quinta-feira, dezembro 31, 2009

Balanço!

Então tá! Amanhã este blog sobre cinema completa três anos de existência. Sempre o mantive com afinco e dedicação, fazendo valer a descrição ali em cima: a cada filme, uma resenha. No total, foram 142. Muitos ótimos, uns tantos medianos e algumas poucas porcarias. Vi muita coisa boa no Festival Internacional do Rio, resenhei umas merdas lá na M... e colaborei escrevendo críticas para o JB. Bacana!

Deveria fazer uma lista dos melhores do ano? E dos piores? Bateu uma preguiça. Mas posso registrar aqui alguns filmes que me deixaram plenos ao término da projeção: Rumba, À deriva, Black Dynamite, Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans, The Yes Men fix the world, Anticristo, Deixa ela entrar, Bastardos Inglórios, Abraços Partidos etc.

Ano novo, contagem nova. No mais, novas parcerias vêm aí. Aguardem!

Desejo a todos que passam por aqui um 2010 cinematográfico! Coisa de cinema mesmo, com direito à trilha sonora, câmera lenta nas melhores sequências (para que durem mais) e replay dos melhores momentos.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

#142 - Lula - o filho do Brasil, de Fabio Barreto


Meninos, eu vi! Sim, fui à cabine de imprensa de Lula - o filho do Brasil pelo Jornal do Brasil. E não era uma sessão ordinária. Além do próprio diretor (dias antes de sofrer o grave acidente), estavam presentes nomes como Ziraldo, Sérgio Cabral, Walter Salles e Eduardo Coutinho (perdi uma boa oportunidade de trocar uma ideia com ele). Sala cheia.

A crítica vai ser publicada no primeiro dia de 2010, quando acontece a estreia do filme. Adianto que nem gostei do que vi. Obviamente, a produção é caprichada - afinal, conseguiu orçamento de R$ 12 milhões, dinheiro da iniciativa privada. A fotografia é bonita, a trilha sonora é muito boa e os atores rendem. Mas o roteiro não acompanha. E sem roteiro não há filme que se sustente.

Vou deixar as polêmicas de lado: não vou discutir sobre oportunismo eleitoreiro por aqui. Não estou a fim. Particularmente, não gosto do trabalho do Fabio Barreto. Apesar do domínio técnico, o cineasta entrega filmes, na maioria das vezes, desinteressantes. Lula - o filho do Brasil não foge à regra. Teve gente que discordou de mim: no foyer, um sujeito dizia ao diretor que ficou arrepiado do começo ao fim da projeção.

Lula - o filho do Brasil vai dar muito o que falar!

Meus desejos de pronta recuperação ao Fabio Barreto. Dia primeiro eu publico a resenha por aqui, combinado?

Conforme combinado, eis o que escrevi na Revista Programa, do JB:

Ideologias políticas à parte, é inegável que a trajetória do presidente Lula é digna de merecer um filme. Fabio Barreto realiza, sem o apoio de leis de incentivo fiscal, uma produção que acompanha os primeiros 35 anos de vida do líder brasileiro. A narrativa, baseada no livro homônimo de Denise Paraná, tem início com o nascimento no pobre sertão pernambucano e vai até a morte da mãe, em 1980 – portanto, antes mesmo da fundação do PT.

Sendo assim, o filme tem argumentos que o defendem de ser uma produção com fins meramente políticos. O principal problema de Lula, o filho do Brasil está na falta de ritmo do roteiro, que cola uma série de fatos em ordem cronológica sem dar tempo à plateia de se aprofundar nas questões vividas pelo protagonista, ainda que o tom dramático seja bastante acentuado na maioria das sequências.

De positivo, o filme conta com uma belíssima trilha sonora, composta por Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum. A caracterização de Rui Ricardo Diaz, na pele de um Lula desconhecido do grande público, também impressiona.

terça-feira, dezembro 29, 2009

#141 - Sempre ao seu lado (Hachiko: a dog's story), de Lasse Hallström


Parece que agora é moda. Todo dia 25 estreia um filme com cachorros. Estranho, né? E todos dão lição de vida através de vivências catárticas, que levam a plateia às lágrimas. Ano passado, o chororô ficou por conta de Marley e eu. Este ano, a vez é de Sempre ao seu lado. Apesar das diferenças no argumento, no fim das contas o que importa mesmo é colocar as glândulas lacrimais dos espectadores para trabalhar.

Richard Gere, em fim de carreira, encara mais um papel pífio. Interpreta um professor que encontra um filhote de akita abandonado na estação de trem perto de casa. Leva o bichano para casa, enfrenta a resistência da mulher, mas acaba estabelecendo uma relação profunda com ele.


O filme trata de um famoso episódio que aconteceu nos idos de 1910 no Japão e acabou virando uma espécie de ensinamento oriental. Um cão da raça akita, que tinha por costume aguardar o dono na estação de trem após o expediente, sempre no mesmo lugar, manteve a rotina, dia após dia, mesmo depois de um enfarte fulminante ter levado seu fiel amigo para o além.

Hachiko, o tal akita, é um cão fofinho feito Marley, mas muito menos brincalhão. O próprio roteiro deixa claro que ele não gosta de brincadeiras bobocas e nem de agradar o dono com demonstrações circenses. Ou seja, é quase uma antítese do que é conveniente, em termos caninos, a uma família estadunidense: um cão babão, boboca, destruidor de móveis, que faz xixi no tapete da sala e baba a casa inteira. Acontece que todo o miolo do filme, como atores, fotografia, montagem, trilha sonora e cenografia, funcionam de acordo com as intenções da indústria cinematográfica estadunidense. Obviamente, não tinha como dar certo.


No meu tempo havia filmes com Papai Noel nesta época do ano.

Em breve, uma resenha mais completa no site da M...

segunda-feira, dezembro 28, 2009

#140 - Cry Uncle, de John G. Avildsen


Notou o nome do diretor desta comédia erótica policial? John G. Advilsen, o cara que ganhou o Oscar pela direção de Rocky e esteve à frente da franquia Karate Kid, dirigiu essa bomba. Produzido em 1971 pela famosa Troma, a emblemática produtora de filmes B, Cry Uncle é bem chatinho.

O roteiro fala sobre um detetive particular baixinho, gordinho e mulherengo que é contratado por uma ricaça misteriosa e sensual (bom, o sensual é por conta da sinopse, já que a atriz é bem caída) para investigar um desaparecimento. Como era de se esperar, a trama envolve sexo, drogas e escatologia - mas nada que cause espanto. Ou entusiasmo. O filme foi banido de diversos países por causa de uma cena em particular, que mostra um ato de necrofilia. De resto, são mulheres de seios à mostra e um baseado aqui e outro acolá.

Os diálogos são ruins, as piadas não divertem e as atuações são péssimas. Não funciona como paródia dos filmes de espionagem e nem como pastiche original. Apesar disso, Allen Garfield, o protagonista, alega que Cry Uncle é a comédia preferida de Oliver Stone.

Sei não...

domingo, dezembro 27, 2009

#139 - Deixa ela entrar (Låt den rätte komma in), de Tomas Alfredson


Filmes sobre vampiros estão na moda. A maioria, voltada para o público adolescente. E, quase sempre, falam sobre relações de amor que não podem se concretizar - já que um dos envolvidos é imortal e se alimenta de sangue humano. O sueco Deixa ela entrar é quase assim. Quase. Também fala de um relacionamento improvável, só que vai mais além. Mostra o despertar do desejo entre dois pré-adolescentes fadados à solidão.

Oskar é um garoto que sofre com a violência dos colegas e se vê incapaz de reagir. Até que uma misteriosa menina, Eli, aparentando a mesma idade, se muda para o apartamento ao lado. A amizade entre os dois se fortalece à medida em que um compreende o drama do outro: ele precisa se livrar das constantes ameaças dos colegas; ela precisa arrumar sangue.

Outro ponto que diferencia Deixa ela entrar das demais produções do gênero é o capricho estético. O filme é bem fotografado e bem montado. Além disso, tem um roteiro muito bem amarrado, que vai deixando a trama se desenvolver sem sobressaltos. Vai muito além do mero terror, pois é denso e sensível. Na medida certa.

Tudo isso sem mostrar um canino pontudo sequer. Muito bom!

quinta-feira, dezembro 24, 2009

#138 - Eu te amo, cara (I love you, man), de John Hamburg


Depois de receber um passe redondo de Romário e marcar um importante gol na Copa do Mundo dos EUA, justamente sobre os donos da casa, Bebeto correu até o companheiro de seleção para agradecer. Através da leitura labial, foi possível perceber que ele disse um sonoro “eu te amo”. Muito marmanjo, ao ver aquilo, concluiu logo:

“Ih, olha lá, o Bebeto é viado!”

