quinta-feira, janeiro 08, 2009

#4 - Hiroshima, meu amor (Hiroshima, mon amour), de Alain Resnais


Um dos expoentes do cinema francês, Alain Resnais estreava em 1959 como diretor de longas com Hiroshima, mon amour, uma densa e nada linear história de amor entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês, que se encontram durante as filmagens de uma produção pacifista na cidade arrasada pela bomba atômica. Nos minutos iniciais, terríveis imagens de arquivo sobre os efeitos atômicos e o belíssimo texto de Marguerite Duras se misturam para dar forma a um contundente manifesto antibelicista.

O roteiro, indicado ao Oscar, é considerado pioneiro no corte atemporal, conferindo ao tempo papel de destaque na história dos dois amantes que se apaixonam perdidamente sem ao menos saber seus verdadeiros nomes. Os protagonistas se confundem com seus próprios passados. Ele passa a chamá-la de Nevers, cidade em que ela cresceu. Ela o chama de Hiroshima, local onde passam o presente. O futuro fica em aberto durante um jogo de sedução repleto de reviravoltas.

Emmanuelle Riva e Eiji Okada, o casal em questão, estão em perfeita sintonia. O ator japonês não sabia uma palavra de francês, mas foi treinado à exaustão para falar sem sotaques. Deu certo. No fim das contas, é uma história de amor nada melodramática, mas ainda assim complexa e interessante. O talento do diretor fica evidente a cada enquadramento. Não é à toa que era venerado por Truffaut e Rivette, expoentes da Nouvelle Vague.

É cinema para poucos, de fato. Resnais, assim como David Lynch, guardadas as devidas proporções, sofria com críticas que acusavam seus filmes de não terem sentido algum. Piorou quando, no ano seguinte, lançou o sensacional Ano passado em Marienbad. Por isso, constantemente, o diretor se via obrigado a responder perguntas impertinentes. Algumas delas estão reunidas nos extras do DVD nacional. Resnais encara, com humor e fina ironia, uma enxurrada de tentativas de explicações sobre o seu trabalho.

Um sincero apelo pacifista que, pelo visto, não surtiu tanto efeito nos dias de hoje.

12 comentários:

Sérgio Déda disse...

Fiquei curioso por este filme, afinal de contas se o cara era venerado por Truffaut então deve ter um certo talento hehe.

Abraço!

Helena disse...

Oi Eduardo,
sou estudante de Cinema da UFF.
Nunca ouvi falar desse diretor. Fiquei muito interessa em assistir a esse filme. Pela sua resenha, me parece ser um filme, no mínimo, instigante.
Obrigada!

Vulgo Dudu disse...

Sérgio, ele era venerado não só pelo Truffaut, mas por quase todo o movimento da Nouvelle Vague. Vale a pena mesmo conhecê-lo!

Helena, seja bem-vinda por aqui! A obra de Resnais é bastante instigante. A você, como estudante de cinema, vai encher os olhos e, de quebra, enriquecer o currículo! Depois volte aqui para dizer o que achou, combinado?

Abs!

Kau disse...

Dudu, Alain Resnais é um dos grandes representantes franceses. Com apenas dois filmes dele vistos por mim (Amores Parisienses e Eu Tem Amo, Eu Te Amo), digo que é um diretor notável!

Abraços.

Vulgo Dudu disse...

Kau, Eu também só vi dois, mas os que você você citou não constam na minha lista. Vou procurar!

Abs!

Helena disse...

Combinado!

Anônimo disse...

Olá

Essa tendência de questionar a capacidade dos cienastas que não fazem filmes onde o significado já vem mastigado e é praticamente cuspido direto no cérebro dos espectadores colocou Resnais (especialmente com Hiroshima Meu Amor e O Ano Passado em Mariembad)no meio de uma revolta. A revolta daqueles que não suportam ter de pensar por si mesmos.

Consultando uma edição recente do Cahiers du Cinéma, acho que encontrei algumas pistas (mas, o que é muito importante, nada que tire o gosto de rever o filme)

blog: CINEMA EUROPEU: http://cinemaeuropeu.blogspot.com/

Para béns pelo blog

Abraço

Roberto Acioli de Oliveira

Vulgo Dudu disse...

