cênica disponível, enquanto Enrique Diaz propõe jogos para que a relação entre ator e texto seja a mais completa possível. Toda a ação, seja ensaio, leitura ou reflexão, é captada de forma muito natural por Eduardo Coutinho.

O teatro é a arte do ator em sua essência. É o lugar onde o trabalho de atuar precisa ser puro, sem truques ou artifícios. Mais do que um filme, Moscou funciona como um estudo sobre esse extenuante e nada badalado ofício de se doar aos personagens.

Como em Jogo de cena, obra anterior de Coutinho que também abordou as artes cênicas, a linguagem adotada faz com que o filme não seja convidativo ao circuitão. Porém, é obrigatório para quem ama cinema, para quem ama teatro e para quem simplesmente se interessa por cultura.

Eu tive a feliz oportunidade de conhecer melhor os atores do Grupo Galpão, já que minha mulher trabalhou durante algum tempo na produção local deles, aqui no Rio. Dei carona, bebi três chopes, troquei ideias e até cachaça com eles. E, surpreendentemente, são pessoas completamente simples, avessas à doença das celebridades, e conscientes da importância do teatro. Pois tinham tudo para serem pedantes, afinal já apresentaram a sua versão de rua de "Romeu e Julieta" dentro do Shakespeare Theater - só isso.

Tenho um carinho muito grande pelo grupo. E revê-los, ainda que em duas dimensões, é sempre uma lição de amor à arte.