Guardadas as devidas proporções - como o nível de sinceridade da frase -, é mais ou menos sobre isso que o roteiro de Eu te amo, cara fala. Não sobre o jogo da seleção brasileira, mas sobre a dificuldade masculina em expressar amizade e afinidade sem confundi-las com conotações ou intenções homossexuais. Por isso, o protagonista Peter Klaven (o ótimo Paul Rudd), que sempre se deu bem com mulheres, pena para encontrar um padrinho para o casamento – já que não tem grandes amigos do mesmo sexo.

Trata-se de uma comédia bem bacana sobre amizade, que sabe explorar o tema sem usar de melodrama fácil ou clichês baratos. Os personagens são bem desenvolvidos, os diálogos são bons e e a história é bem amarrada. De quebra, uma participação bem interessante de Lou Ferrigno, o eterno Hulk.

Muito bacana! Eu amo meus amigos.

#137 - Coraline, de Henry Selick


Na época, eu perdi a cabine de imprensa de Coraline, mas acabei levando para casa o press kit, que continha um exemplar do livro do Neil Gaiman. Resolvi, então, que a tal brochura seria minha leitura de banheiro. Portanto, a cada evacuada, um capítulo.

Como meu intestino funciona muito bem, levei exatos 13 dias para dar cabo da história de uma menina que descobre uma porta que a leva para uma dimensão paralela, onde tudo é muito melhor – incluindo os pais. Aos poucos, ela vai descobrindo que a mãe do outro lado tem intenções não muito amistosas.

O filme tem algumas diferenças do livro, que até ajudam a tornar a história menos assustadora e mais comercial, apesar de já ter ouvido relatos de pais nada satisfeitos ao término da projeção. A animação é bacana e tem lá seu charme. A trama também é bem bolada, e traz uma mensagem, ainda que torta, sobre a importância de valorizar a família.

No entanto, recomendo Coraline apenas para as crianças que já têm algum contato com o realismo fantástico.

#136 - A vida íntima de Pippa Lee (The private lives of Pippa Lee), de Rebecca Miller


A vida secreta de Pippa Lee tem um dos argumentos mais absurdos da temporada. É um filme chato, arrastado e inverossímil, que talvez agrade um pequeno grupo de mulheres à procura de diversão barata. Lá no fundo, é uma fábula sobre a inviabilidade contemporânea de sustentação do modelo familiar estadunidense perfeito, apregoado desde o fim da II Guerra Mundial. O roteiro, adaptado de um romance escrito pela própria diretora, Rebecca Miller (filha do escritor Arthur Miller), contextualiza a vida no subúrbio e os dramas que se escondem entre as quatro paredes das casas sem muros e de jardins impecáveis.

A protagonista, que dá nome ao filme, é quem vai nortear a história, repleta de culpa, através de flashbacks sobre sua condição de mulher perante a sociedade. Dona de casa aparentemente perfeita, Pippa Lee é casada com um homem bem mais velho, tem uma filha com quem não consegue se relacionar direito e esconde um passado tempestuoso que inclui uma mãe exótica. Ao se mudar para o subúrbio em busca de paz e tranquilidade, estranhos acontecimentos (nem tão estranhos assim) começam a fazer com que ela tema por sua sanidade mental. As lembranças da infância e da juventude traçam, aos olhos do espectador, sua trajetória até o protótipo de esposa ideal.

O roteiro nem chega a se aprofundar nos temas mais complexos, mantendo um certo tom de provincianismo justamente quando o argumento poderia ser tratado com mais consistência. Outro problema são os personagens, mal desenvolvidos. Nem mesmo aqueles tipos estranhos, socialmente desajustados, comuns a todos os filmes do gênero, são capazes de criar certa dose de empatia.

Bem que o filme engana. Prova disso são os nomes de celebridades que aparecem aos montes no cartaz do filme, ainda que tenham participações discretas ou papéis de menor relevância. Keanu Reeves, Winona Ryder e a estonteante Monica Bellucci – o que de melhor há no filme, sem dúvida nenhuma – fazem parte da lista. Brad Pitt, cujo nome fica no topo, escrito em letras graúdas, apenas assina a produção executiva.

Particularmente, já me cansei há tempos de filmes assim. A vida secreta de Pippa Lee vai do nada a lugar nenhum. Ou melhor: do nada ao lugar comum.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

#135 - Quanto dura o amor?, de Roberto Moreira


Hoje entra em cartaz o filme Quanto dura o amor, do diretor Roberto Moreira. Confesso que tive bastante dificuldade em cotá-lo para a Revista Programa, do Jornal do Brasil. O roteiro é fraco, mas as atuações das duas protagonistas são soberbas! Se houvesse um "regular e meio", seria essa a cotação. Pelo capricho visual e pelas interpretações de Sílvia Lourenço e Maria Clara Spinelli, a produção levou um "bom". Segue o que escrevi sobre o dito cujo.

O segundo filme do diretor Roberto Moreira é sensível como a canção do Radiohead que permeia toda a projeção, a tristonha “High and dry”. O roteiro fala sobre três histórias de amor que enfrentam os paradigmas da contemporaneidade. Funcionando também como uma personagem, a cidade de São Paulo serve de cenário para o desvelamento da questão que o título levanta: quanto dura o amor? Quem conduz a argumentação são três jovens protagonistas, de vidas completamente distintas, mas que habitam o mesmo prédio, em plena Avenida Paulista: Suzana, uma advogada reservada; Marina, uma atriz recém-chegada do interior; e Jay, um escritor que tem como musa uma prostituta.

Indiscutivelmente, Quanto dura o amor? tem um visual bastante caprichado. Os dramas das personagens se encaixam perfeitamente na estética que o caos da urbanização impõe. Porém, já na metade do filme, o roteiro começa a perder o ritmo, tornando as histórias desinteressantes. Nem mesmo o desfecho, com algumas surpresas, surpreende.

Apesar da boa participação da ex-fazendeira Danni Carlos (em cenas bastante ousadas) e da visibilidade que o nome de Paulo Vilhena oferece, quem brilha mesmo são as atrizes Silvia Lourenço e Maria Clara Spinelli, nos papéis de Marina e Suzana, respectivamente.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

#134 - Foxy Brown, de Jack Hill


Depois do sucesso de Coffy nas telonas, Jack Hill voltou a filmar com Pam Grier o que deveria ser uma sequência. Inclusive, Foxy Brown, de 1974, se chamaria Burn, Coffy! Burn! Porém, de última hora, os produtores resolveram mudar a estratégia de lançamento. O filme se tornou, então, uma produção independente. E muito bacana, apesar da repetição do tema.

Novamente, Pam Grier interpreta uma sexy vingadora que tenta por fim a um esquema inescrupuloso que envolve prostitutas, drogas e corrupção. Depois que seu namorado, um agente secreto da polícia, é assassinado, ela se infiltra numa perigosa quadrilha. Começa, então, um banho de sangue.

Modelitos sensuais, trilha sonora repleta do melhor da black music da década de 70 e muita violência fazem de Foxy Brown um genuíno exemplar do blaxploitation, movimento que levou a cultura black para as telas do cinema. Pam Grier arrasa quarteirões inteiros, infestados de cafetões, traficantes e gente mal-intencionada.

Clássico!

sexta-feira, dezembro 11, 2009

#133 - Um namorado para minha esposa (Un nobio para mi mujer), de Juan Taratuto


Casais, comemorem! Mais uma comédia romântica inteligente, que foge do convencional, estreia hoje no circuitão. Nossos hermanos platinos apresentam Um namorado para minha esposa - que apesar do título pastiche (igualmente patético em espanhol) é uma grata surpresa. Despretensiosamente divertido. Confira a crítica que escrevi para o Jornal do Brasil.

Seguindo quase à risca a cartilha das comédias românticas, o filme argentino Um namorado para minha esposa é entretenimento dos mais simples, mas com um frescor que as produções hollywoodianas do gênero parecem ter abandonado. O roteiro é simples: homem cansado da vida de casado e incapaz de pedir o divórcio contrata os serviços de um profissional para seduzir a esposa.

Apesar de estar na cara do espectador o que vai acontecer durante a projeção, o filme engrena já nos primeiros minutos. Ainda que previsível, a trama se sustenta pela forma como os personagens, bastante interessantes, lidam com a situação. Não há mocinho, mocinha e nem bandido. O texto apresenta os argumentos da vida a dois sem maniqueísmos, reviravoltas mirabolantes ou lições de vida. Os créditos finais reservam uma sequência imperdível.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

#132 - Crips and Bloods: Made in America, de Stacy Peralta


É impressionante como Stacy Peralta, o cara que ditou tendências do skate, vai consolidando aos poucos seu nome como um dos grandes documentaristas da cultura contemporânea. Seus trabalhos anteriores, os fantásticos Dogtown and Z-Boys e Riding Giants, já mostravam uma visão mais apurada, além do mero fato documentado. Em Crips and Bloods: Made in America, o cineasta sai do gênero esportivo e entrega, simplesmente, um dos melhores documentários do ano.