Roberto, obrigado pela visita e pelo comentário! Eu não achava que fosse tamanha a revolta dele, até desconheço isso. Porém, pelos filmes que vi, a conclusão é que a obra não está contaminada por um discurso revoltoso - o que facilmente pode estragar a carreira de um cineasta.

Os tais extras do DVD mostram um Resnais mais cansado do que rancoroso...

Vou conferir o seu blog! Volte sempre! Abs!

Anônimo disse...

Olá

Acho que não me fiz entender. Eu quis dizer que esses dois primeiros longas do Resnais fizeram DELE mais um ALVO daqueles que se revoltam CONTRA os filmes que não vem mastigados e prontos para engolir (como é o caso desses dois filmes, que são complexos e a gente tem de prestar atenção o tempo todo para não perder o fio da meada).

A revolta a que me refiro não é do Resnais não, é das pessoas que têm preguiça de pensar (e por isso acham esse tipo de filme um saco).

Eu não estou neste grupo. E o Resnais também não gastaria tempo fazendo filmes tentando satisfazer esse tipo de gente.

Espero que agora eu tenha me expressado corretamente.

visite também: CINEMA ITALIANO: http://cinemaitalianorao.blogspot.com/

Grande Abraço
Roberto Acioli de Oliveira

Vulgo Dudu disse...

Roberto, eu que não havia entendido direito o comentário...rs... Se bem que é possível imaginarmos um diretor revoltado porque o público insiste em confrontá-lo com sua própria filmografia.

Não sei se você se lembra, já que mora no Rio, quando do lançamento de Cidade dos sonhos. Antes das sessões no cinema do Fashion Mall, eram distribuídos panfletos com 10 pistas para entender o filme. Uma espécie de guia para saber no que prestar atenção para resolver a "charada", escrito pelo próprio Lynch. Claro, não passava de provocação do diretor, que estava cagando um balde para isso.

Quando as pessoas acham o filme ruim, na maioria das vezes o motivo é "porque não entenderam o final".

O seu blog Cinema Europeu é realmente muito interessante! São análises bem mais profundas do que as que faço aqui. Propostas diferentes. Vou conferir o de cinema italiano - que tem alguns mestres realmente inesquecíveis.

Abs!

Anônimo disse...

Olá

Aqui é o Roberto Acioli. Os blogs que montei ['Cinema Europeu' e 'Cinema Italiano'] possuem um estilo acadêmico [texto com referências bibliográficas], que não é nem melhor nem pior do que qualquer outro estilo. É apenas a maneira como me acostumei a escrever na Universidade.

Não conhecia essa história com o David Lynch. Entendo que ele brincou com essa neurose dos espectadores. Ou melhor, não é que os filmes não devam ter um sentido ou explicação. A questão é que os espectadores esperam que o próprio filme/diretor diga qual é o significado do filme.

Eu acho que todo filme tem um significado, só que somos nós os espectadores que vamos dar esse significado, de acordo com a experiência de vida de cada um de nós [claro que não estou me referindo ao tipo de filme "enlatado" que é feito como puro entretenimento, esses vem com o significado estampado na tela para nós não precisarmos pensar].

Michelangelo Antonioni, o cineasta italiano, afirmou certa vez que seus filmes não terminam no fim da projeção. Eles continuam [ou deveriam continuar] nas mentes dos espectadores [pelo menos daqueles que entenderam que a função de um filme é provocar o pensamento]depois que saem do cinema e continuam pensando sobre os temas tratados no filme e questionando suas próprias visões de mundo. No final é você que deve dizer o que você acha que o filme quis dizer!

Você deve ter notado que meus blogs não tem espaço para comentário. Mas eles têm sim, é só você entrar em 'visualizar meu perfil completo', lá tem um e-mail para você mandar para mim com seus comentários.

Grande Abraço
Roberto Acioli de Oliveira

Lucas Lacerda disse...

Obra-prima, um filme que me fez mudar toda minha noção de cinema.