O filme já começa com uma tomada espetacular de Los Angeles de cabeça para baixo. O argumento fala sobre a sangrenta batalha nas ruas do subúrbio da cidade, uma das mais ricas dos EUA. Duas gangues disputam áreas de influência: os Crips, que usam roupas de tonalidade azul; e os Bloods, que tem o vermelho como cor padrão. O assunto, inclusive, rendeu o ótimo Colors: as cores da violência, filme com Sean Penn e Robert Duvall. Peralta vai no centro da questão, procurando as motivações históticas, políticas e sociais que desencadearam os conflitos. Da segregação racial ao desemprego, da industrialização à urbanização.

O material de pesquisa é farto e rico. A maneira como as fotografias são editadas, ganhando até mesmo profundidade e movimento, impressionam. Entevistas frente a frente com membros das gangues deixam expostas as cicatrizes de um páis que apregoa a liberdade, mas que nem sempre a pratica plenamente. Imagens de arquivo fortes e chocantes (como tiroteios e assassinatos) são mostradas a toda hora, mas sempre de forma a complementar o argumento.

Crips and Bloods: Made in America tem uma montagem realmente genial. É o trabalho mais bem acabado de Stacy Peralta - que vai se mostrando um documentarista de mão cheia!

sexta-feira, dezembro 04, 2009

#131 - Abraços partidos (Los abrazos rotos), de Pedro Almodóvar


Esta não é uma sexta-feira qualquer. É simplesmente o dia em que estreia no circuitão um dos filmes mais aguardados do ano: Abraços partidos, do Almodóvar. Trata-se de uma produção sobre o ofício de se fazer filmes. É como o próprio protagonista diz, em uma frase emblemática: "é preciso terminar os filmes, ainda que no escuro". Eu fiz a resenha para a Revista Programa, do Jornal do Brasil. Para aqueles que não podem comprar uma cópia, ou seja, para quem não é carioca, segue abaixo o que eu escrevi por lá.

Os filmes de Pedro Almodóvar sempre causaram impacto pela sensibilidade com a qual a excentricidade e o melodrama foram tratados. Abraços Partidos, nova película do realizador espanhol, é uma produção diferenciada, que transforma o exagero estético que o consagrou em um artifício para falar sobre o próprio ofício de contar histórias. No caso, boas histórias.

Por isso, no decorrer da projeção, as tais “cores de Almodóvar” - a comédia rasgada e os diálogos exagerados - colocam-se a serviço de um metafilme dirigido pelo protagonista da história - um cineasta que fica cego após um trágico acidente. Aos poucos, a trama vai sendo desvendada. Com maturidade e segurança, Almodóvar conduz o olhar do espectador por um roteiro cheio de mistério. Quase um thriller, com boas doses de film noir.

Locações, fotografia e montagem permanecem impactantes, bem como a direção de atores. Aliás, ninguém filma Penélope Cruz como Almodóvar. As cenas de sexo também chamam a atenção pela plasticidade e sobriedade. O resultado é um filme enxuto, atraente e original, no qual o próprio diretor se recria sem perder o charme. Uma aula de como fazer cinema, literalmente.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

#130 - À procura de Eric (Looking for Eric), de Ken Loach


Ken Loach é o cara por trás de belíssimos filmes de cunho político e social, como Pão e rosas e Ventos da liberdade. Portanto, quando o circuito oferece uma nova realização do diretor, a expectativa é bastante alta. Ainda mais com a chuva de elogios rasgados que À procura de Eric recebeu.

A premissa é bastante divertida: Eric Bishop (o ótimo Steve Evets) é um carteiro em crise existencial e cheio de problemas familiares. Como grande parte dos ingleses (e, por que não, dos brasileiros?), ele tem no futebol o seu refúgio. Torcedor fanático do Manchester United e admirador do famoso jogador Eric Cantona, começa a receber a visita do craque francês depois de fumar um baseado. Cantona começa a dar lições de vida ao seu xará, usando todo a seu experiência como ídolo.

Apesar do tom cômico, o filme mantém um discurso social, utilizando a família de Eric como artifício para falar da falta de perspectiva da classe média britânica. Tudo vai muito bem. Até chegar o terço final, quando Loach resolve montar um desfecho farsesco, que destoa um pouco do resto do roteiro. Apesar de não ser desinteressante, a resolução da trama se dá por vias inverossímeis demais, abandonando uma perspectiva mais profunda nos conflitos pessoais do protagonista.

Vindo de Ken Loach, esperava muito mais. Ainda assim, é mais filme do que muita porcaria em cartaz por aí.

sábado, novembro 28, 2009

#129 - Apenas o fim, de Matheus Souza + Bate-papo


Fui convidado pelo pessoal do SESC a participar de um festival bastante interessante, chamado Festa, ou Festival Estudantil das Artes. Trata-se de uma grande mostra do que anda sendo produzido por gente jovem, de filmes a peças de teatro, passando por música e artes plásticas. O local que abrigou o evento, o SESC Nacional, é dotado de uma infra-estrutura impecável!

Pois bem, fui chamado para uma sessão do filme Apenas o fim, dirigido pelo Matheus Souza, então estudante de cinema da PUC-Rio. Após a projeção, estava marcado um bate-papo entre eu, o ator Gregório Duvivier (um dos protagonistas do filme) e a plateia. Foi uma noite bastante agradável, cheia de surpresas.

A primeira, e melhor delas, sem dúvida nenhuma é o filme em si. Apenas o fim é uma daquelas produções despretensiosas que, tamanho o afinco e a dedicação com que são feitas, conseguem um êxito maior do que o esperado. A ideia é simples: uma jovem revela ao namorado que vai embora dentro de uma hora. O casal passa então a repensar o passado para buscar entender o presente e projetar o futuro.

Simples assim: os pilotis da PUC servem como cenário principal, os atores improvisam muitas das falas e a câmera apenas testemunha os diálogos - estes o grande trunfo do roteiro de Matheus Souza. As falas são inteligentes, divertidas e muito bem sacadas. A dupla de protagonistas, Erika Mader e Gregório Duvivier, estão em plena sintonia, agindo com a naturalidade que o argumento exige.

Apenas o fim é repleto de referências pop. O bacana é que eu nunca (nunca mesmo) tinha visto um filme nacional que trouxesse toda essa bagagem referencial de forma enxuta, sem exageros, sem pedantismo e na medida certa. Impossível não lembrar de grandes diretores que começaram suas carreiras com pequenos e despretensiosos êxitos no gênero: Kevin Smith e O balconista; Richard Linklater e Slacker.

Poderia se tratar de uma produção de interesse restrito, talvez à jovem classe média da Zona Sul que frequenta universidades privadas. Porém, cinema, quando é realmente bem-feito, tem o poder arrebatador de continuar impregnado na retina de qualquer espectador, independentemente do poder aquisitivo ou do grau de escolaridade. Sai do local para o global. Prova disso foi o que ouvi de uma aluna da rede municipal, um pouco mais velha, ao deixar o cinema:

"Amanhã, na aula, vamos todos ficar falando sobre o filme!"

O bate-papo foi a segunda grata surpresa da noite. Uma plateia bastante heterogenea, composta majoritariamente de adolescentes, todos completamente imersos na trama de Apenas o fim. Ao lado de Gregório Duvivier, falamos não somente sobre o filme, mas também refletimos sobre a indústria do cinema.

A mim, foi um prazer imenso participar do evento, conhecer pessoalmente o Gregório e partilhar um pouco da minha modesta vivência cinematográfica com todos os presentes. É justamente esta possibilidade de troca de conhecimento que faz com que eu mantenha este espaço sempre atualizado - ainda que o tempo vez em quando seja curto.

Agradeço ao pessoal da Assessoria de Cultura do SESC pelo convite. Nota 10 para eles! Que venham os próximos eventos!

sexta-feira, novembro 27, 2009

#128 - Eliezer Batista - O Engenheiro do Brasil, de Victor Lopes


Sexta-feira é dia de estreias. E de por ordem na casa. Há um monte de filmes a resenhar, mas vamos por partes. Hoje, foram publicadas duas resenhas no JB: Julie & Julia, já visto por aqui no Festival do Rio; e Eliezer Batista - O Engenheiro do Brasil, documentário sobre o homem que esteve por anos à frente da Vale do Rio Doce. Veja o que escrevi por lá.

É muito fácil justificar a realização de um documentário sobre um homem cujo espírito empreendedor é comparado ao de grandes figuras da história do país, como o Barão de Mauá e Getúlio Vargas. É assim que o diretor Victor Lopes apresenta à plateia Eliezer Batista – O Engenheiro do Brasil. A alcunha do título faz jus à carreira do personagem, que ocupou cargos de visibilidade pública, como a presidência da então estatal Vale do Rio Doce.

Durante a projeção, uma série de depoimentos e imagens de arquivo se unem para formar um painel biográfico de Eliezer. O empresário e filho Eike Batista, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (que tenta, rapidamente, explicar seu programa de privatização) e o atual presidente da Vale, Roger Agnelli, não poupam predicados ao engenheiro.

O documentário, produzido pela TV Zero, é tecnicamente impecável. Porém, o valor documental do personagem se esgota rapidamente diante da especificidade dos temas apresentados pelo roteiro, tornando o filme uma peça quase hermética, com poucas sequências realmente interessantes. Nem mesmo o senso de humor aguçado e o espírito humanista de Eliezer Batista sustentam o argumento.

segunda-feira, novembro 23, 2009

#127 - O longo amanhacer, de José Mariani


Certa feita estava eu andando pelo Centro, durante um breve intervalo nos meus estudos para a prova do BNDES. De repente, me deparei com uma espécie de feira estudantil, de caráter marxista, cujos expositores vendiam livros e filmes sobre assuntos ligados à política e sociologia. E qual não foi minha surpresa ao me deparar com a cinebiografia de Celso Furtado - justamente um dos autores que constam na bibliografia indicada!

O roteiro de O longo amanhecer traça uma linha cronológica que cobre toda a vida e a obra de Furtado, da infância modesta no Nordeste, passando pelos cargos públicos, até o reconhecimento internacional. Adicionando uma boa dose de história, sociologia e antropologia aos conceitos econômicos vigentes no Brasil pós-moderno, seu livro "Formação econômica do Brasil" - o tal indicado na bibliografia - é um best seller, traduzido para várias línguas e editado em diversos países. Furtado buscou entender as raízes da formação social brasileira para explicar o subdesenvolvimento. Sua análise vai desde o ciclo do ouro, passando pela aposta no café e acabando na política de substituição das importações.

O filme, dirigido por José Mariani, é bastante interessante. Tem depoimentos consistentes e presta uma homenagem pertinente a alguém que tentou libertar o Brasil da dependência dos ditos países desenvolvidos. Valeu a pena vê-lo como material de apoio.
E, só para constar, não caiu nenhuma questão sobre ele na prova...

quarta-feira, novembro 18, 2009

#126 - Distrito 9 (District 9), de Neill Blomkamp


Esqueça todos os clichês de filmes sobre alienígenas. Distrito 9 já começa invertendo duas regras do gênero: em primeiro lugar, a nave extraterrestre para acima de Johannesburgo, em plena África do Sul (em vez de escolher uma metrópole internacional); depois, ao invés de serem uma ameaça, as criaturas que de lá descem não pretendem destruir o mundo, e sim habitá-lo, uma vez que não conseguem voltar para casa.

Outra diferença fundamental está na estrutura narrativa. Distrito 9 se apresenta como um documentário no qual especialistas falam sobre a difícil convivência, há 20 anos, entre humanos e alienígenas. A maior parte do filme tem imagens de linguagem documental, o que acentua o conteúdo crítico proposto pelo argumento. Está na cara que se trata de uma crítica contemporânea às políticas segregacionistas, muitas vezes impostas pelo fim das barreiras econômicas - ou seja, a tal globalização. Os alienígenas vivem agrupados em uma espécie de favela cercada e vigiada, o tal distrito que dá nome ao filme.

O mundo se reorganiza e obedece as leis de uma instituição multinacional que substitui a ONU. É de lá que vem o personagem que vai nortear o roteiro: um funcionário que, atendendo ao pedido dos humanos, elabora uma estratégia para acabar com o Distrito 9 e mandar os alienígenas para outro lugar. Durante uma operação, ele acaba entrando em contato com uma misteriosa substância que vai o transformando, lentamente, em uma das criaturas. Em um processo quase kafkaniano, passa a depender da ajuda de quem antes nutria fobia.

Distrito 9 é um filme de baixo orçamento, que dosa perfeitamente os efeitos especiais, evitando que o excelente argumento fique em segundo plano. Ou seja, esqueça o nome de Peter Jackson, que assina apenas a produção, e os efeitos mirabolantes dos hobbits. Distrito 9 é visualmente simples, mas esteticamente consistente. Acaba criando uma nova linguagem para o gênero da ficção-científica.

domingo, novembro 15, 2009

#125 - Brüno, de Larry Charles


Sacha Baron Cohen pode não ser o mais bem sucedido comediante da atualidade. Porém, sem sombra de dúvida, é o mais ousado. É justamente a ousadia que impulsiona seus personagens - que usam o sarcasmo e o discurso absurdo para ridicularizar alguns axiomas contemporâneos. Borat pegou muita gente desprevenida. Já Brüno...

O objetivo de Cohen é ridicularizar os ícones criados pelo mundo da moda. Brüno é um apresentador de TV austríaco que pensa ditar tendências. Com sua obstinação em se tornar uma celebridade, cria situações embaraçosas e constrangedoras - ou seja, bastante divertidas!

A mecânica cênica e a estrutura narrativa de Brüno não têm o mesmo frescor de Borat. Ainda assim, as piadas são infames e o comportamento do personagem criado por Cohen é repreensível (para nós, espectadores, irrepreensível). O fato é que, aqui, não há o objetivo de destituir o discurso provinciano e conservador com humor pungente. Brüno é a caricatura de celebridades que disputam um lugar ao sol na praia do star system midiático.

Está faltando um filme sobre o Ali G...

sexta-feira, novembro 06, 2009

#124 - Terra sonâmbula, de Teresa Prata


Há um tempo, andei escrevendo sobre como seria bacana se um bom cineasta, daqueles bem criativos, como Spike Jonze, David Lynch ou Michel Gondry, pegasse um livro do Mia Couto e o transformasse em filme. Por isso, quando recebi o e-mail sobre a cabine de Terra sonâmbula, fiquei bastante ansioso para conferir o resultado - mesmo desconhecendo o trabalho da diretora Teresa Prata. Eis aqui um esboço do que escrevi para a Revista Programa, do JB.

Terra sonâmbula é a adaptação do livro homônimo do escritor moçambicano Mia Couto, cuja obra tem como norte a denúncia da perda de identidade do continente africano. O texto, lírico e afiado, costuma se alternar entre o místico e o real, confundindo propositalmente o leitor. Portanto, é matéria-prima para excelentes argumentos cinematográficos. No entanto, é preciso boa dose de sensibilidade para imprimir na película a força das palavras.

A diretora Teresa Prata foi até Moçambique para filmar a história de um menino andarilho, órfão e sem referências do passado, que encontra um diário ao lado de um defunto. Ao ler anotações sobre uma mulher que busca o filho, sonha tratar-se de sua própria mãe. O problema de Terra sonâmbula está na simplicidade com a qual o roteiro é tratado. As imagens não dão conta do jogo narrativo proposto pelo texto original, transformando as sequências em meras rotinas técnicas que não encantam o espectador. Prova disso é o fraco rendimento dos atores, aparentemente pouco à vontade com os personagens.

domingo, novembro 01, 2009

#123 - O caçador (Chugyeogja), de Hong-jin Na


Um dos grandes atrativos do cinema oriental é a estrutura narrativa dos roteiros. Nisso, eles dão um banho. Sabem contar uma boa história como ninguém - fruto da cultura milenar de oralidade. A produção coreana O caçador tem um roteiro espetacular, com a especificidade técnica típica dos thrillers hollywoodianos. O resultado é arrebatador!

O filme conta a história de um cafetão, ex-detetive da polícia, que começa a perder suas garotas misteriosamente. Passa, então, a investigar por conta própria o que está acontecendo. À medida em que vai encontrando pistas, começa a montar um sinistro e grotesco quebra-cabeça.

O roteiro é tão bom, mas tão bom, que consegue unir cenas extremamente violentas e sequências bastantes divertidas sem soar cansativo. O diferencial está na maneira como o conteúdo é apresentado. Os cortes mais sombrios, por exemplo, tem fotografia carregada e escura. Os personagens são muito bem trabalhados. O protagonista, vivido por Yun-seok Kim, é uma figura peculiar e interessante, do tipo que raramente visto em filmes do gênero. Foge de maniqueísmos e age sempre com naturalidade.

Não me causará espanto se daqui a alguns anos Hollywood, com sua criatividade saturada - praticamente esgotada -, anunciar um remake de O caçador.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Luz, câmera... canção! - Arcade Fire

Quando o disco de estreia do Arcade Fire, Funeral, foi lançado aqui no Brasil, fiquei embasbacado! Era rock independente repleto de harmonias, com linhas melódicas complexas e, o mais bacana, com letras que traziam uma coesão entre as faixas. A banda trabalhou a velha e saudosa concepção de álbum, algo que parecia ter sido abandonado pela indústria fonográfica havia muito tempo.

O Arcade Fire foi fundado em 2003, lá no Canadá - terra de excelentes artistas, como o coletivo Broken Social Scene e o dinossauro do rock Neil Young. Ok, eles também têm Celine Dion e Bryan Adams, mas vamos dar um desconto.

Não bastasse o apuro melódico dos integrantes do Arcade Fire, os videoclipes também impressionam pela sutileza e requinte. Uma das faixas de Funeral, "Rebellion (Lies)", ganhou um vídeo com uma fotografia estonteante. O roteiro é simples, bem simples. Lembra um pouco aquele conto do flautista de Hammerling, que enquanto toca vai esvaziando a cidade de ratos. No caso, enquanto o Arcade Fire toca, em uma cidade interiorana tipicamente canadense, as crianças vão os seguindo.



Perdi o show dos caras no Tim Festival de 2005, aqui no Rio. Estava de plantão no trabalho. Deu raiva.

segunda-feira, outubro 26, 2009

#122 - Anticristo (Antichrist), de Lars Von Trier


Os filmes de Lars Von Trier costumam ser experiências intensas - o que, ao meu entender, é algo bastante positivo. Quando o diretor, na minha opinião o mais provocador da atualidade, anunciou um filme de terror, era óbvio que o horror seria psicológico. E era muito provável também que a parte estética teria destaque.

Anticristo é exatamente o que Von Trier vem propondo ao longo de sua filmografia: uma jornada catastrófica pela mente perturbada do ser humano (e não do diretor), com total domínio sobre a técnica cinematográfica. O roteiro conta a história de um casal que perde o filho pequeno, morto após cair da janela, enquanto faz sexo. Para tentar aliviar a dor do luto, vão para uma cabana no meio do mato. No meio do mato mesmo. Lá, o que era para ser um tratamento alternativo, acaba se tornando uma experiência que foge do controle.

O grande impacto do filme não está nas cenas de violência e mutilação sexual, e sim no argumento, que se fecha de forma obscura e perturbadora nas sequências finais. O recheio tem a marca do diretor, que tem fama de fazer a vida dos protagonistas um inferno particular. Cenas de sexo, masturbação e animais mortos causaram celeuma em Cannes. Puro exagero. Nada de mais. Nem gratuito. Tudo está de acordo com o argumento. Além do mais, quem entra numa sala de cinema para ver um filme de Lars Von Trier já sabe mais ou menos o que esperar...

Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg impressionam pela naturalidade diante das câmeras, em grande parte provocada pela direção, que proibia ensaios antes das filmagens. Porém, Anticristo é um filme essencialmente visual. A fotografia é de deixar qualquer espectador de queixo caído. Até mesmo o prólogo, de conteúdo terrível, é belo. Planos abertos, repletos de textura e com poucos timbres sonoros relembram a técnica de Tarkovsky, a quem Von Trier dedica o filme.

No fim das contas, é uma experiência estética irresistível, por mais pesada que possa ser ao espectador.

O filme me lembrou muito, guardadas as devidas proporções, minha música predileta do Ben Harper, "The woman in you". Concorda?

sexta-feira, outubro 23, 2009

#121 - Os vigaristas (The Brothers Bloom), de Rian Johnson


Sexta-feira, vocês já sabem, é dia de estreias no circuitão! Hoje chega aos cinemas o filme Os vigaristas, com Adrien Bodry, Mark Ruffalo e Rachel Weisz no elenco. Escrevi uma resenha para a Revista Programa, do Jornal do Brasil. Para quem não pode comprar a publicação (ou seja, para quem não é carioca, porque os cariocas compram o JB, não é mesmo?), eis abaixo a minha opinião.

Produção do ano passado, Os vigaristas conta a história dos irmãos Bloom, que aplicam golpes milionários usando o charme e a elegância como isca. Quando o alvo é uma jovem ricaça orfã, que vive reclusa em uma mansão, um deles começa a questionar o modo de vida que leva, colocando em xeque os planos do outro.

Mesclando aventura e comédia, o roteiro também prega peças no espectador. Repleto de reviravoltas previsíveis, acaba soando cansativo. Figurinos e cenários retrô tentam dar um ar exótico à trama, mas causam estranhamento. O único item que se destaca é mesmo a deliciosa trilha sonora, repleta do dixie jazz de décadas passadas. Adrien Bodry e Mark Ruffalo têm atuações discretas. Quem salva o filme é Rachel Weisz, no papel da curiosa mocinha.

segunda-feira, outubro 12, 2009

#120 - Observe and report, de Jody Hill


Lançado diretamente em DVD, Observe and report é uma comédia que foge um pouco dos padrões. É politicamente incorreta, repleta de piadas grosseiras e com um protagonista que é o verdadeiro escroto. O roteiro aproxima o espectador do anti-herói, ainda que ele bata em crianças, experimente drogas e ofenda transeuntes.

Seth Rogen interpreta Ronnie Barnhardt, o chefe de segurança de um shopping center. Bipolar, precisa tomar remédios para controlar o humor instável. Quando um maníaco ronda o estacionamento mostrando o pênis e falando impropérios, um investigador da polícia toma a frente das investigações, colocando sua autoridade em xeque. Capturar o criminoso, então, se torna uma obsessão na vida de Barnhardt.

O filme ganha corpo mesmo na segunda metade de projeção, com sequências bastante interessantes e intensas. Trata-se de uma das comédia mais violentas dos últimos tempos, com cenas de brigas e discussões acaloradas - o que é bom. Outro ponto positivo são os personagens coadjuvantes, principalmente os que integram a equipe de segurança do shopping. Destaque para o excelente Michael Peña, o braço-direito de Rogen. Impagável!

Se o roteiro de Observe and report se debruçasse um pouco mais sobre a questão psicológica do protagonista, poderia arrancar uma belíssima interpretação de Rogen. Não vai tão longe assim, mas deve agradar muita gente.

#119 - Jesus Christ Vampire Hunter, de Lee Demarbre


Cinema é a maior diversão. Essa máxima é muito mais verdadeira nos filmes B do que nas produções hollywoodianas. Bole uma história realmente insana, junte um punhado de amigos e reserve os finais de semana para as gravações. Rodado no Canadá, num período de dois anos, Jesus Christ Vampire Hunter é uma produção de baixo orçamento que traz o melhor dos trash movies: interpretações espontâneas, improviso cênico e um argumento completamente original.

Jesus Cristo volta à Terra para acabar com uma gangue de vampiros que ataca pobres e incautas lésbicas. Com visual descolado, a bordo de um skate, o filho de deus procura o líder das criaturas do mal para salvar a humanidade. Ao longo de sua jornada, conta com a ajuda de sacerdotes punks e um lutador mexicano.

A maioria das cenas foi feita nas ruas de Ottawa. Muito provavelmente sem autorização das autoridades locais. Por isso, é comum ver, ao longo da projeção, transeuntes espantados com a ação - o que torna o filme ainda mais divertido. A maioria dos atores é amadora, com pouca ou nenhuma experiência. Até a mãe do diretor faz uma ponta como lésbica.

O bacana é que o filme foi inteiramente rodado em 16 milímetros. Ou seja, deu trabalho! A trilha sonora é outro destaque, com inserções musicais estapafúrdias. E para fechar com chave de ouro, a canção na sequência final diz: it's all good/ it's all right/ everybody gets laid tonight.

Para ser visto com amigos, cervejas e petiscos.

#118 - Flight 666, de Sam Dunn e Scot McFadyen


Sam Dunn foi o responsável pelo excelente documentário Metal. Utilizando-se dos conhecimentos adquiridos na cadeira de antropologia, misturados à paixão pelo heavy metal, o diretor conseguiu contextualizar de forma lúdica e científica uma paixão que vence barreiras temporais. Logo, era ele mesmo a pessoa mais gabaritada para acompanhar o Iron Maiden, sua banda predileta, em uma empreitada realmente ousada: dar conta de uma turnê pelos cinco continentes, em cidades nunca antes visitadas, a bordo do Ed Force One, avião particular do grupo inglês.

Os rapazes tiram onda. Quem pilota o avião é ninguém menos que o próprio vocalista, Bruce Dickinson. Nos aeroportos, em meio às notificações de voos regulares, os alto-falantes anunciam o voo 666 - como se fosse a coisa mais natural do mundo. Pela primeira vez na história da música, uma banda pode percorrer distâncias de quase 3 mil quilômetros entre uma cidade e outra. Ao todo, foram 23 shows em 45 dias.

Em Flight 666, a câmera funciona como os olhos de um fã que tem acesso irrestrito ao backstage. Por respeitar tanto a banda, Dunn passa a maior parte do tempo como vouyer, enfrentando o receio de músicos e membros da produção em ter a rotina devassada. Ao longo do filme, além de mostrar detalhes da extensa turnê, o espectador fica conhecendo um pouco mais sobre cada membro da banda.

Há também uma curiosidade que se passa no Brasil, quando o Ed Force One pousa em São Paulo. O recordista de tatuagens do Iron Maiden é um pastor de uma igreja pentecostal. Além de pregar o evangelho se utilizando das letras das canções da banda, ele tem espalhadas pelo corpo 176 tatuagens. Algumas, segundo ele, em três dimensões: quando ele se mexe, se mexem também as tatuagens...

Filght 666 é divertido sem abrir mão do conteúdo documental. Clássicos dos bons tempos, como "Aces high", "Two minutes do midnight", "Rime of the ancient mariner" e "Can I play with madness", demonstram o fascínio que a banda ainda exerce em jovens fãs, desafiando teorias estéticas e musicais. O heavy metal, de fato, não morreu.

#117 - Black Dynamite, de Scott Sanders



Fechei o Festival do Rio com chave de ouro! Já esperava que Black Dynamite, paródia dos antigos blaxploitations, fosse tudo isso. Todas as peculiaridades que fizeram do gênero uma referência estética e cinematográfica são exageradas propositalmente, criando uma espécie de caricatura.

A história segue a consagrada fórmula da década de 70: basicamente, é sobre vingança. Mais ainda, trata da luta solitária de um justiceiro contra traficantes e mafiosos. Black Dynamite é um anti-herói sinistro: ex-agente da CIA, temido por todos, praticamente invencível, mestre na arte do kung fu e irresistivelmente atraente. Quando recebe a notícia da morte do irmão, até a polícia teme o banho de sangue que está por vir.

Logo de cara, o diretor Scott Sanders deixa claro que a intenção é escrachar os clichês. Por isso, na sequência inicial, o microfone vaza escandalosamente. Ao longo da projeção, uma série de pequenas falhas, comuns em produções de baixo orçamento, são inseridas propositalmente. O roteiro é meticulosamente esburacado, os diálogos são inacreditavelmente manjados e os atores suam para forçar a barra nas interpretações. Um verdadeiro deleite para os fãs dos antigos blaxploitations.

Black Dynamite é infame, diferente e jocoso. Há muito tempo não me divertia tanto numa sala de cinema!

No site da M..., a resenha fala um pouco mais sobre o que foi o blaxploitation. Quem quiser ler, clique aqui!

sexta-feira, outubro 09, 2009

#116 - Tyson, de James Toback



Quando eu era moleque, Mike Tyson estava no auge da carreira. Aguardava as lutas na televisão, já de madrugada, ansioso. E a maioria delas costumava terminar em menos de dois minutos. No videogame, em Mike Tyson’s Punch-Out, do Nintendo, era preciso passar por todos os outros personagens para enfrentar Tyson. Tarefa quase impossível, não fosse uma sequência de comandos no controle que dava acesso direto à luta. Ainda assim, encaixar um golpe no sujeito era tarefa árdua. E se o jogador levasse apenas dois socos, era game over.

O documentário Tyson traz à tela um pugilista com uma capacidade de autocrítica impressionante. O ex-campeão dos pesos-pesados, outrora o homem mais temido do planeta, abre a guarda para falar abertamente sobre algumas das passagens mais duras e tempestuosas da sua carreira, como o conturbado casamento com a atriz Robin Givens, o uso de drogas, a derrota para James “Buster” Douglas, a condenação por estupro e até a mordida na orelha de Evander Holyfield.

Durante uma hora e meia, Tyson não para de falar! Chega até mesmo a chorar - em uma mecânica realmente bizarra - quando lembra de seu primeiro treinador, Cus D'Amato, morto antes que ele levantasse o cinturão de campeão. A montagem podia ajudar a narrativa a fluir melhor, mas também não compromete. Quem se acostumou a ver Tyson enfrentando os maiores pugilistas do mundo, vai achar interessante vê-lo lutar contra o seu maior oponente: ele mesmo.

Outra versão da resenha lá no site da M... Quer ler? Que bom! Então, clique aqui.

#115 - 9 - A Salvação (9), de Shane Acker


Sexta-feira é dia de estreias no circutão. Além do novo e badalado filme de Tarantino, uma produção de Tim Burton pode agradar os fãs de animações. A resenha de 9 - A Salvação foi publicada hoje na Revista Pograma,do JB. Como de costume, eis mais ou menos o que está escrito por lá.

Produzida por Tim Burton, a animação 9 – A Salvação é melancólica e tem temática adulta. Em um mundo pós-apocalíptico, em que a população foi dizimada por máquinas inteligentes, um cientista projeta bonecos de pano numerados de 1 a 9, na esperança de construir um futuro melhor. A trama começa quando o número 9 ganha vida. Sem saber, ele carrega um segredo que pode mudar o destino do planeta.

O longa, dirigido por Shane Acker, é uma extensão do curta-metragem que foi indicado ao Oscar em 2004. Apesar do roteiro não ser dos melhores, o capricho estético é incontestável. Os cenários e as criaturas fantásticas que surgem na tela enchem os olhos do espectador. Cenas dramáticas e com uma pequena dose de violência podem, inclusive, assustar algumas crianças. Não fosse uma lição de moral que não fica tão clara nos minutos finais de projeção, o filme agradaria muito mais.

quinta-feira, outubro 08, 2009

#114 - Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds), de Quentin Tarantino


Se a II Guerra Mundial fosse como Tarantino a imaginou no roteiro de Bastardos Inglórios, sem dúvida alguma os livros de história encabeçariam a lista dos mais vendidos. Com menos violência e ação, mas com encenação eficiente e diálogos caprichados, o diretor conta uma aventura que envolve personagens reais e fictícios, mudando o rumo da maior batalha do planeta.

A história se concentra em três núcleos, que em certo ponto do filme se cruzam: uma jovem judia sobrevivente de uma chacina nazista, um coronel com fama de caçador de judeus e um grupo de militares estadunidenses sanguinários e desequilibrados liderados por Brad Pitt - os tais Bastardos Inglórios do título. Com a única missão de matar nazistas, usam métodos nada ortodoxos para espalhar a fama pelo território ocupado, fazendo até mesmo Hitler tremer.

Ao longo de quase duas horas e meia de projeção, há uma série de situações típicas dos filmes de Tarantino. O apuro técnico é inconstestável. As cenas de ação e violência, bem como a roupagem pop, continuam impressas no fotograma, ainda que de forma menos estilizada. A direção de arte é perfeita, recriando brilhantemente os tempos de guerra.

Um dos maiores méritos de Tarantino no ofício de diretor é a forma como explora os personagens, tornando-os irresistíveis. É o que acontece, por exemplo, com o núcleo dos Bastardos Inglórios, cada um com sua característica peculiar. O elenco ajuda. Brad Pitt mais uma vez dá conta do recado, com um irritante sotaque de caipira. Porém, o destaque é o ator austríaco Christoph Waltz, que dá um banho de interpretação na pele do sádico, porém educado, coronel Hans Landa.

O curioso é que há um exploitation italiano chamado Quel maledetto treno blindato, filmado em 1978 e também ambientado durante a II Guerra Mundial, que recebeu nos Estados Unidos o título de Inglorious Bastards (note que o bastardo aqui é escrito com a letra a, enquanto Tarantino usa a letra e). Fala sobre soldados que infringiram o código militar, mas que conseguem fugir e bolar um plano para aplicar um golpe nos nazistas. Como Tarantino adora referências cinematográficas, fica a curiosidade.

Bastardos Inglórios é diversão garantida! Um cinema intenso com a assinatura de Tarantino. Estreia amanhã no circuitão.

quarta-feira, outubro 07, 2009

#113 - Big River Man, de John Maringouin



Na minha opinião, o que define um bom documentário é o interesse que o personagem desperta. A imprevisibilidade do comportamento humano é algo que, quando capturado diante das telas, coloca o documental em uma posição muito além do argumento meramente proposto. Um sujeito que é ex-viciado em jogo, professor de violão flamenco, enólogo nas horas vagas, figurante em filmes de ação, garoto-propaganda e jurado de concurso de beleza já reúne predicados suficientes para ser objeto documental. Melhor ainda se for um nadador nato, recordista mundial de grandes travessias. O esloveno Martin Strel é tudo isso, além de já não ser tão jovem, estar acima do peso e não abrir mão de uma cerveja gelada.

O foco de Big River Man é a tentativa de nadar toda a extensão do Rio Amazonas. Porém, basta deixar a câmera ligada para se ter uma ideia de quem é Martin Strel: um esloveno humilde, porém famoso em sua cidade natal, e que goza de certo prestígio entre chefes de estado e políticos influentes. Quase sempre calado e com um largo sorriso no rosto, é saudado por onde quer que passe. Não é multado quando estaciona em local proibido e nem é importunado pela polícia quando dirige embriagado. Tem contratos vitalícios para frequentar um moderno parque aquático e dirigir um carro importado.

Com braçadas fortes, nadou os rios Danúbio, Mississippi e até o poluído Yangtzé, em jornadas que duravam cerca de dois meses. O motivo, alegava, era chamar a atenção das pessoas para as causas ambientais. Portanto, o Rio Amazonas, além de significar a quebra de seu recorde pessoal, também se encaixa perfeitamente na proposta ecológica.

O filme se torna mais denso e interessante quando o espectador percebe que nem ao mesmo a equipe que acompanha Strel sabe quem ele realmente é e quais são os verdadeiros motivos que o levam a arriscar a vida nadando. Muito mais do que uma aventura aquática, a travessia do Rio Amazonas se transforma em uma jornada de grandes proporções, guardando surpresas - nem sempre agradáveis - para todos que embarcaram nela.

Posso afirmar, sem dúvida, que se trata de um dos melhores e mais insólitos documentários dos últimos anos. Há uma versão maior da resenha lá no site da M... Para ler, clique aqui!

Ainda dá tempo...

QUI (8/10) 22 Estação Ipanema 1

segunda-feira, outubro 05, 2009

#112 - American Prince, de Tommy Pallotta



Uma nova geração de cineastas foi atrás de Prince para recolher as memórias não apenas de seu atribulado passado, mas também dos bastidores das filmagens de American Boy: o retrato de Steven Prince. Em American Prince, o diretor Tommy Pallotta usa a mesma estrutura do documentário de 1978, mantendo o personagem em foco novamente por 50 minutos. O ex-ator, atualmente um empreiteiro, fala com a mesma desenvoltura de outrora sobre a indústria cinematográfica da qual fez parte durante alguns anos.

American Prince e American Boy: o retrato de Steven Prince são mostrados em sequência para o público do Festival do Rio. Uma excelente oportunidade para conhecer uma figura ímpar, cuja atuação em Taxi Driver não chega a despertar tanta curiosidade – mas que tem um roteiro de vida tão interessante quanto o do filme. Se é tudo verdade ou mentira, não cabe ao espectador julgar. O próprio Prince diz que todos passam por situações insólitas na vida. O que o difere dos outros é a maneira como ele as encara.

Quer ver os dois?

TER (6/10) 16 e 20 Cine Glória
QUA (7/10) 15:15 Instituto Moreira Salles
QUI (8/10) 16:30 e 23:30 Espaço de Cinema 2

#111 - American Boy: o retrato de Steven Prince (American Boy: a profile of Steven Prince), de Martin Scorsese



Quem diria que o sujeito que interpretou Easy Andy, o negociador de armas de Taxi Driver, era uma figura tão interessante? As histórias de Steven Prince eram tão incríveis, que o diretor Martin Scorsese resolveu filmar uma conversa informal e fazer um documentário. Durante muito tempo, American Boy: o retrato de Steven Prince permaneceu no limbo, sem uma distribuição adequada. Acabou virando uma raridade, apreciada por poucos.

Cerca de 12 horas de entrevista se transformaram em um filme de 50 minutos. O esquema é simples: na maior parte do tempo, a câmera focaliza Prince sentado em um sofá, contando eloquentemente suas histórias. Algumas pequenas inserções de imagens de arquivo são feitas. O espectador se transforma em ouvinte.

Prince era viciado em heroína e levava uma vida cheia de excessos. Porém, era também um exímio contador de histórias. Em American Boy: o retrato de Steven Prince, ele incorpora diversos personagens e torna as narrativas ainda mais interessantes. O que conta é tão louco e incrível, que algumas de suas aventuras inspiraram sequências cinematográficas inesquecíveis, como a célebre cena de Pulp Fiction em que John Travolta aplica uma injeção de adrenalina em Uma Thurman.

Mais de três décadas depois, um outro documentário com Prince foi feito - o que nos leva à próxima postagem.

domingo, outubro 04, 2009

#110 - O rei da fuga (Le roi de l'évasion), de Alain Guiraudie




Os filmes da mostra Midnight Movies têm fama de serem bizarros. A produção francesa O rei da fuga faz jus à reputação. Não se deixe enganar pela sinopse, que passa a impressão de uma produção de aventura: um sujeito homossexual, que enfrenta a crise de meia-idade, salva uma adolescente de ser violentada por jovens baderneiros. Com o tempo, acaba se apaixonado por ela. O casal precisa fugir para consumar a relação, e passa a ser perseguido pela polícia.

Tecnicamente, o filme é muto fraco. As atuações são mornas, a fotografia é simples, a edição é quadrada etc. Os maiores problemas se concentram no roteiro, que é muito fraco. Nada de tão importante acontece na tela. Há um punhado de sequências sem muita coesão, que mostram uma série interminável de cenas de sexo, algumas pouco eróticas, apesar de ousadas, tamanha a frieza e apatia com a qual o tema é tratado.

E é justamente aí que o filme fica bizarro. O protagonista, gordo e mal ajambrado, faz sexo com um velho de 80 an0s. Depois, tenta fazer sexo anal com a adolescente usando um gel chamado "frescor refrescante". Um grupo de homens faz masturbação coletiva. Todas essas cenas são jogadas na cara do espectador, sem que pareça haver uma intenção. Os diálogos, bastante bizarros, sublinham a esquisitice. O tema, a crise de identidade do protagonista, que poderia ser explorado, fica em segundo plano.

Nem preciso terminar a resenha com este trocadilho terrível: fuja de O rei da fuga. Não há mais sessões agendadas durante o Festival do Rio. Sorte do público!

sexta-feira, outubro 02, 2009

#109 - Bad lieutenant: port of call New Orleans, de Werner Herzog




Não dá para considerar Bad Lieutenant: port of call New Orleans uma refilmagem da obra de Abel Ferrara. As diferenças são enormes, a começar pelo talento de quem dirige. Werner Herzog transforma a história de um policial perturbado e viciado em drogas em um filme ousado e repleto de cenas inesquecíveis.

Para começo de resenha, ao invés da Nova York orginal, aqui a trama se passa em uma Nova Orleans castigada pelo furacão Katrina. Ao invés de Harvey Keitel, um irrepreensível Nicolas Cage, renascendo do limbo e dando fôlego à carreira. No lugar da investigação sobre o estupro de uma freira, o tenente malvado do filme de Herzog investiga a chacina de uma família africana, motivada pelo controle do ponto de venda de drogas em um bairro miserável do subúrbio.

O filme conta com sequências insólitas e diálogos inesperados, tudo no capricho. A fotografia é um show à parte. A todo instante, Herzog quebra a austeridade do gênero policial com pitadas de sarcasmo e humor negro. É impressionante como uma trama policialesca, que poderia ser tão desinteressante quanto uma crônica do Gil Gomes, se transforma em algo tão interessante.

Herzog diz não considerar Bad lieutenant: port of call New Orleans um remake, já que alega não ter visto o de Ferrara - que, por sua vez, disse ter ficado bastante irritado quando soube que seu filme estava sendo refilmado. Fique tranquilo, Abel: a única semelhança parece mesmo ser o carisma do anti-herói protagonista.

Imperdível!

#108 - Gamer, de Mark Neveldine e Brian Taylor


Sexta-feira chegou. Em meio ao Festival do Rio, estreia no circuitão uma verdadeira bomba. A sessão para a imprensa de Gamer foi quase exclusiva para mim. No começo do filme, havia na sala de projeção apenas eu e o gato de estimação do Estação. Com 15 minutos de filme, justamente os únicos que realmente valem a pena, outros colegas de profissão chegaram. A resenha foi publicada hoje na Revista Programa, do JB. Segue um resumo do que escrevi lá.

Os 15 minutos inciais de Gamer conseguem deixar qualquer fã de filmes de ação extasiado: explosões, tiros e mutilações enchem a tela. A premissa é até bastante interessante: em um futuro próximo, uma tecnologia revolucionária permite que jogadores de games multiplayer, como Counter Strike e Call of Duty, comandem remotamente seres humanos de carne e osso. Um famoso e violento jogo de batalhas chamado Slayers usa criminosos condenados à morte como personagens, prometendo a liberdade ao grande vencedor. Gerard Butler interpreta Kable, o favorito ao título, controlado por um adolescente de 17 anos.

Apesar da fotografia caprichada e da edição ligeira, basta pouco mais de 30 minutos de projeção para perceber que o filme não vai decolar tão alto como promete. O roteiro é enfadonho, os personagens são mal desenvolvidos e a trama é resolvida de forma preguiçosa.

quarta-feira, setembro 30, 2009

#107 - The Yes Men fix the world, de Andy Bichlbaum e Mike Bonanno



Pouco conhecidos por aqui, os Yes Men são um coletivo de artistas que usam seus talentos para chamar a atenção da sociedade a causas sociais e ambientais. Para isso, criam websites, e-mails e nomes falsos, fazendo-se passar por porta-vozes e assessores de gananciosas corporações, espalhando toda a espécie de boato por toda a imprensa que lhes der espaço. Praticamente um ativismo de guerrilha, sem panfletismo e recheado com bastante sarcasmo e bom-humor.

Em The Yes Men fix the world, segundo longa do grupo, a ideia é colocar a ética do mercado em cheque. Andy Bichlbaum e Mike Bonanno bolam planos mirabolantes para mostrar ao público como a ética das grandes corporações é volátil e ditada pelas imposições de um sistema opressor. Para se ter uma ideia do quão longe os Yes Men podem ir, vale citar a sequência na qual Andy se faz passar por um porta-voz de uma companhia química responsável por um acidente tóxico de grandes proporções na Índia, há 20 anos. Ao vivo, na BBC, declara para milhares de espectadores que a companhia vai fazer uma doação milionária para acudir as vítimas.

Muita gente talvez compare, de cara, os Yes Men ao documentarista Michael Moore. Porém, hé diferenças fundamentais - apesar de um dos produtores ser o mesmo. Em primeiro lugar, Andy e Mike são excelentes atores. The Yes men fix the world é cheio de inserções cômicas que arrancam gargalhadas da plateia. Depois, o tipo de abordagem também é diferente. Enquanto Moore procura brechas no sistema para deixar às claras as contradições, os Yes Men armam uma encenação para deixar claro o porquê das grandes corporações não tomarem as atitudes corretas, com medo das diretrizes do mesmo sistema e temendo uma redução nos lucros.

Ao longo do filme, uma série de peças são pregadas, cada uma mais divertida e inusitada do que a outra. Infelizmente, a última sessão de The Yes Men fix the world no Festival do Rio já aconteceu. Então reze aí para que entre em cartaz...

Lá na M... tem uma resenha diferente, ok? Clique aqui! E se você quiser saber mais sobre os Yes Men, clique aqui também!

terça-feira, setembro 29, 2009

#106 - Matadores de vampiras lésbicas (Lesbian vampire killers), de Phil Claydon




Talvez este seja o título mais infame do Festival do Rio: Matadores de vampiras lésbicas! E a intenção foi justamente essa. Dois produtores se encontraram para bolar um nome realmente estranho, que chamasse a atenção do público fanático pelos trash movies. Foi somente depois que o roteiro começou a ser escrito. Nele, há matadores. E há vampiras. E elas são lésbicas!

O filme conta a história de dois amigos, um recém-separado e outro recém-desempregado, que resolvem viajar para um remoto vilarejo britânico. O que eles não sabem é que o lugar está infestado de vampiras lésbicas, tudo por causa de uma antiga maldição. E elas estão com sede!

É preciso alertar que Matadores de vampiras lésbicas é uma comédia. Tem lá meninas se beijando e peitinhos de fora, mas nada tão erótico assim. Tem lá seus sustos também, ainda que não provoquem calafrios. O roteiro é na verdade um ensejo para destilar o humor tipicamente britânico sobre os clichês do gênero. Acontece que a qualidade técnica é tão boa, que o filme se distancia de uma produção B. Direção de arte, fotografia e edição são caprichadas. De quebra, ao invés das siliconadas estadunidenses, há um desfile de beldades europeias de manequins na medida certa.

Muito divertido! Há uma resenha diferente lá no site da M..., aqui.

Ainda dá tempo:

QUI (1/10) 17:00 Espaço de Cinema 2
QUI (1/10) 23:30 Espaço de Cinema 2
SAB (3/10) 16:30 Roxy 3
SAB (3/10) 21:30 Roxy 3
SEG (5/10) 16:30 Cinemark Downtown 1
SEG (5/10) 21:30 Cinemark Downtown 1

segunda-feira, setembro 28, 2009

#105 - Hair India, de Raffaele Brunetti e Marco Leopardi



Bons documentários são aqueles que conseguem transformar argumentos bizarros em algo tão interessante, que determinadas cenas, aparentemente simples, ganham força descomunal. Em Hair India, documentário em cartaz na mostra Midnight Movies, os diretores usam uma câmera-testemunha para denunciar uma lógica mercantilista cruel que sustenta o lucrativo negócio de apliques capilares feitos com cabelo humano.

O filme mostra como a estética ditada pela mídia ocidental, principalmente a estadunidense, tem influência no mercado de consumo oriental - no caso, o indiano. Enquanto pobres peregrinos enfrentam a miséria e ofertam seus cabelos para os deuses, o diretor do templo onde se dá o ritual leiloa as madeixas abandonadas. Um negociante compra lotes de um quilo pela bagatela de US$ 500 e os envia para uma fábrica italiana, que revende o produto para mulheres ao redor do mundo, por preços que podem chegar a US$ 4 mil.

O clímax do documentário acontece quando a editora de uma revista de moda indiana resolve importar um desses apliques, ainda que a matéria-prima seja coletada a alguns metros de distância do seu suntuoso apartamento, do outro lado da linha vergonhosa que divide a Bombaim moderna da miserável.

Hair India é um filme muito bem montado, com planos bem estudados e roteiro que flui sem a necessidade de narradores ou inserções explicativas. Para ler a resenha que eu escrevi lá na M..., clique aqui!

Interessou?

SEG (28/09) 17:30 Estação Botafogo 3
SEG (28/09) 21:30 Estação Botafogo 3
SÁB (3/10) 23:30 Estação Botafogo 3

sábado, setembro 26, 2009

#104 - O clone volta para casa (The clone returns home), de Kanji Nakajima



Cinéfilos, uma novidade: a M... vai cobrir uma das mostras mais interessantes do Festival do Rio, a Midnight Movies. Mais do que resenhar os filmes, vamos salientar e discutir sobre o lado bizarro das produções deste ano. Por isso, convido todos vocês, queridos e seletos leitores, logo de cara, a dar uma olhada na resenha que eu escrevi por lá - que tem um tom diferente da que vem logo a seguir. Vão !

O clone volta para casa, ficção-científica japonesa cuja produção executiva é assinada pelo cineasta alemão Wim Wenders, é um dos bons exemplos do porquê acompanhar de perto a programação do Festival Internacional de Cinema do Rio – e, mais ainda, as produções que fazem parte da mostra Midnight Movies, conhecida por apresentar pérolas cheias de estranheza e bizarrices.

Aparentemente, a olhos menos atentos, O clone volta para casa pode passar a impressão de não ser um típico “filme da meia-noite”, pois é uma realização extremamente artística – a não ser pelo título, um tanto insólito. Sua qualidade técnica é tão surpreendente, que em alguns momentos é impossível não compará-lo a obras-primas do gênero, como 2001: uma odisseia no espaço, de Kubrick, e Solaris, de Tarkovsky. O motivo da obra figurar entre o seleto grupo que compõe a Midnight Movies são dois: o argumento bastante inquietante e o roteiro bem diferente do comum. Trata-se de um filme de ficção-científica na velocidade contemplativa do melhor cinema nipônico.

É preciso atenção para não se perder no enredo da trama: Kohei Takahara é um astronauta que aceita participar de um programa revolucionário de clonagem humana, no qual um duplo é ativado em caso de morte, dando prosseguimento a vida exatamente do ponto em que foi interrompida. Após um acidente fatal no espaço, um erro de memória faz com que o projeto não tenha êxito. O clone passa a vagar traumatizado pelas memórias da infância de Kohei, quando ele perdeu tragicamente o irmão gêmeo. A partir daí, uma série de questionamentos éticos e existenciais começam a assombrar não só o clone, mas também todos aqueles envolvidos no projeto.

Nas mãos de um diretor hollywoodiano, com bastante dinheiro para gastar em efeitos especiais, O clone volta para casa poderia se tornar mais uma produção com exageros, pronta para ser comercializada como um verdadeiro blockbuster. No entanto, o diretor Kanji Nakajima preferiu contar com o talento de sua equipe. A fotografia é fantástica, utilizando recursos de iluminação que ajudam a dar um tom futurista bastante sóbrio. Nada de excessos: aqui, menos é mais. A edição acerta em cheio ao poupar o espectador de melodramas fáceis, como na espantosa e belíssima cena em que o irmão gêmeo de Kohei morre. Destaque também para a atuação de Mitsuhiro Oikawa no papel do protagonista.

Wim Wenders não entra em roubada. Não é à toa que a maioria de seus grandes filmes aborda questões pertinentes às angústias do ser humano contemporâneo. O clone volta para casa vai um pouco mais longe na linha do tempo, e traz à tona um questionamento existencial plausível em um futuro não muito distante.

Corra:

SAB (26/9) 17:00 Espaço de Cinema 1
SAB (26/9) 23:45 Espaço de Cinema 1
DOM (27/9) 22:00 Estação Ipanema 1
TER (29/9) 20:00 Est Barra Point 1